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Gelo,
água e vapor postos a trabalhar Prof.
Luiz Ferraz Netto Calor
oculto Ele resolveu o
assunto decisivamente, com muitas experiências simples. Podemos
compreender seu raciocínio com a ajuda de um exemplo numérico. A quantidade total absorvida pelo grama que se fundiu foi, portanto, de 80 "graus de calor". Esta é uma quantidade de calor capaz de elevar a temperatura de um grama de água de 0 oC a 80 oC. Black concluiu que
Black tinha demonstrado que um sólido ao fundir-se absorve grandes quantidades de calor, sem alteração da temperatura --- calor este que é "tornado latente". Black também
suspeitou que uma grande quantidade de calor é absorvida por uma substância
quando se transforma de líquido em vapor a uma temperatura constante. O número correto seria 970 "graus de calor", pelo sistema de Black. Este calor oculto é agora chamado de calor latente de vaporização. Em unidades 'modernas', a caloria é a quantidade de calor necessária para elevar de 1 grau Célsius a temperatura de 1 grama de água. A BTU (British thermal unit) é a quantidade de calor necessária para elevar de 1 grau Fahrenheit a temperatura de uma libra de água. As quantidades de calor oculto descobertas por Black são dadas abaixo nessas unidades:
As pesquisas de
Black relativas à natureza do calor foram realizadas na Universidade de
Glasgow, entre 1757 e 1764. A
Máquina a Vapor de Watt A máquina de Newcomen estava sendo fabricada em dimensões cada vez maiores, naqueles tempos. Conseqüentemente, os cilindros de latão de pouca espessura das máquinas menores tinham sido substituídos por outros mais espessos e pesados, feitos de ferro fundido. A grande massa desses cilindros requeria cada vez mais vapor apenas para aquecer o ferro fundido até a temperatura do vapor. Pior ainda, era necessária cada vez mais água para o resfriamento do cilindro, de maneira que o vapor se condensasse durante o curso de descida do pistão. Watt imaginou que o aquecimento e resfriamento alternados de grandes massas de metal estava reduzindo o trabalho potencial da máquina, e decidiu verificá-lo. Raciocinou que a quantidade de vapor utilizada pela máquina destinava-se a dois propósitos: (1) encher o cilindro; (2) aquecer as paredes resfriadas do cilindro, o pistão e qualquer quantidade de água que restasse no cilindro, proveniente dos movimentos anteriores. Era óbvio que qualquer quantidade de vapor que fosse utilizada para o segundo propósito seria desperdiçada. Seu problema era descobrir se era significativa a quantidade de vapor desperdiçada.Pelo trabalho de Black, ele sabia que a capacidade térmica (ou calor específico) do ferro fundido e de outros materiais podia ser medido facilmente. Sabia também a quantidade de calor (os "graus de calor" de Black) liberada pelo vapor, quando se condensa. Com base em tais dados, calculou que somente um quinto do vapor da caldeira era realmente usado para encher o cilindro. Os outros quatro quintos eram gastos meramente para aquecer a máquina em cada movimento do pistão que se seguia à injeção de água fria. Watt reuniu então todas estas idéias e vislumbrou um meio de evitar o desperdício de tanto vapor. Utilizou uma câmara separada --- um condensador --- para condensar o vapor durante a descida do pistão. O cilindro podia ser mantido permanentemente a uma temperatura próxima da temperatura de entrada do vapor. Não seria necessário re-aquecer o cilindro durante cada movimento, O princípio básico da máquina de Watt é ilustrado abaixo.
Quando a válvula A é aberta, o vapor entra no cilindro e empurra o pistão para a parte superior do seu curso. A válvula A é então fechada, e aberta a válvula B. O vapor corre para o condensador que está frio, e ali é transformado em água, criando um 'vácuo' sob o pistão. No ciclo seguinte, o vapor penetra em um cilindro que ainda está quente, sendo desperdiçado pouco calor apenas para aquecer as partes de metal. Utilizando este novo princípio, Watt logo começou a fazer máquinas três vezes mais eficientes que as de Newcomen, em termos de trabalho útil executado por "bushel" de carvão empregado. Em 1781, Watt acrescentou um mecanismo de volante às suas máquinas, desta maneira modificando o movimento para frente e para trás de seu pistão em um movimento rotativo de um eixo. Com este acréscimo, a máquina a vapor já não ficava restrita à finalidade de bombeamento, mas podia ser usada para movimentar todas as espécies de máquinas industriais. Em 1782, ele revelou outro melhoramento, o pistão de ação dupla, com o vapor exercendo pressão em ambos os lados, alternativamente. O cilindro era isolado da atmosfera, tanto na parte de cima, como na de baixo, com a haste do pistão movimentando-se através de uma "caixa de gaxeta" para impedir a perda de vapor. Quando um lado do cilindro estava conectado ao condensador, o vapor era admitido pelo outro lado, e vice-versa. Assim, a energia do vapor realizava ambos os movimentos do pistão.
