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Interpretando
a pressão
Prof.
Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
As
linguagens
Para os nossos grosseiros sentidos, toda a matéria é contínua: não
conseguimos discernir nem falhas nem parcelas que a constituem. Isto é
particularmente verdade para os fluidos comuns como o ar ou a água. Apesar
disso, a hipótese de que a matéria é, em última análise, discreta, a
hipótese atômica (ou molecular) tem tido muitos bons seguidores. E, lá no
fundo, o apelo de tais teorias não é de estranhar; afinal, nós também
somos feitos de átomos. Isso não significa que sejamos muito pequenos: o
significado etimológico do termo 'átomo', do grego átomos, é
indivisível. Nem nós, nem os átomos, podemos ser divididos, pelo menos sem
perda daquilo que nos caracteriza: se cortarmos um homem ao meio, ele
dificilmente será o mesmo.
Apesar
da existência dos átomos ter sido acaloradamente debatida durante séculos,
foi apenas durante a primeira década do século XX que se conseguiram reunir
provas suficientes para silenciar os críticos, entre os quais se encontravam
alguns dos mais eminentes cientistas da época.
Nos
dias de hoje, qualquer pessoa que negue seriamente a existência dos átomos e
das moléculas (embora não seja estritamente indivisível, uma molécula é
um agregado mais ou menos estável de átomos) é qualificada ao mesmo nível
daqueles que ainda acreditam que a Terra é plana ou que o homem não esteve
na Lua. De certa forma, os críticos da hipótese molecular, num dado
contexto, tinham razão: por vezes, não é necessário, nem sequer
desejável, dar crédito ao fato de a matéria ser discreta. Para certos
objetivos, é mais fácil agirmos como se a matéria fosse contínua. A
densidade absoluta ou massa específica, por exemplo, é um desses casos.
Massa específica (d)
é função de ponto, definida como o limite da massa (Dm)
contida no elemento de volume (DV),
que contém o ponto P, quando esse volume tende a zero sempre contendo
o ponto P: d = limDV==>0
(Dm)/(DV)P
.
Ora, no modelo discreto, pode muito bem acontecer que não exista matéria
alguma ao redor de P e assim tais massas específicas seriam nulas!
Haverá
poucas pessoas que não tenham ouvido falar de moléculas. Infelizmente,
o que lhes chega aos ouvidos é quase sempre tão superficial e distorcido que
teria sido melhor nunca terem ouvido falar delas. Por vezes, um pouco de
conhecimento sobre determinado assunto é pior do que nenhum. Por exemplo,
adotando a interpretação contínua da matéria, não teremos outra
alternativa senão considerar que a pressão no interior de um gás resulta
dos empurrões mútuos das porções adjacentes
de um meio contínuo. Se, no entanto, mudarmos para a interpretação
molecular, é natural que se prolongue esta noção, isto é, que se considere
a pressão gasosa o resultado de moléculas de gás que se empurram
mutuamente.
Por mais atraente e divulgada que seja esta noção,
não deixa de ser falsa.
O erro deriva de partirmos de uma interpretação para a outra. Vou
exemplificar: erros de tradução, que são fonte de embaraços, não são
assim tão fora do comum em tradutores de uma língua para outra. Os conceitos
numa língua não têm necessariamente um conceito correspondente noutra. O
mesmo acontece com linguagens diferentes para descrever o mundo da física.
Quanto
a interpretação da pressão gasosa na linguagem do
contínuo, não há o que mudar, só pode ser aquela apresentada
(empurrões mútuos das porções adjacentes), mas, vamos explorar melhor a
forma como a segunda linguagem, a dos átomos e
das moléculas, descreve a pressão de um gás.
Interpretação
da pressão de um gás no modelo da matéria discreta
Mesmo depois de adotarmos o ponto de
vista molecular, somos confrontados com duas vertentes do conceito de pressão
de um gás: é, por um lado, uma quantidade mensurável (o que dá um enorme
'peso' ao conceito) e, por outro, uma propriedade do gás. Vamos considerar
cada vertente separadamente.
