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A câmara escura
(Independência e
luminosidade)
Prof.
Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
As
rodelas de Sol
Em 1604, Kepler
(1571-1630) colocou, em sua "Óptica", a questão da origem das
"rodelas de Sol" para a qual não se tinha na época uma explicação
satisfatória. Refere-se àquelas manchas de luz circulares que
observamos sob as árvores frondosas ou nas coberturas, e que passam através
das folhas ou das telhas. Como Kepler já concluíra, as rodelas de Sol são
sempre redondas, independentemente da forma do buraco; somente nos
eclipses solares elas têm a forma de uma foice.
Para
elucidar este fato, Kepler construiu uma câmara escura do tamanho de um
homem (Fig.1) com um orifício em uma das paredes, portanto um dispositivo
que permitia a ele reproduzir em experiências os fenômenos observados na
Natureza. Na parede branca oposta ao orifício, ele observava a imagem
grande e invertida de objetos que se encontravam fora. 0 mesmo fenômeno
ocorre quando, em um quarto escuro, observamos a parede oposta ao buraco
da fechadura, e através do qual entra luz (Fig.2).
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Fig.1- A câmara escura de orifício.
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Fig.2 - Imagem do
filamento. |
Experimentando
Podemos construir uma câmara escura, furando a base de uma caixa de papelão
e substituindo a tampa por uma folha de papel vegetal ou por uma chapa de
vidro fosco (veja projeto Câmara
Escura; clique). Nela podem ser feitas todas as observações de
Kepler, inclusive as de que com um orifício pequeno obtém-se reproduções
claras e nítidas da realidade, ao passo que com orifícios maiores
reproduções cada vez menos nítidas.
Depois
de observarmos, por exemplo, a figura invertida de uma vela, tentaremos
uma explicação para o processo.
Antes
porém, observemos que a mancha luminosa projetada por uma fonte de luz puntiforme
através de uma abertura de diafragma (rasgo produzido num anteparo
opaco), sobre uma tela, tem a mesma forma da abertura e é maior que ela
(Fig.3).
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Fig.3 - Diafragmas
atravessados por
luz proveniente de fonte puntiforme.
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Imaginemos um objeto, por exemplo a chama de uma vela (fonte extensa de
luz), formado por numerosas fontes de luz puntiformes. Como se distribuem
na tela as manchas de luz correspondentes aos diversos pontos da vela?
Procure encontrar, por meio do traçado de "raios de luz", a
posição e o tamanho das manchas de luz, que correspondem aos pontos A,
B e C da seta externa à câmara escura (Fig.4). Por que a nitidez
depende do tamanho do orifício?
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Fig.4 - Formação da
imagem.
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A
figura reproduzida na câmara escura é formada pelos feixes de luz
elementares que saem de cada ponto do objeto e que atravessam a abertura
do diafragma. A superposição dessas 'miríades' de manchas
de luz formam a imagem projetada na
parede oposta ao orifício. Quanto menor a abertura do diafragma (orifício)
mais nítida (e menor) será a mancha individual produzida pelos inúmeros
pontos da fonte; mais nítida será a superposição delas na reprodução
da 'imagem projetada' na tela; todavia, também 'mais apagada' será essa
imagem, pois pouca luz estará entrando pelo orifício. Menor abertura
==> maior nitidez ==> menor luminosidade da imagem.
A
ilustração a seguir destaca bem os seguintes fatos: (a) cada
pequena região do objeto luminoso ou iluminado funciona como fonte de luz
elementar e, como dissemos, há 'miríades' delas; (b) não são
todos os raios de luz que partem dessas fontes elementares que atingem o
orifício, pelo contrário, apenas poucos. São aqueles que participam de
um feixe de luz de pequena abertura; feixe esse limitado por dois fatores,
a saber: a distância dessa fonte elementar ao orifício e a dimensão do
orifício.
Independência
dos raios de luz
Nesta abertura da câmara cruzam-se inúmeros raios de luz, sem que um
influencie o outro.
Esta
constatação é uma característica significativa da propagação da luz.
Poderíamos, por exemplo, não ver o corpo A, ou vê-lo de outra
forma, se os raios de luz emitidos pelo corpo B influenciassem o
percurso dos raios de luz emitidos pelo corpo A (Fig.4).
Os cones de luz de duas lâmpadas podem se interpenetrar sem que se
influenciem (Fig.5). 0 mesmo não se pode dizer de duas correntes de ar.
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Fig.5 - Independência
dos raios de luz.
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Luminosidade
Uma fonte de luz
puntiforme tem uma luminosidade uniforme em todas as direções, isto é,
uma fonte de luz puntiforme irradia luz em todas as direções.
Colocando-se a fonte de luz no centro de uma
esfera, a sua superfície interna será iluminada igualmente com a mesma
intensidade (Fig.6)). A intensidade de iluminação ou luminosidade
dependerá da intensidade luminosa da fonte de luz e da distância entre a
superfície da esfera e a fonte de luz. Quanto mais perto estiver uma
tela da fonte de luz, tanto mais clara será a
superfície iluminada. É o que nos ensina a prática.

