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...
com Batatas
Prof.
Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
A
batata, esse 'tubérculo comestível',
como o define o velho Aurélio, não se presta apenas como ingrediente para
suculentos pratos da arte culinária; há toda uma gama de usos
específicos. Dentro dessa gama há uma especificidade que poucos conhecem:
a batata como fonte de energia química para a produção de energia
elétrica. Sim, as batatas podem funcionar como pilhas e baterias!
Em uma trabalho anterior, nessa mesma Sala 12, já apresentamos a Batateria,
uma bateria elétrica feita com batatas para alimentar um relógio digital.
Nesse contexto, apresentar a batata como um componente eletrônico
principal, preparamos uma seleção de projetos que mudará o seu modo de
pensar sobre esse tubérculo tão comum.
Para
os leitores/alunos que gostam de projetos diferentes e que também costumam
comer sua batatinha chips durante as montagens, tais aplicações da batata
serão uma 'delícia' . São projetos muito simples, que muito mais pela
curiosidade, servem como excelentes sugestões para Feiras de Ciências ou
trabalhos escolares. De qualquer forma,
se os projetos indicados não lhe agradarem, nada impede que o componente
principal seja cortado, frito e comido...
1.
Indicador de polaridade
A
polaridade dos terminais ou dos fios
de uma fonte de alimentação de corrente contínua ou mesmo de uma bateria
pode ser facilmente descoberta com a ajuda de uma... batata!
Como
isso funciona?
Ora, a
batata é condutora de corrente elétrica, é um condutor eletrolítico.
Enfiando os dois fios de cobre provenientes da fonte, numa batata cortada
ao meio, como indicado na Fig. 1, ocorrerá uma reação química cujo
efeito é o de produzir
substâncias diferentes nas pontas dos fios, conforme sua polaridade.
Este efeito galvânico faz com que se forme um
sal de cobre no pólo positivo, tornando esta região esverdeada.
Por outro lado, no pólo negativo formam-se bolhas ou então nada
ocorre, o que permite facilmente a identificação dos pólos.
A
montagem:
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Fig.1- Indicador de
polaridade
usando de meia batata.
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O
material:
meia batata
(óbvio)
2 pedaços de fio de cobre rígido encapado
de pelo menos 30 cm cada.
1 fonte de alimentação de 3V a 12V,
1 pilha comum ou bateria de 9 V
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A
experiência:
a) Descasque pelo menos 2 cm das pontas dos fios de cobre rígidos ligados
à fonte ou a uma pilha.
b) Enfie estas pontas numa meia batata, conforme indicado na Fig. 1.
c) Observe a coloração da batata em torno do fio: onde ficar verde, o fio
estará ligado ao pólo positivo.
2.
Pilha elétrica
Como
dissemos, batata pode gerar energia elétrica. É claro que não é
suficiente para alimentar muita coisa, mas existem alguns experimentos
simples que podem usar esta energia. Assim,
o que vamos fazer inicialmente é
mostrar um experimento que permite fazer uma pilha elétrica com uma
simples... batata.
Como
isso funciona?
Dois metais diferentes colocados num meio
líquido condutor de cargas elétricas (transportadas por íons, no caso)
formam uma pilha elétrica. Nos metais
diferentes aparecem cargas de polaridades opostas, manifestando-se uma
diferença de potencial elétrico entre eles, a qual tem valor (tantos
volts) que depende de suas naturezas. Escolhendo de modo apropriado os
pares de metais diferentes, conseguimos obter tensões de mais de 1 V. Os
pares podem ser: ferro/cobre, alumínio/cobre, zinco/cobre, alumínio/ferro
etc.
No nosso caso, os dois metais serão duas chapinhas de (1cm x 3cm) cada,
uma de zinco e outra de cobre. Todavia, poderia ser uma ponta de fio de
cobre grosso e um clipe grosso, que normalmente é de metal latonado.
Poderia, ainda, ser um prego e um fio de cobre grosso. Há toda uma série
de pares a serem experimentados, observando qual a combinação que produz
maior tensão (consulte em Química a 'fila de reatividade') ... isso é o
bonito da Ciência!
O meio líquido condutor é justamente a batata.
