|
Gravitação
I
(Questões básicas)
Prof.
Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
Introdução
O tema Gravitação,
posto pela primeira vez ao entendimento do aluno do Ensino médio
segundo o método tradicional fica, a meu ver, melhor reforçado quando
apresentamos a seguir, algumas perguntas básicas, tais como:
Pergunta
1
Sob o ponto de vista gravitacional, como era o mundo antes de Galileu,
Kepler e Newton?
Resposta
1
Comecemos com Platão, no século IV A.C., uma
vez que os pitagóricos não deixavam nada por escrito mas transmitiam
oralmente as suas observações somente aos bastante inteligentes para
compreendê-las. Os pitagóricos, no entanto, eram guiados por uma mística
crença de que relações numéricas simples governam o Universo e
afirmavam: “O centro do Universo não é a Terra, mas o Sol... A Terra é
apenas uma das estrelas que giram em torno do Sol”.
Platão
ensinava que as estrelas eram fixas, umas em relação às outras, e que se
encontravam sobre a superfície de uma esfera muito grande, dentro da qual
estava o resto do Universo; o Sol, a Terra, a Lua e os planetas
conhecidos, como se ilustra a seguir. Dizia Platão: “As estrelas são
eternas, divinas e imutáveis e movem-se ao redor da Terra dando uma volta,
levando um dia como se pode ver, descrevendo a trajetória de maior perfeição:
o círculo”.
Depois
de Platão, surge Aristóteles
como a maior figura científica da época, cujos ensinamentos vão
influenciar a humanidade durante vários séculos.
Dizia
Aristóteles: “As leis que regem os movimentos dos corpos celestes são
totalmente diferentes daquelas que governam os movimentos dos corpos
terrestres”.
Aristóteles
foi um grande homem, no entanto, teve muitos defeitos pelos quais o
desenvolvimento da ciência foi obstado durante vários séculos. Esse é o
grande mal quando se adota a 'palavra da autoridade'.
No
século II D.C., surge Ptolomeu fazendo inúmeras
modificações no modelo geocêntrico, tentando descrever o movimento dos
planetas pela célebre teoria dos EPICICLOS. Há uma frase histórica
atribuída ao rei Afonso X, quando leu a obra de Ptolomeu: “Se o Criador
tivesse me consultado, eu teria feito uma obra mais simples”.
Vemos,
então, que o homem, na sua empáfia, tomou a Terra como o primeiro sistema
de referência, e grande foi a luta de Copérnico para convencer os
cientistas da verdade e simplicidade da teoria heliocêntrica.
Pergunta
2
Qual foi o primeiro impacto na imutabilidade do Céu?
Resposta
2
O primeiro impacto na imutabilidade do Céu foi produzido pelo aparecimento
das estrelas chamadas supernovas, observadas, respectivamente, por Kepler
e Galileu. Ora, segundo Aristóteles,
a Terra era corruptível, a Lua variável e o Céu imutável. Como
poderia aparecer/desaparecer algo no que é imutável?
Raciocinava
Galileu: “Por certo, Aristóteles
admitia a possibilidade de mutações cósmicas nas baixas regiões
celestes, onde apareciam cometas e meteoritos”. Galileu
demonstra que a estrela intrusa não possui paralaxe, isto é, a sua posição
aparente não muda em relação à posição do observador sobre a Terra.
Ora, as paralaxes decrescem com a distância e, à época de Galileu,
somente as paralaxes dos planetas eram mensuráveis. “As estrelas fixas,
corpos muito afastados, não tinham paralaxes determinadas”, concluiu
Galileu. A supernova encontra-se muito além da esfera dos planetas, na
esfera superior do Universo, que não pode ser imutável.
Pergunta
3
Como Newton comprovou a lei da gravitação universal?
Resposta
3
Newton comprovou os resultados a que chegou ["Matéria atrai matéria
na proporção direta de suas massas e na inversa do quadrado da distância
que separa seus centros de massa"], de uma maneira muito simples e
interessante. Ele sabia que as forças são proporcionais às acelerações
[Realmente, essa é uma decorrência da Primeira Lei de Newton], para uma
mesma massa, por exemplo, a da maçã. Disse, então, Newton: “Será que
a força com que a Terra atrai a maçã não é da mesma natureza da força
com que a Terra atrai a Lua?”.
Consideremos,
de acordo com a ilustração, o seguinte:
 |
M = massa da Terra; m =
massa da maçã; r = 60R = distância Terra/Lua
R = raio da Terra.
Temos então:
FT/FL = aT/aL
Assim:
(GMm/R2)/[GMm/(60R)2] = aT/aL
= 3600
Desse modo,
aL = aT/3600 |
A
aceleração centrípeta daquela maçã colocada á distância da Lua deve
ser 3600 vezes menor do que a aceleração na Terra, desde que seja válida
a lei da atração gravitacional.
Ora, calculando-se a aceleração centrípeta na Lua utilizando-se a
expressão aL = (vL)2/r = (2pr/T)2/r,
ou,
aL = 4.p2.r/T2,
encontraremos aL = 0,00271 m/s2.
Dessa
maneira,
aL/aT = aL/g = 0,00271/9,80 = 1/3616 =~
1/3600
O
resultado foi magnífico, uma vez que Newton trabalhou com valores não
muito precisos.
Pergunta
4
De quanto se desvia ('cai') a Lua em 1 s, em relação ao plano tangente à
sua órbita na posição inicial?
Resposta
4
Suponhamos a órbita da Lua em torno da Terra como circular, de raio
r = 60R ~ 4,0 X 108 m.
Com
base na ilustração abaixo, temos: se não houvesse a aceleração centrípeta,
a distância percorrida pela Lua, em 1 s, seria S, contada sobre a
tangente à órbita em L. Havendo a aceleração centrípeta, a Lua se
desvia de uma distância d, em relação à tangente.
|

