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Fluidostática Prof.
Luiz Ferraz Netto Introdução Superfície
livre
Da propriedade enunciada decorre a seguinte:
Do fato, imaginemos por absurdo que a superfície livre de um líquido em equilíbrio absoluto sob a ação da gravidade seja não horizontal, como se representa na ilustração a seguir. Junto à superfície livre, um elemento de volume do líquido está sujeito à força de gravidade P e à força N aplicada pelo líquido subjacente (sendo N normal à superfície livre, no ponto ocupado pelo elemento de volume em questão).
Para que a força N seja equilibrante de P é preciso que ela seja dirigida verticalmente para cima; portanto a superfície livre é horizontal. Esta propriedade não se aplica à superfícies livres exíguas, nas quais adquirem importância as forças de tensão superficial; a propriedade também não se aplica à superfícies livres de líquidos em equilíbrio relativo (referencial acelerado). A superfície livre da água em equilíbrio absoluto em um copo ou em uma piscina pode ser considerada plana. Em mares e oceanos a superfície livre acompanha a curvatura da superfície do geóide. Em qualquer caso, a superfície livre é, em cada ponto, perpendicular ao fio de prumo no mesmo ponto. Nível de bolha contém, como peça essencial, um tubo de vidro selado, quase completamente cheio de um líquido bem fluido (álcool, éter); a “bolha de ar" é saturada com o vapor do líquido. Mais leve do que o líquido, a bolha sobrenada.
Lei
de Stevin g = d.g ...(01) Imaginemos no fluido uma superfície tubular, rígida e fixa T, obturada por êmbolos, como na figura:
Seja h a diferença de nível entre os êmbolos. Deslocando-se lentamente os êmbolos de AB para A'B' e de CD para C’D’, é nula a soma dos trabalhos das forças externas; estes trabalhos são realizados pela força de gravidade, e pelas forças Fo e F aplicadas pelo ambiente sobre os êmbolos; o trabalho das forças Ft aplicadas pelas paredes do tubo é nulo. Quanto à gravidade, o trabalho se determina tendo em vista que nada se modifica no espaço A’B’DC , o deslocamento dos êmbolos produzindo o mesmo efeito como se a porção fluida ABB’A' fosse deslocada para CDD’C’ (observe bem esse comportamento!) ; resulta:
Para as forças Fo e F os trabalhos são: Dto
= Fo.Dlo
= po.Ao.Dlo
... (03) Somando membro a membro as igualdades (02), (03) e (04), resulta: 0 = Ao.Dlo.d.g.h + po.Ao.Dlo - p.Ao.Dlo do se conclui: p = po + d.g.h ou p = po + g.h ...(05) É esta a Equação Fundamental da Hidrostática, que simboliza a Lei de Stevin (1548 - 1620):
Nenhuma hipótese foi feita com respeito à forma do vaso que contém o fluido e à forma do tubo imaginário T; portanto a tese se aplica, seja qual for a forma do vaso.
Princípio
de Pascal Se a pressão po sofrer uma variação tornando-se po' , a pressão em um ponto qualquer torna-se p’= po' + g.h ...(06) Subtraindo membro a membro as igualdades (06) e (05), resulta: p' - p = po' - po ...(07) Esta igualdade simboliza o Princípio de Pascal para fluidos pesantes:
As teses apresentadas aplicam-se também a fluidos compressíveis, em particular gases, contanto que as diferenças de nível sejam suficientemente pequenas para que a densidade possa ser considerada constante em relação ao nível. Sifão
Admitamos inicialmente que o sifão esteja fechado em C e completamente cheio de líquido em equilíbrio (sifão 'escorvado'). A pressão do líquido em C é p = pat + d.g.(y-z), portanto p > pat. Quando abrirmos o sifão em C, o equilíbrio não pode perdurar; o liquido se escoa da região de pressão maior (dentro do tubo) para a de pressão menor (fora do tubo). A altura y deve ser inferior a pat/(d.g) sob pena de resultar líquido tenso (pressão absoluta negativa) com risco de formação de uma bolha de vapor; esta interromperia a coluna líquida e assim faria cessar o escoamento (veja Exemplo 2). Exemplo 1 - Um caçador submarino mergulhou até a profundidade de 10 m em água do mar com densidade absoluta igual a 1030 kg/m3. A pressão atmosférica é 101 x 103 pascal e a aceleração local da gravidade é g = 9,80 m/s2. O mergulhador suporta a pressão absoluta: p = pat + d.g.h = 101x103 + 1030x9,80x10 =202 x 103 pascal que corresponde a pressão efetiva pe = p - pat = 101 x 103 pascal. O mergulhador fica submetido à pressão dupla da pressão atmosférica. Medição
de pressões mediante colunas líquidas Apresentaremos aqui o barômetro de Torricelli; as descrições dos demais instrumentos podem ser vistas no artigo Barômetros e Manômetros, nesta Sala 07.
