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Forças e Coeficientes de Atrito Prof.
Luiz Ferraz Netto No estudo da Mecânica, nós sempre encontraremos forças que surgem por causa da resistência de atrito imposta ao movimento, na interface entre dois corpos que estão em contato. É importante entender as características de tais forças e desenvolver métodos práticos para incorporá-las nos problemas da Mecânica. Para ver como estas forças atuam, vamos considerar a situação ilustrada abaixo [1], onde um objeto 'retangular' de peso P repousa numa superfície lisa e está sujeito a forças tanto horizontais quanto verticais.
O modo mais fácil de se analisar o que está acontecendo é, como é usual, considerar cada parte do sistema como um corpo livre isolado e descrever como todas as forças estão atuando em cada um desses corpos. O procedimento usado para que isto seja feito neste caso é mostrado a seguir [2], onde todas as forças sobre ambos os blocos, apoiado e suspenso, são mostradas.
[2] O conjunto de forças que atuam (a) no corpo ilustrado acima [1], visto como um corpo livre isolado, e (b) no bloco suspenso, considerado do mesmo modo. Nestes diagramas, a tensão na corda é representada pelos vetores T, que atua na direção x horizontal, no objeto apoiado e T’ atuando na direção y vertical, no objeto suspenso, de peso Q. Se o peso da corda for desprezado (como será), a intensidade de T' será a mesma de T. A roldana serve apenas para mudar o sentido no qual a tensão atua e de maneira nenhuma altera seu módulo [*]. Também, neste exemplo, supõe-se que a interface entre o bloco apoiado e a superfície que o apóia não seja perfeitamente escorregadia e então as forças de atrito que surgem do bloco apoiado e da superfície na qual ele repousa estão presentes. [*] Esta afirmação é verdadeira apenas quando os efeitos de atrito e efeitos de inércia associados à roldana puderem ser negligenciados, e sempre suporemos que este é o caso, a menos que uma afirmação contrária seja feita. As forças de atrito entre o objeto apoiado e a superfície surgem das forças interatômicas ou intermoleculares entre as duas superfícies. Uma descrição exata do atrito em termos destas forças é muito complexa e não pode ser tratada em detalhes aqui. Além do mais, embora as superfícies em contato possam parecer muito lisas e planas, numa escala atômica uma ordem tal de lisura raramente pode ser obtida, e nesta escala as superfícies são irregulares e ásperas com 'pontos' altos e baixos. Como resultado, a área real de contato (medida da superfície total dos contatos) entre os dois objetos ocorre apenas em pontos relativamente pequenos onde pontos altos em ambas as superfícies estão opostos uns aos outros; assim, a área de contato não tem relação direta com a área total de superfície da base do objeto apoiado, mas na realidade é muito menor. A pressão nos pontos reais de contato é, portanto, muito grande e suficiente em muitos casos para unir as duas superfícies juntas (caso do contato do vidro plano sobre vidro plano). A força máxima de atrito que pode ser suportada pela interface é a força necessária para quebrar estas uniões microscópicas. Se o contato for deslizante, formam-se e quebram-se ligamentos continuamente, e o material pode ser transferido de uma superfície para outra no processo. Verificou-se que os mesmos efeitos exercem um papel importante nas forças de atrito, associados ao contato de rolamento entre dois corpos. Neste caso, a área real de contato é ainda menor e, em conseqüência, o atrito de rolamento é ordinariamente menor que o atrito de deslizamento entre os mesmos materiais. No caso do atrito de rolamento, contudo, a deformação do objeto que rola sob as forças que atuam sobre ele também pode ser importante na determinação da grandeza das forças de atrito. Vê-se claramente que os mecanismos físicos relevantes para os efeitos de atrito estão completamente envolvidos, e uma descrição analítica destes efeitos em termos fundamentais é comumente muito complicada. É muito simples, contudo, descrever como as forças de atrito atuam, sem haver necessidade de citar (ou até mesmo conhecer) os mecanismos físicos responsáveis pela ação delas. Isto pode ser efetuado meramente observando-se que tem sido averiguado experimentalmente que uma força de atrito existe entre um objeto e a superfície sobre a qual ele repousa. A maneira pela qual esta força age depende de o corpo estar em repouso (atrito estático) ou deslizando sobre a superfície abaixo dele (atrito cinético). Em todos os casos, contudo, sua direção fica no plano da interface entre o corpo e a superfície na qual