Assim, conforme a Fig. 2, basta enfiar as chapinhas (plaquinhas) numa meia
batata (cerca de 1,0 cm uma da outra) para termos entre elas uma tensão
elétrica que pode variar entre 0,1 V e 1 V, a qual pode ser detectada
facilmente por um multímetro comum na escala DC. A placa de cobre será o pólo
positivo e a de zinco, o pólo negativo.
É claro que a potência desta pilha dependerá da área das placas (ou
fios) espetados na meia batata e da 'capacidade' dessa de conduzir a
corrente, que não é muita. Assim, a pequena quantidade de energia
elétrica produzida servirá apenas para alimentar alguns
dispositivos/experimentos que exigem pouco, conforme veremos mais adiante.
O leitor/aluno verá que, com o tempo, a sua pilha “degrada-se”, sendo
necessário retirar as placas ( ou o fio e o clipe) e limpá-los, para
eliminar as substâncias formadas no processo de produção de energia ou
mesmo mudar sua posição, espetando-os em outros locais.
A
montagem:
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Fig.2- A pilha-batata.
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O
material:
Meia
batata
2 plaquinhas de (1cm x 3 cm), uma
de cobre outra de zinco (*)
2 pedaços de fio de cobre flexível
comum de 30 a 40cm
1 multímetro comum
(*)
variante: 1 clipe grosso para papel
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A
experiência:
a) Lixe as plaquinhas de cobre e
zinco para eliminar a superfície oxidada; descasque as pontas dos fios de
cobre comum. Solde as placas numa das extremidades desses fios, conforme
ilustramos na Fig. 2. Espete as placas na meia batata, cerca de 1cm uma da
outra, numa profundidade de 1,5cm, pelo menos. A placa de zinco pode ser
substituída pelo clipe grosso, por um prego etc., e a placa de cobre por
fio de cobre grosso e lixado.
b) Coloque o multímetro na escala mais baixa
de tensões contínuas (DC).
c) Conecte o multímetro aos eletrodos (fios) da pilhas e verifique a
tensão obtida.
3.
0 batafone
Se
bem que já existam tecnologias digitais avançadas para
a Telefonia, a possibilidade de estabelecer comunicação falada entre dois
pontos usando uma batata pode ser algo digno da atenção de qualquer um.
Evidentemente, ainda não temos a “batata celular” ou o “bata-topager”,
mas não estamos muito longe disso com nosso projeto (hic).
O batafone nada mais é do que um intercomunicador simples, entre dois
pontos afastados, que utiliza a energia elétrica gerada pela nossa pilha
de meia batata.
Como
isso funciona?
Os alto-falantes são transdutores que podem funcionar 'nos dois sentidos',
tanto como microfones (convertendo energia mecânica da onda sonora em
energia elétrica) como em sua função normal para reproduzir sons
(convertendo energia elétrica em energia mecânica de modalidade sonora).
Se ligarmos dois alto-falantes em série, conforme a Fig. 3, com uma fonte
de energia elétrica, que em nosso caso nada mais é do que nossa
pilha-batata (nova categoria da pilha salina), a corrente elétrica
circulante dependerá da resistência interna da pilha e da impedância que
os alto-falantes apresentarem.
Em condições normais (curtos intervalos de tempo de funcionamento),
interessa mais a impedância dos alto falantes, as quais podem ser
assumidas como resistências puras representadas pelas resistências
ôhmicas das bobinas dos alto-falantes, ou seja, pelo fio das bobinas. A
resistência interna da pilha-batata pode ser assumida como constante para
breves intervalos de tempo de funcionamento.
No entanto, se falarmos diante de um dos alto-falantes, o movimento do cone
produzido pelas vibrações sonoras faz com que a bobina corte o campo
magnético do ímã, alterando a oposição que o circuito faz à passagem
da corrente, ou seja, modificando a sua impedância. O
resultado disso é que varia a corrente no circuito.
No alto-falante distante, esta variação de intensidade de corrente faz
com que seja criado um campo magnético, também variável, que movimenta
seu cone exatamente da mesma forma que o som original
incidente no outro falante. O resultado disso é a reprodução do som
original.
Da mesma forma, se você falar no segundo alto-falante, sua voz será
reproduzida no primeiro. É claro que a intensidade do som é muito
'fraca', pois a corrente no circuito é pequena. A pilha-batata não é uma
fonte potente de energia, mas a “coisa” funciona. Pode-se conversar a
uma boa distância!