Fig.6 - Fonte de luz
puntiforme no interior
de uma esfera. |
Através
de uma experiência, pesquisaremos como a luminosidade diminui com a distância.
Colocamos
um diafragma de papel branco com uma abertura retangular
perpendicularmente ao fluxo luminoso de uma fonte de luz puntiforme. Uma
tela igualmente branca (S) é afastada do diafragma B até
que a distância entre ela e a fonte de luz seja o dobro da do diafragma B
à fonte (Fig.7).
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Fig.7 - A intensidade
de iluminação depende
da distância.
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0 feixe de luz que passa pela abertura retangular do diafragma, projeta na
tela, à medida que a distância aumenta, um retângulo iluminado cada vez
maior e cada vez mais fraco. Usando as distâncias já mencionadas (dobro)
medimos os lados do retângulo. Pressupondo-se que a tela S seja
paralela ao diafragma B, os lados do retângulo iluminado na tela
tem o dobro das medidas dos lados do retângulo do diafragma. A área do
retângulo da tela é igual a quatro vezes a do retângulo do diafragma,
e é atingida pelo mesmo feixe de luz que a abertura do diafragma.
Portanto na tela, em uma área do tamanho da área do diafragma, incide
somente a quarta parte da luz que passa pela abertura.
Concluímos: Dobrando-se a
distância, a luminosidade cai para a quarta parte. Pelas leis geométricas
(os raios de luz são linhas retas) o mesmo fluxo luminoso para iluminar
uma área igual a nove vezes a do retângulo do diafragma, teria que
percorrer uma distância três vezes maior, e produziria, portanto,
somente a nona parte da luminosidade do plano do diafragma.
Presumimos
então que a diminuição de luminosidade pode ser compensada
respectivamente, por quatro, ou por nove fontes de luz da mesma espécie.
Dobramos uma folha de cartolina branca, formando um ângulo reto, e a
colocamos como mostra a Fig.8. A superfície de área S1,
da cartolina será iluminada por uma vela à distância e; a de área
S2 por quatro velas, ao dobro dessa distância (2e).
As duas áreas estão igualmente iluminadas; você não conseguirá
enxergar a dobra da folha de cartolina. Se afastarmos a vela solitária,
veremos com nitidez a dobra da cartolina e portanto as duas áreas estarão
diferentemente iluminadas. Dessa experiência conclui-se que o acima
abordado está correto.
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Fig.8 - Fotômetro de
Ritchie
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A folha dobrada, que permite comparar luminosidades, chama-se fotômetro
(de Ritchie).
Em seu lugar podemos usar o chamado fotômetro de mancha de gordura
(de Bunsen, 1811-1894). Seu
funcionamento é baseado no fato de que uma mancha de gordura num papel de
escrever parecerá mais clara que o papel quando este é colocado entre o
olho e uma lâmpada (Fig.9-a). Ela parecerá mais
escura que o papel, quando a observamos do mesmo lado que a fonte de luz
(Fig.9-b).
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Fig.9 - Fotômetro de
Bunsen
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A mancha de gordura desaparecerá quando o papel for iluminado com a mesma
intensidade dos dois lados.
Novo
experimento - Dobramos
uma folha de papel formando um ângulo obtuso, e a colocamos de tal forma
que a luz incida perpendicularmente sobre a superfície plana de área A1,
e obliquamente sobre A2 (Fig.10). A1
é mais clara que A2.
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Fig.10 - Luminosidade
e ângulo de incidência
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Nossas
experiências mostram:
1
. A luminosidade diminui com o quadrado da distância à fonte de luz,
2.
ela aumenta com o número de fontes de luz ou com a intensidade de luz de
uma fonte,
3.
ela é máxima quando os raios de luz incidem perpendicularmente
(comparar com a radiação térmica).
A
seguinte experiência mostra que a radiação térmica também diminui com
o quadrado da distância:
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Fig.11 - A ação da
radiação térmica
diminui com o quadrado da distância
à fonte de calor.
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À duas distâncias, uma o dobro da outra, da chama de um bico de Bunsen,
penduram-se dois termômetros iguais e escurecidos (capas metálicas
pretas) (Fig.11). Observa-se o aumento de temperatura. Que conclusão
podemos tirar?
Parte
Experimental
Minha câmara de orifício 'oficial' é
do tipo caixão/reflex, com lente convergente de distância focal 15 cm.
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Fig.12 - Câmara caixão/reflex.
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A
caixa é de madeira com dimensões (9 x 11 x 15) cm (Fig.12). No centro de
uma das faces menores foi feito um orifício de diâmetro 3,5 cm, por onde
passa o tubo que suporta a lente. A tampa é metálica e cobre 2/3 da
superfície da face superior, onde se localiza o vidro fosco. Um espelho
plano é disposto a 45o. Observe as três primeiras fotos de
minha câmara 'oficial'.
As
fotos a seguir referem-se a uma nova câmara ainda em fase de construção.
Ela é também do tipo caixão/reflex, porém não terá lente no orifício
--- aliás o orifício ainda não foi feito, como podem observar na face
menor e oposta ao espelho. A tampa é de madeira. O vidro fosco ainda não
foi colocado.
As
dimensões são as mesmas do modelo 'oficial'.
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