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Os
flúxions de Newton (1) Prof. Luiz Ferraz
Netto Introdução A
solução Galileu Seu experimento pode ser hoje repetido com singular simplicidade e, para tanto, basta um cilindro metálico e uma tábua bem polida, com mais de 2 m de comprimento, que apresente uma de suas extremidades elevada cerca de 5 cm.
A
inclinação da tábua será 5cm/200cm = 1/40, e essa será a
proporção segundo a qual a gravidade age sobre o cilindro (sabe
justificar isso?). Abandone o cilindro do alto do plano, sem empurrá-lo. O problema mais sério de Galileu veio a seguir: como determinar a lei de variação da velocidade com o tempo, a qual levaria à dependência entre distância e tempo acima estabelecida. Em seu livro Diálogo concernente a duas novas ciências Galileu escreveu que "as distâncias percorridas aumentariam com os quadrados dos tempo de percurso SE a velocidade do movimento fosse proporcional à primeira potência do tempo." O
argumento utilizado por Galileu para justificar tal proposição
foi brilhante. Acredito (pensamento do autor) que ele se lastrou
nas técnicas da Geometria Plana na resolução de questões (já
bem desenvolvidas na época) para sua justificação. Explico:
ele admitiu o 'problema resolvido', ou seja, que a velocidade do
corpo em queda livre fosse proporcional à primeira potência do
tempo e, a partir disso demonstrou que se pode chegar á lei dos
espaços percorridos já aceita, demonstrada e justificada
experimentalmente. E, o que ele fez foi nada mais nada menos que
aplicar o que hoje conhecemos como 'método
da integração'. Se a velocidade varia com a primeira potência do tempo, ou seja, aumenta linearmente com o tempo, seu gráfico será uma reta (linha vermelha) passando pela origem dos eixos V e t, como se ilustra:
A
seguir, Galileu dividiu o intervalo de tempo de 0 até t (quando
então a velocidade vale V) em um grande número de pequenos
intervalos de tempo e traçou as linhas verticais, como ilustramos
acima. Com isso, obteve um grande número de retângulos finos e
compridos. Seu pensamento seguinte foi: substituir
a reta original da hipótese (a vermelha),
que representa a variação contínua da velocidade com o tempo,
por uma linha que lembra uma espécie de escada de degraus muito
estreitos. Nessa representação, a velocidade passa a
representar um movimento feito aos trancos; a velocidade aumenta
bruscamente e a seguir permanece constante até o próximo tranco. A
beleza da idéia está em que, durante cada um desses curtos
intervalos de tempo, o movimento se processa com uma velocidade
constante, própria desse breve intervalo de tempo e que a distância
percorrida é igual a essa velocidade multiplicada pela extensão
desse intervalo de tempo. Pronto! O complicado movimento de queda
livre foi 'quebrado' em numerosos e breves movimentos uniformes! espaço percorrido (s) = (1/2).base(t).altura(V) ou s = (1/2).t.V entretanto, como por hipótese, a velocidade é proporcional ao tempo (V = a.t), substituindo na expressão acima, obtemos: s = (1/2).V.t = (1/2).at.t = (1/2).a.t2 Bingo! Chegamos á lei do quadrado dos tempos, que é verdadeira .... logo V = a.t também é verdadeira! Outra contribuição importante de Galileu à jovem ciência da Mecânica, foi a descoberta do princípio da superposição dos movimentos porém, sua mais importante contribuição foi mesmo ter legado um método que, embora já conhecido pelos geômetras (Arquimedes o usou para encontrar o volume de um cone e de outras figuras), pela primeira vez foi utilizado nos fenômenos físicos. Esse método, nas mãos de Newton, tornou-se um dos ramos mais importantes da Matemática. Os
flúxions de Newton Esse
problema que, embora parecido, era muito mais complicado do que o
problema de Galileu relativo ao movimento de uma partícula com
velocidade aumentando constantemente, estava além dos recursos
matemáticos do tempo de Newton ... e ele teve que desenvolver sua
própria matemática. Ao fazê-lo, lançou as bases do Cálculo
Infinitesimal (ou simplesmente Cálculo). Vejamos o tratamento desenvolvido por Newton para o estudo de um movimento genérico. Nesse desenvolvimento iremos adotar a postura newtoniana e paulatinamente apresentar as notações modernas assim como algumas aplicações. Iniciemos com um movimento no qual sua coordenada x varie de um modo regular acompanhando o valor de t. No caso mais simples x poderá ser proporcional a t e então escreveremos: x = A.t (1) onde
A é uma constante numérica (independente do tempo) que torna
iguais os dois membros da 'equação'. A expressão (1) acima nos
informa, para cada valor de t, o correspondente valor assumido por
x. Nesses dois instantes as correspondentes coordenadas x e x' (ou melhor, espaços) terão os valores calculados pela (1): t
===> x = A.t A distância percorrida pelo móvel (ou melhor, a variação do espaço) durante esse intervalo de tempo Dt é, formalmente: x' - x = Dx = A(t+Dt) - A.t = A.Dt e, dividindo-se membro a membro por Dt, obteremos exatamente A. Dx = A.Dt ===> Dx/Dt = A Essa é a "razão de variação" de x com t, ou o "flúxion de x" em relação ao tempo, como Newton o chamou e indicou assim:
O flúxion de x em relação ao tempo será a lei de velocidade do movimento em questão. Por comodidade de digitação o flúxion de x, ou seja, x com um ponto sobre ele, será indicado por x*. Vejamos um exercício 'cinemático', como aplicação desse flúxion: Sobre uma trajetória previamente conhecida a lei de movimento de um ponto material é s = 5t + 2, com unidades no S.I.U. Obter, pela definição, a lei de velocidade desse movimento. Resolução: para um genérico valor de t teremos: s = 5.t +2 para um instante posterior de valor t' = t+Dt teremos: s' = 5(t+Dt) +2 a variação de espaço nesse intervalo de tempo de extensão Dt será: Ds = s' - s = 5(t+Dt) +2 - (5t +2) = 5.Dt O flúxion de s, ou a razão incremental do espaço será: s* = Ds/Dt = 5.Dt/Dt = 5 Então, s* = 5 que é o flúxion de s em relação a t será a lei de velocidade desse movimento, com unidades no S.I.U. Examinemos agora um caso um pouco mais complicado, onde a coordenada x (espaço) varia com o tempo segundo a expressão: x = A.t2 Eis o desenvolvimento: t
===> x = A.t2 A variação da coordenada x no intervalo de tempo Dt será: Dx = x' - x = A(t+Dt)2 - A.t2 = At2+2AtDt+ADt2 - At2 = 2A.t.Dt + A.Dt2 A razão incremental será: Dx/Dt = 2A.t + A.Dt Quando Dt vai se tornando infinitamente pequeno, o último termo desaparece e assim teremos, para o flúxion de x: x* = 2At Aplicação: O espaço de um ponto, sobre trajetória conhecida, varia com o tempo segundo a lei s=3t2+2t+1, com unidades no SI. Obter, pela definição, sua lei de velocidade. Fazemos: t
==> s = 3t2+2t+1 Ds = s'-s = 3(t+Dt)2+2(t+Dt)+1 - (3t2+2t+1) Desenvolvendo o quadrado da soma, eliminando os parêntesis e simplificando temos: Ds = 6.t.Dt+3Dt2+2Dt A razão incremental (dividir m.a.m. por Dt) será: Ds/Dt = 6t +3Dt +2 No limite, para Dt tendendo a zero, o termo intermediário desaparece e resta: s* = V = 6t + 2, que é a lei de velocidade com unidades no SI. Seguindo-se o mesmo raciocínio, calculemos o flúxion de x = At3 . t
===> x = A.t3 A variação da coordenada x no intervalo de tempo Dt será: Dx = x' - x = A(t+Dt)3 - A.t3 = At3+3At2Dt+3AtDt2+ADt3 - At3 = 3A.t2.Dt +3AtDt2+ A.Dt3 A razão incremental será: Dx/Dt = 3A.t2 + 3AtDt + A.Dt2 Quando Dt vai se tornando infinitamente pequeno, os últimos dois termos desaparecem e assim teremos, para o flúxion de x: x* = 3At2 Poderemos,
pelo mesmo método, continuar calculando os flúxions de x=At4,
x=At5 etc., obtendo x*=4At3, x*=
5At4 etc. Nesses exemplos, calculamos os flúxions de quantidades que variam diretamente com o tempo, com o quadrado do tempo, com o cubo do tempo etc.,mas, como faríamos com as quantidades que variam inversamente com o tempo e suas várias potências? A
Álgebra nos ensina que t-1 = 1/t , t-2 = 1/t2
, t-3 = 1/t3 etc. Usando esses expoentes
negativos e procedendo exatamente do mesmo modo como anteriormente,
acharemos que os flúxions de x = At-1 , x = At-2
, x = At-3 etc., serão x* = -At-2
, x* = -2.At-3 , x* = -3.At-4
etc. Tabelemos os resultados dos exemplos citados (isso será usado na integração):
Razão
incremental da razão incremental (ou flúxion de flúxion) Analogamente, x*** que é a razão de variação da razão de variação da razão de variação, será, para esse mesmo exemplo anterior: x*** = (6At)* = 6A. Aplicar isso á lei de movimento de queda livre de um corpo, no vácuo, nos levará rapidamente a: s = (1/2).g.t2 Como a velocidade V é a razão de variação de posição, teremos: V = s* = (1/2)g.2t = gt que diz que a velocidade é simplesmente proporcional ao tempo de queda. Para a aceleração 'a' que é a razão da variação da velocidade (ou a razão da variação da razão da variação da posição), fazemos: a = V* = s* = g que é, naturalmente, um resultado trivial. Antes de encerrarmos essa primeira parte dos Flúxions de Newton, devemos chamar a atenção que a notação de Newton não é a encontrada em livros do ensino médio. Acontece que, ao mesmo tempo que Newton desenvolvia seus flúxions, conhecido hoje como Cálculo diferencial, um matemático alemão Gottfried w. Leibniz, estava trabalhando sobre o mesmo assunto usando, no entanto, uma notação um tanto diferente. O que Newton chamava de flúxion primeiro, segundo, terceiro etc., Leibniz chamava de derivada primeira, segunda, terceira etc., e, em lugar de indicar
O Cálculo diferencial, atualmente estudado em nível superior, não se restringe apenas às funções polinomiais. Entretanto, para avançar mais nessa técnica, um estudo dos 'limite de funções' faz-se indispensável. Para a Física, principalmente, alguns limites clássicos fazem-se necessários; sem eles será difícil, senão impossível, o cálculo do flúxion (ou derivada), por exemplo, das funções trigonométricas. Experimente obter, pela definição, o flúxion de x = a.cos(b.t + c), com a, b e c constantes em relação ao tempo, ou seja, obtenha a velocidade de um ponto que realiza MHS, pela definição (não vale usar regrinhas de derivação!). A seguir: Flúxions de Newton - parte 2 - a integração. |
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