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Cores
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- O que se vê na tela não pode ser igual ao que se vê na
impressão
Prof.
Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
Muitos
profissionais (e amadores como nós) utilizam-se de seus Pentiuns e
Samsungs (monitores) da vida conectados a uma impressora colorida
para desenvolverem apresentações e layouts através de programas
como Paint, PowerPoint, CorelDraw etc. Mas, por mais que façam, as
cores vistas no monitor nunca são as mesmas que saem impressas.
Por que será?
Bem,
isso é uma questão de Óptica. Em princípio, o problema está
nas diferentes formas de geração de imagens coloridas pelo
monitor (adição direta de luzes) e pela impressora (adição
de luzes refletidas em pigmentos). Resumidamente temos:
O
tubo de imagem do monitor tradicional pode ser considerado como uma
imensa válvula eletrônica, idêntica àquelas utilizadas nos
antigos rádios da década de 50.
Em
linhas gerais, o tubo de imagens tem um dispositivo interno
semelhante ao filamento de uma válvula (ou de uma lâmpada) que
gera fluxos de elétrons (canhão eletrônico). Esses fluxos passam
por uma "peneira" e por campos magnéticos que dão
"lógica" a eles, isto é, que focalizam e posicionam os
fluxos no mosaico de pixéis sensíveis da tela. O foco se dá
justamente na tela do seu monitor, excitando os pixéis e, com
isso, formando a imagem.
Para
que você tenha cores no monitor, são gerados três fluxos de
elétrons (três canhões eletrônicos): um para excitar na tela a
freqüência do vermelho (R - red),
outro para a do verde (G - green) e
finalmente um para a do azul (B - blue).
Para
formar os diferentes tons, essas três cores (ou freqüências das
emissões luminosas) são somadas em diferentes proporções. Esse
tipo de formação de imagem chama-se imagem aditiva RGB. Ou
seja, o que seus olhos vêm é resultado direto de fluxos
organizados de elétrons que incidiram adequadamente cada um em
seus devidos pixéis do mosaico da tela sensível, produzindo
cores.
Nos
osciloscópios a tela sensível é recoberta com platino
cianeto de bário que sob a incidência de elétrons à altas
velocidades dão a conhecida coloração verde.
Na
impressora as coisas são diferentes. Em primeiro lugar, a imagem
que chega a seus olhos a partir de uma cópia impressa é resultado
de reflexão de luz.
A
luz ambiente (supostamente branca) reflete-se no papel e chega a
nossos olhos em diferentes comprimentos de onda, a partir
das cores impressas. As diferentes cores que observamos são o
resultado dessas reflexões nos pigmentos (infelizmente não puros)
da tinta utilizada. Cada tipo de pigmento absorve ou reflete
diferentes comprimentos de onda e intensidades de luz O processo de
formação de imagens impressas, por meio de deposição de tintas,
chama-se síntese subtrativa. Das cores que realmente chegam
(compondo a luz branca) sobre os pigmentos apenas parcelas são
devolvidas. Essas parcelas devolvidas, ao incidirem em nossos
olhos, nos dão a sensação de luz e cor.
Vamos
exemplificar de modo superficial, com um fato natural: A luz
proveniente do Sol é branca e incide sobre uma folha de uva. O que
vemos é uma folha verde, ou
seja, de todas as radiações que compõem a luz branca que incidem
na folha, seus pigmentos depuram o que interessa, absorvem,
realizam a fotossíntese, produzem açucares e o que não presta
joga fora ... que é a luz verde
que atinge nossos olhos. Pobre dos mortais que tanto enaltecem ao VERDE
... a cor que as plantas mais detestam. Mal sabem eles que plantas
banhadas apenas com luz verde pura, simplesmente morrem!
