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Uma
força da natureza --- a gravidade
(Gravitação
Universal - parte 1)
Prof.
Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
Introdução
Agora, novamente, fixaremos nossa atenção para os acontecimentos que nos
rodeiam. Encontramos uma multidão esmagadora de objetos, em constante
modificação e movimento, no céu e na Terra, com propriedades variadas e
características que vão desde os simples gases, líquidos e sólidos até
os mais complexos agregados, como as plantas, os animais e os homens. O
comportamento de todas as formas de matéria é muito complicado e
desnorteante.
Apesar disso, percebemos alguma ordem na natureza. Apesar das
modificações constantes e do constante movimento, reconhecemos semelhanças
entre objetos diferentes. Nós os separamos em classes e escolhemos nomes
para eles. Os materiais de que são feitos podem ser classificados em tipos
definidos, como rochas, metais, líquidos, substâncias orgânicas etc.
Essas substâncias diferem muito em suas propriedades, mas observamos em
todas elas os mesmos tipos de metais, de rochas, de materiais orgânicos, e
assim por diante. Um pedaço de ouro é sempre o mesmo qualquer que seja o
lugar da Terra em que esteja.
No mundo vivo, também, reconhecemos semelhanças e identidades, expressas
pelo que chamamos as diferentes espécies; encontramos bactérias, árvores,
flores, animais que têm propriedades comuns e podem ser considerados do
mesmo tipo.
Essas
são as regularidades que desejamos entender. Queremos saber por que a
natureza tem formas específicas, por que as formas são as que existem e não
outras, e por que os objetos se comportam como observamos. Entretanto, para
começar, devemos considerar as características simples da Natureza, não
específicas, e comuns a todos os objetos. Esta Leitura é dedicado a uma
dessas características. É o fenômeno da gravidade --- há uma outra que
trataremos oportunamente, que é a luz.
A
gravidade na Terra e no céu
A gravidade é um fenômeno bem
conhecido aqui na Terra. Todas as coisas em torno de nós, grandes ou
pequenas, são atraídas pela Terra — elas caem quando não são
sustentadas por algum suporte. A atração de qualquer pedaço de matéria
pela Terra é o exemplo mais familiar de força na natureza. Apesar disso,
um imenso esforço e séculos de pensamento foram necessários para que a
humanidade reconhecesse que o movimento da Lua, em torno da Terra, e dos
planetas, em torno do Sol, estão baseados nessa mesma força. Durante
muito tempo pensou-se que as leis que governavam os corpos celestes fossem
diferentes das que valem aqui na Terra. A universalidade das leis da
natureza, sua validade para todo o universo, só foi reconhecida a partir
da época de Isaac Newton.
A
Lua e os planetas não caem diretamente sobre a Terra ou para o Sol. Portanto,
como podem seus movimentos ser governados pela força da gravidade?
Há um abismo entre nossa experiência
terrestre de coisas caindo em sentido à Terra e o fenômeno celeste de
corpos orbitando em volta de um centro (Lua em torno da Terra e planetas em
torno do Sol). O estabelecimento de uma ponte sobre esse abismo constituiu
um passo decisivo para a compreensão do universo. Vejamos como isso
ocorreu.
Imagine
que estamos no alto de uma torre muito elevada e atiramos uma pedra
horizontalmente no espaço. A trajetória da pedra será encurvada para
baixo por causa da gravidade e a pedra atingirá o solo a uma certa distância
da torre. Quanto maior for o impulso com o qual atiramos a pedra, menos
encurvada será sua trajetória. Podemos imaginar que a pedra seja atirada
com tanta violência que o encurvamento da trajetória seja exatamente
igual à curvatura da superfície da Terra, que é esférica. Nesse caso, a
pedra nunca atingiria a superfície porque à medida que sua trajetória se
encurvasse, a superfície da Terra se encurvaria da mesma maneira. Seria
como se tivéssemos atirado a pedra além do horizonte. Se o ar não a
retardasse, a pedra percorreria uma órbita em torno da Terra como um satélite.
