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Eletrômetros
(Medida de diferença de potenciais)
Prof. Luiz Ferraz Netto [Léo]
leo@feiradeciencias.com.br
leobarretos@uol.com.br
Princípio dos eletrômetros
Os eletrômetros são aparelhos utilizados para medir
diferença de potenciais. Tipicamente, um eletrômetro é um capacitor deformável,
onde se mantém entre as armaduras uma diferença de potencial constante U; da
medida da força ou do par (binário) que tende a produzir a deformação, deduz-se
o valor de U. Como, de modo geral, a referência para potencial elétrico é a
terra (solo), com Vo= 0, tem-se U = V - Vo = V;
desse modo diz-se, também, que eletrômetro se
destina à medida de potenciais elétricos V.
Seja C a capacitância do capacitor. Suponhamos que, sob a ação das forças
eletrostáticas, o capacitor experimenta uma deformação que aumenta de dC a sua
capacitância; as forças que produzem a deformação efetuam um trabalho dt,
e como esse trabalho é fornecido pelo sistema, resulta daí uma diminuição na sua
energia potencial eletrostática.
Mas, para manter o potencial constante, torna-se necessário aumentar o valor
absoluto da carga de cada armadura da quantidade dQ = V.dC, o que corresponde a
um acréscimo V.dQ = V2.dC na energia eletrostática.
Em suma, durante essa transformação a um potencial constante, o acréscimo da
energia eletrostática do capacitor será de
dEelet. = V2.dC - dt ... (eq.01)
Mas, por outra parte, tem-se sempre Eelet.= (1/2).C.V2
, donde, sendo V constante, diferenciando vem
dEelet.= (1/2).V2.dC ... (eq.02)
Identificando-se as duas expressões (eq.01) e (eq.02), pode-se escrever
V2.dC - dt = (1/2).V2.dC ... donde ... dt = (1/2).V2.dC ... (eq.03)
Se um capacitor, cuja diferença de potencial entre suas armaduras permanece constante, se deforma sob a ação das forças eletrostáticas, o trabalho dessas forças é igual ao semi-produto do quadrado da diferença do potencial pelo acréscimo da capacitância.
Daí se segue que dt
e dC têm o mesmo sinal; por consequência, as forças elétricas que tendem a
efetuar um trabalho positivo tendem também a aumentar a capacitância, e isso
qualquer que seja a deformação considerada.
1º-- Se a deformação consiste numa
translação dx duma armadura paralela ao eixo dos x, e se Fx é a
componente paralela ao eixo dos x da força aplicada a essa armadura, sendo X
contada positivamente no sentido dos x positivos, tem-se
dt = Fx.dx;
por conseguinte, Fx.dx = (1/2).V2dC
donde se tira
Fx = (1/2).V2(dC/dx) ... (eq.04)
2º-- Se a deformação consiste numa rotação da duma armadura, o momento T das forças aplicadas a essa armadura, em relação ao eixo de rotação, contado positivamente quando as forças tendem a aumentar a, é tal que
dt = T.da
Tem-se, pois,
T.da = (1/2).V2dC
donde resulta que
T = (1/2).V2(dC/da) ... (eq.05)
Da medida de Fx ou de T
é possível deduzir V; é o que se realiza com os
eletrômetros.
Existem numerosos tipos de eletrômetros, mas estudaremos sumariamente aqui apenas o eletrômetro de pratos, no qual a deformação utilizada é uma translação, e o eletrômetro de quadrantes, no qual a deformação utilizada é uma rotação.
Eletrômetro de pratos
O aparelho é um capacitor plano cuja armadura A é um disco circular com
anel de guarda, que se pode deslocar, conservando-se paralelo a si próprio, no
sentido das linhas de força. A intensidade da força que se exerce
perpendicularmente sobre o disco A vale:
F = (1/2).V2(dC/dx) ... (eq.06)
Ora, sendo o ar o dielétrico, tem-se, em unidades do Sistema Internacional: C = eo.S/x , onde C é a capacitância, eo a permitividade absoluta do meio (ar, no caso), S = p.R2 é a área das placas que se defrontam e x a distância que as separa. Então, derivando-se em relação a x, tem-se:
dC/dx = - eo.S/x² ... (eq.07)
Levando-se a ... (eq.07) na ...
