|
A
batuta mágica
(Um modo
de ver as coisas "no ar")
Prof.
Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
Apresentação
Quando
você assiste a uma sessão de slides ou a um bom filme, onde está
a cena que você vê?
Está no filme? No ar? Na tela? No olho do espectador?
Por que num cinema os espectadores não se sentam de frente para
o projetor?
Aquele feixe divergente de luz que sai de um projetor de slide
pode produzir uma imagem real?
Esse
experimento simples que intitulamos de Batuta Mágica, pertencente
ao campo da óptica, o ajudará a investigar tudo isso e dará boas
noções de "como você vê".
Material
Um
projetor de slide com slides de 35 mm,
Uma tela móvel ou um bom pedaço de papelão branco,
Um lápis branco ou uma leve vareta de madeira pintado de branco.
Montagem
No centro da sala de
demonstrações, coloque a tela móvel a cerca de 2 metros à
frente do projetor de slides. Coloque o diapositivo (slide) no
projetor, ligue-o e focalize a imagem na tela.
Procedimento
Primeira
observação
Com alguma poeira de giz ou,
melhor ainda, queimando um bastão de incenso para produzir alguma
fumaça, deixe visível para a platéia o tipo de pincel de luz
emitido pelo projetor. É "nitidamente" um pincel
emergente (do projetor), cônico e divergente (vai abrindo conforme
afasta-se da fonte).
Chame
a atenção para o fato de que os livros de Óptica citam que as
imagens reais (projetadas sobre anteparos) só podem ser formadas
por pincéis incidentes (no anteparo), cônicos e convergentes.
Uma pergunta fica no ar: como,
então, a imagem pode ser formada na tela com essa luz divergente?
Continuemos.
Então,
remova a tela.
Esse
experimento funcionará melhor em ambiente obscurecido e quando a
luz proveniente do projetor sair fora do ambiente (por uma porta ou
janela) após passar pela região onde estava a tela. Outro
recurso, no ambiente escuro, é colocar uma cortina preta logo após
a posição onde estava a tela.
A
batuta deve estar pintada de branco fosco. Ela pode ser um tarugo
de seção reta cilíndrica (cerca de 1,5 cm de diâmetro) ou de seção
quadrada (1,5 cm de lado) com cerca de 80 cm de comprimento.
Segunda
observação
Segure a batuta
horizontalmente no lugar onde a cena foi projetada na tela. A
seguir, agite rapidamente essa vareta para cima e para baixo
sacudindo seu pulso. Observe como a cena aparece nitidamente com os
movimentos da batuta. Procure dar à batuta uma amplitude de
movimento de vai-vem do mesmo tamanho da cena projetada. Faça com
que todos observem que a imagem aparece completa, sem falhas.
Terceira
observação
Agite a batuta fazendo,
agora, um certo ângulo com a vertical. Solicite que observem bem
como fica a imagem. Gire a batuta para produzir um cilindro ou
mesmo um cone. Novamente chame a atenção para que observem o
"jeitão" da imagem. Faça com que todos notem as deformações
produzidas com esses movimentos da batuta.
A
seguir, vem as explicações:
A
primeira observação
requer um repasse. A primeira
parte, jogar alguma fumaça no ambiente e mostrar um feixe de luz cônico
proveniente do projetor, tudo bem, mas, na segunda parte, foi feita
uma afirmação incorreta ao afirmarmos que o pincel é
"divergente" pelo simples fato dele abrir ao
afastar-se da fonte.
A
luz proveniente da lâmpada do projetor é realmente um feixe
divergente de luz (todas as fontes naturais de luz têm esse
comportamento) mas, antes de sair do projetor ela passa através de
lentes, do diapositivo (onde ocorrem filtragens e absorções ---
por isso o slide esquenta!) e, novamente por um sistema de lentes
que torna aquela porção de luz que atravessa o slide num conjunto
de feixes convergentes.
Cada
ponto iluminado do slide comporta-se como objeto real e o sistema
de lentes converge a luz dele proveniente num outro ponto de luz
--- sua imagem real. É esse conjunto de pincéis convergentes que,
ao sair do projetor, assume a forma de um cone de luz. Com a devida
focalização na tela, cada pincel que abandona o projetor,
converge sobre ela definindo o correspondente ponto imagem.