|
Vamos calcular d: no triângulo
inscrito na circunferência, temos:
S2 = d(2r - d) , ora, 2r - d ~ 2r , então: S2
= 2r.d
donde:
d = S2/2r
Sendo S (distância percorrida em 1
segundo) a velocidade linear
da Lua temos: S = 2pr/T
, logo: d = 2p2.r/T2 |
d
= 2x10x4,0x108 / (29 x 8,6 x 104)2 m/s2
~ 1/720 m/s2 ~ 1,4 mm/s2
Agora,
no campo gravitacional da Terra, um corpo cai, em 1 s: HT =
(1/2)gT.t2 = (1/2)x10x12m = 5 m.
Sabemos
que o raio da órbita da Lua é r = 60R. Se a força que atrai um corpo na
Terra é da mesma natureza daquela que atrai um corpo na Lua, devemos ter:
5/602
= 5/3600 = 1/720 ~ 1,4 mm
é
quanto a Lua se desvia em 1 s em relação à tangente à sua órbita na
posição inicial.
Se
a aceleração centrípeta na Lua é 0,00217 m/s2, diretamente
obteríamos o mesmo resultado:
HL
= (1/2)gL.t2 = (1/2)x0,00217x12 ~
1,4 mm
Pergunta
5
Onde pesará mais um corpo, à superfície da Terra, a 1000 m de altura, ou
a 1000 m de profundidade?
Resposta
5
O corpo pesará mais à superfície da Terra, uma vez que a aceleração da
gravidade decresce tanto com a altura h a que nos elevemos, segundo
a lei g = go (1 - 2h/R), sendo R o
raio da Terra, como a uma profundidade p a que penetremos, segundo a
lei g = go (1 - p/R).
Pergunta
6
Que se entende por velocidade de parabólica ou 'primeira velocidade de
escape'?
Resposta
6
É a velocidade critica que deve ter um corpo para escapar da ação
gravitacional de outro, descrevendo uma órbita parabólica. Se sua
velocidade é inferior, o primeiro se converte em satélite do segundo,
descrevendo uma órbita elíptica. Se, pelo contrário, é maior, o corpo
se afasta do segundo ao longo de uma trajetória hiperbólica. Para a
Terra, esta velocidade é de 11,3 km/s como se pode demonstrar:
Na
superfície da Terra, energia potencial de um foguete é Epot.
= - GMm/R. Para que se consiga fazê-lo
escapar, deve-se fornecer uma energia cinética de escape cujo valor seja
simétrico de sua energia potencial. Então:

onde
R representa o raio da Terra. Substituindo os símbolos por seus valores,
teremos