A
Montagem:
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Fig.3- Comunicação
sonora usando pilha-batata.
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O
material:
Meia
batata
Fios conforme a distância
entre os alto-falantes
2 alto-falantes comuns pequenos
ou médios
2 plaquinhas, uma de zinco
outra de cobre
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A
experiência:
a) Monte a pilha-batata conforme
já explicado no experimento anterior (veja ilustração acima).
b) Monte o circuito indicado, ligando os alto-falantes bem longe um do
outro, de preferência um numa sala e o outro em outra (de modo que os
interlocutores não se escutem diretamente).
c) Com um colega falando perto de um dos alto-falantes (remoto), você
deverá ouvir no outro (local). Como o som é muito fraco, o seu alto
falante deve ser colocado bem junto ao ouvido.
d) Da mesma forma, falando no alto-falante local, seu colega poderá ouvir
no alto-falante remoto.
4.
Batatas em série e em paralelo
Batatas
podem ser guardadas em sacos e até cortadas em diversos formatos; isso
todos sabem. No entanto, poucos leitores sabem que podemos ligar
pilhas-batatas tanto em série como em paralelo ou ainda associações
mistas, para obter mais energia elétrica. Conforme observamos na Fig. 4,
podemos ligar as pilhas-batatas, em série, para obter uma tensão maior do
que uma delas sozinha pode gerar, o que é facilmente constatado com o
multímetro na escala mais baixa de tensão.
Por outro lado, ligando as pilhas-batatas em paralelo, podemos obter uma
corrente maior do que uma única batata conseguiria fornecer. O leitor pode
verificar isso mais uma vez, usando o multímetro. A ligação em paralelo
e mista não foram aqui ilustradas. Isso, todavia, não impede que o
professor apresente isso em sala de aula. Advertimos, porém, que pilhas e
baterias (de qualquer espécie, não só as de batatas!) não devem ser
guardadas quando associadas em paralelo. Todas irão se descarregar! Eis
porque não existe no comércio 'nenhum' brinquedo ou equipamento com
pilhas associadas em paralelo. Você conhece algum? Escreva para o autor.
A bem da verdade, conheci um desses brinquedos (coisa de 30 anos lá para
trás!), era um modelo de robozinho que funcionava com 4 pilhas (não
recordo se eram médias ou grandes). Coitada da firma, foi à falência e
cobriu-se de reclamações: "Coloquei as pilhas ontem e hoje já não
funciona mais!". Você saberia explicar porque as pilhas se
descarregam rapidamente?
Como
isso funciona?
Como no caso de pilhas comuns, na ligação em série, as tensões
que aparecem entre os eletrodos ligados na batata se somam, desde
que suas polaridades sejam as indicadas na Fig. 4. Se uma das batatas for
“invertida”, a tensão correspondente é subtraída. Quando a ligação
das batatas é em paralelo, a tensão se mantém, porém a capacidade de
fornecimento de corrente aumenta.
Por exemplo, se cada pilha-batata conseguir sozinha sustentar uma corrente
de 1,0 mA, quatro delas em paralelo irão sustentar 4,0 mA, em igualdade
das demais condições.
A
montagem:
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Fig.4- Pilhas-batatas
associadas em série.
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O
material:
3
ou mais meias batatas
3 ou mais pares de chapinhas
zinco/cobre
fios de ligação
multímetro comum
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A
experiência:
a) Ligue três ou mais
pilhas-batatas em série.
b) Coloque o multímetro na escala mais baixa de tensões contínuas.
c) Meça a tensão em cada pilha-batata e depois entre a associação de
todas elas em série.
d) Repita a experiência com as batatas em paralelo. Constate a igualdade
da tensão antes (uma só pilha) e depois (duas ou três pilhas em
paralelo). Com o multímetro (e com cuidado para com a escala selecionada)
você poderá medir a corrente de curto circuito numa pilha-batata e a
total na associação em paralelo. Para essa fase experimental é bom ter
um técnico/professor ao lado (para assegurar a vida do multímetro).
5.
Batatoímã
Evidentemente,
não é a batata que produz magnetismo ou coisa parecida. Nesta
experiência, faremos com que a energia elétrica gerada
por uma pilha-batata (ou, melhor ainda, uma associação delas) se
transforme em magnetismo atraindo pequenos objetos. Faremos
um eletroímã movido à batatas!
