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O
passarinho sedento
O
passarinho japonês
O pássaro bebedor de água
Uma máquina térmica diferente |
Prof.
Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
Reconhecimento
Um engenhoso dispositivo,
essencialmente uma máquina térmica, é o passarinho japonês
bebedor de água.
Consiste
em um recipiente especial, feito com duas esferas de vidro (a
superior --- cabeça do passarinho --- e a inferior ---
"corpo" do passarinho, de diâmetro ligeiramente maior que
o da cabeça) ligadas por um tubo de vidro. Dentro do recipiente há
uma certa quantidade de éter ou fréon, substâncias que se evaporam
rapidamente à temperatura e pressão ambientes. Ao se fechar o
recipiente, à fogo, parte do ar interior é retirado. A esfera menor
(cabeça) é totalmente recoberta por uma fina camada de feltro,
chamada camada higroscópica. O bico, de plástico muito leve, colado
à cabeça, também é recoberto por esse material higroscópio.
As
pernas e pés do passarinho (bastante estilizadas) formam o apoio em
relação ao qual a estrutura de vidro pode balançar. Alguma penugem
fina é colada à cabeça e ao corpo do brinquedo ("crista"
e "cauda") e servem de "ajuste fino" para o equilíbrio.
Fixada
ao tubo de vidro, abaixo de sua região central, tem-se uma fina lâmina
de alumínio; suas extremidades são encaixadas em aberturas feitas
nas pernas do aparelho.
O
que ele faz?
A ilustração acima mostra a
posição inicial do dispositivo. A taça é preenchida com água.
Inclina-se o pássaro até que seu bico mergulhe complemente na água
(aguarde até que todo feltro fique bem embebido). Solta-se o
sistema. Ele retornará e ficará oscilando em torno da posição
inicial. Aos poucos, a cabeça vai inclinando cada vez mais,
aproximando-se da água da taça. Finalmente, ele mergulha o bico na
água e rapidamente retorna à sua oscilação em torno da posição
de equilíbrio inicial. O processo se repete continuamente. A ilustração
animada do início do texto mostra bem isso. É o passarinho bebedor
de água.
Como
funciona ?
A pressão de vapor de éter
no interior da esfera do corpo é máxima, para aquela temperatura do
ambiente. A pressão de vapor no interior da cabeça e parte livre do
tubo é pequena e isso acontece porque a cabeça é mantida fria pela
contínua evaporação da água que embebe a camada higroscópica
(feltro). Observe que, enquanto o pássaro não estiver quase na
horizontal, o vapor do corpo e o vapor da cabeça estão separados
por uma coluna líquida. A diferença de pressão exercida por esses
dois vapores (a do corpo maior que a da cabeça) é a responsável
pela elevação do líquido do corpo até a cabeça do pássaro.
Conforme
o nível líquido vai subindo, o centro de gravidade do sistema
oscilante também vai subindo. Quando o centro de gravidade
ultrapassa o eixo de suspensão, o pássaro gira em torno desse eixo
atingindo uma posição quase horizontal, o que permite a comunicação
entre os dois vapores, igualando suas pressões e o conseqüente
retorno do éter acumulado na cabeça para o corpo, fazendo com que
ele se erga novamente.
A
inércia do sistema e a força gravitacional garantem uma oscilação,
tipo pêndulo, para o sistema. Esta oscilação melhora o desempenho
da cabeça úmida aumentando a velocidade de evaporação da água
absorvida quando o bico mergulha na taça.
Cada
vez que o passarinho se reclina, seu bico mergulha na água, o que
mantém a sua cabeça continuamente úmida; a parcial evaporação
dessa água vai mantê-la fria. O "motor" do engenho é o
resfriamento da água que fica, devido à evaporação da água que
sai. Esse resfriamento é que reduz a pressão do vapor na cabeça do
pássaro.