Esse é e princípio em que se baseia o lançamento de satélites. Num lançamento
típico, o primeiro estágio do foguete eleva o satélite acima da
atmosfera e uma segunda explosão o coloca em movimento horizontal. A
velocidade horizontal necessária para que o encurvamento da trajetória
seja igual à curvatura da Terra é de cerca de 8 km/s, Vemos, assim, como
o movimento de queda de um objeto pode transformar-se em um movimento
orbital em volta da Terra desde que o objeto receba um forte empurrão
horizontal.
Examinemos
agora, de outra maneira, a órbita de um objeto em torno de um centro de
atração. Quando um planeta percorre sua órbita em torno do Sol, a força
atrativa da gravidade conserva a órbita circular, da mesma maneira que uma
pedra amarrada a um fio efetuará um movimento circular se você segurar a
outra ponta do fio e o fizer girar. A força atrativa (força que o fio
aplica na pedra) desempenha o papel de resultante centrípeta condizente ao
movimento circular e uniforme.
A
reação centrípeta (o puxão sobre a corda) é tanto maior quanto maior
é o número de voltas que a pedra efetua por segundo e também é tanto
maior quanto maior é o raio; além disso, naturalmente, ela é
proporcional à massa do objeto. Podemos facilmente calcular a resultante
centrípeta sobre cada planeta pois conhecemos seu período de revolução
e sua distância ao Sol.
A
resultante centrípeta é exatamente a força atrativa da gravidade.
Portanto, quando calculamos a força centrípeta em uma órbita,
determinamos também a força da gravidade. Foi dessa maneira que Newton
mediu a força da gravidade do Sol sobre os planetas e destes sobre suas
luas.
Ele chegou à conclusão de que a gravidade segue uma lei muito simples: "a
atração entre duas partículas é proporcional ao produto de suas massas
e inversamente proporcional ao quadrado da distância entre elas."
Por exemplo, a distância de Vênus ao Sol é 0,7 da distância da Terra ao
Sol. Para manter Vênus em sua órbita com o período de revolução
observado, a atração do Sol sobre Vênus tem de ser cerca de duas vezes
mais intensa do que sobre a Terra. Aliás, para esses cálculos, não é
preciso se preocupar com as massas desses planetas pois, por serem
praticamente iguais, se cancelam no cálculo. Isto corresponde à razão
inversa dos quadrados das distâncias, pois (0,7)2 = 1/2. Este cálculo
constitui uma medida efetuada por seres humanos, de uma força que está
muito além da experiência humana direta — uma força no espaço
interplanetário.
Para
ter certeza de que a força entre o Sol e os planetas é uma força
universal que age entre duas massas quaisquer, precisamos mostrar que
existe o mesmo tipo de atração entre dois blocos de chumbo, ou quaisquer
dois outros objetos, e que essa força também decresce com o quadrado da
distância e é proporcional ao produto das massas. Certamente a força
gravitacional entre dois blocos de chumbo deve ser extremamente pequena,
pois as massas dos dois blocos é pequena em comparação com as dos corpos
celestes. Se a massa dos blocos for de 100 kg e estes estiverem a 1 m um do
outro, a força entre eles será aproximadamente igual à que a Terra
exerce sobre seis centésimos milésimos do grama. Apesar disso, ela foi
medida, e as medidas confirmam a validade geral e a universalidade da lei
da gravidade.
O
caráter geral da lei da gravidade
A descoberta da lei da gravidade,
realizada por Newton, explicou as órbitas dos planetas em torno do Sol e
colocou um ponto final no velho sonho de muitos filósofos. O sonho
consistia em encontrar um significado fundamental para os tamanhos das órbitas
e as durações dos períodos dos planetas. Poder-se-ia esperar que os
raios das órbitas planetárias tivessem entre si relações simples. Por
exemplo, o raio sempre duplicaria de cada planeta para o seguinte, ou
apresentaria qualquer outra regularidade numérica simples. Os filósofos
pitagóricos, por exemplo, atribuíam importância especial às razões numéricas
entre as órbitas celestes e consideravam essas relações como a essência
de seu sistema. Elas corporificavam a “harmonia das esferas”. Supunham
que elas refletissem uma simetria inerente ao mundo celeste em contraste
com o mundo terrestre cheio de desordem e sem simetria. Supunham que os vários
movimentos celestes, em sua harmonia, produziam uma música audível para o
ouvido intelectual, manifestação da ordem divina do universo. O
misticismo não resistiu á ciência. Mesmo Johannes Kepler, cuja análise
dos movimentos planetários conduziu à descoberta da lei da gravitação,
tentou com afinco explicar os tamanhos observados das órbitas inventando
um universo de sólidos regulares — a esfera, o cubo, o tetraedro etc.
