|
Estudos
de eletricidade
(Parte3)
Prof.
Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
Cargas
induzidas
Por volta de 1753, John Canton
(1718 -1772) descobriu um processo chamado “indução
elétrica”. Seu aparelho e modo de operar é apresentado abaixo.
Um condutor
eletricamente neutro foi isolado da terra para impedir o escoamento da
'eletricidade', durante as experiências (a). Uma haste carregada
positivamente foi então colocada junto do condutor, e Canton
descobriu que duas cargas opostas se desenvolveram, ou foram induzidas,
conforme se mostra na parte (b) da ilustração. A carga induzida
mais próxima da haste tinha sinal oposto ao da haste; a carga induzida
mais afastada tinha o mesmo sinal da carga da haste. Claramente, a
'eletricidade' no condutor neutro tinha sido meramente induzida para
deslocar-se e mudar de posição. Quando a haste foi removida, o condutor
reverteu à sua condição inicial de descarregado (neutro).
Wilcke
e seu colega Franz Aepinus (1724
-1802) repetiram a experiência de Canton, acrescentando um novo elemento.
Ligaram o condutor momentaneamente à terra, enquanto a haste carregada
estava em suas proximidades. Conforme se mostra na parte (c), a
conexão com a terra permitiu que um fluxo de 'eletricidade'
neutralizasse a carga induzida na extremidade do condutor oposta à haste.
A conexão com a terra foi então removida, como aparece na parte (d).
Finalmente, foi afastada a haste carregada. Como se vê na parte (e),
o condutor tinha adquirido uma carga negativa, que veio a ser
uniformemente distribuída sobre sua superfície. Esta carga induzida é
sempre de sinal oposto ao da carga influenciadora.
Essa
é a técnica da eletrização por indução: (a) - corpo neutro e
isolado da terra (induzido); (b) - aproxima-se um outro corpo eletrizado
(indutor), sem encostar; (c) - faz-se uma momentânea ligação do
induzido à terra; (d) - afasta-se o indutor e (e) - o induzido torna-se
eletrizada com carga de sinal oposto ao do indutor.
Aepinus
também salientou que a diferença entre condutores e isoladores é
simplesmente de grau. A diferença depende da resistência relativa
oferecida por eles ao fluxo de 'eletricidade'. Os condutores oferecem
muito pouca resistência, e os isoladores resistência apreciável. O
conceito de resistência elétrica tornou-se mais tarde extremamente
importante, devido à lei de Ohm.
A
lei do inverso do quadrado da 'Eletricidade'
Acreditava-se geralmente, pelo fim do século dezoito, que a
força de atração ou de repulsão elétrica reduz-se
proporcionalmente ao quadrado da distância que separa as cargas. Priestley
e Cavendish tinham inferido indiretamente a
verdade da lei do inverso do quadrado, partindo de experiências que
tinham realizado. Entretanto, Charles Coulomb
(1736 -1806), engenheiro militar francês, foi o primeiro a deduzir a lei
partindo de provas experimentais diretas, realizadas em 1784 e 1785.
Para provar a
verdade da lei, ele mediu as forças insignificantes que atuam entre dois
corpos carregados, à medida que suas distâncias de separação são
variadas. Essas medidas foram feitas utilizando o princípio da
balança de torção, que ele tinha descoberto anteriormente.
Imaginem uma barra horizontal suspensa por um fio ou arame bem fino,
conforme ilustramos abaixo.
|

