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Força
centrífuga
(Referencial
... Terra)
Prof.
Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
Introdução
Cada corpo, em repouso em relação
à Terra (participando portanto dos seus movimentos) está sujeito a
duas forças: a força newtoniana da atração,
originada por toda a massa da Terra (gravitação) e a força
centrífuga criada pela rotação da Terra em torno do
seu eixo.
No Equador, a segunda opõe-se exatamente à primeira quanto ao
sentido; porém, mesmo aí, onde a força centrífuga tem o seu máximo
valor, em conseqüência do maior afastamento do eixo de rotação (Fcp
= m.w2.r),
a sua intensidade é apenas 1/300 daquela devido á atração
gravitacional. À composição das duas forças dá-se o nome de força
local da gravidade, expressa pela direção (vertical)
e intensidade da aceleração local da gravidade. A separação entre
as duas componentes não se faz com facilidade. Com efeito, a rotação
da Terra só se torna notada pelo movimento aparente das estrelas,
mas de resto não é fácil de provar aos não estudiosos de ciência.
Assim se compreende que, à época, a teoria de Copérnico só pouco
a pouco tenha conseguido impor-se.
Se
o corpo estiver em movimento em relação à Terra, tudo se passa
diferentemente. Então, a rotação do planeta manifesta-se por um desvio
que sofre qualquer corpo em movimento horizontal, para a direita no
hemisfério Norte e para a esquerda no Sul.
Uma
experiência em pensamento
Façamos, em pensamento, a
seguinte experiência, tendo como base o seguinte conhecimento: todas
as estrelas, no hemisfério Norte deslocam-se da esquerda para a
direita; no Pólo Norte, as suas trajetória são horizontais
e, no hemisfério Sul deslocam-se da direita para a esquerda. Considere-se
então um atirador com uma espingarda, exatamente sobre o Pólo
Norte, que dispara sobre um alvo A2 colocado a 2 km de
distância, na horizontal e no alinhamento de certa estrela. Seja 1
km/s a velocidade da bala.
Se a pontaria tiver sido perfeita, verifica-se que mesmo assim o projétil
falhará o alvo, passando-lhe à direita em cerca de 29 cm porque
enquanto a bala se dirige para a estrela, o alvo roda juntamente com
a Terra, deslocando-se para a esquerda.
Cálculo:
Raio da trajetória do alvo, 2 km; duração do dia sideral, 86 164
s; o alvo desloca-se com velocidade de 14,6 cm/s, para a esquerda
quando visto do Pólo; portanto, em 2 s, tempo que a bala leva a
percorrer 2 km, o alvo deslocou-se 29,2 cm).
Qual
a trajetória da bala, observada da Terra em rotação?
Considerem-se vários alvos, todos em linha reta e distanciados de 1
km cada dois sucessivos: A1, A2, A3
etc. O tiro é dado ao longo desta sucessão de alvos. É fácil
verificar que os desvios em relação
aos diversos alvos estão entre si como 1 : 4 : 9 : 16 : ... (isto é,
corno os quadrados das distâncias). A curva que o projétil descreve
é portanto, em princípio aproximadamente, uma parábola (no plano
horizontal).
Até
aqui consideramos a bala destituída de massa (era uma bala em
pensamento). Na realidade, há que contar também com a atração da
Terra, que lhe imprimirá deslocamentos que resultarão numa trajetória
teórica também parabólica mas dirigida para baixo (parábola de
tiro). [Entre outros "estragadores da teoria" dever-se-ia
considerar ainda o atrito com o ar, que reduz substancialmente a
velocidade da bala. Citei a existência do ar, entre outros, pois além
desses dois (ar e desvio ocasionado pela rotação da Terra) há
ainda pelos menos outros 20 fatores para 'distorcerem' a bonita
trajetória parabólica estudada no ensino médio.]
A
trajetória 'real' é portanto uma curva 'defletida' definida pelas
duas componentes parabólicas referidas. A queda que a bala real
experimenta durante o tempo t de vôo é dada pela conhecida
lei que rege a queda livre, ou seja, gt2/2. Esta
componente depende portanto do valor de g.
Por outro lado, a velocidade angular da Terra é w
= 7,29.10-5 rad/s, pelo que um ponto fixo no
nosso planeta (o alvo, no nosso caso), à distância r do
eixo de rotação, percorre no tempo t o espaço s = w.r.t
(equação horária linear do conhecido movimento circular uniforme).
Por sua vez, a bala disparada do Pólo percorre, com a velocidade
horizontal v e no mesmo tempo t, a distância
r = vt. Substituindo este valor de r na expressão
anterior, vem s = w.v.t2.
Considerando agora s como a deflexão lateral da bala,
e dando à sua expressão a forma "at2/2",
conclui-se tratar-se de um movimento com a aceleração a = 2vw,
valor válido para os pólos (latitude 90o). Para qualquer
outro ponto, de latitude j
a expressão mais geral é aC = 2vwsenj.
Desse modo, o movimento 'real'
do projétil terá aceleração segundo a vertical av = g
e aceleração segundo a horizontal ah = aC.