— cada qual inscrito no seguinte, cada um deles determinando o tamanho de
uma órbita em virtude de algum princípio profundo, fundamental e geral.
Com
Newton, todas essas idéias revelaram-se ilusões. O princípio fundamental
relacionado ao movimento planetário é a lei da
atração gravitacional. Ela determina as órbitas dos planetas
apenas na medida em que exige que essas órbitas sejam círculos ou
elipses, com o Sol no centro do círculo ou em um dos focos da elipse, e
enquanto estabelece uma relação
especial entre o raio (ou eixo maior da elipse) e o período de revolução.
Mas o princípio não prescreve nenhum tamanho especial para o raio.
Na realidade, o tamanho real de cada órbita depende das condições no início,
quando o sistema solar foi formado, e das perturbações subseqüentemente
sofridas pelo planeta. Por exemplo, se inicialmente a Terra tivesse
recebido uma velocidade diferente, sua órbita seria diferente. Se outra
estrela passasse perto de nosso sistema solar, todas as órbitas planetárias
seriam modificadas e as relações entre seus tamanhos e períodos seriam
completamente diferentes depois do encontro.
Podemos
ver, por esses exemplos, que os tamanhos das órbitas observadas atualmente
não têm grande significado. Poderiam ser completamente diferentes sem
violar nenhuma lei da Física. A lei fundamental da gravidade determina
apenas o caráter geral do fenômeno, admitindo uma variedade contínua de
realizações. As órbitas reais dependem de influências que agiram antes
do fenômeno se ter desenvolvido, sem posterior influência externa. As órbitas
atuais podem, talvez, ser atribuídas a algumas causas definidas, como
algumas condições especiais que prevaleciam durante a formação do
sistema solar, ou à influência de estrelas que passaram perto, mas não há
nada de fundamental nos tamanhos que elas apresentam atualmente. Admitimos
que os planetas de outras estrelas se movam em órbitas completamente
diferentes, mesmo que se trate de estrelas muito semelhantes ao nosso Sol
em tamanho e constituição.
Por
causa de sua universalidade, a força da gravidade exerce sua ação muito
além do sistema solar e mesmo além de nossa galáxia. As estrelas dentro
de cada galáxia atraem-se mutuamente em virtude da gravidade, e cada galáxia
exerce forças gravitacionais sobre as
outras. Portanto, os movimentos das estrelas e das galáxias são regulados
por suas atrações mútuas. Por enquanto, não conhecemos grande coisa a
respeito desses movimentos porque são muito difíceis de observar, e teríamos
de resolver um problema complicado de análise matemática se desejássemos
calcular os movimentos de 50 bilhões de estrelas sob a influência de suas
mútuas atrações gravitacionais. Entretanto, há boas indicações de que
o mesmo princípio governa os movimentos das estrelas. Elas parecem
mover-se em torno do centro da galáxia de maneira muito semelhante à dos
planetas em tomo do Sol. Em breve os super-computadores resolverão esse
pequeno problema hoje tachado de 'complicado'.
São
também os movimentos das galáxias determinados por forças
gravitacionais? Este é um problema de astronomia até hoje sem solução.
Conhecemos pouquíssima coisa a respeito, excetuando-se o notável
movimento das galáxias afastando-se umas das outras — a expansão do
universo. Esse movimento; evidentemente, não pode ser produzido pela
gravidade; deve haver alguma outra explicação fundamental mas até hoje
desconhecida --- ou, a hipótese expansão não é boa.
E
agora, a teoria da gravitação (parte 2)
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