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Relógio
Eterno
Prof. Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
Introdução
Tenho em casa um relógio eterno e gostaria
que você também tivesse o seu. Não é nada difícil construir um deles
pois basta providenciar um relógio digital à quartzo e uma pilha de
telefone.
O meu relógio digital foi obtido a partir de um brinde de propaganda; ele
trás impresso o nome "Michael", tem 5cm de comprimento, 2,2 cm
de altura e 0,5 cm de largura. Na lateral há dois minúsculos orifícios
nos quais, espetando-se uma ponta de caneta esferográfica ajusta-se
minutos, horas e dia. Funciona, ou pelo menos funcionava, há quinze anos
atrás, com uma pilha botão com duração de dois anos. A cada dois anos
devia trocar a pilha.
Desde então, não foi mais preciso trocar a pilha, pois foi convertido para um relógio
eterno. Simplesmente retirei a pilha botão e substituí por uma pilha de
telefone. Eis o seu visual:
Bem,
vejamos agora porque é um relógio eterno.
O
'segredo' está apenas em saber "o que é uma pilha"
Uma pilha voltaica é nada além de um gerador eletroquímico, ou
seja, um dispositivo que converte energia potencial química em energia
elétrica. A pilha comum de lanterna, por exemplo, é um desses geradores.
Trata-se de uma caneca de zinco (eletrodo negativo) preenchida com uma
solução fracamente ácida misturada a um despolarizante (eletrólito) e
um tarugo central, de carvão (eletrodo positivo). Essa 'trinca',
zinco + eletrólito + carvão gera um tanto exato de energia elétrica, por
unidade de carga elétrica. Esse "tanto exato" de energia
elétrica por unidade de carga recebe o nome de 'força eletromotriz'
(f.e.m. = E) e vale 1,5 V. E não interessa se a pilha é minúscula,
pequena, média, grande ou enorme!
A pilha de telefone é bem grande perto da pilha 'palito' e é enorme em
confronto com a pilha botão. Porém, todas, apresentam f.e.m. ao
redor dos 1,5 V.
Uma questão, então: por que se fazem pilhas de
vários tamanhos?
Outra
coisa que vale a pena lembrar: também não interessa
o tempo de vida de uma pilha. Ela poderá ter 5000 anos e, se a
'trinca' estiver íntegra (zinco + eletrólito + carvão) continuará a
manifestar a presença de sua f.e.m. E = 1,5 V! É por isso que você não
deve comprar pilha medindo sua tensão (d.d.p. entre os terminais) em
circuito aberto, pois, se o voltômetro for realmente bom, ele sempre
indicará 1,5 V. Isso porque, em circuito aberto (sem a presença de
corrente elétrica) o bom voltômetro medirá a f.e.m. (E) que é
interminável. A pilha pode não prestar nem para acionar um relógio
digital ... mas apresentará seus 1,5 V.
Outra questão, então: como diferenciar uma pilha
'boa' de outra 'ruim'?
Para
responder à primeira questão, vamos fazer um experimento (mesmo que seja
mental): pegamos uma pilha comum qualquer e uma serra de dentes bem finos.
Com essa serra vamos 'fatiar' a pilha, como se faz com um salame. Eis um
visual:
Ai,
nessa figura, ilustramos algumas 'rodelas' de 3 mm de espessura. Acredite,
cada rodela continua a ser uma pilha de 1,5 V! E não há motivo para que
assim não o seja. Lá está, em cada rodela, a trinca: zinco (em toda
borda circular) + eletrólito + carvão central. Se você colocar a devida
proteção para o eletrólito não escorrer terá um monte de pilhas
voltaicas, todas com f.e.m. de 1,5 V.
Ao colocar uma rodela sobre a outra você estará simplesmente associando
as pilhas individuais em paralelo e, como sabemos, associação em
paralelo de geradores iguais, a f.e.m. se mantém. Então, toda
"pilha" é uma associação de infinitas 'pilhas elementares' em
paralelo.
Toda "pilha" é, conceitualmente, uma 'bateria'
(associação de pilhas).
Quanto mais pilhas
elementares você associar (em paralelo), maior vai ficando a
"pilha" final e, conseqüentemente mais e mais energia
química estará colocando à disposição do circuito para ser
convertida em energia elétrica. Quanto maior a pilha maior a quantidade de
energia potencial química disponível e para um dado
consumo maior será o tempo de funcionamento. Eis o motivo dos
vários tamanhos de pilhas, permitir que um dado elemento consumidor (o
relógio digital, no nosso caso) funcione durante um intervalo de tempo
maior.
Vamos
avaliar o tempo de funcionamento de
nosso 'relógio eterno'. Para tanto, basta comparar as quantidades de
energia potencial química contida na pilha botão e na pilha de telefone;
no final da história, basta comparar os volumes.
Eis uma pilha botão que mantém o relógio digital funcionando por dois
anos:
É
um pequeno cilindro cujo raio da base mede 2,5 mm e tem 3 mm de altura. O
volume do cilindro é dado por Vbotão = p.r2.h
= 3,14 x (2,5mm)2 x 3 mm = 58,9 mm3 . Fixemos isso:
58,9 mm3 de 'trinca' mantém o relógio funcionando por 2 anos.
Vejamos
a pilha de telefone, que é um cilindro cujo raio da base mede 32 mm e tem
150 mm de altura. Seu volume é dado por : Vtel. = p.R2.H
= 3,14 x (32mm)2 x 150 mm = 482 304 mm3.
Dividindo-se
482 304 mm3 por 58,9 mm3 obtemos 8 188, 5, ou seja, a
pilha de telefone manterá o relógio digital funcionando por um fator 8
188,5 vezes maior que aquele de duração da pilha botão. Como a pilha
botão mantém o relógio funcionando por 2 anos a pilha de telefone o
manterá por 2anos x 8 188,5 = 16 377 anos!
Tempo
de funcionamento do relógio =16 377 anos
Isso
permite que eu o chame de 'relógio eterno'? Estimando para cada minha
próxima geração, 80 anos, esse relógio permanecerá funcionando por 204,7
gerações. Ninguém poderá reclamar que não deixei nada para eles!
Espero que mantenham esse relógio que já me acompanha por 15 anos
devidamente guardado e protegido das agruras do tempo.
Agora
resolveremos o problema de como testar se uma pilha está boa ou não. Uma
pilha vai perdendo sua ação num circuito elétrico, não porque sua
f.e.m. 'desaparece' (essa é interminável) e sim porque sua resistência
interna aumenta. A corrente elétrica no circuito deve percorrer não
só a "resistência externa" (filamento da lampadinha, por
exemplo) como também a "resistência interna" da própria pilha.
Como resultado da reação química que se estabelece o eletrólito vai
perdendo seu 'soluto' e a solução, cada vez mais carente de soluto, vai
tornando-se cada vez mais 'isolante' (perdendo a condutividade iônica).
Isso caracteriza o aumento da resistência interna. Chega-se a uma
situação em que a resistência interna é tão grande que a queda de
potencial elétrico interno praticamente se iguala à f.e.m. e nesse caso a
d.d.p. útil nos terminais da pilha, no circuito, tende para zero.
Em
suma, para se testar uma pilha devemos solicitar dela uma boa intensidade
de corrente elétrica. Há duas boas possibilidades: medir a corrente de
curto circuito com um amperômetro CC (fundo de escala de 1 ou 2 ampères)
ou ligá-la aos terminais de uma lâmpada para 1,5 V e avaliar seu brilho
(em vários supermercados e lojas já existe esse 'circuitinho' pronto para
você colocar a pilha sob teste.).
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