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Fluidostática
(Tensão
superficial - Parte 5)
Forças
de Coesão e Adesão
Sólidos e líquidos
resistem a esforços de tração (ilustração abaixo, à
esquerda); este fato da experiência revela forças de atração
entre os corpúsculos (átomos ou moléculas) que compõem o corpo
ensaiado; mesmo em gases e vapores, existem débeis forças de
atração entre os corpúsculos (efeito Joule -Thompson). Tais
forças de atração exercidas entre corpúsculos da mesma
espécie química são denominadas forças
de coesão.
Esforços
de tração crescentes aplicados a um corpo alongam-no
até rompe-lo; isto demonstra que as forças de coesão diminuem
rapidamente à medida que aumenta a distância entre os
corpúsculos.
Forças de atração entre corpúsculos de espécies químicas
diferentes são denominadas forças
de adesão.
Por
exemplo, a água adere
fortemente a uma superfície de vidro perfeitamente desengordurada.
Na experiência ilustrada acima, à direita, uma carga
suficientemente grande no prato à direita determina o levantamento
da lamina de vidro; a inspeção desta revela estar molhada a face
inferior. Portanto, o levantamento do vidro se dá com superação
das forças de coesão, sem vencer as de adesão; assim constatamos
que a adesão entre a água e o vidro é mais intensa do que a
coesão da água.
Cola
e madeira, solda de estanho e fios de cobre, são
exemplos de substâncias entre as quais se desenvolvem forças de
adesão consideráveis.
A
esforços de compressão a matéria resiste indefinidamente,
portanto, desenvolvem-se entre os corpúsculos forças crescentes
de repulsão quando eles são aproximados mais e mais. As forças
exercidas entre as moléculas são denominadas forças
de Van der Waals.
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Do exposto
depreende-se que as forças de Van der Waals variam em
função da distância que separa as partículas da maneira
representada no gráfico ao lado.
As forças entre os corpúsculos são nulas quando a
distância é ON, ou
quando a distância é muito grande relativamente a ON.
As forças são de repulsão quando a distância é
inferior a ON; elas
são de atração quando a distância é superior a ON,
máxima quando a distância é OM.
Para distâncias maiores do que OM
as forças de atração decaem acentuadamente, tornando-se
desprezíveis a partir de certa distância OZ
cuja ordem de grandeza é algumas vezes OM. |
Dado
um corpúsculo X, denomina-se esfera de
ação molecular à esfera de centro X e raio OZ. O
corpúsculo X aplica forças sobre todos os demais corpúsculos
situados dentro da esfera de ação, e sofre
as correspondentes reações. Entre o corpúsculo X e os
corpúsculos fora de sua esfera de ação as forças despertadas
são desprezíveis. O raio de ação molecular é da ordem de 15x10-8
cm (Quincke).
Tensão
superficial
Seja S a superfície
livre de um liquido, em equilíbrio com o seu vapor, conforme
ilustramos abaixo.
Uma
molécula A cuja esfera de ação é toda interna ao liquido
aplica/experimenta, por parte das moléculas vizinhas forças de
coesão agindo igualmente em todas as direções, e cuja resultante
é nula. Numa molécula B da qual a esfera de ação
apresenta uma calota fora do líquido, as forças de coesão
determinam uma resultante dirigida para dentro do líquido, pois
não existem forças de coesão equilibrantes daquelas exercidas
pelas moléculas da esfera de
ação contidas no segmento esférico simétrico ao que fica fora
do líquido (em relação ao centro). Esta força resultante de
coesão é máxima para moléculas que, como C, se situam na
própria superfície livre.
Estas
forças de coesão tendem a arrastar as moléculas superficiais
para o interior do líquido; elas são equilibradas por forças de
repulsão aplicadas pelas moléculas subjacentes, e que assim
sustentam as moléculas superficiais. A pressão com que as
moléculas superficiais comprimem as subjacentes, devido às
forças de coesão, é denominada pressão
de coesão.
No
campo das forças de coesão Fc, cada molécula
superficial possui energia potencial, igual ao trabalho que
a força Fc realiza quando a molécula é levada da
superfície para o interior do líquido, e igual também ao
trabalho que um operador deve realizar para levar uma molécula do
interior para a superfície livre.