Trocando
em miúdos: as cores que você define e vê em seu monitor não
podem ser as mesmas quando impressas. Para um máximo de acuidade
visual, o que sugerimos é a utilização de cores padronizadas e
de suas respectivas tabelas impressas. Programas como o CorelDraw
têm estas tabelas em seu manual. Você pode também encontrar
tabelas de referência nas boas gráficas, birôs de desktop
publishing ou lojas de material gráfico. Com as tabelas,
você poderá visualizar claramente como aquela cor que
'soa' tão bem em seu monitor sairá impressa.
2
- Um jeito de 'ouvir' as cores da natureza
Cesar
Amorim de Moraes
Rosemary Sanches
Ciência Hoje número 115 (volume 20)
As
cores de folhas e flores das plantas são determinadas por
substâncias _ os pigmentos _ presentes em sua composição
bioquímica, que absorvem determinadas faixas da luz visível e
refletem o restante. O colorido que vemos é a luz refletida, que
apresenta uma coloração complementar à absorvida pela planta.
Com a utilização da espectroscopia fotoacústica, técnica que
detecta a energia da luz absorvida por amostras que podem ser
opacas, é possível identificar esses pigmentos sem a necessidade
de sua extração. Os autores, do Instituto de Física de São
Carlos, da Universidade de São Paulo, comprovaram que essa
técnica, de fácil aplicação e baixo custo, é importante no
estudo da absorção da energia luminosa pelas plantas, e pode ser
aplicada em estudos de vários processos biológicos que ocorrem
nesses sistemas.
A
multiplicidade de cores dos objetos, substâncias e seres vivos,
que encanta o olho humano e inspira artistas há milênios, só
ganhou sua primeira explicação científica no século XVII,
através de Sir Isaac Newton. Estudando o espectro obtido com a
passagem de um feixe de luz por um prisma, o físico inglês
concluiu _ acertadamente _ que as cores eram determinadas por
diferenças na absorção da luz.
Para
entender esse processo é preciso lembrar que a luz branca, como a
luz do Sol ou das lâmpadas comuns, é na verdade a mistura de
todas as cores possíveis. Se uma dessas cores é removida da luz
branca (ou seja, é absorvida por um objeto), a luz restante
(refletida por esse objeto e vista pelo olho humano) adquire uma
coloração complementar à removida. Quando, por exemplo, a luz
alaranjada é filtrada da luz branca, a luz resultante mostra uma
tonalidade azul. Da mesma forma, quando a luz azul é absorvida, a
luz refletida tem coloração alaranjada. A todas as cores do
espectro da luz, portanto, estão relacionadas cores
complementares.
As
cores presentes na luz podem ser identificadas também por seus
diferentes comprimentos de onda, propriedade física que permite
medir sua energia. Quanto menor o comprimento de onda, que pode ser
expresso em nanômetros (1 nm = 10-9 metros), maior é a
energia. Quando um objeto ou uma substância absorvem luz, utilizam
a energia desta para passar de um estado de menor energia para
outro de maior energia. Uma característica das substâncias
coloridas é que elas só podem absorver luz de certos comprimentos
de onda. Se a diferença de energia entre os estados inicial e
final é mínima, a substância absorveu a luz carmim, a de menor
energia (e maior comprimento de onda). Sob luz incidente branca, a
luz refletida por essa substância será verde. Se uma substância
precisa absorver muita energia para mudar para outro estado, então
ela absorve somente luz de comprimento de onda curto (cor roxa),
que corresponde a maior energia. Nesse caso, a luz refletida será
verde-amarelada. O verde apresenta uma condição interessante na
escala das cores, pois é a cor complementar tanto do carmim quanto
do roxo. Portanto, é refletida na absorção da luz de mais baixa
energia e da luz de mais alta energia, ou de ambas.
O
colorido das plantas
Muitas das cores que vemos
nas plantas dependem da presença, em folhas e em pétalas de
flores, de moléculas de substâncias denominadas pigmentos (em
alguns casos, a estrutura do tecido das pétalas causa um
espalhamento favorável da cor azul, mesmo fenômeno que dá cor ao
céu). A mudança da cor das folhas de diversas espécies de
plantas, no outono, acontece exatamente em função de alterações
nesses pigmentos. A maior parte das colorações amarelas e
alaranjadas presentes na natureza está relacionada aos
carotenóides, uma classe de moléculas formadas por uma cadeia em
que se alternam ligações simples e duplas. Um exemplo é o
beta-caroteno, que ao absorver luz na faixa do azul dá à cenoura
a sua coloração alaranjada. A cor da parte central da cenoura,
mais amarelada, resulta da xantofila, uma forma ligeiramente
oxidada do caroteno.