Embora as máquinas de Watt tivessem apenas um décimo da eficiência das máquinas modernas, elas prepararam o caminho para o aumento da demanda de energia do vapor, e ajudaram a interpretação da era da técnica. Por volta de 1800, mais de 500 máquinas de Watt já tinham sido produzidas, a maior parte das quais para suprir energia para fábricas e moinhos.A energia a vapor tinha-se transformado em sucesso comercial, e a revolução industrial estava agora em marcha acelerada. Cavalo-Vapor
e Rendimento
Supôs-se, corretamente, que o produto do peso da água e da altura atingida era o ponto crucial da questão. Um cavalo realizava a mesma quantidade de trabalho útil, quer elevasse 1 000 libras a uma altura de 1 pé, ou 1 libra a uma altura de 1 000 pés. Em ambos os exemplos, o trabalho útil é de 1 000 x 1 = 1 000 libras-pés. O termo 'power' significava taxa de realização de trabalho, e assim, cavalo-vapor (horse-power) era meramente o número de libras-pés de trabalho que um cavalo médio podia realizar em um minuto. Depois de uma série de experiências com cavalos, Watt verificou que o cavalo de carga médio podia elevar um 'hundredweight' (112 lb.) de água a uma altura de 196 pés em um minuto. Isto equivalia a 112 lb. x 196 pés = 21 952 libras-pés por minuto. Ele aumentou este dado de cerca de 50 por cento, de maneira que seus clientes não tivessem nada para se queixar, e definiu um cavalo-vapor como 33000 libras-pés por minuto. Sua definição ainda hoje é usada, seja relativamente às máquinas a vapor ou às elétricas. A eficiência com a qual uma máquina a vapor transformava o combustível em trabalho útil era de importância vital para os utilizadores industriais. As melhores máquinas de Newcomen podiam elevar 7 milhões de libras à altura de um pé, para um consumo de um bushel (84 libras) de carvão de Newcastle. As melhores máquinas de Watt podiam elevar entre 30 e 40 milhões de libras de água a um pé de altura, para um consumo igual. O termo "rendimento"
veio a ser usado para especificar o número de libras de água elevadas a
um pé de altura, para um consumo de um bushel de carvão de boa
qualidade. O rendimento das máquinas a vapor continuou a subir, à medida
que pressões altas de vapor e outros refinamentos foram introduzidos em
seus desenhos.
Raios
de calor invisíveis Scheele
utilizou um forno aberto como fonte de calor e de luz. Primeiramente,
descobriu que uma saída violenta de ar pela abertura não tinha efeito
sobre a passagem do calor do forno para seu termômetro, instalado na
sala. Colocou então uma grande placa de vidro entre seu rosto e o forno,
e não sentiu nenhum calor. Qualquer que fosse a natureza desse calor
radiante, a maior parte dele era detida pelo vidro. Mais tarde, outros
descobriram que o vidro absorve o calor radiante, logo se tornando, como
resultado, bastante quente. O assunto foi esclarecido definitivamente por De Saussure em 1786. Ele utilizou uma bola de ferro quente mas não luminosa, como sua fonte de calor. Dois espelhos côncavos de estanho foram colocados cerca de 12 pés separados, conforme ilustramos abaixo.