Consideremos
um gás num recipiente rígido. Mesmo num pequeno volume deste gás existe um
enorme número de moléculas: só para ter uma idéia, em 1 mm3 há
mais de 1000 bilhões delas (em condições normais). As moléculas que
colidem com as paredes do recipiente sofrerão uma alteração do momentum,
ou seja, de quantidade de movimento. O momentum, que é o produto da massa
pela velocidade, é uma grandeza vetorial. Portanto, mesmo que a magnitude
(valor absoluto da grandeza) da velocidade de uma molécula — com que
rapidez, independentemente da orientação que tome — não mude com a
colisão, o seu momentum muda: antes da colisão, ela movia-se indo
contra a parede e, após a colisão, afastou-se
dela.
A
segunda lei de Newton diz que um corpo não mudará o seu momentum, a menos
que sobre ele atue uma força. E, de acordo com a sua terceira lei —
"para cada ação existe uma reação igual e oposta", ou mais
rigorosamente, "nos sistemas inerciais as forças
aparecem aos pares" —, temos que, se a parede exerce uma força
sobre a molécula que colide com ela, esta exercerá também uma força igual
e oposta sobre a parede.
Devido
ao seu grande número e velocidade (à temperatura ambiente, a velocidade
média de uma molécula do ar é aproximadamente igual à de um projétil
saída de um fuzil), as moléculas colidem com a parede a uma freqüência
enorme: num milionésimo de segundo, cada centímetro quadrado de parede é
atingido por bilhões e bilhões de moléculas; e cada uma contribui um pouco
para a pressão, a força total que atua numa área independente da parede.
É esta a força que faz com que o líquido nos barômetros suba. A interface
líquido/gasoso é, no caso, a parede.
Note-se
que existe uma importante diferença entre o alvo (isto é, uma superfície) e
os projéteis (isto é, as moléculas de gás) que colidem com ele. O
intervalo médio entre as moléculas de um gás (à temperatura e pressão
normais) é cerca de dez vezes maior que num sólido ou num líquido.
Conseqüentemente, a densidade dos sólidos e dos líquidos é mil vezes maior
do que a dos gases; disso resulta que a freqüência com a qual as moléculas
de gás colidem umas com as outras não possa ser de forma alguma comparável
àquela com que colidem com uma superfície sólida ou líquida.
Na verdade, o ar pode ser tratado como um gás ideal, podemos também
chamá-lo de gás sem colisões; a própria
designação torna supérflua qualquer outra explicação. Não é que não
ocorram colisões entre as moléculas de gás ou que estas não sejam
importantes na determinação de algumas propriedades dos gases; trata-se
apenas de não serem decisivas para determinar certas grandezas pertinentes
como a pressão do gás. No que toca à pressão, as moléculas poderiam muito
bem não sofrer colisões alguma — umas com as outras, claro.
O
mesmo se passa com a temperatura. Dois gases com taxas de colisão
intermolecular muito diferentes (por exemplo, gases com densidades muito
díspares) podem encontrar-se à mesma temperatura.
Quando
se 'mede' a pressão de um gás, esta medição faz-se sempre em virtude da
interação de moléculas com uma superfície sólida ou líquida (por
exemplo, um manômetro ou um barômetro). Se estivermos apenas interessados na
medição da pressão, não é necessário dizer
mais nada.
Mas
qual o significado que devemos atribuir à pressão na perspectiva de uma
propriedade do próprio gás? Ou seja, como devemos interpretar a pressão no
interior de um gás como oposição à exercida na sua superfície comum de
contato com um líquido ou com um sólido?
As
dimensões de pressão são as de uma intensidade
de força por unidade de área [P = F/A], tal como as de um fluxo
de momentum, a taxa (no tempo) à qual o momentum é transportado ao
longo de uma unidade de superfície [j =(m.v)/A.t
= [m.(v/t)]/A = (m.a)/A = F/A = P].
Isto não é apenas uma coincidência. Lembramos que a pressão está
associada à rapidez à qual as moléculas de gás transferem momentum para
uma área unitária de uma superfície material na fronteira de um gás.