Os
carotenóides também são encontrados nas folhas de diversas
plantas, mas sua presença é encoberta pela grande quantidade de
outro pigmento, a clorofila. A molécula de clorofila é o pigmento
que, ao absorver luz nas faixas do carmim e do roxo, reflete a cor
verde que vemos nas folhas. A energia absorvida pela clorofila
através da luz é utilizada no processo de fotossíntese, no qual
o dióxido de carbono e a água se combinam para formar
carboidratos, que têm papéis estrutural e nutricional nas
plantas.
Outra
classe de pigmentos é composta pelos flavonóides, presentes em
folhas e pétalas e principais responsáveis pela variada
coloração das flores. Já foram caracterizados quimicamente mais
de 3 mil flavonóides, divididos em subclasses como as antocianidinas
e os flavonóis. Além da classificação química básica,
os flavonóides podem sofrer, durante sua síntese, modificações
como hidroxilação, metilação ou glicosação, que alteram a
maneira como absorvem luz. Essa enorme diversidade de pigmentos,
aliada às combinações geradas pela presença simultânea de
diferentes pigmentos nas várias partes das plantas, explica a
infinita variedade de cores encontrada na natureza.
As
antocianidinas são responsáveis pela maior parte das cores
vermelha, roxa e azul que vemos nas flores. Os três pigmentos
principais dessa subclasse são a pelargonidina (que reflete luz
vermelha), a cianidina (que reflete luz carmim) e a delfinidina
(que reflete luz roxo-azulada. A acidez do meio em que se encontram
as antocianidinas também pode influir na coloração que refletem.
Além
das antocianidinas, várias espécies de plantas possuem em suas
flores os flavonóis, pigmentos que absorvem somente luz
ultravioleta (com comprimento de onda menor que 380 nm), e por isso
não apresentam aos olhos humanos uma das cores do espectro _ têm
aparência branca ou creme. No entanto, tais pigmentos podem formar
complexos com antocianidinas e com íons metálicos, gerando outros
pigmentos, encontrados em algumas flores azuis. No outono, junto
com a decomposição da clorofila, os flavonóis são convertidos a
antocianidinas, contribuindo para a coloração fantástica da
estação.
As
plantas produzem esses pigmentos por diversas razões. Gerado
principalmente pelas anticianidinas, o belo colorido das flores,
por exemplo, age como estímulo visual para atrair insetos
polinizadores, que garantirão a reprodução e a sobrevivência
das espécies vegetais. Já os flavonóis, por absorverem muito da
radiação ultravioleta presente na luz do sol, funcionam como um
protetor solar, evitando danos ao DNA das plantas.
Como
ouvir as cores
Se a cor das substâncias
depende da energia luminosa que elas absorvem, é possível
identificar os pigmentos de cada planta obtendo-se seu espectro de
absorção, ou seja, determinando-se, entre todas as cores de luz
possíveis, quais as absorvidas pela planta. A maneira usual é
detectar a luz transmitida através da substância (um líquido,
por exemplo). Se a luz transmitida, em um certo comprimento de
onda, for menos intensa que a luz incidente sobre a amostra, então
houve absorção de luz. Nesse caso, o espectro de absorção
mostra um pico para aquele valor de comprimento de onda.