A bola de ferro foi aquecida ao rubro e deixada resfriar até tornar-se invisível no escuro. Foi então colocada no foco de um dos espelhos. Um termômetro A, colocado no foco do outro espelho, mostrou uma temperatura 8o superior ao do termômetro B, colocado fora do ponto focal. Quando o termômetro A foi deslocado ligeiramente do foco, sua temperatura caiu imediatamente para a leitura mais baixa. De Saussure concluiu que o calor radiante é emitido pelos corpos quentes e que essas emanações são refletidas como os raios de luz.James Hutton repetiu a experiência de Scheele com uma placa de vidro em 1794, e verificou que o calor radiante não é absorvido completamente pelo vidro, mas simplesmente tem sua intensidade diminuída. Ele foi o primeiro a considerar o calor radiante como uma espécie de luz invisível que, embora incapaz de afetar o olho, era suficientemente poderosa para comunicar calor. O calor radiante não é, então, uma emanação material, mas simplesmente uma espécie de luz invisível, capaz de transferir calor de um lugar para outro. Assim, por volta de 1800, a existência dos raios de calor estava geralmente aceita, e se pensava que eles estavam relacionados, de alguma maneira, com a luz. O
peso do calor Aqui estava outro ponto fraco na couraça da teoria calórica. Ele seria atacado mais tarde por uma famosa experiência com um canhão em uma fábrica de armas da Bavária. O Conde Rumford iria dirigir a estratégia. Mas, na metade do século dezoito o assalto foi dirigido em outra direção. De acordo com a teoria calórica, o calor era uma espécie de substância material que fazia os corpos expandirem-se quando aquecidos. Era natural, naquelas circunstâncias, supor que o calor tinha peso. Assim, muitas tentativas foram realizadas para medir uma modificação de peso quando os corpos fossem aquecidos. Os resultados foram a princípio pouco conclusivos. Em 1732, Boerhaave pesou um pedaço de ferro frio e depois quente, e não constatou modificação do peso. Buffon pesou um pedaço de ferro aquecido ao branco em 1775 achando 49 libras e 9 onças; ao resfriar-se, pesou 49 libras e 7 onças. Roebuck repetiu as experiências de Buffon em 1776 com massas menores e balanças mais sensíveis, com resultados conflitantes. Alguns pedaços de metal ganharam peso; outros, perderam. As medidas mais acuradas foram realizadas por Benjamin Thompson (1753-1814), de Woburn, Massachusetts. Thompson deixou Massachusetts durante a época revolucionária, devido às suas simpatias pelos Tories. Dirigiu-se mais tarde para a Bavária, onde serviu como Ministro da Guerra e Ministro da Polícia. Como recompensa por seus serviços, recebeu o título de Conde de Rumford. Em uma tentativa para pesar o calor, vedou três frascos que continham iguais pesos de água, espíritos de vinho e mercúrio, respectivamente. Os frascos foram colocados durante vinte e quatro horas em um aposento aquecido à temperatura de 61 oF. Depois de pesar cuidadosamente os frascos, eles foram colocados durante quarenta e oito horas em um aposento resfriado a 30 oF. Uma segunda pesagem mostrou que seus pesos não se haviam modificado. Várias repetições da mesma experiência deram o mesmo resultado. Rumford calculou que uma grande quantidade de calor tinha sido emitida pela água em sua experiência, devido à sua alta capacidade térmica e ao seu calor latente. Foi liberado calor suficiente para elevar igual peso de ouro do ponto de congelamento até ao vermelho brilhante. (O ouro tem uma capacidade térmica muito menor que a da água.) Ainda mais, sua balança era suficientemente sensível para detectar uma mudança de peso tão pequena como uma parte em um milhão. Ele concluiu portanto que "todas as tentativas para descobrir qualquer efeito do calor sobre o peso aparente dos corpos será infrutífero". Mais ou menos
na mesma época, Rumford "ficou perplexo com o
grau de calor bastante considerável que um canhão de latão adquire em
pouco tempo, ao ser perfurado o cano; e com o calor ainda mais intenso..,
das aparas metálicas retiradas pelo perfurador". Rumford notou também que o suprimento de calor provocado pela fricção (atrito desenvolvido durante a perfuração do canhão) parecia ser inexaurível. Quanto mais demorasse a perfurar o canhão de latão, tanto mais calor era emitido. Ele concluiu:
As experiências de Rumford abalaram os fundamentos da teoria calórica, mas não havia nenhuma outra teoria que parecesse melhor. Tivemos que 'esperar' mais meio século antes que os cientistas em geral começassem a compreender como o calor pode ser uma forma de movimento.
*** Segue --- Gelo, água e vapor postos a trabalhar --- parte 3 ***
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