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Breve
histórico do enigmático céu
Prof.
Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
O
século dezessete é freqüentemente chamado o
século dos gênios. Além do nascimento da Óptica,
presenciou a transformação do enigma dos movimentos planetários
em um esquema maravilhosamente simples. Mas seria errado
supor que qualquer século em particular teve o monopólio de
homens bem dotados. As leis da probabilidade encarregam-se de
impedir que haja qualquer mudança abrupta na capacidade de
nossos líderes intelectuais. Os extraordinários feitos
científicos do século dezessete somente podem ser atribuídos
ao ambiente, e não a simples acidente. Através dos séculos,
cada sociedade obteve o grau de realizações científicas
que mereceu.
A
Imprensa
Não existe um único
fator que tenha levado ao despertar científico do século
dezessete. É provável que nunca conheçamos a história
completa. Não obstante, é claro que a imprensa desempenhou
um papel destacado. Nos tempos de Alexandria, existiam muitos
milhares de livros nas grandes livrarias, mas eles somente
podiam ser lidos pelos que tinham o tempo e o dinheiro
indispensáveis para viajar até onde se encontravam. A
propriedade privada de livros era dispendiosa e rara, em razão
do esforço colossal envolvido na cópia manual de um livro
em pergaminho ou papiro, de alto preço. Mas tudo isso se
modificou no século quinze, com o advento efetivo da
imprensa na Europa.
A
imprensa é basicamente uma arte antiga. Por exemplo, foram
usadas estampas nos tempos medievais para fazer impressões a
tinta de letras maiúsculas, no começo dos manuscritos.
Já em 1300, o homem tinha
aprendido a fazer gravações de figuras e inscrições
curtas em madeira. Mas a máquina que contribuiu para a
grande revolução intelectual do século dezessete usava
tipos removíveis, feitos de metal fundido. Entretanto, as máquinas
de imprimir somente puderam ser usadas em larga escala quando
se tornou possível substituir o pergaminho pelo papel. Muito
embora este fosse conhecido na China desde os primeiros séculos
da era cristã, não se tornou comum na Europa até o século
quinze.
A
origem e a data da invenção da imprensa moderna é
discutida, mas sua aplicação na Europa começou em 1447 em
Mains, com a imprensa de Johann Gutenberg (cerca de
1400-1466). A imprensa se disseminou rapidamente, daquela
data em diante. Durante o século que se seguiu, muitos clássicos
científicos gregos e árabes foram traduzidos, impressos e
estudados.
A
Medida da Longitude
Nesse mesmo período,
a navegação atingiu um nível muito superior aos feitos da
Antigüidade. Os navios daquele período podiam enfrentar as
grandes tempestades do Atlântico e navegar a grandes distâncias,
movidos apenas pelo vento. Não obstante, a medida
da longitude permanecia sendo uma tarefa difícil. Os
relógios portáteis precisos ainda não existiam, e os
movimentos da Lua, do Sol e dos planetas eram os únicos
meios pelos quais o navegador podia determinar a hora de
Greenwich em uma viagem longa. Foram preparadas tabelas
astronômicas que davam as horas no futuro, quando os
planetas estivessem em conjunção com a Lua, isto é, quando
tivessem a mesma 'longitude celestial' que a Lua. Esses dados
eram então utilizados pelos grandes navegadores para
determinar sua longitude nas viagens longas.
Américo
Vespúcio mediu sua longitude na latitude de 10o N
observando uma conjunção de Marte com a Lua. Deduziu, de várias
observações, que a conjunção ocorreu às 6:30 h. da
tarde, hora local, isto é, exatamente seis horas e meia após
o meio-dia local. Um almanaque preparado pelo astrônomo
Regiomontanus predizia que a conjunção teria lugar à
meia-noite de Nuremberg. Quando eram 24 h. em Nuremberg, eram
18 h no navio. A hora local de Vespúcio era exatamente 5,5 h
(5 h e 30 min) menos que em Nuremberg. Sua longitude,
portanto, era de 5,5 x 15o, ou seja, 82,5o
a oeste de Nuremberg. Colombo usou métodos semelhantes para
medir a longitude em suas viagens ao Novo Mundo.
Astrologia
e Ciência
O uso dos movimentos
planetários na determinação da longitude preencheu uma
importante necessidade social e ajudou a fazer da Astronomia
a rainha das ciências.
