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Céu
azul . . . Por quê?
Prof.
Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
Constatação
Desde que o céu
não fique completamente encoberto por nuvens, poderemos ver que ele é
azul. Ao nascer do sol e, pelo fim da tarde, quando ele se põe no
horizonte, o céu exibe uma coloração um tanto vermelha. Essas duas
observações estão relacionadas e poderão ser postas em destaque pelo
experimento que detalharemos.
Material
Uma boa lanterna (as de três
ou quatro pilhas com feixe estreito são as melhores), um aquário para 10
ou 15 litros com vidros bem limpos, 250 mililitros (1 xícara) de leite e
uma colher de madeira de cabo longo.
Procedimento
Coloque o aquário sobre uma mesa (pequena) no centro da sala, de modo que
você possa vê-lo de todos os lados. Preencha-o com água até 3/4 do seu
nível total. Acenda a lanterna e mantenha-a encostada numa das paredes do
aquário, ao longo de seu comprimento. Pode ser previsto um suporte para
manter a lanterna assim.
Tente
observar o feixe de luz que se propaga pela água. Difícil, não é?
Talvez você possa ver algumas partículas de pó em suspensão na água;
elas aparecem brancas. De qualquer modo que você olhe é, todavia,
bastante difícil ver exatamente onde o feixe de luz atravessa a água.
Acrescente
aproximadamente 60 mililitros (1/4 de xícara) de leite na água e misture
com a colher de madeira.
Segure
a lanterna contra a lateral do aquário, como foi feito antes. Repare que
o feixe de luz agora é fácil de ser visto ao atravessar a água. Observe
o feixe de luz olhando pelas outras laterais e pela face oposta a da
lanterna, por onde a luz escapa do recipiente. Repare que, de lado, o
feixe é visto ligeiramente azul e na extremidade oposta, aparece um pouco
amarelado.
Acrescente
outro 1/4 de xícara de leite na água e mexa. Agora o feixe de luz
apresenta-se mais azulado quando visto de lado, e com um amarelo mais
intenso olhando-se pela face oposta à entrada da luz; até mesmo um tom
alaranjado pode ser observado.
Acrescente
o restante do leite na água e mexa a mistura. Agora, visto de lado, o
feixe de luz mostra-se bem azul e bastante laranja visto pela face oposta
à da entrada da luz. Além disso, você poderá observar que o feixe de
luz aparece mais espalhado do que nas primeiras observações; não é
visto agora tão estreito como antes.
O
que será que faz o feixe de luz da lanterna aparecer azul, quando visto
de lado, e laranja quando visto de frente?
A
luz normalmente propaga-se em linha reta, a menos que encontre as bordas
de algum material pelo meio do caminho. Quando o feixe de luz de uma
lanterna propaga-se no ar, não vemos o feixe, observando-o de lado,
porque o ar é bastante uniforme (homogêneo e transparente); a luz nele
propaga-se em linha reta. O mesmo é verdadeiro quando o feixe de luz
caminha pela água, como nesta experiência. A água é uniforme, e o
feixe a percorre em uma linha reta. Porém, se houver algumas partículas
de pó no ar ou na água, poderemos observar um vislumbre do feixe porque
a luz é difundida (ver
nota no final do projeto)
(decomposta) ao encontrar as bordas das partículas de pó.
Quando
você acrescentou leite na água, você acrescentou nela muitas partículas
minúsculas. Leite contém muitas partículas minúsculas de proteína e
gordura que ficam em suspensão na água. Estas partículas difundem
a luz e fazem o feixe da lanterna tornar-se visível quando visto de lado.
Cores diferentes de luz são separadas, nesse espalhamento, em ângulos
diferentes. Luz azul é desviada da direção original muito mais que a
laranja ou a luz vermelha. Como nós vemos a luz difundida
na direção perpendicular ao feixe, e como a luz azul é a que se difunde
mais (sofre maior desvio), o feixe aparece azul. Uma vez que o laranja e o
vermelho são menos difundidos, essas cores caminham em linha reta
seguindo mais de perto o feixe inicial de luz branca. Por isso, quando você
olha diretamente no feixe de luz da lanterna (de frente), aparece laranja
ou vermelho, ou seja, o que resta da luz branca.
