Chuva
elétrica de Kelvin
(Gerador eletrostático
de gotas d'água - duas versões)
Prof.
Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
Introdução
Veja como é possível
construir um gerador eletrostático, dispositivo que produz uma tensão elétrica
bastante alta, sem partes móveis e acionado pela energia de gotas
pingando. Daí a denominação de chuva elétrica
- uma brilhante idéia de Lorde Kelvin.
Gotas pingando a partir de um reservatório cheio de água (usamos um lata
de óleo vazia, como reservatório) podem produzir milhares de volts.
Parece coisa de mágico! A "mágica oculta" está no simples
fato de que a água (assim como todos as demais substâncias!) é
portadora de vasta quantidade de cargas positivas e negativas, em perfeito
equilíbrio (cancelamento algébrico de cargas). Neste dispositivo, a
energia potencial gravitacional das gotas de água é utilizada para
desequilibrar as cargas elétricas das próprias gotas. Coisa de gênio.
Fundamentos
da máquina Kelvin
A idéia básica é a
seguinte:
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A
água está repleta de cargas "móveis", metade delas
positiva e metade negativa. Um objeto eletrizado positivamente (veja
ilustração), colocado próximo ao gotejador do reservatório,
provocará separação das cargas na gota que inicia a queda (indução
eletrostática). Cargas negativas ficam "presas", por indução,
na extremidade inferior da gota, enquanto cargas positivas são
repelidas para sua extremidade superior. Como a extremidade superior
da gota não está isolada da terra (há toda a água do reservatório
ligando-a ao próprio reservatório e à Terra), cargas negativas
provenientes do solo sobem, neutralizando estas cargas positivas
separadas por indução. Quando a gota se separa do gotejador, leva
consigo carga elétrica negativa (a gota terá mais elétrons do que
prótons). A carga positiva do gotejador (pois perdeu elétrons) é
imediatamente anulada pela carga dos elétrons provenientes da Terra,
via fio terra. |
O
interessante do ocorrido é que o corpo eletrizado positivamente (o
indutor) não tem o seu desequilíbrio de cargas afetado, contudo, as
gotas (o induzido) negativas serão criadas continuamente, desde que a água
continue escoando. A energia elétrica origina-se do trabalho
realizado pela gravidade (peso
da gota), puxando a gota negativa para longe do gotejador aterrado e
longe do condutor positivo (o indutor).
NOTA:
A polaridade da gota pode ser invertida, bastando para tanto que o
condutor indutor seja negativo. A descrição será exatamente igual à
anterior, porém os sinais das cargas serão invertidos.
Suponha
agora que você disponha de dois gotejadores, fixados lado a lado, como
se ilustra na figura abaixo. Agora basta coletar as cargas das gotas
eletrificadas que caem de um deles para carregar ainda mais o condutor
indutor do outro, e vice-versa. Desse modo teremos uma eletrização
auto-sustentada, num sistema multiplicador de cargas elétricas: as
cargas dos indutores aumentam progressivamente e, com isso, aumentam também
as cargas induzidas nas gotas.
Diagrama
geral da máquina Kelvin
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As
cargas negativas retiradas das gotas que tocam no reservatório
inferior da esquerda serão partilhadas pelo indutor superior da
direita e as cargas positivas retiradas das gotas que tocam no
reservatório inferior da direita serão compartilhadas pelo indutor
superior da esquerda. Os gotejadores são eletricamente interligados
entre si e com a Terra.
Realmente,
tal dispositivo criará uma significativa diferença de potencial,
mesmo sem termos de eletrizá-lo previamente - as cargas elétricas
provenientes da atmosfera incumbem-se desta eletrização inicial. |
Montagem
e operação
1) O suporte para todo o conjunto
deve ser de material bom isolante. Barras ou tarugos de PVC podem ser
utilizados. Suporte de madeira poderá ser utilizado, desde que bem seca
ou muito bem envernizada. Os condutores devem ser fixados à estrutura de
madeira mediante tarugos de PVC.
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Visão geral da 'chuva elétrica'
Obs.:
O isolamento entre os condutores e o suporte da máquina deve ser
extremamente eficiente. Lâminas de vidro (de boa espessura) são
recomendadas. Tiras de borracha branca (ou de cor clara) podem ser
usadas para prender as lâminas de vidro nos suportes e os
condutores nas lâminas. Não use borracha preta, ela tem alta
concentração de "negro de fumo" que pode, sob altas tensões,
torná-la condutora.
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2)
O reservatório de água do topo da montagem não
precisa ser metálico - a própria água incumbe-se do movimento de
cargas. Este reservatório pode ser fixado diretamente no suporte do
conjunto. Convém aterrar este reservatório, mergulhando uma extremidade
de um fio desencapado dentro da água e ligando a outra extremidade numa
torneira, janela ou mesa metálica.
