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Princípio de Fermat Prof.
Luiz Ferraz Netto Apresentação Vamos começar relembrando o próprio enunciado do princípio de Fermat: A luz, para passar de um ponto a outro, leva o menor tempo possível. À primeira vista, é bem verdade, esse enunciado parece vago ou até mesmo vazio de significado. Mas, assim como todos os outros princípios científicos, o princípio de Fermat somente adquire sentido para nós quando podemos percebê-lo em meio a situações concretas — em parte porque são os fatos que originam as leis científicas, e não o contrário. O
caminho óptico Note que esse conceito refere-se à distância percorrida pela luz em um dado meio, enquanto o princípio de Fermat se refere ao tempo gasto pela luz para se propagar. E qual é o conceito físico definido como a relação entre a extensão de um dado trajeto com o tempo gasto para percorrê-lo? A resposta é elementar: é a velocidade — um conceito que já dominamos desde os primeiros capítulos da Cinemática. Ilustremos isso tomando como exemplo a refração (figura 1): a luz segue o caminho AXB não porque este seja o mais curto (nesse caso, é óbvio que não é), mas sim por ser o mais rápido, e isso, como vimos, tem a ver com as velocidades v1 e v2 com que a luz se propaga nos dois meios.
O princípio de Fermat pode ser equacionado em função do caminho óptico e das correspondentes velocidades nesses meios. Vejamos como. Aproveitando a figura acima como referência, teremos:
Essa última expressão nos mostra que o tempo será mínimo se o caminho óptico (d1.n1+d2.n2) também o for, uma vez que c é uma constante (velocidade da luz no vácuo). A demonstração de que 'para ir de um ponto a outro, a luz utiliza tempo mínimo' (princípio de Fermat) fica, então, condicionada a mostrar que, 'para ir de um ponto a outro, a luz utiliza o menor caminho óptico possível'. Essa correlação, é ponte entre o princípio de Fermat e as Leis da Óptica Geométrica; é ela que pretendemos demonstrar, pois essa é a idéia que dá validade às simulações que propomos. Material
Reflexão
da luz
Uma polia é fixada na moldura do quadro negro, em A. A linha deve passar pela polia e manter suspenso um peso, em uma das extremidades; a outra extremidade deve ser fixada em B (por meio de um prego pequeno ou mesmo de um lápis, para não danificar o quadro, mas nesse caso alguém terá de ficar segurando o lápis). O lápis móvel X deverá manter a linha sempre encostada no porta-giz MN. Movendo-se o lápis X na direção MN, o peso desloca-se verticalmente para cima ou para baixo. Uma vez que o comprimento da linha é fixo, o peso alcançará sua posição mais baixa quando no trajeto AXB for utilizado o menor comprimento de linha possível. Para facilitar a determinação da posição mais baixa do peso, pode-se traçar uma segmento de reta vertical no quadro negro, de tal modo que o peso se desloque ao longo dele, como ilustramos. Viu como é fácil? Basta encontrar a posição do lápis móvel X que faça com que o peso encontre sua posição mais baixa em relação à polia. Nessa situação, uma vez que o caminho AXB terá extensão mínima, estaremos justamente simulando a situação que procurávamos: no equivalente óptico, como a velocidade da luz é a mesma para os trechos AX e BX (mesmo meio de propagação), os tempos para percorrê-los serão mínimos exatamente quando suas extensões forem mínimas. Encontrada essa posição de X que faz com que o peso fique o mais baixo possível, chegar às leis da reflexão será muito simples. Agora é hora de usar o giz e traçar no quadro negro as linhas AX e XB (uma técnica é esfregar o giz na linha e bater a linha no quadro negro). Feito isso, trace uma linha perpendicular a MN no ponto X. Assim, os trechos AX e BX, bem como a perpendicular a MN em X, estão todos no plano do quadro negro (tomara que essa região do quadro negro de sua sala de aula seja plana!). Essa é a primeira lei da reflexão: o raio incidente (representado por AX), a normal à superfície do espelho no ponto de incidência e o raio refletido (XB) pertencem ao mesmo plano. Vamos agora à segunda lei da reflexão. Tome um ponto qualquer da normal, chamando-o, por exemplo, de P, como na figura seguinte (para obter uma construção geométrica de bom tamanho, evite que P fique muito próximo a X). Partindo de P, trace dois segmentos de reta — um perpendicular a AX, e outro, perpendicular a XB. Medindo esses segmentos, constataremos que o comprimento deles será o mesmo.