O
que tem esta experiência a ver com céu azul e com o pôr-do-sol laranja?
A
luz que você vê quando você olha o céu é a luz solar, que é
espalhada por partículas de pó na atmosfera. Se não houvesse nenhuma
difusão (espalhamento em cores), toda a luz proveniente do Sol cairia em
linha reta para a Terra e o céu apareceria escuro, como ocorre à noite.
A luz solar é difundida pelas partículas de pó, da mesma maneira como a
luz da lanterna é difundida pelas partículas de leite nessa experiência.
Olhar
para o céu é como olhar o feixe da lanterna de lado: você está olhando
luz difundida que é azul. Quando você olha diretamente para o Sol se
pondo no horizonte, do mesmo modo que olhou a luz da lanterna de frente,
você estará observando apenas a luz que é bem pouco difundida
(desviada), ou seja, o laranja e o vermelho.
Qual
a causa para o Sol aparecer com tonalidade laranja ou até mesmo vermelho
ao pôr-do-sol ou ao amanhecer?
Ao
pôr-do-sol ou ao amanhecer, a luz solar que nós observamos percorreu um
caminho bem mais longo através da atmosfera terrestre que a luz solar que
nós vemos ao meio-dia. Nesse longo trajeto muitas cores foram difundidas
(e portanto retiradas do feixe de luz branca), sobrando para nossos olhos
parte do amarelo e luz vermelha. E é o que vemos!
NOTA
O termo
difundir, para explicar o fenômeno de "espalhamento" e separação
de alguns comprimentos de onda em função da inclinação do Sol e da
composição da atmosfera, requer uma explicação complementar sobre a
seqüência dos fenômenos responsáveis.
Difundir
é termo comumente
restrito ao fenômeno da difusão da luz, referindo-se tão somente a uma
distribuição da intensidade do feixe de luz refletido por uma superfície
rugosa, áspera. Na difusão simples o que acontece, então, como
resultado da incidência de luz branca sobre uma superfície irregular,
nada mais é do que uma ampla abertura do feixe (para todas as direções),
sem que, entretanto, ocorra a separação em diferentes cores.
Vamos
fazer uma analogia: imagine um compacto "feixe de pessoas"
saindo da sala de espetáculo de um cinema pelo típico corredor apertado
(isso simula o feixe de luz branca incidente); ao chegarem na ampla porta
de saída (isso simula a superfície áspera), as pessoas se espalham
tomando diferentes rumos sem que ocorra qualquer separação seletiva
como, por exemplo, homens por aqui, mulheres por ali, crianças só por
esse caminho, gestantes sigam por essa direção etc. Isso simula a difusão,
o compacto feixe espalha-se, mas não há nenhuma separação seletiva. Não
é isso o que ocorre no fenômeno do Céu.
O
difundir,
usado nessa descrição, refere-se ao efeito de "espalhamento".
No "espalhamento" ocorre não só a abertura do feixe (seguindo
para todas as direções), como também a separação seletiva de cores;
algo que não acontece na simples "difusão da luz". No caso do
espalhamento há uma "reirradiação" ou "reemisão"
(osciladores atômicos) de energia luminosa pelas partículas gasosas da
atmosfera. As partículas absorvem a energia do feixe incidente e a
retransmitem em outras freqüências. A onda incidente, proveniente do
Sol, está na região da luz visível, enquanto que as freqüências
naturais das moléculas gasosas da atmosfera estão na região do
ultravioleta. Quanto maior for a freqüência da luz incidente, mais
"espalhamento" teremos. No caso do céu azul, estamos todos
inundados por essa luz azul reirradiada por todas as moléculas, em todas
as direções.
Uma
analogia singular é a comparação desse espalhamento com o efeito
estufa: nesse, a luz branca entra na estufa (ambiente com revestimento de
vidro) incidindo nos componentes em seu interior (mesa, cadeira, vasos,
flores, folhas etc.) sendo absorvida. Tais componentes, retransmitem essa
energia recebida, agora mais na região do infravermelho, que não
consegue atravessar o vidro. A temperatura no interior aumenta, pois está
inundado de infravermelho.
O
efeito de espalhamento (difusão, absorção e retransmissão da energia
luminosa em outras freqüências) é fundamental, pois é o mecanismo físico
existente na reflexão, na refração e na difração.
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