Atenção:
No geral, essas altas tensões não são prejudiciais ao organismo humano
em razão da baixíssima corrente elétrica envolvida no fenômeno (na
casa dos microampères). A surpresa causada pela faísca na pele pode
desencadear atitudes desastrosas da pessoa que a recebeu, principalmente
com relação ao mobiliário e equipamentos nas proximidades.
Como
sempre, os portadores de marca-passo devem ser avisados para se afastar
de todos os aparelhos geradores de altas tensões.
3)
Os bicos gotejadores não necessitam ser metálicos;
podem ser usados conta-gotas de vidro ou plástico. Pode-se dispor de uma
torneirinha ou um estrangulador para ajustar o gotejamento.
4)
O reservatório inferior, que recebe as gotas
neutras, também pode ser de plástico. Dispondo de uma bombinha d'água
(movida a pilhas), pode-se bombear a água desse reservatório para
aquele do topo da montagem. Isso traz comodidade ao funcionamento contínuo
do gerador eletrostático de Kelvin (principalmente quando utilizado em
exposições).
5)
Os condutores indutores, que irão determinar a
separação de cargas nas gotas dos bicos dos gotejadores, devem estar
suficientemente próximos deles, mas sem tocá-los.
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Os
indutores podem ter vários formatos: um anel feito de um grosso fio
de cobre ou alumínio, uma caneca de alumínio com o fundo abaulado e
com um orifício central (fixada com este orifício para cima), uma
lata de refrigerante sem fundo e sem tampa etc.
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Deve-se
sempre evitar bordas afiladas e rebarbas nestes condutores. No caso da
caneca com orifício "no fundo", deve-se repuxar as bordas
desse furo "para dentro" da caneca.
6)
Os condutores inferiores, que irão recolher as
cargas elétricas das gotas, devem funcionar como "coletores
de Faraday", ou seja, "cargas depositadas no interior de
um condutor metálico transferem-se imediatamente para a superfície
externa deste". As gotas devem bater no interior desses recipientes,
transferindo suas cargas para a superfície exterior e saindo neutras.
Várias
técnicas podem ser adotadas para se conseguir esse efeito:
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(a)
adaptar um funil metálico dentro do recipiente condutor, tendo o
cuidado para deixar o bico do funil ainda no interior do recipiente;
(b)
(b) colocar uma tela metálica abaulada dentro do recipiente e alguns
fios pendurados para orientar a gota (neutra) em sua queda final; |
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(c)
usar canecas de alumínio (iguais às indutoras), com o fundo
abaulado para dentro e orifício central; neste orifício deve-se
adaptar um tubo gotejador de material isolante, como se ilustra ao
lado.
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7)
Interligar os condutores, em cruz, com fios de
cobre encapados, desencapando-os apenas nos pontos de contato e nas
extremidades.
8)
Nas extremidades dos fios devem ser ligadas
esferas de latão ou alças, que servirão como terminais (bornes) para
os experimentos.
Uma
vez iniciado o gotejamento, aguarde alguns segundos para que a alta tensão
apareça. Para visualizar se o aparelho está se carregando, algumas
tirinhas finas de papel (ou mesmo pedaços de linha de costura) podem ser
grudadas nas canecas. Se as extremidades livres dessas tiras começarem a
se afastar dos condutores, eles estarão se carregando. Tempo úmido,
como sempre acontece em Eletrostática, atrapalha o experimento (um
secador de cabelos pode ser usado para minimizar a causa).
Toque
uma das canecas com suavidade e escute o crepitar de minúsculas faíscas
elétricas. Obtenha uma pequena lâmpada néon (lâmpada de
"teste" dos eletricistas); segure-a por um de seus terminais e
toque uma caneca com o outro terminal, você deverá ver um flash laranja
escuro. Toque, com este terminal livre da lâmpada, ora uma ora outra
caneca; você deverá perceber as faíscas e lampejos. Não ligue
diretamente os dois terminais da lâmpada néon, um em cada condutor da
montagem; haveria descargas rápidas demais para serem observadas e logo
a carga toda desaparece. Se você colocar um resistor de 500 000 ohms (ou
1/4W, carvão retirado de um velho rádio ou obtido em lojas de
componentes eletrônicos) em série com a lâmpada, contudo, poderá
observar lampejos intermitentes - você terá montado um circuito de
relaxação. Outro modo de visualizar lampejos intermitentes, sem o
resistor, é fixar um dos terminais da lâmpada num dos condutores em
cruz e posicionar o outro bem próximo ao outro condutor; de tempo em
tempo a lâmpada dará um lampejo.
Sugestão
Se nada disso acontecer, os problemas poderão ser:
(a)
a umidade atmosférica está alta demais (tente passar o jato do secador
de cabelo pela estrutura);
(b)
seu dispositivo está tendo dificuldade para "decidir" que
condutor será positivo e qual será negativo (a umidade é a principal
causa disso). Para sanar este problema, esfregue um pente no cabelo e
encoste o pente em uma das canecas (pode-se usar um balão de borracha pré-atritado
com uma blusa de lã, um bastão de vidro que tenha sido esfregado com
seda etc.). Este procedimento definirá a carga inicial de cada condutor.