Se,
em vez de água, enchermos a taça de vodca ou, melhor ainda, de álcool,
o resfriamento da cabeça será mais intenso e o passarinho oscilará
mais ligeiro. Se, por outro lado, cobrirmos o passarinho com uma
redoma de vidro, o ar do interior desta ficará rapidamente saturado
de vapor, a evaporação do revestimento da cabeça cessa, a
temperatura da cabeça aumenta, a pressão de vapor ali também
aumenta e o movimento cessará.
Esses
passarinhos operam com menor
eficiência quando a umidade do ar atmosférico é elevada; num dia
chuvoso, ele não funcionará.
Podemos
aproveitar isso ?
Podemos,
em conexão com este brinquedo que opera pelo princípio da evaporação
da água, levantar uma questão interessante, que sem dúvida já é
motivo de estudo em alguns países.
Se
adaptarmos um mecanismo de roda dentada ao eixo em torno do qual o
passarinho oscila, podemos obter uma certa quantidade de energia mecânica
e, com isso, operar uma bomba, trazendo água do mar, mais abaixo,
para uma caixa d'água elevada ... e dela passar, por gravidade, a um
outro reservatório mais afastado.
A
questão é: a que altura máxima acima do nível do mar devemos
colocar o passarinho de modo que ele ainda continue funcionando?
Em outras palavras: qual o tamanho máximo que ele pode ter ... e
continuar trabalhando?
Podemos
considerá-lo uma máquina térmica, com o calor se transferindo do
corpo do passarinho, mais quente, para a sua cabeça, mais fria, e se
transformando parcialmente em energia mecânica (trabalho). O calor
latente de vaporização da água (da cabeça fria do passarinho) é
540 calorias por grama, que é equivalente a cerca de 2 250 joules de
trabalho mecânico (1 cal = 4,18 joules). Essa cifra deve também
representar a quantidade de calor que flui do ar, mais quente, para o
corpo do passarinho, enquanto 1 g de água se evapora de sua cabeça
(por não haver acúmulo ou perda de energia térmica no corpo do
passarinho).
A
eficiência de uma máquina térmica na transformação de calor em
trabalho mecânico é dada por
h
= (T1-T2)/T1 ¾
rendimento de Carnot ¾
.
Em
nosso caso, tanto T1 como T2 estão a
aproximadamente 300 K (temperatura ambiente), enquanto a diferença T1
- T2 é de apenas uns poucos graus. Tomando-se essa
diferença como sendo de, digamos, 3oC, constata-se que a
eficiência é de aproximadamente 1%, de modo que a evaporação de 1
g de água da cabeça do passarinho produzirá aproximadamente 22
joules de trabalho mecânico.
Para
elevar 1 g (de água) à altura de 1 cm, deve ser despendido um
trabalho [t
= m.g.h ] de cerca de 10-4 J . Esse cálculo foi feito
assim:
t
= m.g.h = 10-3 kg . 10 m.s-2. 10-2 m
= 10-4 J ,
adotando-se
para g (aceleração da gravidade) o valor 10 m.s-2.
Como
temos disponível 22 joules (proveniente da evaporação de 1 g de água),
até que altura poderemos elevar
1g de água, com essa energia? O cálculo nos fornece:
t
= m.g.h è22
J = 10-3 kg . 10 m.s-2 . h è
h = 22 / 10-2 m = 2 200 m = 2,2 km !
Desse
modo, cada 1g de água que se evapora da cabeça do passarinho
converte-se em trabalho mecânico que pode elevar, a partir do nível
do mar, outro 1 g de água, à altura de cerca de 2.105 cm
ou 2 km acima daquele nível!
Naturalmente
os cálculos acima estão bastante rudimentares e várias perdas de
energia reduzirão consideravelmente essa cifra, mas o fato
importante é que o pássaro japonês pode beber água, tranqüilamente,
de grandes altitudes. Imagine um "passarão japonês" cujo
tubo de vidro tenha cerca de 2 km de comprimento.