ele repousa, como mostrado nas ilustrações [1]. No caso do atrito estático,,já que o corpo está em equilíbrio implícito, a soma vetorial de todas as forças sobre ele deve ser zero. Isto significa que a força de atrito deve ser igual em módulo e direção e oposta em sentido em relação à resultante de todas as outras forças que atuam no objeto. Mas a força de atrito estático pode apenas chegar à sua maior grandeza (valor) antes do corpo “quebrar as arestas” e começar a deslizar. O valor da maior força de atrito possível (Fat máx.) é diretamente proporcional ao valor da componente de força exercida pelo plano de apoio no corpo que é normal ao atrito da interface, usualmente referida como a força normal N. Estas forças estão ilustradas, no caso mais simples possível, em [2] . Conseqüentemente, o valor da força máxima possível do atrito estático pode ser escrita como: Fat máx. = me.N [eq.1] ... Lei de Coulomb-Morin ... onde
me
é uma constante de proporcionalidade, chamada coeficiente
de atrito estático. Seu valor, obviamente, depende dos
materiais que estão em contato com a interface e ainda, de sua
aspereza ou lisura. É preciso menos intensidade de força para
superar as intensidades de forças de atrito entre um pedaço de
gelo e uma superfície de madeira que aquelas existentes quando um
bloco de madeira que tem o mesmo peso é colocado em lugar do
primeiro. Uma vez que o coeficiente de atrito associado a uma dada
interface de atrito é conhecido, o valor da força estática máxima
que ele suportará antes de “quebrar as arestas” e começar a
deslizar pode ser avaliado pela [eq.1]. No caso do atrito cinético, no qual o objeto não está em repouso mas está deslizando sobre a superfície de suporte, a força de atrito atua sobre o objeto que desliza no plano da interface de atrito, em sentido oposto àquele de seu movimento. Sua grandeza (valor) é novamente proporcional àquela da força normal N, mas o coeficiente de proporcionalidade entre a força do atrito de deslizamento difere do coeficiente do atrito estático que determina a força máxima que a mesma interface pode suportar em equilíbrio estático. De fato, a força de atrito cinético que atua quando um corpo desliza sobre uma superfície de suporte é quase invariavelmente menor que a força máxima de atrito estático que a mesma interface pode suportar. Nós podemos, portanto, expressar a força de atrito cinético por: Fat cin. = mc.N [eq.2] onde mc é uma constante de proporcionalidade referida como o coeficiente de atrito cinético associado com o tipo específico de interface de atrito envolvido. Já que a intensidade da força de atrito de deslizamento mc.N é menor que a intensidade da força estática máxima me.N necessária para “quebrar as quinas", é claro que para uma dada interface, mc será sempre menor que me. Também, já que a força de atrito cinético entre um objeto e a superfície sobre a qual ele desliza é praticamente independente de sua velocidade (constatação experimental), o coeficiente de atrito cinético é essencialmente independente da velocidade do corpo com respeito à superfície. Uma descrição tal como esta dada acima, estabelecida em termos de observações experimentais mais do que em princípios fundamentais, é chamada uma descrição empírica. Os coeficientes de atrito estático e cinético me e mc, que entram na descrição, não podem ser calculados de modo nenhum, exceto se lançarmos mão de argumentos muito difíceis envolvendo forças intermoleculares previamente esboçadas. No entanto, eles podem ser medidos experimentalmente com muita facilidade para todos os pares concebíveis de substâncias as quais podem formar uma interface de atrito, e estes valores medidos podem ser tabulados e referidos/usados quando necessário. Já que os coeficientes de atrito são as razões das intensidades de duas forças (Fat/N), eles são adimensionais. As leis que governam as forças de atrito estabelecidas acima são aproximadas, e não exatas. Em particular, o coeficiente de atrito cinético pode realmente variar com a velocidade se um grande intervalo de velocidade está envolvido, embora a suposição que isto não ocorra seja usualmente muito boa quando se trata de um intervalo moderado de velocidades. O coeficiente de atrito estático me é sempre maior que o coeficiente de atrito cinético mc, porque é possível verificar-se invariavelmente que para qualquer sistema uma força maior é requerida para “quebrar arestas” do que para manter um deslizamento constante ou movimento rolante. Vamos agora retornar aos sistemas mostrados nas ilustrações [1] e examinar em detalhes o que acontece em cada caso ilustrado, usando a técnica dos