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Movimento
de carga no CEU
(Campo Elétrico
Uniforme)
Prof. Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
Introdução
Consideremos uma partícula de
massa m e carga elétrica +q em movimento em um campo
eletrostático uniforme (c.e.u.) E, ou seja, num campo onde,
em todos os seus pontos, o vetor campo elétrico E tenha o mesmo módulo
(valor, intensidade), direção e sentido. Como exemplo, podemos
considerar o campo do interior de um capacitor plano eletrizado e em equilíbrio
de cargas.
Será
que há alguma analogia formal entre esses tipos de movimentos e os
movimentos de partículas no campo gravitacional?
Sem
dúvida, há. Desde que o campo gravitacional seja considerado numa região
próxima da superfície da Terra, de modo que em todos os pontos dessa
região o vetor aceleração da gravidade g apresente o mesmo módulo,
direção e sentido, ou seja, uma região de campo
gravitacional uniforme (c.g.u.); situação bastante comum para a
maioria dos exercícios de lançamento de partículas e de queda livre.
Em
ambas as situações, a força resultante sobre a partícula será constante
(em intensidade, direção e sentido) e conseqüentemente o 'tipo' de
movimento deverá ser o mesmo, apesar das naturezas das forças serem
diferentes.
O campo elétrico E aplica sobre a carga elétrica +q a força
eletrostática Fe = q.E e essa força comunica á
partícula de massa m, portadora da carga +q, a aceleração ae
= q.E/m.
Por seu lado, o campo gravitacional g aplica sobre a massa m da
partícula a força gravitacional (peso) P = m.g. e lhe
comunica a aceleração g.
Assim,
os movimentos de partículas em campos uniformes
são cinematicamente iguais e a diferença consiste apenas nas
intensidades das forças que atuam num ou noutro campo. O movimento de uma
partícula dotada de carga elétrica lançada numa região onde subexiste
unicamente um campo elétrico uniforme (CEU) tem o mesmo caráter de uma
simples pedra lançada no campo gravitacional terrestre (CGU).
Nas
Salas 04 e 05 (cinemática e dinâmica) já
apresentamos o movimento de projéteis lançados ou abandonados no campo
gravitacional terrestre. Ilustremos uma dessas situações para recordá-lo:
Para
revisar esse assunto "Movimento
de projéteis no vácuo", clique sobre o destaque. Para a situação
esquematizada acima teremos para a altura máxima H1, alcance D1
e tempo de vôo t1, respectivamente:
H1
= vo2.sen2a/(2g)
...... D1 = vo2.sen2a/g
..... t1 = 2.vo.sena/g
Estudo
1
Estudemos a seguir o comportamento
dinâmico e cinemático de uma partícula eletrizada lançada numa região
onde existem, simultaneamente, dois campos uniformes, um gravitacional e
outro eletrostático. Eis a ilustração e o enunciado completo para a
questão:
"Uma
partícula de massa m dotada de carga elétrica +q é lançada
com velocidade inicial vo que forma ângulo a
com a horizontal (eixo x). Na região, subexiste simultaneamente dois
campos uniformes g e E, ambos com linhas de forças
verticais e sentido para baixo (sentido oposto ao eixo y). Calcular o
tempo de vôo da partícula (t2), a altura máxima atingida (H2)
e o alcance do lançamento (D2)."
Sobre
a partícula agem as forças de intensidades P = m.g e Fe =
q.E, ambas verticais, para baixo. A intensidade da resultante delas será