Ao
deslocar-se uma molécula do interior para a superfície livre,
resultam dois efeitos simultâneos, a saber: aumenta a superfície
livre do líquido, e aumenta a energia potencial de coesão das
moléculas superficiais. Como sabemos, toda
configuração de equilíbrio estável corresponde a um mínimo
de energia potencial do sistema. Considerando só o campo
das forças de coesão, conclui-se daí que a superfície livre de
um líquido tende a adquirir a forma em que, devendo
ser mínima a energia potencial de coesão, é mínima a sua área.
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Por
exemplo, na ausência de forças perturbadoras, as gotas
líquidas adquirem forma esférica, que é a de menor área
superficial para um volume dado (experiência da gota de
óleo de Plateau). |
Compreendemos
assim que as forças de coesão originam na superfície do liquido
forças tangenciais que agem no sentido de contrair a superfície
livre; esta se comporta como membrana contráctil.
Conforme
ilustramos abaixo, seja AB um segmento de reta na superfície livre
de um líquido. Em cada ponto deste segmento a película
superficial exerce uma força na própria superfície e normal ao
segmento; entende-se por tensão
superficial, T
, a força de coesão superficial por unidade de comprimento da
linha na qual ela se aplica:

As
unidades de tensão superficial obedecem a fórmula geral:
Unidade
de tensão superficial = unidade de força / unidade de comprimento
...(02)
Podem-se
adotar as unidades dina/centímetro (d.cm-1, C.G.S),
newton/metro (N.m-1, S.I), quilograma-força/metro
(kgf.m-1, técnico) e outras análogas. A equação
dimensional é: [T]
= M.T-2 ...(03).
A
tensão superficial é também denominada coesão
específica ou constante de
capilaridade; ela depende da natureza do líquido; via de
regra, ela diminui a medida que a temperatura se eleva; ela se
anula à temperatura crítica.
| Tensão
superficial de alguns líquidos, a 20oC |
Água
Mercúrio
Etanol
Acetona |
0,0722 N/m
0,4650 N/m
0,0223 N/m
0,0237 N/m |
Uma
precaução necessária relativa à definição de tensão
superficial é a seguinte: um líquido contido num recipiente
apresenta uma única superfície livre (essa foi a situação da
definição acima); uma membrana líquida, --- tal como um filme
sobre um quadro feito de arame fino ou uma bolha de sabão, ---
apresenta duas superfícies livres. Tome esse cuidado ao realizar
experimentos sobre tensão superficial.
A
tensão superficial e as forças que ela determina se manifestam
sugestivamente em diversas experiências; exemplifiquemos (veja
mais experimentos nessa Sala 07):
Pequenos
insetos podem caminhar na superfície da água.
Uma agulha de coser, uma lamina de gilete, quando depositadas
cuidadosamente na superfície da água, são sustentadas por ela.
O pano de um guarda-chuva detém a água porque a tensão
superficial se opõe a insinuação da água nos poros do tecido.
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Numa
argola de arame amarra-se um pequeno laço de linha
flexível. Com água de sabão produz-se uma película
líquida no plano da argola, e contendo o laço. Com um
alfinete, fura-se a lâmina líquida no interior do laço;
este é então distendido igualmente para todos os lados,
adquirindo forma perfeitamente circular. |
Consideremos
um arame ABCD e um arame MN com argolas nas extremidades (abaixo
ilustrado) e podendo deslizar ao longo dos dois lados paralelos AB
e CD (convém fazer l = BC ~= 3 cm). Com água de sabão
constitui-se uma película no retângulo BCNM. Mantendo-se o
sistema em um plano vertical com MN horizontal, as forças de
atrito nas argolas M e N praticamente se anulam.
Se o arame MN for suficientemente leve as forças de tensão
superficial o levantam até a coincidência com BC.
Mediante uma força conveniente F (que inclui o peso do arame MN)
equilibra-se a resultante Fc das forças de
coesão que a membrana líquida aplica ao arame MN:
F = Fc.
Esta membrana apresenta duas faces (veja precaução destacada
acima), portanto:

A
película superficial dos líquidos é impropriamente
comparada a uma película elástica; de fato, as forças de
contração agentes em uma película elástica crescem com a
distensão desta, ao passo que as forças de tensão superficial
não dependem da distensão da superfície. Assim, a comparação
só é legítima quanto à tendência de contração; nada mais, as
leis de força são diferentes. Recorrendo ao sistema ilustrado
acima, a mesma força F que equilibra a barra móvel na
posição MN, também a mantém em equilíbrio na posição M’N’.