A superfície livre do mercúrio contido na cuba está sujeita à pressão atmosférica p. Sendo g a aceleração local da gravidade, d a densidade do mercúrio e h o desnível entre as superfícies livres do mercúrio no tubo e na cuba (coluna “local” de mercúrio), a lei de Stevin nos dá: p = d.g.h ...(08) Denominaremos coluna normal de mercúrio a coluna de mercúrio que exerce a mesma pressão, sendo supostas normais a gravidade e a densidade absoluta do mercúrio (gn = 9,806 65 m/s2 ; dn = 13 595,1 kg/m3, densidade do mercúrio a 0 oC), temos pois: p = dn.gn.H ...(09) [Observe! p = (constante).H] Por exercerem pressões iguais, as colunas local e normal são ditas equivalentes. Geralmente tem-se h diferente de H, sendo que a altura h da coluna local depende de p, d e g, ao passo que a altura H da coluna normal equivalente só depende de p (pois dn e gn são fixados por convenção). O confronto das igualdades (08) e (09) nos dá a altura H da coluna normal equivalente à coluna local de altura h:
Unidades
incoerentes de pressão (a)-
Denomina-se “torricelli” (símbolo
Torr) ou “milímetro de mercúrio”
(símbolo mm de mercúrio, ou mm de Hg) a pressão exercida por uma
coluna normal de mercúrio, de altura igual a um milímetro. O número
que mede H em milímetros é igual ao número que
mede p em milímetros de mercúrio. De maneira análoga
definem-se o "centímetro de mercúrio" (cm de
Hg), o "metro de água" (m de ág.), e outras unidades
que tais. 1 mm de
Hg = 1 Torr = 13 595,1 kg/m3
x 9,806 65 m/s2 x 10-3 m ...
(definição) = 133,322 P ...(11) (b)- Denomina-se “atmosfera normal” (símbolo At ou atm, a não ser confundido com o símbolo at , que simboliza a atmosfera métrica ou técnica equivalente a 1 kgf/cm2) a pressão equivalente a 760 Torr: 1 At = 1 atm = 760 Torr = 101 325 Pa ...(12) A atmosfera normal (atm) é ligeiramente superior à atmosfera técnica métrica (at): 1 At = 1 atm = 1,033 23 at = 1,033 23 kgf/cm2 ...(13) Entende-se por “pressão normal” a pressão equivalente a uma atmosfera normal (pN = 1 atm) Exemplo 2- Admitindo por hipótese que a água não emita vapor, determinar a maior altura a qual ela pode ser elevada mediante uma bomba aspirante idealmente perfeita. Supõem-se dados: densidade absoluta da água (d), aceleração local da gravidade (g) e pressão atmosférica (pat).
Equilíbrio
de líquidos não miscíveis
Vasos
comunicantes O problema dos vasos comunicantes consiste em relacionar entre si os níveis relativos das superfícies de separação entre fluidos, as densidades dos fluidos e as pressões exercidas nas superfícies livres. Elucidemos o assunto mediante um exemplo, considerando o sistema abaixo esquematizado e suposto em equilíbrio absoluto sob a ação da gravidade.
