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Cientistas
de todos os tempos :::
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Ernest Rutherford
(1871 - 1937)
Os progressos da química, ao fim do século XVIII,
haviam reedificado a teoria atômica sobre alicerces mais científicos do que
as meras especulações de Demócrito. Mas a concepção ainda era algo ingênua,
como se cada átomo fosse apenas um pedacinho invisível de matéria, com as
mesmas propriedades da substância em que estivesse integrado. Quase cem anos
se passaram, antes que as propriedades do átomo começassem a ser desvendadas.
Em fins do século XIX, já se havia detectado a
presença do elétron, partícula atômica dotada da menor quantidade de
eletricidade, em termos absolutos. Nessa altura das pesquisas, a pergunta
maior era a seguinte: como estão dispostos e integrados no átomo esses
misteriosos elétrons? As respostas a essa e a muitas outras questões viriam a
ser dadas por um físico neozelandês, que chegaria a provocar artificialmente
a destruição e a transmutação de núcleos do átomo. Com seu trabalho, Ernest
Rutherford deu importante contribuição para que a física atômica pudesse
seguir o curso de evolução que a trouxe ao estágio de hoje.
Os primeiros tempos da vida de Rutherford
enquadram-se no lugar-comum de tantas outras biografias de grandes
personagens. O pai, um escocês que emigrara para a Nova Zelândia, vivia de
consertos de carruagens, na cidade de Nelson, quando Ernest nasceu, a 30 de
agosto de 1871. O futuro cientista era apenas o quarto filho do casal: outros
nove viriam para onerar ainda mais o minguado orçamento da família.
Mas a Nova Zelândia era uma terra de novas
oportunidades, nessa época. Num esforço empreendedor, o velho Rutherford
conseguiu iniciar uma fiação de linho e com ela prosperou. Não que
enriquecesse. Mas pôde dispor de recursos para custear a educação de alguns
filhos, especialmente Ernest, que se destacava pela inteligência e versátil
curiosidade: tanto obtinha boas notas em matemática, física e química, quanto
em disciplinas literárias, especialmente latim, francês e inglês. Durante
toda a vida nutriu verdadeira paixão pela leitura.
Aos dezessete anos, entrou na Universidade da
Nova Zelândia, no anexo conhecido como Christ Church College. As despesas com
livros e subsistência eram garantidas por modesta bolsa de estudo, além da
renda de aulas particulares que dava a companheiros mais atrasados.
Quase todas as suas preocupações eram voltadas
para o estudo, com uma importante exceção: Mary Newton, filha da viúva que
mantinha a pensão onde Ernest morava. Fora esse namoro, dividia seu tempo
entre bibliotecas e laboratórios. Interessado nas pesquisas de Hertz sobre
ondas eletromagnéticas, montou algumas geringonças num canto da cantina
universitária e tanto mexeu com os aparelhos rudimentares, que acabou
colhendo material para alguns artigos, publicados por periódicos científicos
da época.
Mas a Nova Zelândia, decididamente, não tinha
muito a oferecer ao jovem cientista. A pesquisa científica moderna, de
crescente complexidade, exigia equipamento caro, livros de circulação
limitada, ambiente de colegas especializados. As grandes descobertas e as
grandes invenções tendiam cada vez mais a surgir junto às grandes
concentrações econômicas, em torno das quais desenvolveram-se os mais
importantes centros científicos.
Para sua sorte, Rutherford teve oportunidade de
acesso a um desses centros. O Príncipe Albert, marido da Rainha Vitória,
tinha a preocupação de projetar-se como elemento atuante, para desfazer a
tradicional imagem do príncipe consorte, tido corno personagem meramente
figurativo. Dentro desse programa, ofereceu uma cátedra a jovens cientistas
no Trinity College, da Inglaterra. Rutherford, recentemente diplomado mas já
possuidor de certa reputação, candidatou-se ao lugar e foi escolhido. Para a
longa viagem de Ernest, o pai teve que contrair dívidas e financiar parte do
empreendimento.
Em 1893, com 22 anos, Rutherford já se
aprofundava em matemática e física, sob a orientação de J. J. Thomson,
descobridor do elétron.
Rutherford em seu laboratório
Na época, uma equipe de cientistas do Laboratório
Cavendish pesquisava o novo e fascinante mundo das radiações. Os raios X
haviam sido descobertos recentemente por Roentgen e, em 1896, Becquerel havia
relatado suas descobertas relativas a misteriosas radiações que emanavam de
certos elementos.
Ao estudar as radiações do urânio, Rutherford
descobriu que elas eram de pelo menos duas naturezas diferentes, pois o feixe
se bipartia ao passar por um campo magnético e cada parte seguia então
sentido oposto ao da outra. Propôs que elas fossem designadas como radiação
alfa e radiação beta, denominações que se mantêm ainda hoje.
O fato de serem sensíveis à ação magnética
sugeria que essas radiações fossem constituídas por feixes de partículas
carregadas eletricamente, uma pista fundamental para estudos posteriores. A
descoberta ampliou o prestígio científico de Rutherford e resultou na
conquista da cátedra de Física na Universidade McGill, do Canadá. Com a
situação financeira melhorada e consolidada, Ernest pôde desposar, em 1900, a
noiva neozelandesa que o esperava desde os tempos de estudante universitário.