De igual importância, talvez, foi a crença universal na
Astrologia, que ensinava: (1) que Deus governava a Terra
através dos movimentos dos corpos celestiais; (2) que as
estrelas influenciavam a vida na Terra; (3) e que os planetas
causavam variações nessa influência, variações essas que
dependiam da mudança de suas posições relativas. Segundo
esse ensinamento, o homem dispunha de uma saída. Seu dom do
livre arbítrio provinha diretamente do Ser Supremo. Somente
quando deixava de oferecer resistência ao poder das estrelas
e dos planetas é que era varrido pelos caprichos da
natureza. Portanto, os horóscopos eram 'inestimáveis' como
avisos de períodos perigosos, durante os quais deviam ser
tomadas todas as precauções para evitar as ciladas do
destino. A Astrologia conciliou-se assim com a Teologia,
tornando-se uma parte dominante do pensamento cristão.
Grande parte deste contra-senso persiste até os dias de
hoje. A Astrologia tornou-se uma pseudo-ciência, mística e
poderosa a grassar nos terrenos onde não subexiste a
metodologia científica. É um subproduto emocional da
Astronomia.
As
mudanças que se vinham desenvolvendo gradualmente na Europa
irromperam em uma revolução social e espiritual no século
dezesseis. O crescente poder dos homens de negócios, o
surgimento das monarquias, a oposição à Igreja, tudo isso
se combinou para provocar o rompimento com o passado. Além
do mais, os navegadores tinham aberto o mundo inteiro,
ajudando, por este modo, a libertar as mentes humanas das
velhas idéias estreitas. No cenário religioso, novos
sistemas substituíram a todo-poderosa Igreja de Roma:
Luteranismo, Calvinismo e a Igreja Católica reformada. De
permeio com estas mudanças teológicas, deu-se uma erupção
de guerras políticas e religiosas. A Igreja estava incapaz
de garantir a vida mansa e predisível do passado, e sua
autoridade indisputada começou a se desvanecer.
Com as condições tão caóticas na Terra, o homem virou-se
para as estrelas como refúgio. Através da Astrologia ele
podia calcular o movimento dos extraordinariamente
importantes corpos celestiais, e achar desta maneira um
'aceitável' grau de previsibilidade em um mundo incerto.
Por
tais razões, o século dezesseis encontrou a Astronomia no
centro da vida prática. Nela ele encontrou o espírito de
incansável mudança que estava começando a desenvolver-se
nas mentes dos homens. Não é surpreendente que as pessoas já
não se contentassem em aceitar cegamente as idéias da
Antiguidade. Tudo favorecia um período de desenvolvimento
científico, e esse período surgiu — um punhado de idéias
novas no século dezesseis, e uma torrente avassaladora no século
dezessete.
Copérnico
e a Terra em Movimento
A idéia de que o Sol
é o centro do universo não se originou com Copérnico.
Aristarco de Samos (cerca de 310-230 a.C.) ensinava em
Alexandria que a Terra e os planetas revolvem em círculos em
torno de um sol estacionário.
Acredita-se
também que Filolau, o pitagoriano, sustentava o mesmo ponto
de vista. Durante os tempos medievais, uma série de teólogos
atacou a doutrina de Aristóteles de que a Terra é fixa. Um
deles foi Oresme, Bispo de Lisieux (1323-1382), que era
conselheiro de Carlos V da França. Outro foi Nicolau de Cusa
(1401-1464), um filho de pescador que se elevou ao
cardinalato da Igreja. Outro ainda, foi Domenico Novarra, com
quem Nicolau Copérnico (1473-1543) estudou Astronomia e
Matemática, em Bolonha, Itália. Os escritos dos
pitagorianos ensinavam que a verdade suprema sobre o universo
deve consistir de relações geométricas simples e
elegantes, e Novarra sentiu que a astronomia de Ptolomeu —
com seus círculos e epiciclos — era demasiado complicada
para ser verdadeira. Suas dúvidas e criticas provavelmente
influenciaram os pensamentos de seu jovem aluno, Copérnico,
que as conservou na mente muito depois de regressar à sua
terra natal para assumir um canonicato na Catedral de
Frauenburg, Polônia.
Colocando
a Terra em seu Lugar
Lá pelo ano 1512, Copérnico
escreveu um sumário de suas idéias no Commentariolus
(pequenos comentários) que enviou a alguns amigos e astrônomos.
Nele, estabeleceu sete princípios que constituem a base de
sua teoria sobre o universo:
1.