E
isso poderá ser, no futuro, uma fonte importante de energia
alternativa.
O
pássaro sedento no laboratório
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Propósito
Investigar a operação
do pássaro japonês bebedor de água.
Material
Pássaro japonês,
proveta de 250 ml e água.
Objetivo
Muitos brinquedos
ilustram princípios físicos fundamentais. O brinquedo
denominado passarinho que "bebe água" é um bom
exemplo de máquina térmica. O desafio para você, no
laboratório, é descobrir como ele funciona. |
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Atividades
e procedimentos sugeridos
1. Monte o brinquedo do pássaro
sedento próximo à proveta com água, de modo que ele inicie seu
ciclo de operação.
Assegure-se,
nessa montagem, que o bico do pássaro toca a água em cada ciclo.
Talvez você precise ajustar o fulcro (apoio da alavanca de primeira
espécie, a qual o pássaro todo é um exemplo) para garantir ciclos
suaves e seguros.
2.
Depois que o pássaro começar a beber, efetuando os ciclos sem
interrupção, estude cuidadosamente sua operação. Examine
atentamente o movimento do pássaro e o movimento do líquido
colorido em seu interior. Sua finalidade é explicar como ele
trabalha. Como produto final, seria interessante de sua parte, fazer
um esboço que explique, passo a passo, um ciclo completo do
movimento do pássaro.
Perguntas
opcionais
O instrutor do laboratório
pode incluir em sua folha de trabalho as seguintes perguntas para
ajudar os estudantes (ou simplesmente tê-las à disposição para
dar "dicas"):
1.
O que faz o fluido elevar-se no pescoço do pássaro?
2.
O que faz o pássaro mergulhar sua cabeça na água?
3.
Qual o propósito da "penugem" ou "outros
enfeites" na cabeça ou corpo do pássaro?
4.
O pássaro continuará seu ciclo removendo-se o recipiente com água?
Explique.
5.
A umidade relativa do ar envolvente afeta a freqüência de imersão
do pássaro? Explique.
6.
O pássaro funcionará mais rapidamente (tempo de um ciclo completo)
em lugar fechado ou ao ar livre?
Qual o porque disso?
7.
Cite três condições que poderão fazer o pássaro parar de
funcionar.
Sugira colocar o sistema todo dentro de uma campânula
(daquelas usadas em bombas de vácuo).
8.
Cite pelo menos uma aplicação prática para o pássaro japonês.
9.
A temperatura da água no béquer (ou copo) afeta o ciclo de
funcionamento do pássaro? Explique.
10.
Por que o passarinho é exemplo de máquina térmica? Explique.
Leitura
Complementar
A
"anatomia" e os "hábitos" de um Pássaro Sedento
1.
O esqueleto: A estrutura do pássaro consta de um tubo
reto interligando os dois bulbos, um em cada extremidade, tendo
ambos, aproximadamente o mesmo tamanho. O tubo sai do bulbo superior
(cabeça) como o pescoço de um funil e avança quase até o fundo do
bulbo inferior (corpo), como um canudo dentro de um refrigerante.
2.
O fulcro: Ligeiramente abaixo da metade do tubo
encontra-se, bem apertada, uma lâmina transversal, que permite ao
esqueleto girar em relação às pernas fixas na base. Essa lâmina
tem sua parte inferior ligeiramente côncava e é responsável pelo
movimento para a frente, inibindo o movimento para trás. Os extremos
dessa lâmina têm uma saliência cujo ajuste permite regular o
movimento descendente do esqueleto. É esse ajuste que impede a cabeça
de bater na borda do copo durante o mergulho.
3.
O bico: O bulbo superior é recoberto com um material
felpudo, que se estende até o bico. Esse material sobre o bico
funciona como um pavio, levando a água até a cabeça do pássaro.
4.
O rabo: O rabo de penas, além de enfeite, serve de ajuste
fino para o equilíbrio do pássaro.
5.