Se
permitirmos que a barra MN se desloque para a posição BC, a
resultante Fc das forças de coesão agentes
na barra realiza certo trabalho t
que mede a energia potencial Ep da película BCNM:
t
= Fc.MB portanto Ep =
T.2.l.MB
ou Ep = T.2A
sendo
A a área de cada face da película líquida. A energia potencial
de coesão por unidade de área é:

Em
palavras:
A
tensão superficial T,
mede a energia potencial de coesão por unidade de área da
superfície livre.
Lembre-se: para cada unidade de área tem-se: Ep = T.A.
Consideremos
uma bolha esférica de raio R
(por exemplo, uma bolha de água de sabão); a pressão interna
apresenta um excesso pe (pressão
efetiva) em relação à pressão externa, assim impedindo a
contração da bolha.
Secionando
a bolha por um plano diametral, realizamos uma bolha hemisférica
de raio R e na qual reina a mesma pressão efetiva pe
= po - p , onde po é a pressão interna e p
é a pressão externa (geralmente, a pressão atmosférica).
O plano diametral encontra-se em equilíbrio sob a ação de dois
sistemas de forças antagônicas, a saber: as forças de pressão
efetiva devidas ao gás aprisionado, e as forças de tensão
superficial devidas às duas faces da lâmina líquida. Tem-se
então:
T.2
x 2pR
= pe.p.R2
portanto 4T
= pe.R ou pe = po
- p = 4T/R
...(06)
A
bolha precedente contém um fluido gasoso e situa-se em ambiente
gasoso, por isso ela tem duas faces com tensão superficial.
Pelo contrário, uma bolha gasosa no seio de um líquido só possui
uma face com tensão superficial; na equação (06) o coeficiente
4 deve ser substituído por coeficiente 2. Chamamos
ainda sua atenção: para a bolha gasosa no interior de um
líquido, a pressão p é a pressão hidrostática
naquela profundidade.
Esta
equação (06) simboliza um fato quiçá inesperado:
Quanto
maior for a bolha, tanto menor é a pressão efetiva
do gás aprisionado, mantida a tensão superficial.
Realmente,
se unirmos através de um pequeno tubo, um grande bolha de sabão
(raio R1 e pressão interna p1) com uma bolha
menor (raio R2 e pressão interna p2),
teremos:
para
a bolha grande: p1 - p = 4T/R1
, e para a bolha pequena: p2 - p
= 4T/R2 ,
donde:
p2 - p1 = 4T(1/R2 - 1/R1),
que é positivo (p2 - p1 > 0); então, p2
pressão no interior da bolha pequena supera p1; este é
um estado instável, e a pequena bolha se contrai enquanto que a
grande fica maior ainda!
Tensão
interfacial
A noção de tensão
superficial aplica-se também à superfície de separação entre
duas substancias quaisquer, sendo então denominada tensão
interfacial. Ao contrário da tensão superficial de um
liquido, a tensão interfacial de um par de substâncias pode ser
negativa; neste caso a energia potencial de coesão diminui à
medida que a área da interface aumenta, e este aumento se produz
espontaneamente por ser a adesão entre as moléculas mais intensa
do que a coesão entre elas. Por exemplo, certos óleos minerais
flutuando sobre água tendem a espalhar-se até constituírem uma
película monomolecular (o que sugere um processo para medir o
número de Avogadro).
Para
muitos fins práticos é desejável que as tensões superficial e
interfacial sejam tão baixas quanto possível; é o caso dos lubrificantes
(que devem espalhar-se por todos os pontos das superfícies
deslizantes); dos detergentes (que
devem insinuar-se entre duas substancias para separar uma da
outra); de drogas medicinais.
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AÇÃO DETERGENTE
As tensões interfaciais entre água de sabão e o sólido
ou a gordura são negativas; portanto as superfícies de
contato entre a água de sabão e o sólido ou a gordura
tendem a aumentar; assim a água de sabão se insinua entre
a gordura e a superfície do sólido, lavando esta. |
Menisco
Consideremos um líquido em contato com um sólido. Junto à
superfície do sólido, o líquido apresenta uma superfície livre
geralmente curva, denominada menisco.
Na
linha de contato entre o sólido e a superfície livre do líquido,
o plano tangente ao menisco forma com a superfície do
sólido um ângulo q
denominado ângulo de contato para o par de substancias em
questão e que, por convenção, se mede dentro do líquido.
Dada
uma molécula do líquido na interface, longe do menisco,
representamos por C e A respectivamente
as forças resultantes de coesão e de adesão; demonstram-se as
teses simbolizadas nas fórmulas da ilustração acima.
