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Entendendo
a radiação invisível
(Parte 2)
Prof.
Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
Radiação
do corpo negro
Apesar de quanto mais quente
se encontrar um objeto mais radiação será emitida e maior será
a freqüência média da sua radiação, o espectro de emissão de
diferentes corpos à mesma temperatura poderá ser bastante
diferente.
Existe, no entanto, uma classe de objetos hipotéticos,
denominados corpos negros, nos quais o espectro de
emissão depende apenas da sua temperatura. Tal como o nome indica,
um corpo negro absorve toda a radiação incidente, qualquer que
seja a sua freqüência, direção de incidência ou estado de
polarização. O termo corpo negro, via de regra, conduz a
uma confusão, especialmente quando acompanhado pela afirmação
vaga de que um corpo com características de bom absorvedor é
também um bom emissor. O 'bom' depende do ponto de vista de cada
um; para um projetista de coletores solares, um bom emissor é
aquele que não emite de modo nenhum.
Além disso, quando se diz que um objeto negro—o meu disquete
Maxwell, por exemplo— é um bom emissor, as pessoas podem ficar
intrigadas, visto que, aos seus olhos, ele não está a emitir
coisa alguma. Finalmente perguntamos: que pedagogia existe em
introduzir a radiação do corpo negro através de qualquer coisa
que não existe?
Um
termo para radiação do corpo negro que dá uma melhor idéia da
sua origem é radiação de equilíbrio. Imagine uma
cavidade feita em qualquer tipo de material, sendo as suas paredes
opacas a toda a radiação, o que pode ser conseguido se forem
grossas. Melhor dizendo, podemos afirmar que as paredes são feitas
de alumínio, que não é certamente um corpo negro: o alumínio,
especialmente se for polido, é um bom espelho, não só para a
radiação visível, mas também para a radiação que vai do
ultravioleta às freqüências de rádio.
Uma
radiação de todas as freqüências é continuamente emitida pelas
paredes, assim como absorvida e refletida. Quando é atingido o equilíbrio
(isto é, a temperatura das paredes da cavidade não se altera com
o tempo), o espectro da radiação no interior da cavidade real
é o mesmo que o emitido por um hipotético corpo
negro.
Para percebermos porque isto acontece, imagine-se um corpo negro
colocado na cavidade; ele é banhado por toda a radiação emitida
e refletida pelas paredes. Quando a temperatura do corpo cessa de
se alterar, a velocidade com a qual ele emite radiação deverá
ser igual àquela a que absorve a radiação que incide sobre ele.
Por definição, absorve toda a radiação incidente. A temperatura
constante significa que o espectro de emissão do corpo negro é o
mesmo que o da radiação que ele absorve, que não é mais que a
radiação de equilíbrio que preenche a cavidade.
Apesar
de um pedaço liso de alumínio não ser um corpo negro, uma
cavidade no alumínio fica preenchida com radiação
característica de um corpo negro devido à reflexão múltipla da
radiação emitida pelas suas paredes. Os corpos negros, no
verdadeiro sentido da palavra, não existem, mas a radiação de
corpo negro existe — é a radiação em equilíbrio com a
matéria.
Devemos
frisar que todos os corpos, negros ou não, que se encontrem a
temperaturas acima do zero absoluto emitem radiação de todas as
freqüências; repetimos isto com o risco de nos tornar maçantes.
Interessante, conforme lemos num artigo recente, é o comportamento
da neve frente à emissão de microondas. Apesar da neve não
emitir suficientes microondas para cozinhar bifes (isto é uma
sorte, porque, se ela o fizesse, também nós seríamos
cozinhados), emite quantidades mensuráveis. E esta emissão está
a ser explorada como forma de detecção remota de aglomerados de
neve através do uso de satélites.
Os
corpos não emitem uniformemente; a freqüência do pico de
emissão depende da temperatura. O pico do espectro de emissão
de corpos às temperaturas terrestres
situa-se no infravermelho.
Considere, por exemplo, o espectro de emissão do corpo negro,
mostrado na ilustração a seguir, para as temperaturas de 250 K (~
23oC) e 320 K (47oC).
Corpos
negros a temperaturas compreendidas entre estes valores emitem
radiação de todas as freqüências, mas o pico do seu espectro
encontra-se na região de comprimentos de onda entre 8 mm
e 12 mm
(1 mm
= 1 micrometro, que é uma milionésima parte do metro).
A energia irradiante total emitida por qualquer objeto é
proporcional à área compreendida pelo seu espectro de emissão.
Para o corpo negro, ela é proporcional à quarta potência da sua
temperatura absoluta. Desta forma, um corpo negro a 320 K emite
praticamente três vezes mais energia irradiante do que um corpo
negro do mesmo tamanho a 250 K; ambos emitem sobretudo radiação
infravermelha.
Uma
charada
Observe que temos trocado abruptamente de freqüências para
comprimentos de onda, por conveniência. É equivalente
especificar uma radiação através do seu comprimento de onda,
embora a freqüência seja uma quantidade mais fundamental
(freqüência é característica de fonte; independente do meio de
propagação).