Não há um único centro para todos os corpos celestiais.
2. O centro da Terra é somente o centro de gravidade e da
órbita da Lua.
3. Todos os planetas circulam em torno do Sol.
4. A distância da Terra ao Sol é desprezível, comparada
com a distância para as estrelas.
5. As estrelas são fixas e parecem deslocar-se no céu
porque a Terra gira diariamente em torno do seu eixo.
6. O Sol é estacionário, e seu deslocamento aparente é
causado por uma rotação da Terra.
7. Os deslocamentos para frente e para trás dos planetas são
causados pelo deslocamento da Terra em sua órbita em torno
do Sol.
Copérnico
havia rejeitado o sistema ptolemaico devido à sua
complexidade. Ele colocava a Terra no centro do universo, com
o Sol deslocando-se em torno dela, em uma órbita circular.
Para além do Sol, havia três órbitas adicionais, nas quais
nada se movia além de planetas fictícios. Os planetas
verdadeiros — Marte, Júpiter e Saturno — deslocavam-se
em torno desses planetas fictícios em pequenos círculos e
“epiciclos”. Isto já era bastante artificial, mas o
sistema de Ptolomeu teve de ser emendado várias vezes nos séculos
que se sucederam, à medida que os movimentos planetários
vinham a ser conhecidos com mais precisão. Na época de Copérnico,
o sistema mundial de Ptolomeu requeria cerca de oitenta círculos
para explicar os movimentos planetários observados. Não
obstante, o sistema funcionava perfeitamente bem, e Copérnico
compreendeu que ninguém aceitaria sua nova teoria até que
pudesse ser usada para predizer os movimentos planetários
com igual precisão. Esta fase de sua tarefa consumiu anos de
trabalho, a maior parte do qual foi desperdiçada.
Sabemos
agora que a Terra e os planetas se deslocam em torno do Sol
em curvas ligeiramente ovais ou, para sermos precisos, em
elipses. Essas elipses são quase circulares, mas não
precisamente.
Observando
da Estrela do Norte, veríamos a Terra e os outros planetas
deslocarem-se, na direção contrária à dos ponteiros do
relógio, em torno do Sol. Mercúrio, o planeta que fica mais
perto do Sol, se deslocaria muito rapidamente, levando menos
de três meses terrestres para fazer uma revolução
completa. Os outros planetas, Vênus, Terra, Marte, Júpiter,
Saturno Urano e Netuno, teriam velocidades progressivamente
mais lentas, de acordo com a distância de cada planeta ao
Sol. Plutão, o planeta mais afastado, seria visto
deslocando-se mais lentamente que todos, levando cerca de 250
anos terrestres para completar sua órbita. Todas as órbitas
planetárias ficariam aproximadamente no mesmo plano, e uma
observação cuidadosa as apresentaria como ligeiramente elípticas.
Mas Copérnico estava tão convencido de que os círculos de
Aristóteles eram “naturais” e “inevitáveis”, que
achou impossível conceber um movimento não circular para os
planetas. Acrescentou epiciclos ao seu sistema, juntamente
com outras complicações tomadas de empréstimo ao antigo
sistema ptolemáico. Tentou, em resumo, chegar a um melhor
acordo com as medidas, utilizando as mesmas velhas técnicas
que tinha condenado no sistema anterior. Quando seu novo
sistema mundial foi publicado em De revolutionibus orbium
coelestium (“Da Revolução das órbitas Celestiais”) em
1543, continha trinta e quatro círculos — um pouco menos
da metade do número necessário ao sistema ptolemáico. A
complexidade tinha sido reduzida, mas não eliminada.
A
Insignificante Terra
Copérnico prosseguiu
respondendo às objeções que tinham sido levantadas contra
o conceito da Terra móvel durante dois mil anos. Uma delas
era o terrível vento que estaria sempre soprando de oeste
para leste. Copérnico meramente explicou que o ar se movia
juntamente com a Terra. Outra objeção era que uma rotação
tão rápida faria todas as coisas voarem pelos ares. Copérnico
replicou que a Terra em movimento era o menor de dois males.
Se a “esfera de estrelas fixas” tivesse que girar 360o
em um dia, teria que deslocar-se muito mais rapidamente que a
Terra, devido ao seu diâmetro muitíssimo maior. Assim
sendo, seria ainda mais provável que voasse em pedaços.