Observação
Como já salientamos, a energia eletrostática
obtida é proveniente do trabalho da queda das gotas. Conforme a energia
elétrica armazenada aumenta, a água tem que realizar cada vez mais
trabalho para acrescentar um pouco mais de desequilíbrio de cargas nas
canecas. As gotas, cada vez mais eletrizadas, sentem cada vez mais as forças
de repulsão das canecas (também cada vez mais carregadas).
Com
esse aumento de tensão, as gotas começarão a sair do gotejador cada
vez mais lentamente, pois tendo cargas de sinal igual o do indutor próximo,
serão repelidas e, em suas quedas, poderão até alterar seus trajetos,
pois as forças de repulsão passam a admitir uma componente horizontal
devido às imperfeições das bordas e a centralização do gotejamento.
CUIDADO
A água deve sempre gotejar e NUNCA fazer um fio de água. Se a água
sair das canecas inferiores fazendo fios, eles servirão para descarregar
ambas as canecas, pois funcionarão como autênticos fios terra. Quedas,
só em gotas!
DETALHE
Os sinais (+) e (-), assim como as palavras "negativo"
e "positivo" colocadas nas figuras servem apenas de referência.
Os sinais das cargas, realmente, irão depender da própria atmosfera ao
iniciar o funcionamento (sem estímulo externo ou atritando-se um pente
com o cabelo e encostando-o no coletor, por exemplo).
Ao
trabalhar com altas tensões tenha toda sua atenção voltada ao
trabalho!
Modelo
em "linha"
A "chuva elétrica", ou gerador eletrostático de gotas, de
Kelvin, pode ter sua montagem 'em linha', como se ilustra.
Chuva
elétrica com montagem "em linha".
1-
Gotejador principal: não precisa ser metálico; pode-se ligar uma
mangueirinha no reservatório principal de água e, na
extremidade desta mangueirinha, adaptar um conta-gotas de plástico ou
vidro. Este gotejador pode até mesmo ser um pulverizador, de onde saiam
várias gotas por segundo; o importante é sair em gotas (ou gotículas)
--- não pode ser um fio de água!
2
- Primeiro Indutor (que aqui batizamos de
positivo): pode ser feito em forma de toróide (formato de um biscoito do
tipo "rosquinha"), um anel de fio de cobre ou alumínio grosso,
uma lata sem fundo e sem tampa ou uma caneca de alumínio com o fundo
abaulado (para fora) e com furo central (é importante que as bordas
deste furo seja rebaixadas para dentro). Fixar esta caneca (de boca para
baixo) com material isolante na armação de apoio.
3
- Gota transportando carga negativa, desde sua saída
do bico do gotejador.
4
- Primeiro Coletor (de cargas negativas, em nossa
ilustração): pode ser feito de uma lata sem tampa e sem fundo, dotada
de uma tela interna e de um funil de plástico abaixo dela. As gotas que
saem por este funil já deixaram sua carga elétrica na superfície
externa deste coletor.
5
- Funil de eletrização por indução. O que
ocorre com a gota, ao sair do bico deste funil, é o mesmo fenômeno que
ocorre no bico do gotejador principal. Ele deve ser metálico e aterrado.
6
- Segundo Indutor (de sinal oposto ao do primeiro
indutor). Mesmos comentários do primeiro indutor.
7
- Gota transportando carga positiva proveniente do
funil de eletrização.
8
- Segundo Coletor de cargas (de sinal oposto ao
primeiro coletor): mesmos comentários do primeiro coletor.
9
- Receptor final de gotas neutras: neste receptor
pode-se instalar uma pequena bomba d'água (tipo motor usado em
limpadores de pára-brisa de automóveis) para retornar a água ao
reservatório principal.
10
- Aterramento das partes do conjunto (fio de cobre
16).
11
- Ligação entre primeiro indutor, segundo
coletor e terminal para ensaios: use fio de cobre 16 e solde uma esfera
de latão como terminal de ensaio.
12
- Ligação entre primeiro coletor, segundo
indutor e terminal para ensaios: idem 11.
ISOLAÇÃO
Tome cuidados
especiais quanto ao material isolante usado para fixar todas as partes da
montagem que devem ficar isoladas. O material não deve absorver umidade.
Tarugos de Styrofoam, Masonite, madeira etc., absorvem a umidade do ar e
comprometem o desempenho da máquina. Dê preferência ao PVC ou varetas
com as quais são confeccionadas os caniços de pesca. A versão "em
linha" pode ser adequadamente sustenta por linhas de pesca
(excelente isolante elétrico).
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