Tracemos o plano horizontal p que contém a mais baixa das superfícies de separação entre fluidos do sistema (no caso da figura, esta superfície é Sd). A superfície Sd está sujeita a pressões p'd e p'e em suas faces, e para o equilíbrio é necessário que seja: p'd = p'e ...(14) A pressão em Se é: p"e = pe + de1.g.he1 ...(15) A pressão que os líquidos do ramo esquerdo exercem em Sd é: p'e = p"e + de2.g.he2 ... (16) donde, em vista da igualdade (15), resulta: p'e = pe + de1.g.he1 + de2.g.he2 ... (17) A pressão que os líquidos do ramo direito exercem em Sd é: p'd = pd + dd.g.hd ... (18) Em vista da condição de equilíbrio (14), podemos escrever a relação procurada: pe + de1.g.he1 + de2.g.he2 = pd + dd.g.hd ... (19) Estendendo a conclusão a qualquer sistema de líquidos em equilíbrio em dois vasos comunicantes, podemos escrever:
Quando o sistema compreende mais de dois vamos comunicantes, a conclusão se aplica a cada par deles. Em
vasos comunicantes que contêm um único líquido suposto
homogêneo, este se eleva ao mesmo nível em todos os ramos desde
que a pressão na superfície livre do líquido seja a mesma em
todos. Quando não se usam bombas de recalque, o abastecimento de
água através de redes hidráulicas urbanas se baseia no principio
dos vasos comunicantes. Exemplo 3 -
Exemplo 4 -
Empuxo
em superfícies planas
Num elemento de superfície de área DA o líquido exerce empuxo de intensidade:
Têm-se: SDA = A , e Sh.DA = momento estático da superfície S em relação à superfície livre do líquido; este último é igual ao produto da área A pela distancia de seu centróide à superfície livre do líquido, isto é: S h.DA = hG.A ...(23) Podemos
escrever
:
Fres.= (pat + g.hG).A
...(24)
O empuxo resultante Fres. aplica-se em um ponto C denominado “centro de empuxo” da superfície em questão. Quando a superfície S é horizontal, o centro de empuxo coincide com o centróide; quando a superfície é oblíqua, o centro de empuxo situa-se abaixo do centróide. Paradoxo
hidrostático
Sendo
pat a pressão atmosférica, d a
densidade absoluta do liquido e g a aceleração local
da gravidade, a pressão que o líquido exerce no fundo do vaso
é: p = pat + d.g.h . O
produto h.A nos dá o volume de líquido que cabe no
vaso cilíndrico imaginário de base A e altura h (indicado em
linha tracejada); portanto o empuxo no fundo é igual ao peso do
líquido que preenchesse aquele vaso imaginário. Assim sendo, o
empuxo no fundo é maior do que o peso do líquido realmente
presente, o que à primeira vista pode parecer absurdo. Aparelho de HALDAT - Um suporte S mantém fixo um cilindro C ao qual se adapta por cima um vaso V (parafusado no cilindro), por baixo há um disco D (simplesmente encostado). O disco está suspenso ao travessão de uma balança. O vaso V pode ser substituído por outros de formas diferentes e alturas iguais.
Exemplo 5 - Em uma piscina completamente cheia uma das faces laterais é um retângulo de base b = 10,0 m e altura h = 2,0 m. Adotar g = 10,0 m/s2. Determinar o empuxo efetivo na face considerada. O centróide da face fica à profundidade h/2 = 1,0 m. A pressão efetiva no centróide é pG = d.g.h/2 = 1 000 x 10,0 x 1,0 (S.I.); logo, pG = 10,0 x 103 Pa. A área da face é A = 20,0 m2. A intensidade do empuxo efetivo é: F = pG.A = 10,0 x 103 x 20,0 = 2,00 x 105 N ~= 20 tf Pressão
atmosférica
Por ser relativamente simples a medição da pressão atmosférica p , a equação precedente (26) e outras mais perfeitas se prestam excelentemente para a determinação de altitudes; o processo é chamado nivelamento barométrico. Levando em conta a temperatura absoluta T do ar, aplica-se com boa aproximação a formula: h = 29,4.T.(Dp/p) ...(27) sendo h o desnível entre dois pontos nos quais a diferença das pressões é Dp ; p e T são pressão e temperatura medias; h pode atingir alguns quilômetros.