corpos livres isolados descrita anteriormente. Na ilustração [2b], na qual o bloco de peso Q é ilustrado como um corpo livre isolado, é evidente que se este objeto está em equilíbrio, então, a soma de todos os componentes segundo x, y e z das forças que atuam sobre ele deve igualar-se a zero. Como as forças que atuam no bloco têm apenas componentes segundo y, podemos escrever: SFy = T' - Q = 0 ... [eq. 3] donde Q = T' = T ... [eq. 4] já que, como foi mencionado previamente, T’ e T são iguais em valor. A tensão na corda é então igual a Q, como se pode esperar em equilíbrio. Considerando o bloco retangular agora como um corpo isolado, como está na ilustração [2a], e escrevendo as equações para o equilíbrio das forças aplicadas a este objeto, obtemos: SFx = T - Fat = 0 e SFy = N - P = 0 ... [eq.5] Nestas equações, Q pode ser considerado como dado e sabe-se que T é igual a Q, da [eq. 4]. Nós estamos então confrontando-nos com um grupo de duas equações simultâneas as quais podem ser resolvidas para as duas incógnitas Fat e N, para dar: Fat = T = Q e N = P ... [eq. 6] A
força de atrito é igual ao peso suspenso Q, e o valor da
força normal N que o plano de suporte exerce no bloco
sustentado é simplesmente P, o peso do objeto sustentado. O
que comentamos baseando-nos nas ilustrações [2a],[2b]
é justamente o que está ocorrendo na ilustração [1a],
onde Q = Q1, T = T1 e Fat =
Fat1 . O sistema ainda está em equilíbrio (estático), embora esteja no limite extremo no qual o equilíbrio pode ser mantido pela força de atrito, e o movimento é iminente. As equações de equilíbrio são as mesmas de antes, efetuando-se apenas substituição das legendas, e teremos: Fat2 = Fat máx. = me.N = T2 e T2 = Q2 ... [eq. 7] Mas, já que N = P (equilíbrio segundo y), é evidente que também Q2 = me.P. Se o peso suspenso exceder este valor, o equilíbrio não pode ser mais mantido e o objeto “quebra as arestas” e desliza com aceleração não nula ao longo da direção y. Existe
ainda um outro modo segundo o qual o sistema pode estar em equilíbrio.
Se um valor adequado Q3 para o peso suspenso for
selecionado, a tensão na corda flexível será suficiente para
equilibrar a força de atrito cinético que surge quando o objeto
sustentado desliza com velocidade constante ao longo da superfície
de apoio, como é ilustrado na [1c].
Já que o sistema ainda está em equilíbrio (dinâmico) sob estas
circunstâncias, as equações de equilíbrio geral [eq. 5] são
ainda aplicáveis, com a condição de que Q seja substituído
por Q3 , Fat por Fat3
= mc.N
e T por T3. Fat3 = Fat cin. = mc.N = T3 e T3 = Q3 ... [eq. 8]
Também, já que N = P, é fácil ver que Q3 = mc.P. Já que mc é menor que me, Q3 será menor que Q2, como é dado por [eq. 7], requerida para superar a força máxima possível de atrito estático e mover o sistema do repouso. Portanto, é possível também que o sistema esteja em equilíbrio, em repouso, quando o peso suspenso for Q3. Existem, então, dois estados de equilíbrio 'críticos' possíveis, um no qual o sistema está em repouso, aparecendo como um caso especial da situação ilustrada em [1a] e discutido em [1b] juntamente com as (eq. 5) e no qual Q2 tem o valor me.P; e um outro no qual o sistema desliza à direita com velocidade constante [1c], como foi discutido logo acima, onde Q3 = mc.P. Para
se efetuar uma transição entre estes dois estados, deve ser
aplicada uma força externa. Por
exemplo, se o sistema estiver inicialmente em repouso (por exemplo,
como em [1a] substituindo-se Q1
por Q3), pode ser posto em movimento por um toque
de mão (ou dar 'piparotes' sobre a mesa de apoio), e então
persistirá em movimento com velocidade
constante até que seja parado por uma outra força aplicada
externamente.
Continuemos.
Se o peso do corpo suspenso exceder o
valor de Fat máx. então
a força T exercida pela corda flexível será maior que a
força máxima de atrito que possa existir na interface de atrito.
Sob estas circunstâncias, a soma das componentes segundo x
das forças que atuam sobre o objeto sustentado possivelmente não
pode ser zero, mas a soma deve, ao invés disso, dar uma força
resultante total ao longo da direção x. O corpo não
estará mais em equilíbrio e, de acordo com a segunda lei de
Newton, deverá experimentar uma aceleração ao longo do eixo x em
resposta à força resultante. Por ora,já que estamos interessados primariamente em conhecer como os sistemas em equilíbrio se comportam, nós não nos dedicaremos à discussão sobre o que acontece quando o sistema não está mais em equilíbrio, e retornaremos a este assunto em outro trabalho, na Sala de Dinâmica. |
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