Entretanto, novas radiações iam sendo
descobertas. Por exemplo, as do tório, que eram particularmente
desconcertantes: ao contrário do que se verificava nos casos do óxido de
urânio e da pechblenda, as radiações do tório não pareciam afetadas pela ação
de campos magnéticos. Eram radiações eletromagnéticas, como a luz e os raios
X. Esse tipo de radiação recebeu o nome de raios gama, por sua descoberta ter
sucedido à dos raios alfa e beta.
A respeito dos raios gama, Rutherford formulou a
hipótese de que a radiatividade, afinal, não se tratava de um fenômeno comum
a todos os átomos, mas somente aos de certa categoria, que se desgastavam
continuamente, ao perderem energia com as partículas emitidas. Essa
transformação de teor energético de tais átomos, naturalmente, implicava a
idéia de que os elementos radiativos, com o passar do tempo, transmutavam-se
em outros elementos, de massa atômica mais baixa. Para verificação dessa
revolucionária concepção da radiatividade, Rutherford empreendeu numerosas
experiências, em colaboração com Soddy. De tais estudos resultou o livro
Radiatividade, tratado fundamental dos problemas referentes ao assunto,
verdadeiro marco na história do progresso científico.
Coberto de prestígio, Rutherford recebeu convites
que lhe permitiram deixar o Canadá e voltar à Inglaterra, onde assumiu a
direção do laboratório universitário de Manchester, então um dos mais bem
aparelhados do mundo. Aí, a partir de 1907, pôde colaborar com outros físicos
de renome, entre eles H. Geiger, inventor do famoso detetor de partículas
ionizantes, que leva seu nome.
O fim do século XIX e início do século XX
constituíram um tempo de seguidas revoluções científicas. No apogeu do
colonialismo, a Europa atravessava uma fase de prosperidade econômica, que
permitia a aplicação de recursos econômicos para sustento de cientistas e
financiamento de pesquisas.
Pierre e Maríe Curie haviam isolado o rádio e
descoberto o polônio, dois produtos da desintegração natural de átomos de
elementos de maior massa. Para Rutherford, isso equivalia à descoberta de
dois degraus de uma longa escada: à medida que ia emitindo radiação, o urânio
deveria converter-se progressivamente em outros elementos; um era o rádio, o
outro o polônio. E os demais? Onde terminaria, se é que de fato terminava, a
escala de desintegrações sucessivas?
Rutherford e seus colaboradores iniciaram estudos
a respeito e, em poucos meses, conseguiram descrever todas as famílias
radiativas. No degrau mais alto, o urânio; no mais baixo de todos, o chumbo,
em que já não mais existia radiatividade. Entre esses dois extremos, todos os
elementos radiativos intermediários, resultantes da "degradação" radiativa,
isto é, da desintegração. Foi um importante trabalho, que resultou no
reconhecimento universal do mundo científico e na maior recompensa que se
pode dar a um pesquisador, o prêmio Nobel de Física, conferido a Rutherford
em 1908.
Mas, ao contrário do que ocorreu a tantos outros
cientistas, o Prêmio Nobel não marcou o coroamento da carreira de Rutherford.
Suas maiores contribuições ainda estavam por vir.
Experiência de Rutherford
Em 1908, Rutherford realizou uma famosa
experiência, na qual bombardeou com partículas alfa uma folha de ouro
delgadíssima. Verificou que a grande maioria das partículas atravessava a
folha sem se desviar. Concluiu, com base nessas observações e em cálculos,
que os átomos de ouro - e, por extensão, quaisquer átomos - eram estruturas
praticamente vazias, e não esferas maciças. Numa minúscula região de seu
interior estaria concentrada toda a carga positiva, responsável pelo desvio
de um pequeno número de partículas alfa. Distante dessa região, chamada
núcleo, circulariam os elétrons. Isso convenceu Rutherford de que o átomo
deveria ser um sistema semelhante ao solar: um núcleo central grande, rodeado
de partículas móveis. Esse é o famoso modelo atômico de Rutherford.
Modelo atômico de Rutherford
Baseado na concepção de Rutherford, o físico
dinamarquês Niels Bohr idealizaria mais tarde um novo modelo atômico. Com o
advento da Primeira Guerra Mundial, Rutherford interrompeu seus trabalhos.
Enquanto muitos de seus alunos e colaboradores foram convocados, ele próprio
teve que se ocupar com pesquisas de objetivo militar, a serviço do
Almirantado Britânico, setor de guerra anti-submarina. Só depois da guerra
foi que o cientista retomou seus estudos a respeito do núcleo do átomo. Mais
experiente nas manipulações com partículas alfa, acabou por realizar um velho
sonho dos alquimistas, o da conversão de um elemento natural em outro. Ao
converter nitrogênio em oxigênio, por bombardeamento eletrônico, Rutherford
conseguia realizar a primeira transmutação provocada artificialmente.
Rutherford viveu numa época em que a tecnologia
ainda não havia assumido a importância que tem hoje. Pensava-se em ciência
ainda com certo romantismo. Os cientistas ainda não sofriam o peso das
solicitações de ordem prática, tal como atualmente acontece.
Como Einstein e outros contemporâneos, Rutherford
viveu bastante despreocupado em relação a problemas individuais, num estilo
de dignidade afável, sempre mantendo um moderado senso de humor. Quando
morreu, a 19 de outubro de 1937, muitos foram os que lembraram, nos
necrológios, o que dele haviam dito anos antes: "Sempre carregou a glória com
indiferença".
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