(eq.06) tem-se, em valor absoluto:
F = (1/2).eo.V2.S/x²
... (eq.08)
No eletrômetro-balança, de
Abraham, representado abaixo, o disco A acha-se suspenso ao
travessão duma balança; equilibra-se a força F, depondo-se pesos marcados no
prato P. Se m é a massa desses pesos e se os dois braços do travessão são
iguais, tem-se:
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F = m.g = (1/2).eo.V2.S/x² e
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Vê-se que, se conhecemos x, R, m e g, podemos calcular-se V, em volts. Se interessar, pode-se substituir eo por 1/(4p.k) , onde k é a constante eletrostática, característica do meio e do sistema de unidades adotado.
O valor de V se deduz de medidas geométricas e mecânicas, por aplicação de uma fórmula; efetua-se, então, uma medida absoluta, e o aparelho é um eletrômetro absoluto.
A diferença de potencial U = V - Vo é
estabelecida entre o prato B, por uma parte, e o prato A e o seu
anel de guarda A´, por outra parte; A e A' se acham em comunicação com a
caixa metálica que encerra o aparelho, a fim de que não haja carga alguma na
face externa de A e A´.
Pode-se fazer variar a distância x dos pratos, deslocando, com o auxílio do
botão b, que aciona uma cremalheira, o prato B; um nônio permite apreciar os
deslocamentos. Mede-se x, levando B ao contato com A.
Mas, o equilíbrio de A é instável; se F ultrapassa um pouco o peso mg, A se
aproxima de B, o que tem precisamente por efeito aumentar F. Limitam-se os
deslocamentos de A com o auxílio de pequenos espigões ou esperas isolantes; o
disco A vem exatamente para o plano do anel de guarda quando a agulha a se acha
no zero; o referido disco se apoia, então, sobre a espera isolante inferior.
Para efetuar a medida, coloca-se no prato P uma massa m, levemente superior à
necessária, e em seguida diminui-se levemente x, até que a balança oscile;
lê-se, então, o valor de x no nônio.
Não podemos trabalhar com dimensões muito grandes do disco A, pois seria difícil regulá-lo paralelamente a B; por outra parte, m deve ser da ordem do grama, e x da ordem do centímetro, se desejamos obter essas quantidades com precisão. Nessas condições, V é relativamente grande. Exemplifiquemos:
Se x = 1,0 cm = 1,0.10-2m, R = 6,0 cm = 6,0.10-2m e m = 5,0 g = 5,0.10-3kg, com eo = 8,85.10-12F/m e p = 3,14 tem-se, aplicando a (eq.09) :
V = (1,0.10-2/6,0.10-2).√[2.5,0.10-3.10/(8,85.10-12.3,14)] = (1/6).√[1011/27,8] = (1/6).√[1012/278] = (1/6).(106/16,7) = ~106/102 = 10 000 volts.
O aparelha permite medidas entre 1 000 e 100 000 volts, mas
quando se alcança tão alto valor de V, as perdas comprometem a precisão das
medidas.
Para valores reduzidos de V, seria necessário operar com distâncias x muito
menores; pode-se então medir x, utilizando interferências luminosas.
Determinam-se, então, diferenças de potencial de poucos volts.
Para se medirem grandes diferenças de potencial, até 300 000 volts, utiliza-se uma modificação do aparelho precedente, conhecido sob o nome de eletrômetro de Abraham e Villard.
