|
||||||||
|
Gelo,
água e vapor postos a trabalhar Prof.
Luiz Ferraz Netto A
Máquina Perfeita A unidade de
pensamento de Carnot era uma máquina reversível o que implica numa relação
mensurável entre o calor e o trabalho útil. Embora o artigo
de Carnot fosse escrito na forma calórica, é possível que outros tenham
adulterado o manuscrito após sua morte. Em qualquer caso, sabemos por
seus livros de anotações que Carnot tinha um ponto de vista moderno
sobre a natureza do calor.
Carnot
salientou que a máquina a vapor, embora extremamente bem sucedida, era
pouco compreendida em teoria. As tentativas para melhorá-la em seu tempo
eram ‘‘ainda orientadas quase sempre ao acaso". Para aprender
seus segredos, ele imaginou uma máquina reversível perfeita, e
especulou sobre seu desempenho. Uma tal máquina seria inteiramente isenta
de fricção (atrito), e perfeitamente isolada contra a perda acidental de
calor. O calor é fornecido à máquina na caldeira, e retirado no
condensador, e o movimento é transmitido somente ao eixo-manivela. eficiência = (Tentrada - Tsaída)/Tentrada onde Tentrada é a temperatura do vapor que entra no cilindro e Tsaída é a temperatura do vapor que sai do cilindro. Essas temperaturas são medidas na escala de temperaturas absolutas; veremos esse conceito mais adiante. Para melhorar o
rendimento de uma máquina, é necessário aumentar a temperatura do vapor
ou reduzir a temperatura do condensador, ou seja, aumentar o numerador da fração
eficiência acima ou diminuir o denominador. Isto explica por
que a invenção do condensador feita por Watt foi tão fenomenalmente bem
sucedida. Carnot imaginou uma máquina funcionando pelo calor como uma máquina que transfere calor de uma temperatura elevada para uma temperatura baixa, realizando um trabalho durante o processo. Quanto maior a variação de temperatura, tanto maior a quantidade de trabalho realizado. Ele imaginou também o calor como uma forma de movimento --- um movimento ao acaso, das moléculas da substância. À medida que a temperatura do vapor é reduzida em uma máquina, parte de seu movimento molecular é convertida no movimento de um eixo-manivela. Estas idéias foram tomadas e desenvolvidas por Joule, Lorde Kelvin, Clausius e outros, na metade do século dezenove. O
Equivalente Mecânico do Calor Embora os resultados de Mayer se baseassem em um raciocínio correto, caíram em ouvidos moucos. O mundo da Ciência não ficaria convencido até que se apresentassem provas experimentais positivas, para apoiar a hipótese absurda de Mayer. Tais provas foram fornecidas em 1843 por James Prescott Joule (1818-1889). Joule
nasceu em Salford, Inglaterra, e foi discípulo de Dalton.
Tomou-se renomado como experimentador, devido às
suas medições precisas e a uma excelente técnica de experimentação.
Sua grande contribuição para a Ciência foi a prova de que o calor e
o trabalho são formas diferentes da mesma coisa. energia = (1/2) massa x (velocidade)2 = (1/2)mv2 Outra grandeza física empregada na mecânica de Newton foi chamada de trabalho, ou seja, o produto da força (f) pela distância (d) trabalho = força x distância = f.d Ele sabia que estes conceitos eram relacionados, e imaginou como o calor poderia entrar em tal quadro. Acreditava firmemente na teoria mecânica do calor, e começou uma longa série de experiências para mostrar que a energia, o trabalho e o calor têm muita coisa em comum. A experiência mais famosa de Joule foi o aproveitamento da queda de um peso para fazer girar um agitador (eixo dotado de pás) imerso em uma cuba de água. Abaixo ilustramos seu aparelho.
Deixou cair o peso P a uma distância equivalente a h, fazendo girar as paletas e agitando a água. Joule sabia que o trabalho realizado pela queda do peso se mostraria sob a forma de uma elevação da temperatura da água. Seu aparelho era capaz de converter uma quantidade mensurável de trabalho em uma quantidade mensurável de calor. O trabalho
realizado pela queda do peso era simplesmente igual ao produto do peso
pela distância. No sistema CGS, a unidade de trabalho é o erg. Um erg de trabalho é realizado em um objeto quando a força de um dine é aplicada sobre ele, deslocando-o na direção e sentido da força, ao longo da distância de 1 centímetro. Como esta unidade é bastante pequena, foi criada uma unidade maior, o 'joule' (J), batizada em homenagem a James P. Joule:
Durante a década seguinte, o mundo científico convenceu-se de que todas as formas de energia são equivalentes, e a energia pode ser convertida de uma forma para outra. Energia cinética ou energia de movimento; trabalho, produto de uma força pela distância através da qual ela age; energia elétrica; a energia potencial da água represada por uma barragem --- tudo isto são manifestações da mesma coisa, energia. Concluiu-se também que a energia não pode ser criada nem destruída --- a muito importante Lei da Conservação da Energia. Finalmente, a termodinâmica tinha-se transformado em uma ciência. O equivalente mecânico do calor apresentado por Joule teve fria recepção, a princípio. Então, em um congresso científico realizado em Oxford, em 1847, ele foi designado para discutir suas últimas experiências. No auditório estava o jovem e brilhante físico William Thompson, mais tarde Lorde Kelvin (1824 -1907). Embora tivesse apenas vinte e três anos de idade, Thompson era um cientista respeitado, e Professor de Filosofia Natural (Ciência) na Universidade de Glasgow. Thompson tinha
ido a Oxford expressamente para criticar o trabalho de Joule. Havia
estudado o panfleto de Carnot em sua forma "calórica", ficando
abalado por seu brilhante raciocínio. Mas ao lado de sua grandeza havia