A trajetória resultante, no Pólo Norte , será a composição de
duas trajetórias parabólicas (uma na vertical --- parábola de tiro
--- e outra na horizontal --- parábola de deflexão ---) e, os
movimentos projetados segundo os eixos Ox (horizontal, direção do
tiro), Oy (horizontal) e Oz (vertical local) serão:
x
= v.t ; y = vwt2
e z = (1/2)gt2
nos
demais locais da Terra (exceto Pólo Sul) deve-se incluir no
movimento segundo y o efeito da latitude (y = vwsenjt2).
Em
homenagem ao ciencialist João,do Nônio*, em Portugal metropolitano
(onde j
~ 40o) o valor de aC para um
corpo movendo-se com v = 1 m/s, é 0,000 093 m/s2 ou seja
apenas 1/100 000 do valor de g. Em tal caso o desvio lateral é tão
pequeno que a trajetória resulta praticamente no plano vertical. Se
v = 1000 m/s, já a aceleração aC vale g/100.
| * Ciencialist
é uma lista de discussão do grupo Yahoo e pode ser acessada
inscrevendo-se via ciencialist-subscribe@yahoogroups.com
; João Miranda é webmaster do
site www.nonio.com e
recebe essa homenagem como um dos pioneiros da Enciclopédia
Wikipedia, uma enciclopédia virtual aberta em http://pt.wikipedia.com/
que permite acréscimos ou alterações dos textos
'instantaneamente', por qualquer internauta. Meus parabéns! |
No
exemplo apontado, servimo-nos do Pólo Norte e vimos que o desvio é
para a direita. Obviamente no Pólo Sul será para a esquerda. Entre
os pólos e o Equador, a força 'desviadora' tem uma componente
horizontal e outra vertical, com a diferença digna de realce de a
horizontal depender só da velocidade do corpo, enquanto a vertical
depende também da direção do movimento: para leste, sobe, para
oeste desce, para norte ou sul, nula. Exatamente no Equador (j
= 0) a componente anula-se.
Podemos,
então, enunciar a seguinte 'regra':
(a) um corpo que em relação à Terra se move para leste, roda mais
depressa em torno do eixo do que a própria Terra, a força centrífuga
é maior do que se o corpo estivesse em repouso e, portanto, a
aceleração de queda é menor; o corpo aparenta ser mais leve.
(b) Se o corpo se move para oeste, tudo se passa ao contrário.
A
componente vertical da aceleração defletora só deixa de ser
desprezível em relação a g para velocidades
elevadas, como as de aviões rápidos e projéteis. Para os satélites,
(com v = 8 km/s) existe mesmo equilíbrio entre as duas acelerações.
'Entrando'
na água
Num curso de água que flui em
linha reta com a velocidade de 4 km/h, a força defletora é
extremamente fraca, provocando um desnível de 1 mm entre duas
margens afastadas 100 m. Dado que no eixo da corrente e à superfície
a velocidade é maior do que nas margens, a força defletora será’
maior, provocando um desvio para a direita das águas que em
profundidade se deslocam para a esquerda.
Este
fenômeno é mais acentuado quando o curso de água descreve curvas,
onde, independentemente da rotação da Terra, existe uma força
centrífuga muito mais intensa. Aqui onde estou, no Rio Pardo -
Barretos - SP, temos para a velocidade v = 2 m/s e um raio de
curvatura r = 50 m, a aceleração centrífuga é v2/r
= 4/50 m/s2, ou seja aproximadamente g/125. Em
conseqüência, as águas à superfície desviam-se para o exterior
da curva, arrancam os materiais da respectiva margem e, pelo fundo
regressam sobre a margem interior, onde depositam os materiais. Assim
se vai acentuando a curvatura dos cursos (meandros), podendo dar-se a
ruptura e conseqüente separação de braços mortos dos rios. A
instalação de pequenos diques na margem exterior produzirá efeitos
contrários.
'Entrando'
no pêndulo
É famosa a experiência do pêndulo
de Foucault para provar a existência da rotação da Terra. O
pêndulo é constituído por uma massa considerável suspensa por um
fio com muitos metros de comprimento. Posto em movimento, verifica-se
que o plano de oscilação vai rodando lentamente para a esquerda (no
hemisfério Sul) dando uma volta inteira (dia pendular) durante um
tempo T = 86 164 senj
segundos, onde j
é a latitude do lugar. No pólo, j
= 90o e T coincide com o dia sideral.
Finalizando
Se o globo terrestre fosse
liso como uma superfície gelada, uma pedra lançada horizontalmente
sobre ela descreveria uma trajetória circular para a direita, em
tempo igual a meio-dia pendular (negligenciando-se
a resistência imposta pelo ar).
O comprimento dessa trajetória depende da velocidade v da
pedra: para v = 10 m/s, seria 576 km (diâmetro 183 km). Isto dá
unia idéia da ordem de grandeza da força defletora da rotação
terrestre, que em física (especificamente, geofísica) desempenha
papel muito importante, alterando as características do movimento do
vento e das correntes
marítimas, características que seriam muito
diferentes se a Terra estivesse em repouso.
A força defletora também se designa por força
de Coriolis, nome do engenheiro francês seu descobridor.
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