No
caso de folhas e flores, entretanto, não é possível detectar a
luz transmitida através das amostras, pois elas são opacas. Mas
uma técnica diferente, denominada 'espectroscopia fotoacústica',
permite determinar o espectro de absorção dessas amostras, e
também de amostras não-opacas, pois detecta um sinal acústico e
não óptico. Nessa técnica, a amostra é colocada em um
compartimento bem isolado acusticamente e conectado a um microfone
sensível. Quando essa amostra se aquece, ao absorver luz, o calor
é em parte transferido para o ar confinado no compartimento e
provoca uma pequena variação de pressão, imediatamente detectada
pelo microfone.
O
que se faz, então, é incidir luz de diferentes cores na amostra,
em condições controladas, e observar quais dessas cores produzem
um sinal no microfone, indicando que houve absorção de luz pela
amostra. Essa técnica, que tem sido amplamente utilizada no estudo
de gases, líquidos e sólidos, pode fornecer, além dos
parâmetros ópticos das amostras, também os parâmetros
térmicos, já que o sinal detectado depende da propagação da
onda térmica dentro da amostra.
A
diversidade dos pigmentos
Com a técnica da
espectroscopia fotoacústica foram obtidos, no Departamento de
Física e Informática, do Instituto de Física de São Carlos, da
Universidade de São Paulo, os espectros de absorção da cenoura,
de folhas verdes e de pétalas de violetas de cores diferentes. No
caso da cenoura, são observados picos na faixa de 450 a 500 nm,
que corresponde à tonalidade de azul. Tais picos indicam a
presença de carotenóides, que absorvem a luz azulada e refletem a
luz alaranjada que a cenoura apresenta aos nossos olhos.
No
espectro da folha, além dos picos característicos dos
carotenóides, podem ser vistos ainda picos em torno de 410 e 670
nm, que correspondem respectivamente às tonalidades roxa e carmim
e indicam a presença de clorofila. A absorção de luz por esse
pigmento, muito intensa, mascara as outras cores, como o alaranjado
refletido pelos carotenóides, e faz com que a folha apresente cor
verde. No outono, porém, ao ser acionado o mecanismo biológico de
troca das folhas, a molécula de clorofila se decompõe e o
caroteno pode exibir a sua coloração.
Para
as pétalas de violetas, os espectros de absorção são mais
complexos, apresentando, além dos picos característicos dos
carotenóides, vários outros, devidos aos pigmentos
antocianídicos. Para identificar melhor as diferenças nos
pigmentos encontrados nas pétalas rosa e roxa, o espectro da
pétala rosa foi subtraído do espectro da pétala roxa, deixando
claro que esta tem uma absorção muito maior na região de 500 a
640 nm (abrangendo faixas que vão do verde ao alaranjado, passando
pelo amarelo). O pigmento responsável por essa absorção é a
delfinidina, que reflete cores entre o roxo e o azul
(complementares às faixas absorvidas). Nas duas pétalas, há
também evidências de absorção de luz na faixa do ultravioleta
(abaixo de 380 nm), indicando a presença de flavonóis.
Outras
aplicações
O estudo dos pigmentos
vegetais através da espectroscopia fotoacústica permite apontar
que a introdução dessa técnica pode ser de grande utilidade em
numerosas áreas de pesquisa. A possibilidade de aplicação a uma
grande variedade de amostras (em forma de pó, filme, solução ou
outras), a grande facilidade na aquisição dos dados e o baixo
custo do equipamento são fatores que tornam a espectroscopia
fotoacústica acessível à grande maioria dos centros de pesquisa.
Talvez
o interesse maior dessa técnica esteja na possibilidade de fazer
as medições em sistemas in vivo. No caso das plantas, não
é necessário retirar um pedaço da planta, já que a câmara
fotoacústica pode ser montada diretamente sobre uma folha ou uma
flor, por exemplo. Isso permite que a integridade dos pigmentos
seja relacionada com vários processos, biológicos ou artificiais,
como a desidratação, o aquecimento, o congelamento e o
envelhecimento de plantas, produzindo informações que certamente
terão utilidade nas diferentes áreas de pesquisa que envolvem o
reino vegetal.
Esse
texto pode ser reproduzido na sua totalidade ou parcialmente,
bastando citar os autores e a fonte.
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