A
velocidade de escape para a Lua é de 2,3 km/s.
Pergunta
7
Que sucederia a um relógio de pêndulo, colocado dentro de uma cápsula
espacial e lançada de uma grande altura no espaço livre?
Resposta
7
Coloquemos um referencial nessa cápsula (que é um referencial acelerado
em relação a um sistema inercial de coordenadas). Enquanto a cápsula cai
(no sistema inercial), a força de inércia (no referencial da cápsula)
compensa a força gravitacional, isto é, a aceleração de inércia —
g compensa a aceleração gravitacional g e o pêndulo fica sem
peso. Desse modo enquanto o pêndulo 'cai' ele não pesa e, portanto, o relógio
de pêndulo fica parado durante a queda livre da cápsula (no referencial
inercial). Ao deter-se a cápsula, o relógio voltaria ao seu ritmo normal,
atrasado do tempo que durou a queda.
Pergunta
8
Um foguete viaja da Terra à Lua, com velocidade constante, levando um relógio
de pêndulo e outro de pulso (relógio de mola). Descreva o que ocorre a
cada um desses relógios durante a viagem?
Resposta
8
Ao relógio de pulso não ocorrerá nada e ele seguirá a sua marcha
normal, uma vez que sua força restauradora é devida à força elástica
da mola, que é independente de g. O relógio de pêndulo, à medida que se
afasta da Terra, irá atrasando sua marcha cada vez mais, ao diminuir g, até
chegar ao ponto de neutralização dos campos gravitacionais terrestre e
lunar, onde pararia de oscilar.
Voltando
a colocar o relógio em funcionamento, à proporção que se aproxima da
Lua, a freqüência voltará a aumentar até o foguete atingir a Lua, onde
a freqüência ainda será menor que na Terra, por ser gL < gT.
Pergunta
9
Qual é a velocidade mínima para colocar um satélite em órbita?
Resposta
9
É aquela que proporciona, na passagem horizontal do satélite pelo perigeu
(colocação em órbita), uma força centrípeta igual a seu peso. Sendo a
força centrípeta Fcp = mv2/r, em que r é a distância
ao centro da Terra e P = mg, com g = go (R2/r2)
temos, igualando as duas expressões (Fcp = P):

Aplicando-se
a um ponto da superfície terrestre, vem r = R = 6,36 x 106 m,
obtemos v = 7,9 km/s. Aplicando-se a um ponto situado a 200 km da superfície
terrestre, r = 6,36 x 106 + 0,2 x106 = 6,56x106
m, teremos v = 7,75 km/s, isto é, quase não tem importância para o
problema balístico a elevação inicial do satélite. A única dificuldade
é que o lançamento tangenciando o solo significaria que este satélite
teria sua órbita tangente ao solo no perigeu e bateria em qualquer obstáculo
na superfície terrestre.
Pergunta
10
É possível lançar um satélite, de tal modo que sempre se encontre sobre
um mesmo ponto da Terra?
Resposta
10
Sim. Basta para isso que o período de revolução do satélite seja igual
ao período de rotação da Terra sobre seu eixo e que, além disso, tenha
sua órbita situada sobre o equador terrestre. O raio dessa órbita pode
ser calculado igualando-se a força gravitacional à força centrípeta,
tomando-se w
= p/43200
rd/s, a saber

sendo
M a massa da Terra e G a constante de gravitação.
Esta
expressão nos mostra que existe uma única altitude possível para um satélite
ficar em órbita equatorial estacionária, uma vez que G, M e w
são constantes.
Ia
colocar aqui exemplos de satélites estacionários como o Intelsat III e
IV, mas estou desatualizado nessa informação. Se alguém quiser enviar os
nomes e posições dos atuais satélites estacionários que servem a propósitos
do Brasil, o autor agradece (leobarretos@uol.com.br).
|