Como
isso funciona?
A energia elétrica gerada por uma pilha-batata pode alimentar um pequeno
eletroímã capaz de atrair objetos metálicos, como por exemplo, alfinetes
ou limalha de ferro, como se ilustra na Fig. 5. A corrente elétrica
circulante pelas espiras enroladas num
preguinho (núcleo) é responsável pelo campo magnético que se concentra
no metal e com isso consegue atrair pequenos objetos de certos metais. A
intensidade do campo vai depender da corrente gerada (por isso é bom usar
uma batateria e não uma única pilha-batata) e da quantidade de espiras do
eletroímã.
A
montagem:
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Fig.5- Eletroímã
alimentado por
pilha-batata.
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O
material:
1
ou mais pilhas-batatas ligadas
em série
1 prego
1 m de fio de cobre esmaltado
fino (de # 22 a # 28 servem)
alfinetes, tachinhas, limalha
de ferro
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A
experiência:
a) Enrole o fio no prego,
para formar o eletroímã, usando cerca de 50 cm de fio e as extremidades
que sobram (25 cm em cada extremidade) ligue-as aos eletrodos da batata,
como se ilustra acima.
b) Aproxime o eletroímã de um objeto de metal (clipe ou preguinho)
pendurado por um fio.
c) Observe a atração.
6.
Batat-OM (um rádio experimental)
A
energia gerada por uma pilha-batata (Batat-) ou diversas delas, ligadas em
série, pode alimentar um rádio experimental de ondas médias (OM) =
Batat-OM.
Evidentemente, o rádio deve ser de tipo
especial que exija pouca intensidade de corrente. Isso significa que se
trata de um rádio que usa um fone de ouvido como saída, já que o som
será muito baixo (pela própria limitação de energia) e não um
alto-falante. Com uma batateria o brinquedinho funciona bem melhor!
Como
isso funciona?
O circuito mostrado na Fig. 6 deve usar
um transistor de germânio que pode ser
obtido de algum rádio transistorizado
antigo. Tipos como o 2SB54, 2SB75, 0071
etc., podem ser usados.
A bobina deve ter 100 voltas de fio esmaltado fino, em um bastão de
ferrite, com uma tomada entre a trigésima e a quadragésima espira.
O diodo de germânio, que vai detectar os sinais, também pode ser
aproveitado de rádios antigos. Tipos como o 1N34 ou 1N60 podem ser usados.
O capacitor de sintonia também pode ser tirado também de
um rádio antigo.
Os sinais sintonizados pelo variável passam pelo detector e depois são
amplificados pelo transistor. A
energia usada pelo transistor vem da batata.
O fone de ouvido deve ser de alta impedância ou cristal, para que o
circuito funcione. Se for usado
um fone de baixa impedância, um transformador como os de saída que
existem em rádios transistorizados deve ser previsto. Um técnico em
eletrônica poderá lhe fornecer todo esse material ... de graça!
A
montagem:
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Fig.6- O Batat-OM.
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O
material:
2SB75
ou qualquer transistor PNP de germânio
1N34 - diodo de germânio
Bobina - ver texto
CV - Variável - ver texto
F - Fone de ouvido de alta impedância
R1 - 470 kW
- resistor - amarelo, violeta, amarelo
R2 - 10 kW
- resistor - marrom, preto, laranja
- esse resistor é opcional
C1 - 470 nF - capacitor de poliéster ou cerâmico
Pilha-Batata ou batateria, como gerador
de energia elétrica
A - Antena
T- Terra
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A
experiência:
a) Ligue o receptor (A) a uma boa antena externa, que pode ser um pedaço
de fio esticado de pelo menos 10 m de comprimento.
b) Ligue a entrada a um terra
(T), que pode ser qualquer objeto de metal em contato com a terra.
c) Alimente o circuito com a pilha-batata, observando a polaridade da
ligação (importante!).
d) Sintonize, no variável, a estação desejada.
Evidentemente,
existem muito mais projetos que podem ser feitos em torno de uma batata.
Convidamos os leitores para que enviem sua sugestão para concorrer a um
pacote de batatas chips.
Divirta-se!
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