Finalmente, os pitagóricos argüiram que qualquer movimento
da Terra em uma órbita resultaria em um movimento aparente
das estrelas — de modo muito semelhante àquele em que uma
criança em um carrossel vê os objetos próximos
deslocando-se da esquerda para a direita contra o fundo dos
objetos distantes. Mas em deslocamento de tal natureza não
fora observado. As estrelas permaneciam fixas no céu, e as
constelações não mudavam sua forma. A esta objeção, Copérnico
respondeu que as estrelas estão tão distantes que o
diminuto movimento da Terra em sua órbita não faz nenhuma
diferença real. “A Terra e sua órbita estão na mesma
proporção para o tamanho do universo que um ponto está
para um torrão de terra...“ Em resumo, vivemos em uma
pequena mancha de poeira.
O
homem, que sempre se tinha considerado como rei da criação,
viu-se subitamente vivendo em um planeta secundário, que
revolvia em torno de um sol muitíssimo maior. Uma idéia tão
revolucionária devia ter provocado uma grande agitação nas
mentes dos homens de pensamento. Bastante estranhamente, não
causou quase nenhuma. O sistema mundial de Copérnico foi
considerado essencialmente como um método inteligente de
reduzir oitenta círculos a trinta e quatro. Não obstante, a
pouca atenção que se deu a ele durante a geração seguinte
foi, de modo geral, amistosa. Embora os luteranos, a partir
de Lutero, tivessem detestado o livro desde o princípio, a
maior parte da cristandade tinha-se conservado em atitude
reservada, pelo menos. É até mesmo possível que a
cristandade tivesse absorvido eventualmente o conceito da
Terra em movimento de Copérnico, exatamente como tinha
aceito anteriormente a Terra esférica de Aristóteles. Mas não
devia ser assim tão simples. Um monge renegado de nome
Giordano Bruno (1574-1600) abriu os olhos da Igreja para as
perigosas implicações da teoria de Copérnico, e um Galileu
desprovido de tato fechou a questão completamente.
Tycho
Brahe
O dinamarquês Tycho
Brahe (1545-1601) nasceu exatamente três anos após a morte
de Copérnico. Enquanto Copérnico foi um teórico
competente, Tycho Brahe foi um observador astronômico
extremamente competente e preciso, talvez o maior de todos os
tempos. Ele ganhou de Frederico II da Dinamarca um observatório
localizado em uma ilha, Uraniborg, e equipou-o com
instrumentos aperfeiçoados pelas melhores técnicas do
tempo. Durante 10 anos em Uraniborg, e mais tarde em Praga
—onde ganhou a companhia de Kepler, reuniu as medidas
astronômicas mais extensas e precisas que jamais tinham sido
conseguidas. Suas observações sobre os planetas foram as
mais importantes de todas, devido ao papel que desempenharam
mais tarde nas mãos de Kepler. Mas antes que Kepler tivesse
tempo para completar seu trabalho, Bruno conseguiu lançar a
opinião religiosa contra o Sistema Mundial de Copérnico.
O
Universo Infinito
Giordano Bruno nasceu
perto de Nápoles, Itália, em 1547, tornando-se religioso
dominicano na idade de 15 anos. Era agressivo, independente e
intolerante, e causa de muitos aborrecimentos para seus
superiores. Sob suspeita de heresia, deixou a Itália e
passou a ensinar em diversas Universidades da França,
Alemanha, Suíça, e finalmente, em Londres, em 1583. Ali
publicou três livretos, um dos quais — Dell'infinito
Universo e Mondí (“Do Universo Infinito e dos Mundos”)
causou todo o problema. Segundo sua crença, que Deus é
infinito em todos os sentidos, Bruno sentiu que não devia
haver nada que fosse finito em seu universo. Escreveu ele que
“há uma interminável quantidade de mundos particulares,
semelhantes a esta terra; como os pitagóricos, considero-a
como uma estrela, e semelhantes a ela são a Lua, os planetas
e as outras estrelas, cujo número é infinito, e todos esses
corpos são mundos”. Explicou também que cada mundo tem
seu próprio sol, em torno do qual gira. Expandindo as idéias
de Copérnico, Bruno não somente tirou a Terra do centro do
universo, como também o Sol, porque como o universo é
infinito, nenhum corpo pode ser considerado apropriadamente
como localizado em seu centro ou em sua periferia”. Todos
os planetas que circulavam em torno de todos os sóis eram
igualmente importantes aos olhos de Deus, e algumas vezes ele
pensava que eles eram o próprio Deus.