A
maior parte das coisas terrestres — areia, mar, florestas, solos
e até a neve — são quase corpos negros. A neve é a mais
negra de todos. E também a mais branca. Antes de pôr
este texto de lado, murmurando que a demência precoce deve ter
acabado por me liquidar, continue a ler para saber a resolução
desta charada.
Somos,
tal como mencionei na Parte 1 desse trabalho, praticamente cegos e,
como conseqüência, opticamente provincianos. Para nós, a neve é
branca — quando iluminada por luz branca como a do Sol, por
exemplo. A neve limpa e fina pode refletir mais de 94 % da
radiação visível que incide sobre ela. Os nossos
olhos não podem informar quanta radiação invisível ela
reflete!
Estaríamos a especular grandemente se disséssemos que, pelo fato
de a neve ser branca (isto é, altamente refletora) a comprimentos
de onda visíveis, será branca em todos os comprimentos de onda. A
neve é negra, assim como o são a maior parte dos objetos
naturais, para o tipo de radiação infravermelha emitida pelos
objetos à temperatura normal. A minha afirmação que defendia que
a neve é a substância mais negra e simultaneamente mais branca do
nosso planeta é, de fato, verdadeira, mas é necessário que seja
clarificada para que faça sentido, assim como todas as
afirmações acerca do que é preto e do que é branco.
Nosso disquete Maxwell, dos exemplos, emite radiação que não
vejo. Visto que não reflete muita radiação que possa ver, digo
que ele é preto. Pelo mesmo critério — baixa reflexão
—, ele também seria negro para comprimentos de onda na gama do
infravermelho; mas também o seriam os disquetes aos quais chamo brancos.
Com certa freqüência poderemos encontrar fotografias, tiradas com
o uso de radiação infravermelha, de pessoas de diferentes raças.
Entre cerca de 3 mm
e 15 mm,
a pele humana é aproximadamente um corpo negro. Todos nós somos
negros no infravermelho, por mais resplandecentes e deslumbrantes
(branco, amarelo, vermelho, rosinha, preto, rosado aveludado,
bronze etc.) que possamos ser à luz do Sol.
Os
infravermelhos
Temos usado o termo infravermelho de uma forma
despreocupada. A radiação infravermelha a que me referia era a
emitida por objetos às temperaturas terrestres normais. No Parte 1
desse trabalho fizemos um esboço da descoberta da radiação
infravermelha feita por William Hershell. No entanto, esta não era
a radiação infravermelha terrestre. Hershell apenas aflorou
superficialmente o vasto reino do infravermelho, que se estende
desde cerca de 0,7 mm
a 1000 mm.
Ele descobriu aquilo que chamamos infravermelho próximo (note-se
novamente o provincianismo: próximo significa
<(próximo do visível»). A radiação terrestre é denominada
infravermelha intermediária
por uns e infravermelha remota
por outros. Por infravermelho próximo referimo-nos a
comprimentos de onda menores que 1,5 mm;
por infravermelho remoto queremos dizer comprimentos de onda para
lá de 5,6 mm.
O
Sol emite radiação infravermelha, que constitui cerca de metade
da sua energia irradiante. A maior parte desta radiação situa-se
entre 0,25 mm
e 2,5 mm,
enquanto a maior parte da que é emitida pelos objetos terrestres
se encontra entre 4 mm
e 24 mm.
Visto que estas duas regiões de comprimentos de onda não se
sobrepõem, podemos fazer uma distinção entre a radiação solar
(ou radiação de ondas curta) e a radiação terrestre (radiação
de onda longa ou térmica).
A radiação infravermelha, sem especificação, refere-se
muitas vezes à radiação terrestre, mas, para evitar confusões,
é melhor especificar quais os comprimentos de onda de que estamos
falando. Por exemplo, um filme para infravermelho de fácil
obtenção nas grandes cidades (aqui na minha pequena cidade não
tem disso) é sensível ao infravermelho próximo (entre em contato
com a Kodak®). Já as fotografias infravermelhas de satélite
podem ser tiradas com radiação infravermelha do próximo ao
remoto (entre em contato com a Nasa®). A fotografia de
infravermelhos próximos explora a radiação solar dispersa,
enquanto a fotografia de infravermelhos remotos explora a
radiação emitida. A distinção não é trivial: a fonte de
infravermelhos próximos desaparece bastante com o pôr do Sol,
enquanto os infravermelhos remotos são emitidos dia e noite.
Dado
que a maior parte dos objetos terrestres são praticamente negros
para o tipo de radiação que emitem, as suas temperaturas podem
ser medidas sem ser necessário tocar-lhes. Se pudéssemos medir a
reação da radiação emitida por um corpo negro a dois (ou mais)
comprimentos de onda, digamos 6 mm
e 8 mm
(ver o espectro de emissão na ilustração acima), poderíamos
inferir a sua temperatura. Os aparelhos capazes de fazer isto,
denominados termômetros de infravermelhos, existem,
apesar de preço deveras 'salgado'.
Todo o visto nesses parágrafos anteriores serão imprescindíveis
para a conceituação do Efeito Estufa. Tal efeito merece bem mais
que o tratamento superficial que freqüentemente lhe dão os
artigos de jornal (e mesmo textos escolares). Existem tantos
conceitos errados à volta da física do efeito estufa que ainda
não nos sentimos preparados para os expulsar. Um dia, talvez,
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