O
'truque' do carretel
(Equilíbrio do corpo rígido)
Prof. Luiz Ferraz
Netto
leobarretos@uol.com.br
Objetivo
Estudar um caso interessante de equilíbrio de um corpo rígido (no
caso, um carretel de madeira), examinando as situações de iminência
de escorregar e/ou rolar, no mesmo sentido da força aplica ou em
sentido oposto. Mostrar que o movimento do carretel tanto pode
ocorrer no mesmo sentido da força aplicada, ou em sentido oposto,
dependendo apenas do ângulo (em relação à horizontal) com que
se puxa o fio enrolado no carretel.
Material
para demonstração
Um grande carretel pode ser construído assim: cortar dois discos
de madeira de raio 5 a 8 cm e espessura ao redor dos 2 cm e colar,
coaxialmente, um tubo de PVC (tubo para água de 1" ou
2") com cerca de 3 cm de comprimento. Amarrar um fio de linha
nesse tubo e dar algumas voltas. Teremos algo como um 'grande Yo-Yo'
--- e, certamente, poderá ser usado como tal!
Apresentação
ao público
Os objetivos do experimento são mais
eficazmente introduzidos quando despertamos na audiência um
sentido de curiosidade científica ou do deslindar de um 'truque';
uma 'novidade' diferente dos fatos do dia-a-dia, sem contudo,
apelar para misticismo usando de termos como 'misterioso',
'fantasmagórico', 'canalizações de energia' e que tais. Assim,
peça para sua platéia que opine se o carretel se moverá para
frente ou para trás quando você puxar a linha.
Quaisquer que sejam as manifestações da audiência, o carretel
poderá não obedecer, especificamente, nenhuma delas: se alguém
afirmar que o carretel vai se deslocar para a frente, no sentido de
puxar a linha, ele poderá ir para trás; se afirmar que vai para
trás, poderá ir para a frente e, mesmo que alguém sugira que de
qualquer modo o carretel irá se deslocar ao aplicar força na
linha, ele poderá permanecer em repouso!
Tudo
irá depender, realmente, do ângulo com respeito à horizontal,
com que o apresentador puxa a linha: um pequeno ângulo (q)
entre a linha e a horizontal fará o carretel se deslocar no
sentido da tração, e um ângulo (q)
pouco maior, fará o carretel deslocar-se em sentido oposto à tração.
Uma pequena mudança de ângulo, imperceptível para a platéia,
mudará o sentido de movimento do carretel --- para a audiência,
um comportamento 'bem misterioso'!
Enfim, um grande carretel de madeira (ou yo-yo) com um cordel
enrolado ao redor dele, com saída por baixo, pode ser posto
em movimento no mesmo sentido em que cordel é puxado ou em sentido
oposto, dependendo apenas do ângulo com que o cordel é puxado com
respeito à horizontal.
Discussão
A explicação dos acontecimentos envolve considerações de forças
e torques no carretel. Acompanhemos pela ilustração abaixo:
Iniciemos
a partir da situação em que a linha é puxada com força T,
fazendo ângulo q
com a horizontal, e seja
esse o caso no qual o carretel está na iminência de deslizar sem
rolar (translação pura).
Realmente teremos apenas três forças agindo no carretel, a saber:
a reação total devido ao apoio (R), o peso (mg) e a
tração imposta pelo cordel (T). Todavia, é útil decompor
a reação total devido ao apoio em seus dois componentes
ortogonais (N) --- força normal de apoio devido à mesa ---
e (fat = - m.N.i)
--- força de atrito de Coulomb --- de intensidade m.N
e de sentido oposto ao versor i. Assim, ilustramos acima: T,
mg, N e m.N.
Se o carretel ainda está na iminência de escorregar, a força
resultante horizontal deve ser nula, o que permite escrever:
T.cosq
= m.N
... eq.01
Só
duas forças produzem torques (momentos) em relação ao eixo do
carretel, e estes torques devem ser iguais e opostos, quando o
carretel está na iminência de escorregar, sem girar. O braço de
alavanca do torque de T é r1 e o braço de m.N
é r2. Comparando os torques temos:
T.r1
= m.N.r2
... eq.02
Dividindo-se,
membro a membro, a eq.01 pela eq.02 temos:
cosq
= r1/r2
... eq.03 .
Assim, o ângulo crítico que determina se o carretel girará ou
deslizará e de que modo irá girar, só depende da relação dos
dois raios --- é independente da massa do carretel, da tensão no
cordel e do coeficiente de atrito. Com um paquímetro (ou compasso
de calibre) -- para medir os raios -- e um transferidor -- para
medir o ângulo --, o experimentador poderá verificar o ângulo crítico
previsto teoricamente. Este é um exemplo especialmente
interessante do equilíbrio do corpo rígido.
Nota
1: Atente que "torque" implica na existência
de 'binários', 'conjugados', sendo em si, a medida do 'momento do
binário'. Em geral a 'outra força do binário', aquela que
aparece no centro de rotação, não é desenhada pelo fato de ter
momento nulo em relação a tal eixo, todavia, conceitualmente, no
diagrama de forças ela existe! Veja abaixo como ficaria a figura
'completa' e perceba porque as forças -µN e -T não
foram representadas:
Nota
2: Atente que na descrição do material, não me
preocupei muito em dar as dimensões precisas do carretel, nem do
tubo, nem do cordel, nem do tipo de mesa e nem do material
utilizado --- pois já sabia de antemão que nada disso afetaria o
resultado; só a razão dos raios é que importa!
Nota
3: A 'força de atrito' e a 'força normal' não são
forças reais; a superfície de apoio não aplica, separadamente,
duas forças no corpo, aplica uma única que é a força total
de apoio. Todavia, em algumas situações, é cômodo decompor
a força total de apoio em dois componentes ortogonais e dai
resultam as denominadas, força de atrito e força normal.
Recomendamos uma leitura no Equilíbrio
da Escada para assentar esse conceito. Repare que, quando se
negligencia o atrito, permanece sempre a força total de apoio, que
é 'normal' (perpendicular ao vínculo). Em outras situações essa
decomposição ortogonal não é vantajosa. Além disso, vale a
pena tomar os devidos cuidados, frente a um 'vestibular', quando a
questão põe em destaque: "representar as forças que
efetivamente agem no corpo". Por
exemplo, se num vestibular aparecer a seguinte questão: "Um
grande carretel de madeira (ou yo-yo) com um cordel enrolado ao
redor dele, com saída por baixo, pode ser posto em
movimento no mesmo sentido em que cordel é puxado ou em sentido
oposto, dependendo apenas do ângulo com que o cordel é puxado com
respeito à mesa áspera horizontal. Nas alternativas abaixo ele
está girando no mesmo sentido em que o cordel é puxado; desenhe
as forças que efetivamente agem no carretel."
Eis
a opção correta a ser assinalada:

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