A
Igreja não tinha demonstrado nenhuma desaprovação efetiva
às idéias de Copérnico, mas as teorias de Bruno eram
demasiado revolucionárias para não serem levadas em
consideração. O paraíso tinha sido colocado além da
esfera que mantinha as estrelas fixas. O novo universo de
Bruno era de dimensões infinitas, e não deixava lugar para
o paraíso. Mais ainda, Bruno pregava que Deus tinha um número
infinito de mundos para cuidar, ressaltando assim a
insignificância da Terra. Tudo isto estava em antagonismo
demasiado frontal às doutrinas estabelecidas da Igreja, para
que se pudesse deixar passar em silêncio.
Em
1593 Bruno cometeu o erro fantástico de regressar à Itália.
Sua presença foi logo descoberta pela Inquisição — um
tribunal religioso que tinha jurisdição sobre assuntos
eclesiásticos — e ele foi preso. Após sete anos de prisão,
foi julgado por uma série de acusações e considerado
culpado. A sentença foi a punição “com toda clemência
possível, e sem derramamento de sangue”. Estas palavras
suaves significaram, na prática, que Bruno foi queimado vivo
em uma fogueira.
E
importante lembrar que as opiniões de Bruno não se baseavam
na observação. Sua contribuição foi de natureza filosófica,
e não um sistema científico. Não obstante, algumas de suas
idéias persistiram após sua morte e eventualmente
encontraram compreensão em tempos mais racionais.
As
três Leis de Kepler simplificam a Astronomia
Johann Kepler foi o
primeiro cientista a utilizar métodos matemáticos para
descobrir as leis do movimento planetário. Acreditava
firmemente em Copérnico e passou grande parte de sua vida
procurando uma lei simples que explicasse os movimentos do
sistema solar. Por volta de 1618, utilizando as observações
astronômicas precisas de Tycho Brahe, tinha publicado as três
leis que se tornaram os princípios orientadores da moderna
astronomia:
1.
Os planetas revolvem em torno do Sol em elipses, sendo o
Sol um dos focos da elipse.
2. Cada planeta desloca-se com uma velocidade variável de
tal maneira que uma linha que ligasse o planeta ao Sol
varreria áreas iguais em iguais períodos de tempo.
3. O quadrado do período de revolução de cada planeta em
torno do Sol é proporcional ao cubo de sua distância do
Sol.
A
primeira lei pode ser 'explicada' com o auxílio da ilustração:
Para
traçar uma elipse, começamos enfiando dois pregos em um
pedaço de papel nos pontos A e B. Uma volta de cordão é
então colocada envolvendo os pregos, conforme mostrado. Se
passarmos um lápis em torno dos pregos, mantendo o cordão
esticado, a linha traçada será uma elipse perfeita. Os
pontos A e B são chamados de focos da elipse. A propósito,
um circulo é meramente uma elipse especial, na qual A e B
estão no mesmo ponto. Conquanto as órbitas planetárias
sejam realmente elipses, seus focos estão extremamente
próximos, o que ajuda a explicar porque as órbitas foram
consideradas circulares durante tanto tempo.
A
segunda lei de Kepler explica certas modificações periódicas
percebidas nas velocidades dos planetas. Uma órbita elíptica
é mostrada na ilustração acima, com sua 'elipticidade'
grandemente exagerada, para maior clareza. Quando o planeta
está no ponto de sua órbita distante do Sol, ele varre uma
área ABS em um dado período de tempo. Quando está perto do
Sol, entretanto, deve deslocar-se mais rapidamente pelo mesmo
período de tempo, de maneira que a área CDS seja igual à
área ABS. Como a distância de C para D é maior, o planeta
deve aumentar sua velocidade ao aproximar-se do Sol.
A
terceira lei revela-nos os tempos relativos requeridos pelos
planetas para completar uma revolução em torno do Sol. Se
um planeta X estiver quatro vezes mais distante do Sol
do que um planeta Y, então o ano de X será
oito vezes mais longo que o ano de Y. Tomemos um
exemplo real: Júpiter está 5,2 vezes mais distante do Sol
do que a Terra. A relação de suas distância solares
é 5,2/1, ou 5,2. O cubo desta relação é 5,2 x 5,2 x
5,2 ou 140,6. Mas este produto é igual ao quadrado da relação
do período de revolução de Júpiter (seu ano) e do período
de revolução da Terra. A raiz quadrada de 140,6 é 11,9,
que nos diz que o ano de Júpiter é cerca de 12 vezes mais
longo que o ano da Terra.