Os intestinos: O pássaro está parcialmente cheio com uma
quantia cuidadosamente medida de um fluido de baixa viscosidade,
baixa densidade e pequeno calor latente de vaporização. O calor
latente de vaporização (Lv) indica que quantidade de
energia (Q), em quilojoules (kJ) é necessária para que a unidade de
massa (m, em quilogramas - kg) do líquido passe para o estado
gasoso, na temperatura em questão.
Para
a água, Lv = 2250 kJ/kg; para o cloreto de metila, Lv
= 406 kJ/kg; para o álcool etílico, Lv = 880 kJ/kg; para
o freon-11, Lv = 189 kJ/kg. Ponto de ebulição não é
importante aqui, pois a evaporação e condensação (que é o que
nos interessa) acontecem na superfície de um líquido a qualquer
temperatura.
6.
Os enfeites: Alguns modelos acrescentam algo como chapéu,
olhos, penas e coloração para o líquido interno, simplesmente para
valor de entretenimento.
7.
Observações: O pássaro é operado mantendo-se a cabeça
molhada. Deve-se tomar cuidado para que não seja absorvida água em
excesso, a ponto de começar a escorrer pelo tubo e começar a
gotejar na base. Essa água em excesso no bulbo inferior poderá
inverter os processos termodinâmicos.
Nota: O primeiro ciclo levará um pouco
mais tempo que os ciclos seguintes.
Pergunta
básica: Como realmente ele trabalha?
Resposta
curta:
Resposta
média (e pistas
essenciais):
Resposta
longa:
-
Inicialmente
o sistema está em equilíbrio, com ambas as câmaras na mesma
temperatura T e pV/n compensando os níveis
fluidos. A evaporação da água na superfície da cabeça extrai
calor do interior; o vapor dentro da cabeça condensa e reduz o pV/RT
(número de moles). Isso desequilibra as pressões dos vapores
separados pela coluna líquido; de modo que o vapor do abdômen
"empurra" para baixo o nível líquido fazendo-o subir
no tórax, o que reduz o volume V dos vapores da cabeça.
Considerando
que p está diminuindo no abdômen (pelo aumento de volume da
parte isenta de líquido), evaporação ocorre, n aumenta, o
que extrai calor do exterior do corpo. A subida do fluido, eleva o
centro de gravidade do conjunto acima do ponto de suspensão. Como os
quadris do pássaro são ligeiramente côncavos, ele inclina-se para
a frente. As saliências nas pernas e no fulcro asseguram o ângulo
de mergulho até o ponto ótimo (bico imerso na água do copo). Ao
final desse mergulho, os vapores das duas câmaras entram em contato;
desse modo, parte do vapor do abdômen passa para a cabeça e o líquido
escoa, retornando ao abdômen.
A
bolha de vapor ascendente transfere calor para a cabeça do pássaro
e o fluido que desce cede energia potencial gravitacional. O centro
de gravidade baixa e o pássaro levanta-se bruscamente. O sistema,
reajustado desse modo, não está totalmente em equilíbrio, mas é o
suficiente para que possam se repetir essa série de eventos.
Como
dissemos, o bico age como um pavio ao mergulhar no reservatório de
água, mantendo a cabeça molhada, embora não seja necessário, para
o pássaro, beber em cada mergulho.
Isso
é tudo o que devemos saber sobre o pássaro sedento?
Claro que não. Pesquisas ainda continuam em processo. Ainda há
perguntas sem respostas; exemplos:
1.
Toda a energia ganha pelo sistema quando o fluido sobe é
integralmente devolvida como trabalho mecânico útil?
2.
O calor que evapora a água vem do ar circunvizinho e de dentro da
cabeça; mas, em que proporção?
3.
Exatamente, qual o fluido ideal para o projeto? Será o cloreto de
metila?; será o freon-11? E o mercúrio? Tudo indica que ele, apesar
dos cuidados especiais, é o melhor candidato.
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