|
:::
Cientistas
de todos os tempos :::
imprimir
Heinrich Rudolf Hertz
1857 - 1894
Sentado confortavelmente em sua sala o homem
moderno vê, e ouve, uma corrida de carros transmitida de outro continente. Em
todas as partes do mundo essa transmissão está sendo vista e ouvida.
Simultaneamente, outras transmissões são feitas, mensagens transmitidas: um
industrial de Tóquio conversa com seu agente em São Paulo; Londres
comunica-se com Buenos Aires; o Oriente e o Ocidente unem-se através do ar; o
norte e o sul conversam como se estivessem lado a lado.
Esse anulamento das distâncias, a possibilidade
de contato imediato entre dois pontos quaisquer da Terra, não importa a
distância que os separe, deve-se às ondas eletromagnéticas. Quem revelou
praticamente sua existência, possibilitando seu emprego, foi um jovem
cientista alemão, Heinrich Hertz.
Heinrich Rudolf Hertz nasceu em Hamburgo, em 22
de fevereiro de 1857, filho de renomado advogado. O jovem Hertz não foi
nenhum menino prodígio; era um jovem como muitos outros, um pouco mais sério,
talvez. Durante seus estudos preliminares, em um colégio da cidade natal, seu
maior interesse se voltava para as oficinas da escola, onde passava a maior
parte do tempo livre. Ali trabalhava no torno, construindo e montando os mais
diferentes mecanismos, sobretudo instrumentos ópticos. Esse gosto
característico pela construção se manteve durante toda sua vida, mesmo quando
se dedicou à intensa pesquisa física: sempre construiu os instrumentos e
aparelhos de que necessitava para seu trabalho.
Foi o interesse pelas construções mecânicas que,
ao término do colégio, o orientou para uma faculdade de engenharia.
Freqüentou-a por dois anos, mas o desejo de realizar pesquisa pura se tornou
mais forte que sua inclinação para a engenharia. Passou, então, em 1878, aos
estudos de física, na Universidade de Berlim.
Sua seriedade e empenho nos estudos logo foram
notados por von Helmholtz, que era seu professor. E quando este propôs aos
seus alunos, em 1880, um trabalho versando sobre uma questão de
eletrodinâmica, de escolha individual, Hertz apresentou uma pesquisa
original, intitulada "Sobre a Energia Cinética da Eletricidade", que foi
merecidamente a vencedora.
Ainda nesse ano de 1880, também ano de sua
diplomação, Hertz tornou-se assistente de von Helmholtz e, durante os três
anos que passou no instituto berlinense, ocupou-se com pesquisas
experimentais sobre a elasticidade dos gases e sobre as descargas elétricas
através destes. Em 1883, obteve a docência na Universidade de Kiel, onde
começou a estudar a eletrodinâmica de Maxwell. Este havia previsto
teoricamente a existência das ondas eletromagnéticas, mas o fato ainda não
havia recebido confirmação experimental.
Os estudos de eletrodinâmica o fascinavam, e ele
imaginava como poderia reproduzir praticamente os fenômenos tão claros na
teoria. Uma de suas descobertas fundamentais foi realizada diante dos
estudantes, durante uma aula demonstrativa, no outono de 1886. Nessa ocasião,
Hertz encontrava-se em Karlsruhe, onde era professor da Escola Politécnica
desde o ano anterior. Nesse mesmo ano casou-se com Elizabeth Doll, filha de
um professor de Karlsruhe, e com ela teve duas filhas.
Durante uma aula, na qual se utilizava, para
demonstração, de duas bobinas ligadas a faiscadores, notou que, enquanto numa
das bobinas deflagrava uma faísca, na segunda era deflagrada outra. Esta,
porém, era muito pequena, pouco luminosa, e seu ruído era coberto pelo da
primeira, muito mais forte. Foi desse modo que Hertz, quase por acaso,
descobriu o importante fenômeno das centelhas secundárias.
O jovem cientista compreendeu que aquelas faíscas
elétricas eram conseqüência de fenômenos eletrodinâmicos que se processavam
nas proximidades de circuitos oscilantes com capacitância e auto-indução
mínimas. Para comprovar suas idéias, repetiu, seguidamente, as experiências.
Logo percebeu que tinha diante de si um campo novo: o da criação das ondas
eletromagnéticas e sua propagação a distância.
Garrafa de Leyden
Inicialmente, conduziu experiências com um
circuito constituído por uma garrafa de Leyden como condensador, uma bobina
como indutância e um faiscador. Constatou, então, que a cada faísca que se
produzia aparecia uma correspondente muito intensa em uma outra bobina,
colocada em frente da primeira. O valor da capacitância era pequeno (a
garrafa de Leyden possui pequena capacitância e forte resistência às altas
tensões), mas o efeito era notável.