As
três leis de Kepler foram confirmadas por incontáveis
observações. Sabemos agora que não são absolutamente
exatas, mas são quase tão perfeitas que nem o mínimo erro
foi encontrado nelas por mais de duzentos anos. Os oitenta círculos
de Ptolomeu, que Copérnico havia reduzido para trinta e
quatro, tinham sido agora substituídos por sete elipses. A
exigência pitagoriana de simplicidade e elegância matemáticas
tinha finalmente sido satisfeita.
Galileu
e a Inquisição
A despeito da precisão
e da simplicidade das leis de Kepler, a noção de uma Terra
em movimento ainda devia receber outro golpe. Logo que
Galileu fabricou seu primeiro telescópio em 1609, apontou-o
para o céu e começou a fazer descoberta após descoberta,
com incrível rapidez. Virando-o para a Lua, encontrou
montanhas e outras irregularidades, mostrando que era um
mundo semelhante à Terra. Em seguida, dirigiu seu telescópio
para as constelações e descobriu “uma multidão de outras
estrelas, tão numerosas que era quase inacreditável”.
Bruno tivera razão, afinal de contas. “A galáxia é...
u’a massa de inumeráveis estrelas, plantadas juntas em
enormes aglomerados.” Também Copérnico estivera
provavelmente certo, porque Júpiter e suas luas formavam um
sistema solar em miniatura, traçado de acordo com suas idéias.
Observando Vênus, Galileu viu que ele passa por fases
exatamente como as da Lua, o que era uma confirmação direta
da teoria de Copérnico.
O
sistema ptolemaico requeria que Vênus nunca mostrasse mais
do que um semicírculo de superfície iluminada voltado na
direção da Terra. O sistema de Copérnico previa exatamente
a seqüência de fases que Galileu havia visto. Esta única
descoberta provou que Copérnico tivera razão, para todos
que acreditavam na evidência de seus olhos. Aproximadamente
ao mesmo tempo, Galileu descobriu os anéis de Saturno, mas
interpretou-os incorretamente como “três esferas que quase
se tocam”. Descobriu também pontos negros que se moviam na
superfície do Sol, embora outros igualmente os percebessem
mais ou menos ao mesmo tempo. Essas manchas do Sol provam que
ele gira em torno de seu eixo, e seu período de rotação
pode ser determinado pelo deslocamento das manchas.
Infelizmente,
Galileu veio a envolver-se em uma controvérsia com um jesuíta
rival, chamado Christopher Scheiner, que proclamou ser o
primeiro descobridor das manchas do Sol. A controvérsia logo
se ampliou para muito além de seu tópico original,
incluindo a questão da habitabilidade da Lua e dos planetas.
Galileu não fez segredo do fato de que acreditava firmemente
na opinião de Copérnico. Isto, segundo salientaram seus críticos,
mostrava que ele acreditava na existência de outros mundos
habitáveis. Tal doutrina, que havia sido pregada pelo herético
Bruno, era contrária aos ensinamentos aristotélicos e cristãos.
Galileu
viu-se agora enfrentado por uma variedade de poderosos
interesses. Os aristotelianos havia muito irritavam-se contra
ele, e estavam agora acompanhados pelos poderosos jesuítas.
Além deles, a maioria dos homens pios da igreja sentiam-se
indignados pelo pensamento de que outros mundos poderiam
compartilhar os favores do Criador.
Par
trás de toda essa oposição estava o grande medo não
expresso do universo infinito de Bruno, sem deixar lugar para
um paraíso cristão. Em 1616, a Inquisição entrou na
disputa, e Galileu foi advertido “para abandonar essas
opiniões e abster-se igualmente de ensinar, defender ou
mesmo discuti-las”. Pouco depois, o trabalho de Copérnico
foi colocado no Index dos livros proibidos e retirado de
circulação, até que fosse “corrigido”. A Terra em
movimento podia ser discutida apenas como uma “hipótese”
conveniente, mas não como uma verdade absoluta.
Em contra-partida, diziam outros: "Inquisitores não
usam telescópios".