Imaginemos
agora um ponto no interior de um gás. As moléculas na vizinhança deste
ponto movem-se freneticamente em todas as direções, mas a sua quantidade
de movimento total é zero se o gás se encontrar em repouso: para cada
molécula com um determinado momentum existe outra com um momentum oposto.
Contrariamente ao que poderíamos esperar, o fluxo total
do momentum não é zero. Consideremos sobre uma direção qualquer, um
sentido escolhido arbitrariamente, ao qual associamos 'sentido positivo'(o
sentido oposto será indicado como 'sentido negativo'). Cada molécula tem um
componente do momentum, seja ele positivo seja negativo, ao longo desta
direção. As moléculas em movimento transportam as suas propriedades, uma
das quais é o momentum, para onde quer que vão; ou seja, as moléculas
transportam momentum. A razão pela qual o fluxo do momentum não é zero,
apesar de o ser o momentum total, é o fato de um dado momentum positivo
transportado para uma região ser equivalente a um momentum negativo
transportado para fora dessa região. Uma analogia simples pode ser: ficarmos
livres de uma dívida (uma saída de dinheiro negativo) é equivalente a um
aumento de salário (uma entrada de dinheiro positivo) --- cuidado com
analogias!
Antes
que induza alguém em erro, devo frisar que estou a referir-me ao momentum
transportado através de uma unidade de área de uma superfície plana
imaginária num gás. A taxa global à qual o momentum é transportado
através de uma superfície fechada de um gás
é, essa sim, zero, se não existirem forças a
atuar sobre as moléculas.
De
acordo com a interpretação molecular, a pressão num gás é a taxa total
com que as suas moléculas transportam os seus momenta (plural de momentum) ao
longo de uma dada direção, através de uma área unitária perpendicular a
essa direção. Qualquer que seja a direção escolhida, o correspondente
fluxo de momentum é o mesmo. Como conseqüência, a
pressão se exerce igualmente em todas as direções. A pressão não
tem essencialmente nada a ver com a freqüência com que as moléculas do gás
colidem umas com as outras; esta freqüência é pequena comparada com a taxa
à qual colidem com uma superfície sólida ou líquida, sendo através desta
última que a pressão é medida.
Como
a interpretação molecular elucida alguns aspectos da pressão
atmosférica, tal como a sua diminuição com a altura?
Isto
normalmente é explicado dizendo-se que o peso da atmosfera acima de uma dada
altitude diminui com o aumento da altitude. Não deixa de ser verdade (essa é
a interpretação na linguagem do contínuo), mas
a observação atenta, na linguagem do discreto,
dá-nos uma explicação alternativa. Para cada altitude sucessiva, uma
pressão mais baixa implica num menor fluxo de momentum. Isto quer dizer que,
para cada camada horizontal de atmosfera, mais momentum vertical entra pelo
seu fundo do que sai pelo seu topo.
Que
aconteceu a este momentum desaparecido?
De
acordo com as leis de Newton, o momentum altera-se (por exemplo, diminui)
apenas se for obrigado a isso por uma força. Neste caso é a força da
gravidade. E o peso é, no fim de contas, meramente a força da gravidade.
Portanto, as duas interpretações — macroscópica e microscópica —
estão em harmonia.
Mas podem ser postas a colidir desnecessariamente se misturarmos os conceitos
apropriados para uma com os conceitos apropriados para outra. O que se deseja
é consistência. Tendo adotado um ponto de vista
específico, devemos agarrar-nos a ele. Se tivermos de mudar de ponto de
vista, temos de ter cuidado com os erros de 'tradução'.
A
escolha de determinada interpretação é, em certa medida, uma questão de
gosto. Na maioria dos casos é guiada por considerações sobre o modo de
abordagem. Seria uma tolice tentar, por exemplo, fazer uma previsão do estado
do tempo estudando molécula por molécula. Para este efeito, ver a matéria
como uma estrutura contínua será, com certeza, mais sensato. Para outros
fins, pelo contrário, a compreensão só é alcançada atendendo à natureza
discreta da matéria.
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