Quando
você for ao Cinema da sua localidade, observe a luz que sai lá
daquele pequeno buraco na parede de trás e abre-se para atingir
toda a tela colocada na parede da frente. A primeira impressão é
que se trata de um grosso pincel 'divergente'. Falsa impressão, são
incontáveis pequenos pincéis convergindo para pontos distintos na
tela.
Conclusão:
é falsa a idéia de que o feixe que sai do projetor é
"nitidamente" divergente (por isso o colocamos entres
aspas no texto).
Passemos
para a segunda
observação. Você pode começar
as explicações dizendo que, mesmo antes de agitar a vareta, a
imagem já estava "enfocada no ar". Mas, ela não pode
ser vista a menos que "algo" reflita a luz para seus
olhos. A batuta móvel reflete a luz do mesmo modo que a tela o faz
para formar a imagem vista pelos espectadores, apenas o faz pedaço
por pedaço. É essa luz refletida que entra em seus olhos que
produz a imagem sobre suas retinas.
Com
o agitar da batuta, porções de luz refletida chegam à retina,
sucessivamente, uma após a outra. Se a retina, ao receber essas
porções de luz, simplesmente enviasse as informações ao cérebro
e extinguisse os estímulos, o cérebro iria "desenhar"
uma imagem também aos pedaços. Não é isso que acontece.
Nós
apresentamos uma "anomalia" na visão denominada persistência
retiniana (ou uma persistência de visão) que consiste
na retenção do estímulo em pelo menos 0,1 de segundo --- tempo
suficiente para que o cérebro possa reunir todas as partes de modo
a formar um quadro completo. Essa persistência significa que, após
um estímulo (entrada de luz no olho), mesmo que a luz desapareça,
a retina continuará a enviar sinais para o cérebro durante essa
fração do segundo --- mesmo sem luz, continuamos a enxergar! Os
culpados pela retenção dessas "falsas percepções" são
os cones e bastonetes, nossos sensores de luz --- eles continuam a
enviar sinais elétricos para o cérebro mesmo depois da extinção
do breve pulso de luz.
É
graças a essa "anomalia" que podemos "ver televisão",
ver raios de rodas girando para trás enquanto o veículo vai para
a frente, "ver cinema" etc.
Expliquemos
a técnica da TV
Um ponto brilhante é produzido
quando o feixe de elétrons colide, na face interna da tela, com a
camada luminescente (sais de fósforo). Esse ponto luminoso varre a
tela, de cima para baixo, linha por linhas. São varridas 625
linhas, 25 vezes por segundo. Cada linha terá suas informações
retidas na retina durante cerca de 1/10 do segundo, tempo
suficiente para que o quadro completo seja "montado" no cérebro.
Você não verá o ponto luminoso percorrer a tela e sim o quadro
todo, a imagem da cena real.
No
cinema, são projetados 48 quadros estáticos sucessivos, levemente
diferente um dos outros. É a persistência retiniana que lhe
proporciona a sensação de movimento sem qualquer cintilação.
Com
a montagem proposta, você pode fazer uma demonstração em 3-D (três
dimensões).
Obtenha
um slide de uma figura simples, como um círculo branco, por
exemplo. Segure, pela borda, um quadrado de papelão branco, na
região onde estava a tela (posta para a focalização inicial).
A
seguir movimente a placa de papelão para a frente e para trás,
aproximando e afastando a mão do projetor. A imagem tomará a
forma de um cilindro branco (3-D) suspenso no espaço. Novamente a
persistência retiniana.
A
terceira observação,
das imagens deformadas quando você agita a vareta branca fazendo
"cilindros ou cones" no ar, ilustra bem o problema dos
mapas planos de projeção, comuns em cartografia. As deformações
que ocorrem são do mesmo tipo daquelas que ocorrem quando detalhes
sobre uma superfície esférica são mostrados por meio de uma
figura plana. Os mapas de geografia são assim.
A
explicação dada na primeira observação, de modo implícito,
responde à pergunta: por que o observador não fica sentado de
frente para o projetor, de modo que a luz incida diretamente em
seus olhos?
Cuidado,
a luz da maioria dos projetores é muito brilhante para expor seus
olhos diretamente a ela. Porém, a resposta à questão é: porque
ele não veria nada! O olho só pode formar imagens com a luz que
de fato entra no olho. Quando você põe seus olhos onde estava a
tela, somente uma parte bem pequena (porém muito brilhante) da
imagem entra em seu olho. Desse modo você não poderá ver a
imagem inteira.
|