Assim sendo, teremos construído dois triângulos congruentes, pois:
Ora, se os dois triângulos são congruentes, então seus ângulos são ordenadamente congruentes — logo, os ângulos formados junto ao ponto X são iguais. Essa é a segunda lei da reflexão: o ângulo de reflexão obtido é igual ao ângulo de incidência dado. Conclusão: assumindo o princípio de Fermat, deduzimos as leis da reflexão. Refração
da luz Utilizaremos o mesmo equipamento do experimento anterior, com ligeira modificação. O ponto fixo B (lápis ou prego pequeno), agora, deverá ser posicionado abaixo da linha MN — ou seja, na parede, abaixo do quadro negro. Veja a ilustração:
A extremidade livre da linha é agora amarrada no lápis móvel X. A partir daí, passa pelo lápis fixo B, encosta no lápis móvel X e vai para a polia A . Observe que, como o índice de refração do meio abaixo de MN é igual a 2, o caminho óptico nesse meio (representado pelo comprimento total da linha, abaixo do quadro) é o dobro do caminho real (distância de X até B). Nota: se n2 fosse igual a 3, bastaria amarrar a linha em B, passar por X, voltar a passar por B e retornar tocando X. Daqui para a frente, basta seguir o mesmo procedimento do experimento anterior: escorregar o lápis móvel ao longo de MN até obter a posição de X, em MN, tal que o peso fique o mais baixo possível em relação à polia (esse procedimento garante que as extensões de linha requeridas para os percursos AX, XB e BX serão as menores possíveis). Uma vez encontrada essa posição, marque-a no porta-giz (MN). Feito isso, vamos traçar (no quadro e na parede, seguindo os trechos de linha) os segmentos de reta que representarão o raio incidente (AX) e o raio refratado (BX). Para representar a normal à superfície de separação entre os dois meios de propagação, basta traçar uma perpendicular ao porta-giz (MN) sobre o ponto X. A visualização da primeira lei da refração é imediata: o raio incidente, a normal à superfície de separação no ponto de incidência e o raio refratado pertencem ao mesmo plano.
Passemos para a segunda lei da refração, lembrando uma relação trigonométrica das mais elementares que se fará necessária nesta demonstração: em um triângulo retângulo, o seno de um ângulo é dado pela razão entre o comprimento do cateto oposto a esse ângulo e o comprimento da hipotenusa. Os ângulos que nos interessam, na figura acima, são aqueles formados entre AX e a normal (ângulo de incidência) e entre XB e a normal (ângulo de refração). Com o objetivo de estabelecer uma relação entre eles, traçamos uma circunferência com centro em X, de raio arbitrário (quanto maior for esse raio, mais clara será a construção geométrica, mas cuide para que B fique fora da circunferência). A partir dos pontos em que essa circunferência interceptar AX e XB, traçamos os segmentos DE e GF, perpendiculares à normal. Pois bem: medindo esses segmentos, constataremos que DE tem o dobro do comprimento de GF (o que é perfeitamente coerente com o fato de n2 valer o dobro de n1, nesta simulação). Assim, podemos escrever: DE = 2 × GF Desse modo, para estabelecer uma relação entre o ângulo de incidência DXE e o ângulo de refração GXF, basta lançar mão da relação trigonométrica que mencionamos:
Sabemos, ainda, que DX = XF, pois ambos representam o raio da circunferência. Assim, chamando de r o raio da circunferência, podemos reescrever as relações 1 e 2 da seguinte maneira:
Com isso, mostramos experimentalmente que o princípio de Fermat nos conduz à lei de Snell (neste caso, de maneira restrita, para n2 = 2 × n1). A seguir, algumas curiosidades sobre o 'tempo mínimo'. A Helena da Geometria
A curva em questão resultou ser um arco de ciclóide. A ciclóide é a curva descrita por um ponto da circunferência que "rola sobre uma reta", sem deslizar, como se vê na ilustração animada.
A ciclóide foi chamada de Helena da Geometria, não só por suas múltiplas propriedades, como também por ter sido alvo de disputa entre muitos matemáticos da época. O primeiro que a estudou com profundidade foi Evangelista Torricelli (1608-1647) que em 1644 publicou um tratado sobre ela. Sob que trajetória deverá oscilar um pêndulo de maneira que seu período (tempo para uma oscilação completa) permaneça constante, independente da amplitude de oscilação? Essa curva, denominada isócrona, foi descoberta por Christian Huygens(1629-1685) em 1673 e resultou ser também uma ciclóide.
A ciclóide é, vejam vocês, tautócrona. Essa curiosa propriedade, também descoberta por Huygens, consiste no seguinte: desprezando-se o atrito, se invertermos uma ciclóide (como a da figura animada, ficando de barriga para baixo) e deixarmos cair um objeto pela mesma (algo como uma esfera numa canaleta lisa, para que ocorra escorregamento e não rolamento) este chegará no ponto mais baixo da curva em um intervalo de tempo que não dependerá do ponto de partida.
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