Equilíbrio
relativo Exemplo 6 - Um carro-tanque, parcialmente cheio de um líquido homogêneo, percorre com aceleração constante a um trecho reto e horizontal de estrada, Determinar o ângulo j que a superfície livre do líquido, suposto em equilíbrio, forma com o horizonte.
A força m.a agente no corpúsculo (cuja massa é m) é resultante da força de campo m.g (de gravidade) e da força de contato N (do líquido subjacente), Com |a| = a , a poligonal vetorial nos dá: tgj = m.a/m.g portanto tgj = a/g Em movimento uniforme (a = 0) resulta j = 0 (superfície livre horizontal). Exemplo 7 - O carro-tanque do exercício anterior é abandonado em um plano inclinado perfeitamente liso e que forma com o horizonte o ângulo q . Determinar o ângulo j que a superfície livre do líquido forma com o horizonte, em sua configuração de equilíbrio (relativo).
Projetando as forças sobre uma reta de maior declive do plano, obtemos: m.g.cos(90o
- q)
- N.sen(q
- j)
= m.a Isto é: A superfície livre do líquido é paralela ao plano inclinado. Referencial
acelerado - forças de inércia Em relação ao vaso, o fluido se comporta como se a aceleração da gravidade fosse g' = g - a , sendo g a aceleração local da gravidade, a a aceleração do vaso em sua translação retilínea, ambas em relação a Terra. Por exemplo, deixa-se cair livremente uma lata contendo água, fundo em baixo, Despreza-se a resistência do ar. A aceleração do sistema é a = g , portanto em relação a lata a água se comporta como se a aceleração da gravidade fosse g’ = 0 . Conclui-se que a pressão da água é a mesma em todos os seus pontos, igual a pressão atmosférica, Se a lata fosse furada no fundo e nos flancos, constataríamos que a água não se escoa pelos furos, Faça a experiência! Retomemos aos exemplos precedentes, adotando referencial fixo no vaso. Exemplo 8 - No exemplo 6, com referencial fixo no vaso o corpúsculo P se apresenta em repouso sob a ação das três forças esquematizadas em (a).
A força de contato N equilibra a resultante m.g' das forças de gravidade m.g e de inércia -m.a, conforme o esquema (b). Em relação ao vaso, o líquido se comporta como se a força de gravidade fosse m.g' e a aceleração da gravidade fosse g' = g - a ; resulta novamente: tgj = a/g .
No exemplo 7 , o líquido se comporta, em relação ao vaso, como se a força de gravidade fosse m.g' = m.g - m.a com |a| = g.senq ; resulta g' perpendicular ao plano inclinado. Portanto a superfície livre do líquido, perpendicular g' , é paralela ao plano inclinado. Outro caso interessante é o de um vaso que gira uniformemente em torno de um eixo vertical.
Uma partícula P na superfície livre do líquido contido apresenta-se em equilíbrio relativo sob a ação do peso m.g, da força centrifuga de inércia -m.a e da força de conta to N exercida pelo líquido subjacente; esta é normal a superfície livre em P. A superfície livre toma a forma de um parabolóide de revolução tanto mais aprofundado quanto mais veloz for a rotação. O fenômeno encontra aplicação na medição de velocidade angu lar, por exemplo em centrífugas; o vaso é um tubo de vidro coaxial. com o eixo da centrífuga e solidário a ele; ao nível do vértice do parabolóide lê-se a freqüência de revolução do eixo, numa escala gravada no tubo. A seguir: Impulsão e Lei de Arquimedes (Parte 4)
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