R = P + Fe = m.g + q.E também vertical para baixo. Pela
Segunda lei de Newton podemos por que R = m.a, de modo que o módulo da
aceleração resultante será:
a
= R/m = (m.g + q.E)/ m = g + qE/m = constante
Desse
modo, as equações cinemáticas para t2, H2 e D2
serão exatamente as mesmas de t1, H1 e D1,
simplesmente substituindo-se 'g' por "g
+ qE/m". Tudo se passa como se a partícula houvesse sido lançada
em um 'campo gravitacional mais intenso'. Então:
H2
= vo2.sen2a/[2(g+qE/m)]
...... D2 = vo2.sen2a/(g+qE/m)
..... t2 = 2.vo.sena/(g+qE/m)
Aqui
cabe, entretanto, uma pergunta de conceito: --- Comparando o lançamento
desse caso acima com aquele que se realiza apenas no campo gravitacional,
temos a acrescentar apenas os efeitos da nova força vertical para baixo Fe.
Mas, sendo essa nova força vertical, por que o alcance na horizontal foi
afetado?
A
resposta é simples: Esse alcance horizontal depende do tempo de vôo e
esse tempo é determinado em função do deslocamento vertical da partícula.
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NOTA:
É fácil ver-se que, se na questão apresentada o campo elétrico E
tivesse 'sentido para cima', as respostas
seriam:
H2
= vo2.sen2a/[2(g
- qE/m)] ...... D2 = vo2.sen2a/(g
- qE/m) ..... t2 = 2.vo.sena/(g
- qE/m)
e
tudo se passa como se a partícula houvesse sido lançada em um 'campo
gravitacional mais fracote'.
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Estudo
2
A seguir, vejamos novamente a questão
proposta, com uma modificação: "as linhas de
força do campo eletrostático E fazem um ângulo b
com a vertical". Como na questão
anterior, pedem-se a altura máxima atingida (H3), o alcance
horizontal (D3) e o tempo de vôo (t3). Eis a
ilustração:
Nessa
situação, a resultante das forças que atuam na partícula será dada
(vetorialmente) por: R = P + Fe e a segunda lei de
Newton fica: R = m.a = P + Fe .
Projetando-se essa 'lei vetorial' sobre as direções Ox e Oy teremos as
duas equações escalares do movimento da partícula:
Rx
= Px + Fex = Fex = m.ax
(uma vez que Px = 0) e
Ry = Py + Fey = P + Fey = m.ay
(uma vez que Py = P)
Os
componentes de Fe segundo as direções y e x valem,
respectivamente:
Fey
= Fe.cosb
e Fex = Fe.senb.
de
modo que as acelerações escalares do movimento segundo as direções Ox
e Oy serão:
ax
= Fex/m = Fe.senb/m
= constante
ay
= (P + Fey)/m = (m.g + Fe.cosb)/m
= g + Fe.cosb/m
= constante
O
componente horizontal Fex não interfere no deslocamento
vertical da partícula e conseqüentemente não interfere no tempo de vôo
e na altura máxima vertical atingida de modo que já podemos dar duas
respostas á questão apresentada:
t3
= 2.vo.sena/(g
+ Fe.cosb/m)
e H3 = vo2.sen2a/[2(g
+ Fe.cosb/m)]
ou,
substituindo-se Fe = q.E teremos, em função dos dados da
questão:
t3
= 2.vo.sena/(g
+ qE.cosb/m)
e H3 = vo2.sen2a/[2(g
+ qE.cosb/m)]
O
componente horizontal Fex = Fe.senb
= qE.senb
afeta o alcance horizontal acrescentando o alcance (1/2).ax.(t3)2
(MUV); em outras palavras, o alcance horizontal será aquele dado pela
expressão de D2 vista acima mais o deslocamento
horizontal imposto pela força horizontal constante Fex que lhe
imprime a aceleração ax:
D3
= vo.cosa.t3
+ (1/2).ax.t32 ou
D3
= vo.cosa[2.vo.sena/(g
+ qE.cosb/m)]
+ (1/2).(qE.senb/m).[2.vo.sena/(g
+ qE.cosb/m)]
ou
ainda