Oscilador linear
Hertz não abandonou esse campo de pesquisas. Com
espírito metódico, continuou suas experiências por cinco anos, utilizando
instrumentos sempre mais complexos. O aparelho típico que usava era um
oscilador linear (ou dipolo), formado por duas grandes esferas metálicas
ligadas por um condutor retilíneo interrompido por um faiscador - constituído
por duas esferas metálicas menores. Os dois braços deste oscilador eram
ligados aos pólos de uma bobina de Ruhmkorff; quando a bobina gerava uma
tensão alta, ocorria uma descarga entre os dois braços do oscilador. Tal
descarga era oscilante, e Hertz verificou que as oscilações possuíam uma
freqüência que dependia, unicamente, das características geométricas do
oscilador. Era por isso que as faíscas irradiavam no espaço ondas
eletromagnéticas de freqüência bem determinada.
Com isso, Hertz demonstrou na prática a
existência das ondas eletromagnéticas previstas por Maxwell. Começou, então,
a estudar as propriedades dessas ondas. Aos 32 anos descobriu, por meio de
experiências extremamente engenhosas, que elas se comportam de maneira
inteiramente semelhante às ondas luminosas - fato também previsto na teoria
de Maxwell, mas que ainda esperava por uma demonstração experimental.
Voltou sua atenção à propagação das ondas
eletromagnéticas. Concluiu, assim, que sua velocidade é a mesma da luz, e que
sua propagação no vácuo é retilínea. O comprimento de onda, porém, é maior do
que o das ondas luminosas.
Daí, passou a uma série de experiências ópticas.
Entre estas, as primeiras foram sobre reflexão em superfícies metálicas, como
ocorre também com as ondas luminosas. Entretanto, Hertz verificou que, no
caso das ondas eletromagnéticas, a reflexão especular ocorre também quando as
superfícies são opticamente ásperas. Isso porque as ondas eletromagnéticas
possuem comprimento muitíssimo maior que o da luz.
Outra célebre experiência foi a realizada com o
prisma de piche, com o qual demonstrou a refração das ondas eletromagnéticas.
Atravessando um prisma de piche, as ondas mudam de direção, como ocorre no
caso das ondas luminosas ao atravessarem um prisma de vidro. O cientista
provou, finalmente, que as ondas oscilam em um plano que contém a direção de
propagação. Para demonstrar este fato, era necessário provar, primeiramente,
a possibilidade de polarizar ondas eletromagnéticas. Para isso, Hertz
idealizou e construiu um dispositivo dotado de uma grade de fios metálicos,
que, quando atingido por ondas eletromagnéticas, as polarizava.
Embora ciente da desconfiança com que o mundo
científico acolhia as hipóteses de Maxwell, Hertz apresentou os resultados
irrefutáveis de seus trabalhos ao Congresso da Sociedade Alemã para o
Progresso da Ciência, em 1888. Eles punham abaixo os velhos conceitos de ação
a distância, assim como as tentativas dos mecanicistas em reduzir a
eletrodinâmica a uma dinâmica do tipo newtoniano, explicada por movimentos de
corpos invisíveis num meio hipotético, o éter.
Os expressivos resultados de suas experiências,
revelando e estudando as características das ondas eletromagnéticas, fizeram
com que elas fossem batizadas com o nome de ondas hertzianas.
Realizado o ciclo de experiências e concluído um
capítulo de suas pesquisas, os interesses de Hertz voltaram-se para uma visão
mais ampla da física e para problemas universais.
Um de seus trabalhos foi tentar explicar toda a
mecânica por meio do que chamou o "princípio da trajetória retilínea".
Apesar de Hertz não ter tido sucesso nessa
empresa, uma versão atualizada de seu princípio encontrou posteriormente
aplicação na teoria einsteiniana da gravitação.
Ainda que cumulado de honrarias, Hertz continuou
levando uma vida afastada do convívio social, dedicando-se somente à ciência.
Baixo, delicado, de fronte espaçosa e barba ruiva, refletia no aspecto e na
expressão bondade e grande modéstia. A seriedade e maturidade que possuía,
acima do que seria de se esperar de sua idade, fizeram com que alguém o
definisse como um "velho nato".
Nos primeiros meses de 1893, Hertz adoeceu e foi
operado de um tumor na orelha. Passou uma temporada convalescendo em Santa
Margherita Ligure (Itália), depois do que, parecendo restabelecido, regressou
ao laboratório. Em dezembro desse ano, porém, foi obrigado outra vez a
interromper toda atividade.
Em 1º de janeiro de 1894, antes de completar 37
anos, Hertz morria, deixando uma obra que permitiu um progresso nunca antes
imaginado no campo das comunicações a grande distância.
Poucos meses após sua morte, vieram a público os
três volumes de "Os Princípios da Mecânica", a última obra que Hertz enviara
a seu editor de Leipzig. Sentindo que lhe restava pouco tempo de vida,
confiara a tarefa de cuidar da publicação ao seu melhor assistente, P.
Lenard.
imprimir
|