Capilaridade
As forças de tensão
superficial determinam efeitos peculiares em tubos estreitos (ditos
“tubos capilares”) e, de um modo mais geral, em quaisquer
espaços estreitos; tais efeitos são denominados fenômenos
de capilaridade. Por exemplo, a absorção de líquidos
mediante tecidos fibrosos, e o funcionamento das mechas de
lampiões a querosene, devem-se a tais fenômenos; a circulação
de líquidos em tecidos orgânicos (seiva em vegetais) também é
grandemente influenciada por eles.
Vamos
estudar dois fenômenos capilares, a saber: a ascensão e a
depressão de capilaridade, e a formação de gotas.
Lei
de Jurin
Consideremos um tubo capilar de raio r , em posição
vertical e tendo a extremidade inferior imersa em um liquido de
densidade absoluta d e tensão superficial T
. Seja q
o ângulo de contato entre o líquido e o material que constitui o
tubo. Verifica-se que o nível do menisco dentro do tubo se
apresenta acima ou abaixo do nível do liquido externo ao tubo,
conforme seja q
inferior ou superior a 90o.
Para
fixar idéias, admitamos que seja q
< 90o. Seja Dl
um segmento elementar da linha de junção entre o menisco e o
tubo; nele a tensão superficial exerce uma força de
intensidade T.Dl
(ilustração acima), que pode ser decomposta segundo a horizontal
e a vertical. As componentes horizontais se equilibram duas a duas,
e as verticais admitem uma resultante dirigida para cima e de
intensidade:
F
= ST.Dl.cosq
= T.cosq
SDl
= T.cosq.2pr
Esta
resultante sustenta a coluna líquida de altura h, portanto ela
equilibra o peso da coluna, que é:

Lei
de Jurin: A ascensão ou depressão de capilaridade é inversamente
proporcional ao diâmetro do tubo.
A
grandeza h representa ascensão capilar quando
positiva, depressão capilar quando negativa.
Nota:
A água molha bem o vidro; neste caso podemos admitir que q
= 0o ,
de modo que, para a água pura podemos por: h = 2.T/r.d.g
.
Lei
de Tates
Consideremos um líquido de tensão superficial T,
que se deixa escoar lentamente pelo bico de uma pipeta de raio r ;
assim forma-se uma gota que aumenta de volume ate destacar-se do
bico.
A
separação da gota dá-se quando seu peso superar a resultante das
forças de tensão superficial que a sustentam; e que se exercem na
periferia do bico da pipeta:
P
= 2pr.T
Lei
de Tates: O peso da gota é proporcional à tensão superficial e
ao diâmetro do tubo.
Nota
Na parte-3 de nossa
Fluidostática, Equilíbrio de fluidos pesantes, apresentamos uma
'primeira explicação' para o sifão a partir da Lei de Stevin, ou
seja, com o auxílio de uma diferença de pressão. Após a
conceituação das forças de coesão, na abertura dessa parte-5, a
Nota em questão faz-se necessária.
Vamos
repetir o experimento do sifão, usando agora mercúrio em ambiente
com ar rarefeito. Como a pressão do ar sobre o recipiente é menor
que a pressão exercida pela coluna de líquido, ela não pode mais
ser responsável pelo funcionamento. Todavia, o mercúrio corre
livremente pelo sifão!
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O
processo é parecido ao do suspensor de corrente aqui
ilustrado.
Neste a diferença de pesos ocasiona a perturbação do
equilíbrio. |
A
resistência à ruptura do mercúrio (forças de coesão) é
importante para o processo.
Nos gases não há resistência à ruptura, mas por outro lado, um
esforço de expansão. Por esse motivo um sifão a gás não
funciona no vácuo. Um sifão líquido trabalha também sem
pressão do ar. O líquido deve, no entanto, estar completamente
livre de bolhas de gás. Em água comum este não é o caso e, para
usá-la devemos 'fervê-la e refervê-la'. Na água comum e outros
líquidos formam-se bolhas nos filamentos de líquidos, que contém
ar, rompendo-as. Nos experimentos de laboratório e aqueles do
dia-a-dia, usando sifão, a pressão externa (normalmente a
pressão atmosférica) do ar impede este rompimento, e protege, em
conjunto com o peso das diferentes alturas de líquido, permitindo
o funcionamento.
Veja
nessa Sala 07: Determinação experimental da
tensão superficial.
Segue:
Mistura de Gases (parte 6)
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