A
Gaiola de Faraday
Prof.
Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
Introdução
Uma Gaiola de Faraday é uma
blindagem elétrica, ou seja, uma superfície condutora que
envolve uma dada região do espaço e que pode, em certas
situações, impedir a entrada de perturbações produzidas
por campos elétricos e ou eletromagnéticos externos. O
experimento a seguir, muito simples, evidencia uma dessas
propriedade da gaiola de Faraday.
Material
Um
rádio receptor portátil (AM - amplitude modulada e FM -
freqüência modulada)
Uma
folha de 'papel' de alumínio (desses que utilizamos para
envolver os alimentos)
Uma
folha de jornal
Procedimento
-
Com
o receptor de rádio, sintonize em OM (ondas médias) uma
emissora local que seja bastante potente.
-
Envolva
o receptor com a folha de jornal e observe (auditivamente) o
que acontece. Observou que o rádio continua 'falando'
normalmente?
-
Retire
a folha de jornal que envolve o rádio e use agora a folha de
papel alumínio, envolvendo-o totalmente. Que aconteceu? A
estação emissora saiu 'do ar'? Você deve ter constatado que
'embrulhado' com a folha de alumínio o rádio deixa de
'falar'.
O
papel de alumínio que envolve o receptor de radio constitui uma
gaiola de Faraday, a qual impede que sejam captados os
campos eletromagnéticos (ondas) que transportam o sinal que
faria o rádio 'falar'.
Por
que acontece isso?
Para o bom entendimento,
nada melhor que outro experimento, mais apurado, para poder
visualizar o comportamento da onda ao atingir a folha de
alumínio (ou a tela que constitui a gaiola). Esse novo
experimento requer: um gerador de áudio, um gerador de R.F.,
duas bobinas chatas de grande diâmetro, um osciloscópio e uma
fina placa de alumínio. Eis uma sugestão para a montagem:
Este
experimento permite uma demonstração contundente sobre a
questão pois mostra a penetração da onda eletromagnética num
condutor (chapa de alumínio, no caso). Para efeito de
comparação utilizaremos de ondas de baixa e de alta
freqüência, cuja produção ficará a cargo dos geradores de
áudio (áudio-freqüência) e de R.F. (rádio-freqüência).
Esses geradores produzirão uma corrente alternada senoidal na
bobina primária (disposta paralelamente à placa de alumínio),
criando assim um campo magnético que oscila senoidalmente.
Esse campo, ao penetrar na
placa de alumínio, produz um fluxo magnético variável no
decorrer do tempo [f
= a.sen(w.t)],
dando origem a uma f.e.m. induzida [ E
= - df/dt
= a.w.cos(w.t)].
Em freqüências altas, a f.e.m. induzida na placa de alumínio
será maior, dando origem a um campo magnético maior, anulando
quase que completamente o campo magnético gerado pela bobina
primária. Esse efeito de cancelamento é menor em baixas
freqüências (coloque o gerador de áudio em 10 Hz), como pode
ser verificado com um osciloscópio ligado à bobina secundária.
Ensaios poderão ser feitos usando do gerador de áudio e o de
R.F. conectado à bobina primária e analisando o comportamento
da placa através do osciloscópio conectado à bobina
secundária. Em altas freqüências o cancelamento é intenso e,
por isso, a amplitude das ondas observadas na tela do
osciloscópio são pequenas.
Esse
é o efeito das placas e telas metálica frente à incidência de
ondas eletromagnéticas; elas geram seus próprios campos que
minimizam ou mesmo anulam o campo através delas, funcionando
assim como verdadeiras blindagens às ondas eletromagnéticas.
Eis
uma simulação do processo de anulamento do campo elétrico
interno, conseguido através de uma gaiola metálica (cercado
de alumínio) imersa num campo elétrico indutor homogêneo:
Uma
sugestão, que dispensa o uso dos geradores de áudio e R.F.
acima solicitados, é usar o equipamento proposto no trabalho Transmissor/Receptor
Didático (clique) e colocando uma folha de alumínio entre
as bobinas transmissora e receptora. Gire a manivela em baixa
freqüência e a lâmpada néon, no receptor, acende (pisca);
gire em alta freqüência e ela não acenderá!
Esse
tema da blindagem, determinada pela folha de alumínio (no caso
do rádio), foi posto para os alunos de uma sala de aula; algumas
'respostas de alunos' foram transcritas abaixo:
Primeira:
A onda eletromagnética que transporta as informações para o
rádio, sintonizado em sua freqüência, incide inicialmente na
folha de alumínio a qual absorve a componente elétrica da onda
(parte de sua faixa de freqüência), impedindo que chegue
integralmente no rádio.