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O prato A, rodeado do anel de guarda A', é atraído pelo prato B; A acha-se suspen- so por duas fitas R e R', de aço fino, e seus leves deslocamentos horizontais, amplificados por um sistema de hastes articulados, são transmitidos à agulha a, que se desloca diante duma graduação. O aparelho é de leitura direta; é gradua- do por comparação com um eletrômetro plano conveniente. |
Não se trata, pois, de um eletrômetro absoluto; o aparelho permite comparar a diferença de potencial por medir uma diferença de potencial conhecida (calibração do ponteiro na escala), isto é, permite efetuar uma medida relativa: é um eletrômetro relativo.
Eletrômetro de quadrantes
Descrição — O aparelho se compõe essencialmente de dois capacitores, tendo uma
armadura comum, móvel.
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A armadura móvel é um prato A, muito leve, de alumínio,
horizontal, que se denomina ponteiro. Este se acha suspenso por um fio ou por
uma fita, de bronze, de prata, de platina ou mesmo de quartzo; numa projeção
horizontal, tem a forma de dois setores, diametralmente opostos, cujo ângulo é
de 90° aproximadamente; mas os setores se ajustam entre si. Finalmente, uma
haste T prolonga para baixo o fio de suspensão, e suporta um espelho plano M, que
permite medir a rotação do ponteiro (pelo método de Poggendorf).
Este se localiza no interior duma caixa cilíndrica achatada, de metal, cujo eixo
coincide com o fio de suspensão do ponteiro e a qual foi dividida em quatro
quadrantes 1, 1´, 2 e 2', por dois planos verticais retangulares, passando pelo
eixo. Os quadrantes 1 e 1´ são reunidos por um fio condutor, assim como os quadrantes 2 e 2'. Cada par de quadrantes constitui, pois, uma
armadura dum capacitor do qual a outra armadura é a parte do ponteiro situada no
interior desses quadrantes.
O conjunto acha-se contido numa caixa metálica que garante a proteção
eletrostática e cujo potencial será considerado como potencial zero.
Teoria — Sejam V, V1, V2 os potenciais
elétricos, respectivamente, do ponteiro, dos quadrantes 1, 1´ e dos quadrantes 2, 2'.
Quando o ponteiro gira do ângulo da, em virtude da simetria do aparelho, a
capacitância dos dois capacitores varia a mesma
quantidade dC — a mais, para aquele em que a agulha entrou mais, a menos, para o
outro.
A derivada dC/da , que representa a variação de
capacitância por unidade de ângulo, é, pois, a mesma para ambos os capacitores;
e se o ponteiro se acha suficientemente mergulhado nos quadrantes, pode-se admitir que ele é
constante, isto é, independente de a, sem embargo das perturbações devidas às
bordas do ponteiro e às dos quadrantes.
O primeiro capacitor constituído pelo ponteiro e pelo par de quadrantes 1 e 1´,
acha-se ´carregado´ sob a diferença de potencial V - V1; o momento das forças eletrostáticas,
em relação ao eixo de rotação, que tendem a fazer o ponteiro entrar nos
quadrantes 1 e 1´ equaciona-se:
(1/2).(V - V1)2.(dC/da) ou (1/2).g.(V - V1)2
No equilíbrio, se o ponteiro girou do ângulo a, a partir
da posição para a qual a torção do fio F é nula, pode-se escrever:
A.a =
(1/2).g.(V - V1)2
- (1/2).g.(V - V2)2
= (1/2).g.[(V - V1)2
- (V - V2)2] =
= g.(V2 - V1).[V
- (V1 + V2)/2] e, finalmente
a = K.(V2 - V1).[V
- (V1 + V2)/2]
Instalação
Primeira montagem -- em geral, utiliza-se a seguinte: o ponteiro é posto
em comunicação com um dos pólos duma fonte de tensão DC, equivalente a uma
associação de 10 baterias automotivas de 12 V, da qual o outro
polo é ligado à caixa; o par de quadrantes 2,2' acha-se em comunicação
com a caixa; finalmente estabelece-se, entre os dois pares de quadrantes, a
diferença de potencial u a medir.
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Neste tipo de montagem, tem-se, pois,
V2 = 0, V1= u e por
conseguinte a = K.u.(V
- u/2) .