Esse
último resultado também apresenta uma analogia formal com o lançamento
de projéteis no campo da gravidade uniforme; é o caso em que se
considera a existência da 'resistência' do ar numa situação favorável,
ou seja, de um vento 'soprando a favor' do movimento e nele aplicando uma
força horizontal constante.
Essas
analogias facilitam sobremaneira a solução de exercícios. Assim,
aqueles casos típicos de elétron lançado entre as placas de um
capacitor plano (região onde reina campo elétrico uniforme) onde se
desprezam as ações do campo gravitacional, têm solução equivalente ao
caso ao caso de lançamento de projéteis no campo de gravidade uniforme e
no vácuo.
Estudo
3
Vejamos a seguinte questão,
continuando nosso estudo de movimento de cargas:
"Um
elétron penetra no interior de um capacitor plano, com uma velocidade
inicial v1, formando um ângulo a1
com as placas do capacitor, e sai deste formando um ângulo a2
com as placas, como se ilustra abaixo. O comprimento das placas é L.
Obter a intensidade do campo elétrico uniforme, E, no interior do
capacitor e a energia cinética do elétron ao abandoná-lo. A massa m e a
carga q do elétron se consideram conhecidas."
Indiquemos
por v2 a velocidade do elétron ao sair do capacitor.
Na direção das placas (na horizontal, na ilustração) o elétron
apresentará movimento uniforme (uma vez que não há componente de forças
nessa direção) e, disso tiramos o tempo de percurso do elétron dentro
do campo:
t
= L/(v1.cosa1)
Na
direção perpendicular ás placas (na vertical, na ilustração), a força
resultante é Fe = qE e a aceleração nessa direção será ay
= - Fe/m = - qE/m = constante; nessa direção o movimento do
elétron é uniformemente variado. Assim sendo para os componentes da
velocidade do elétron segundo a vertical teremos:
v2y
= v1y + ay.t ou v2.sena2
= v1.sena1
- (qE/m).L/(v1.cosa1)
Lembre-se
que segundo a horizontal o movimento é uniforme e, conseqüentemente o
componente da velocidade segundo essa direção não varia, ou seja: v1.cosa1
= v2.cosa2
. Com isso em mente a expressão acima fica:
v1.cosa1.tga2
= v1.sena1
- (qE/m).L/(v1.cosa1)
Dessa
expressão, podemos isolar E e teremos uma das respostas da questão, a
saber, a intensidade do campo elétrico no interior do capacitor:
E
= (tga1
- tga2).m.v12.cos2a1/(qL)
A
energia cinética do elétron ao sair do capacitor será dada por:
(1/2).m.v22
= (1/2).(m.v12)(cos2a1/cos2a2)
Tudo
entendido? Podemos apertar a 'porca' um pouco mais? ... Vamos lá.
Estudo
4
São bastante interessantes as
questões sobre as oscilações de um pêndulo eletrizado, colocado dentro
de um capacitor plano. Vejamos a seguinte:
"Uma
pequena esfera de massa m e dotada de carga elétrica q está
suspensa por um fino fio de seda de comprimento L e oscila dentro de um
capacitor de placas paralelas. A intensidade do campo eletrostático no
interior do capacitor é igual a E e as linhas de força são verticais e
sentido para baixo, como se ilustra abaixo em (a). Queremos
determinar o período T das oscilações desse pêndulo."
Sabemos
que, se houvesse apenas o campo gravitacional, o período de oscilação
do pêndulo seria dado por:

A
presença do campo elétrico uniforme (de mesma direção e sentido que g),
como sabemos das questões anteriores, implica no acréscimo da aceleração
qE/m imposta pela força elétrica. é como se o pêndulo estivesse
oscilando num local onde a aceleração da gravidade tivesse valor "g
+ qE/m", logo, o período que buscamos será:

Como
se observa as soluções começam a ficar mais simples quando se sabe
utilizar das analogias entre movimento no CEU e no CGU.
Estudo
5
Como ficará
afetada essa expressão para T se invertermos o sentido do campo elétrico,
ou seja, invertermos a polaridade do capacitor?
Essa
é fácil, basta subtrair de "g" a parcela "qE/m":

Estudo
6
Nessa situação de polaridade invertida
acima, que acontecerá com o pêndulo no caso de aumentarmos
gradativamente a intensidade do campo elétrico no interior do capacitor?
O
período das oscilações aumentará progressivamente (irá ficando cada
vez mais lento) e tenderá ao infinito (tenderá a 'parar') quando Fe
= P, ou seja, qE = m.g ou E = mg/q.
Se a partir desse valor continuarmos a aumentar a intensidade do campo elétrico
E, teremos que prender o fio na placa inferior do capacitor e não
mais na superior, caso queiramos que existam as oscilações (o pêndulo
funcionará de 'ponta cabeça').
E
qual será, para esse caso, a expressão para o novo período do pêndulo?
A
nova expressão será:

Estudo
7
Vamos complicar um pouquinho mais a questão:
"A
pequena esfera eletrizada oscila agora dentro do campo elétrico de um
capacitor cujas placas são verticais (e não mais horizontais como na
questão original), como se ilustra (b). Neste caso as acelerações g
e qE/m formam entre si um ângulo reto. Determinar o período das
oscilações do pêndulo e o ângulo a
que a posição de equilíbrio do fio forma com a vertical."
Nessa
situação,
(1) o período das oscilações do pêndulo será expresso em função da
aceleração resultante ou efetiva gef, soma vetorial
das parcelas segundo a vertical (g) e horizontal (Fe/m)
e
(2) o ângulo a
será aquele entre a vertical e a posição de equilíbrio (que coincide
com a direção de gef).
Então,
fácil ver que:

Estudo
8
Acredito que agora poderemos
analisar o caso geral no qual as placas do capacitor fazem com a
horizontal um ângulo genérico b.
A pergunta é a mesma: obter o período de oscilação do pêndulo e o ângulo
que o fio, na sua posição de equilíbrio, forma com a vertical.
Ilustramos isso em (c):
Como
no caso anterior, a aceleração resultante ou efetiva gef
será dada pelo soma vetorial das parcelas g e Fe/m.
A intensidade dessa aceleração efetiva (que será levada na expressão
do período) pode ser obtida pela aplicação do 'teorema do cosseno', bem
conhecido da trigonometria:
gef2
= g2 + (qE/m)2 + 2.g.(qE/m).cosb
De
modo que T e a
serão expressos por:

Verifique
que, para b
= 0 voltaremos ao resultado obtido para as placas do capacitor na
horizontal e para b
= 90o para o caso em que as placas estão na vertical. Se
restarem dúvidas mande um e.mail para leobarretos@uol.com.br,
autor do www.feiradeciencias.com.br
e detalharemos essa verificação.
Estudo
9
Para terminar nossas análises
propomos a seguinte questão:
"Calcular
o período das oscilações de uma pequena esfera eletrizada de massa m e
carga +q, quando no ponto de suspensão do fio se localiza outra carga +q,
como se ilustra."
Vejamos
a resposta 'de um aluno apressado em suas conclusões':
Segundo a lei de Coulomb a esfera suspensa será repelida pela esfera fixa
por força de intensidade k.q2/L2. Essa força deve
comunicar á esfera uma aceleração [kq2/L2]/m.
Dessa forma o período das oscilações será:

Você
concorda com esse raciocínio?
Ou será que você pensou assim:
"Não concordo. Para que a expressão acima seja correta, é necessário
que a aceleração "[kq2/L2]/m" se
manifeste constantemente na vertical para baixo, o que não ocorre na
situação, exceto quando a esferinha suspensa passa pela posição de
equilíbrio."
A
bem da Física, você só acertou quando disse "Não concordo" e
acrescento 'a expressão está errada'.
Observe que nesse caso a força elétrica está permanentemente dirigida
ao longo do fio e, portanto, é equilibrada pela tensão no fio. Dessa força
de natureza elétrica não aparece, na direção do movimento, nenhuma
parcela que possa ser considerada como restauradora. Assim apenas o fio
fica mais tenso; é como se trocássemos a esfera original eletrizada por
outra de massa maior, não eletrizada. Mas ... como a massa não interfere
no período do pêndulo esse continuará a ser expresso por:

Chega?
Certo,
bom sucesso em seus estudos.
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