Segunda:
O alumínio é condutor. As ondas de rádio são campos
elétricos e magnéticos em propagação. Uma maneira de produzir
um campo eletromagnético é através da aceleração de uma
partícula dotada de carga elétrica; a onda produzida apresenta
os componentes elétrico e magnético variáveis no decorrer do
tempo. Quando uma antena de um rádio receptor intercepta essa
onda eletromagnética nela é induzida uma corrente elétrica;
posteriormente essa corrente é 'amplifica' de modo a poder
excitar o alto falante. Quando se envolve o rádio mediante uma
superfície condutora (a folha de papel alumínio, no experimento
em questão) essa atua como um 'mar de elétrons' (terra) não
oferecendo caminho privilegiado á corrente elétrica induzida, a
qual se dissipa. A antena não recebe a onda e deixa de
funcionar.
Terceira:
Ao envolver o rádio receptor com papel alumínio este acaba
pertencendo ao interior de uma superfície metálica fechada
(gaiola de Faraday), ou seja, torna-se o interior de um condutor
elétrico fechado e oco. Como sabemos, o campo elétrico no
interior de um condutor eletrizado e em equilíbrio de cargas é
nulo. As ondas de rádio, por sua vez, são ondas
eletromagnéticas constituídas por campos elétricos e
magnéticos variáveis com o tempo. O que ocorre é que um campo
elétrico variável gera um campo magnético também variável e
vice-versa; assim, um vai produzindo o outro e faz com que a onda
se propague pelo espaço. Em nosso experimento a onda chega á
superfície metálica (cobertura de alumínio) em cujo interior o
campo elétrico deve ser nula; como a onda perde, nessa
cobertura, seu componente elétrico não há quem variar para
produzir o componente magnético logo, a partir dai a onda deixa
de existir e não há nada para atingir a antena do rádio.
Em
cada resposta comparece alguma informação nova; isso pode
facilitar o entendimento dos alunos nos vários níveis de
aprendizado sobre certos fenômenos relativos à eletrostática e
à eletrodinâmica.
Alguns
outros procedimentos e experimentos sugeridos são:
a)
sintonizar o rádio numa estação de FM e comparar os
resultados;
b) em lugar do papel alumínio usar uma gaiola para transporte
de pássaros (há vários tipos dessas gaiolas a serem
testados);
c) com a gaiola para pássaros, testar o rádio em seu interior
tanto em AM como em FM;
d) sugerir aos alunos a atenção para com o rádio de carro ao
passar pelos túneis em rodovias;
e) Por que nos automóveis a antena deve ser externa?
Outros
comentários pertinentes
A gaiola de Faraday, basicamente uma gaiola feita de um material
condutor, apenas impede a entrada de campos eletrostáticos bem
como os campos eletromagnéticos cujos comprimentos de onda sejam
superiores ao tamanho da malha. Assim que o comprimento de onda
se aproxima do tamanho da malha a gaiola deixa de ser eficaz,
como você pode constatar olhando para dentro duma simples gaiola
de pássaro: a radiação luminosa, de comprimento muito inferior
ao tamanho da malha, passa perfeitamente, de modo que você
poderá observar o pássaro e todo o interior da gaiola.
Uma
pergunta geralmente feita é a seguinte: "Já
que querem impedir os presos de usarem da telefonia celular, por
que não envolvem os presídios com uma simples malha
metálica?"
Os telefones móveis usam radiação da ordem dos 1 800 MHz, e se
você construir uma gaiola de malha apertada ela realmente irá
barrará essa radiação. Mas, faça você mesmo as contas, para
calcular o comprimento de onda das ondas eletromagnéticas da
telefonia celular, para saber de antemão qual deverá ser as
dimensões dessa malha. Você chegará à conclusão que a malha
deverá ficar parecida com aquelas redes metálicas que se usam
na porta dos fornos de microondas, nada prático para envolver
toda uma prisão!
Desenvolvendo a teoria um pouco mais perceberá que os metais
(principalmente os bem polidos) refletem a luz de uma forma
coerente porque a estrutura atômica condutora da superfície
metálica funciona como uma gaiola de Faraday de malha muito
apertada, de dimensões atômicas.
Se você usar radiação X, de comprimento de onda da ordem de
grandeza da distância inter-atômica, ou mesmo inferior a ela, a
radiação vai passar através da superfície, entrando no metal,
e sendo depois absorvido por átomos interiores se o metal for
grosso, ou simplesmente passando se ele for fino. Se o
comprimento de onda for 'parecido' com a distância
inter-atômica a radiação sofrerá vários efeitos de
difração dependendo da estrutura da rede cristalina do metal,
tal como numa rede de difração óptica, e é isso que permite o
uso dos raios-X como um valioso auxiliar de análise da estrutura
atômica.