Supomos que u é uma fração do volt, de sorte que u/2
é negligenciável
diante de V, que é da ordem de 100 volts. Nessas condições, pode-se escrever:
a = K.V.u , isto é, o
desvio é proporcional à diferença de potencial a medir.
Obtém-se, assim, um desvio do ponto luminoso de 1 mm numa escala graduada, colocada a 1 metro, para uma diferença de potencial u da ordem do milivolt ou alguns décimos de milivolt.
Segunda montagem -- se a diferença de potencial a medir não é desprezável em relação a V, a aproximação precedente deixa de ser legítima, e pode-se utilizar a seguinte montagem (ilustração acima, à direita): estabelece-se entre o ponteiro e a caixa a diferença de potencial a medir, e, entre os dois pares de quadrantes, a diferença de potencial (V-Vo) dada pela auxiliar fonte de tensão DC, simétrica (+120V/0V/-120V), cujo ´neutro´ se acha ligado à caixa.
Tem-se: V1=V/2, V2= - V/2, V1 + V2 = 0, e por conseguinte, a = K.V.u ; a é ainda proporcional à diferença de potencial u.
Essa montagem é, entretanto, pouco usada; com efeito, se a diferença de potencial a medir é importante, opõe-se a mesma a uma diferença de potencial u´ conhecida, da mesma ordem de grandeza, e mede-se a diferença u - u´ utilizando-se a primeira montagem.
Terceira montagem -- Finalmente, pode-se lançar mão do eletrômetro sem fazer intervir uma diferença de potencial auxiliar (dada pela fonte DC, simétrica ou não). Para isso, liga-se o ponteiro a um dos pares de quadrantes e à caixa, e os dois pares de quadrantes aos dois bornes, entre os quais se tem a diferença de potencial desconhecida. Por conseguinte, V1= V = 0, V2= u e a = (K/2).u2.
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As indicações do aparelho são então proporcionais ao quadrado da diferença de potencial a medir; essa montagem é também utilizada para medir diferenças de potencial alternadas, das quais dá o valor eficaz.
Seja qual for a montagem utilizada, K não se determina por medidas mecânicas, mas é avaliado mediante a observação do desvio a dado por um valor conhecido uo da diferença de potencial; o aparelho permite, então, comparar a d. d. p. desconhecida a uma d. d. p. conhecida, isto é, permite efetuar medidas relativas: trata-se, pois, dum eletrômetro relativo.
Usos
O eletrômetro de quadrantes é o aparelho fundamental de todas as medidas
eletrostáticas: medidas de d. d. p., de capacitâncias, de quantidades de carga,
etc..
E' igualmente utilizado na indústria, sob o nome de voltímetro eletrostático,
para medir grandes diferenças de potencial.
A figura acima, centro, representa um tipo desses aparelhos. Compreende dois quadrantes
isolados da caixa, sendo os dois outros formados pela própria caixa; o ponteiro
de alumínio acha-se ligado à caixa, de sorte que as indicações do aparelho
dependem do quadrado u2 da d. d. p.; o ponteiro é reconduzido ao zero por uma
mola em espiral ou por um estribo que pode suportar um peso.
Empregam-se também eletrômetros multicelulares, formados por células
superpostas, que desempenham o papel de quadrantes, nos quais penetra, mais ou
menos profundamente, uma série de ponteiros solidários uns com os outros e
suportados por uma mola em espiral; o sistema é amortecido por um banho de óleo.
Esses voltômetros têm, sobre os voltômetros comuns (os voltímetros da vida!), a vantagem de não serem
atravessados por corrente permanente alguma, de não consumirem potência e de
exigirem o dispêndio de energia absolutamente insignificante que corresponde à
carga dos capacitores; finalmente, como a ação que se exerce sobre a equipagem
móvel é proporcional a u2, as indicações fornecidas pelo
instrumento são independentes da polaridade da diferença de potencial.
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