um erro. O documento de Carnot declarava que a quantidade de calórico que
entra no condensador de uma máquina a vapor é precisamente a mesma que
é transmitida ao vapor pela caldeira. Isto implicava que nenhuma parte do
calor era convertida em trabalho útil. Portanto, não havia equivalência
entre o calor e o trabalho. Temperatura
Absoluta A prova
termodinâmica da descoberta de Thompson está além do escopo deste
trabalho de divulgação científica, mas podemos seguir facilmente uma
linha de raciocínio que confirma sua conclusão. lei de Boyle: volume a 1/pressão ... ou ... V a 1/P ... (1)Em 1801, o químico francês Gay-Lussac anunciou outra lei que relacionava o volume e a temperatura de um gás. A lei de Gay-Lussac estabelece que, sob pressão constante, o volume V de um gás é diretamente proporcional à temperatura T: lei de Gay-Lussac: volume a Temperatura ... ou ... V a T ...(2)A lei diz-nos que cada grau de modificação da temperatura de um gás é acompanhado por uma modificação idêntica no volume, se a pressão for mantida constante. Gay-lussac indicou que Jacques Charles (1746-1823), outro cientista francês, o havia precedido na descoberta da lei, mas não tinha publicado os resultados. Por esta razão, a lei é também conhecida como lei de Charles. A lei de Gay-Lussac pode ser combinada com a lei de Boyle para dar-nos um relacionamento importante e único: Volume a Temperatura/Pressão ... ou ... V a T/P ... (3)Esta expressão, que revela-nos que o volume de um gás depende diretamente de sua temperatura e, inversamente, de sua pressão, pode ser transformada na "equação de estado" para os gases, pela introdução de uma constante, K, que depende das unidades empregadas para medir V, T e P: V = k.(T/P) ... ou, melhor, ... PV/T = k ... (4) Podemos usar esta equação para determinar o zero absoluto de temperatura. Para fazê-lo, imaginemos um cilindro cheio de ar, conforme se ilustra abaixo.
O cilindro é
fechado por um pistão móvel à prova de ar, e um manômetro mede a pressão
do ar no interior do cilindro. Um termômetro, não mostrado, indica que a
temperatura do ar no interior do cilindro é 0 oC. O volume
inicial do gás é também conhecido. Suponhamos agora que reduzimos a
temperatura do gás de precisamente 1 oC. Que acontece ao
volume e à pressão? Primeiramente, o volume permanece inalterado, porque
não movimentamos o pistão. Somente a pressão podia ter-se modificado,
como vemos pela equação (4). Voltemos agora à Pressão inicial, comprimindo ligeiramente o ar no interior do cilindro, enquanto mantemos a temperatura a -1 oC. Podemos fazer isto simplesmente empurrando o pistão um pouco para baixo, no interior do cilindro, até que o manômetro indique a leitura da pressão inicial. A condição do ar no interior do cilindro é agora a seguinte:
Quando medirmos o novo volume, descobriremos que é inferior em 1/273 do volume inicial. Em outras palavras, uma redução de 1 oC na temperatura produziu uma redução de 1/273 no volume, com a pressão mantida constante. Se reduzirmos mais outro grau na temperatura, vamos descobrir que precisamos empurrar o pistão exatamente na mesma quantidade, para manter a pressão constante. Cada vez que baixamos a temperatura de um grau, o volume deve ser reduzido de 1/273, relativamente ao volume a 0 oC. Se o processo
continuasse durante bastante tempo, teríamos a impressão de que todo o gás
desapareceria quando a temperatura atingisse -273 oC.
Isto não é possível, naturalmente, porque todos os gases transformam-se
em líquidos antes que seja atingida uma temperatura tão baixa. Mas a
temperatura na qual teoricamente o gás deixa de ter volume é chamada de
"zero absoluto". As
duas leis da termodinâmica Infelizmente, o documento ainda estava baseado na teoria calórica. Não foi senão no ano seguinte que ele resolveu seu grande dilema e convenceu-se de que o conceito de Joule referente ao equivalente mecânico do calor podia ser conciliado com o trabalho de Carnot. Entretanto, antes que ele pudesse publicar suas idéias, a solução apareceu em um trabalho de Rudolf Clausius (1822-1888). Clausius foi um renomado cientista alemão, professor de Física em Berlim. Mostrou que não há um verdadeiro conflito entre as teorias de Carnot e as experiências de Joule. Ali estava a dificuldade. Se a teoria calórica fosse verdadeira, então a quantidade de calórico que entrava na máquina a vapor devia ser a mesma que a que saía. Este conceito é análogo ao princípio da roda de água --- não há perda de água quando esta faz a roda girar. Tal princípio foi defendido no trabalho de Carnot --- pelo menos na versão de que dispunha Thompson. Mas se o calor é uma forma de movimento, como sustentava Joule, então o próprio calor é transformado no trabalho útil da máquina. Clausius salientou que a idéia do calor como uma forma de movimento,
Ele mostrou, em outras palavras, que parte do calor da caldeira foi convertida em trabalho, sendo o remanescente enviado ao condensador. Com base nesta nova interpretação do trabalho de Carnot, Clausius pôde elaborar um novo e importante princípio:
Este princípio
veio a ser conhecido como a Segunda Lei da Termodinâmica. Thompson descobriu a Segunda Lei da Termodinâmica independentemente, formulando-a de forma diferente, mas equivalente. Além disso, estabeleceu que toda a teoria da potência motora do calor depende de outro princípio, atualmente conhecido como a Primeira Lei da Termodinâmica:
A Primeira Lei nada mais é que a Lei da Conservação da Energia aplicada aos sistemas termodinâmicos. *** Segue --- Gelo, água e vapor postos a trabalhar --- parte 4 ***
|
|