Ciência
e Medida
Depois de um período
de trégua com a Inquisição, Galileu publicou Il
Saggiatore (“O Ensaiador”) em 1624 — um
trabalho que contém uma idéia de grande importância para a
ciência moderna. Nele, Galileu distingue duas espécies de
qualidades de um objeto: as que podem ser descritas
numericamente, e as que não o podem. A velocidade e a posição
de um objeto, por exemplo, são qualidades primárias, porque
podemos medi-las. As qualidades secundárias, como o odor ou
a beleza, existem apenas na mente do observador, e não podem
ser medidas. A distinção pode parecer óbvia no século
vinte e um, mas Galileu estava escrevendo para pessoas que se
recusavam a olhar pelo seu telescópio, em homenagem a Aristóteles.
Galileu foi uma máquina motriz da crença moderna de que Ciência
é medida.
O
Diálogo
Enquanto Galileu
trabalhava no 'O Ensaiador' e outros assuntos não
controvertidos, tentou repetidamente e em vão, convencer o
novo Papa, Urbano VII, a remover a proibição de discutir a
teoria de Copérnico. Afinal, sua impaciência estimulou o
que tinha de melhor. Pensou ter achado um meio de satisfazer
as objeções do Papa, expondo suas idéias na forma de uma
discussão entre três homens. O primeiro representaria os
velhos argumentos de Aristóteles e da Igreja; o segundo
seria um copernicano, e o outro seria uma terceira parte
imparcial. Sua grande habilidade como escritor transformou
imediatamente o livro em best seller, e sua lógica demoliu
completamente as idéias de movimento e a astronomia de Aristóteles.
O livro apareceu em 1632 com o título Dialogo sopra i
due massimi systemi dei mondo (“Diálogo sobre os
Dois Principais Sistemas do Mundo”). Logo a seguir, o raio
se abateu sobre ele.
Embora
o livro alegasse submeter-se à autoridade teológica, a
intenção de desafio mostrava-se demasiado evidente. O
personagem que representava o anti-Copérnico foi apresentado
como irremediavelmente estúpido e ignorante, incapaz de
compreender os argumentos mais lógicos. Pior ainda, Galileu
tinha prometido incluir certos argumentos aristotelianos que
seriam fornecidos pelo Papa, mas colocou-os na boca do ridículo
personagem anti-Copérnico. O jesuíta Scheiner, observador
das manchas do Sol, que se tinha tornado o arquiinimigo de
Galileu, usou o livro para fazer o mal. Afirmou que o
semi-imbecil estúpido do livro era realmente uma tentativa
de retrato a bico de pena de Sua Santidade, o Papa.
Naturalmente,
Galileu logo se viu de novo em dificuldades com a Inquisição.
Seu livro foi proibido, e ele foi julgado em 1633,
considerado culpado e compelido a renegar todas as doutrinas
de Copérnico. Galileu passou preso o resto de sua vida, em
Arcetri, perto de Florença. Um homem de menor envergadura
poderia ter passado o resto de seus dias na quietude e no
conforto — recordando as glórias passadas e o cruel
tratamento recebido da Igreja, mas não Galileu.
Como
sabemos, o último e o maior de seus livros, Discursos sobre
Duas Novas Ciências, foi publicado na Holanda em 1638.
Naquela época, ele já tinha setenta e cinco anos e estava
totalmente cego. A 8 de janeiro de 1642, ele morreu em
Arcetri.
Após
a morte de Galileu, apareceram muitos escritos pró e contra
o banido sistema de Copérnico, mas a oposição entre os
cientistas se enfraqueceu visivelmente. A proibição eclesiástica
podia dificultar o progresso da Ciência, mas não podia detê-lo
inteiramente. Apenas tornou difícil para os cientistas católicos
intercambiar ou publicar novas idéias. Entretanto, eles
conseguiram lograr a vontade do Santo Ofício, tratando os
novos conhecimentos científicos como meras “hipóteses”.
Por volta do século dezoito, cessou toda oposição
importante, e as novas idéias tornaram-se geralmente
conhecidas de todas as pessoas inteligentes. Entretanto, não
foi senão em 1835 que os trabalhos de Copérnico, Kepler e
Galileu foram retirados do Index
dos livros proibidos. Tinham sido necessários dois séculos
para que a verdade vencesse a obstinação e a ignorância. A
tentativa de certos homens da Igreja para usar sua grande
autoridade com o fim de impedir o progresso da Ciência tinha
sido inteiramente derrotada. O esquema principal do universo
era agora um livro aberto, e a vitória final ficava
postumamente com Copérnico, Bruno, Galileu e Kepler.
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