Balança de
torção
de Coulomb
|
Se
a barra for girada um tanto, o arame sofrerá uma torção e exercerá
uma força restauradora tendendo a fazer a barra voltar à posição
inicial.
Coulomb descobrira que a força restau- radora é proporcional ao
ângulo através do qual a barra foi girada. Usando este princípio,
Coulomb pôde medir forças extremamente pequenas, exercidas por
pequenos corpos carregados. |
Como
resultado de muitas experiências, ele concluiu que a força
gerada pelos corpos carregados varia inversamente com o quadrado da
distância que separa seus centros.
Corpos carregados com 'eletricidades' opostas se atraem, e corpos
carregados com 'eletricidades' semelhantes se repelem. A lei é análoga
à lei do inverso do quadrado, da atração gravitacional. Coulomb
verificou também uma descoberta de Cavendish, de que a carga elétrica se
distribui sobre a superfície de um condutor,
sem penetrar em seu interior. Os cientistas do tempo provaram
matematicamente que isto era conseqüência inevitável da lei do inverso
do quadrado, aplicada à 'eletricidade'.
Medindo
a 'eletricidade'
A maior parte das descobertas referentes à 'eletricidade'
estática ou estacionária foi feita com o auxílio de instrumentos
extremamente toscos. Estes eram usados para detectar a presença e o sinal
das cargas induzidas, para investigar a 'eletricidade' produzida pela
fricção e a atmosférica, para padronizar as cargas dos vasos de Leyden,
e assim por diante. Os primeiros instrumentos de medida eram simples
eletroscópios, que não davam indicação da quantidade de 'eletricidade'
envolvida. Apenas indicavam a presença de uma carga.
Os antigos eletroscópios
eram fios ou fitas de metal que eram defletidos em presença de uma carga.
Mais tarde, a descoberta de Du Fay referente à repulsão elétrica
permitiu a fabricação de um instrumento melhor. Em 1753, John
Canton utilizou um par de fios de linho de cerca de seis polegadas
de comprimento, conforme se ilustra abaixo. Suspenso de cada fio, colocou
uma bola de rolha do tamanho de uma ervilha.
|

Eletroscópio
Uma carga colocada nas bolas produz uma força de
repulsão
que as separa
|
Quando as bolas
receberam uma carga, sua repulsão mútua fez com que elas se separassem.
Cavendish utilizou um eletroscópio semelhante, mas acrescentou-lhe uma
escala. Desta maneira, foi capaz de estimar a divergência das bolas e a
quantidade relativa de carga que continham.
Em 1787, Abraham
Bennet (1750 -1799) construiu um eletrômetro de folha de ouro,
do tipo ainda hoje usado para ensino e demonstração. Conforme ilustramos
a seguir, o eletrômetro usava duas tiras de folha de ouro encerradas em
um cilindro de vidro de cerca de 5 polegadas de altura.
|

Eletrômetro de
folha de ouro
|
As folhas eram
conectadas eletricamente com uma tampa de metal, na extremidade superior
do cilindro. Duas tiras de estanho laminado eram cimentadas nos lados do
cilindro de vidro, na parte interior. Serviam para descarregar as folhas
para a terra, quando uma carga excessiva as forçava a separar-se tanto
que tocavam o estanho. A quantidade de carga do eletrômetro era medida
comparando a separação das folhas com uma escala graduada (que não
aparece no desenho), colocada no lado externo do cilindro.
'Eletricidade'
dos metais
Os cientistas do século dezoito tinham aprendido a produzir
'eletricidade' por várias maneiras: por fricção (atrito), pelo
aquecimento de certos cristais, retirando-a da atmosfera, e fazendo
experiências com peixes elétricos. Muitíssimo mais importante que
qualquer desses processos, era uma fonte de 'eletricidade' escondida nos
“não-elétricos” de Gilbert, os metais. Esta fonte de 'eletricidade'
em que não se acreditava, estava destinada a provocar uma revolução que
se igualava à importância da Química para o homem.
Tudo começou
com uma observação inesperada feita por volta de 1750 por J.
G. Sulzer, professor alemão de Matemática. Sulzer
colocou duas peças de metal diferente de encontro a sua língua, conforme
se vê abaixo.
|

Experiência
de Sulzer
com a eletricidade de
contato |
Quando os
metais entraram em contato em A, tocando ao mesmo tempo a língua
em B e C, ele sentiu um gosto estranho e pungente. Quando
eles foram colocados separadamente na língua, nenhum efeito foi
observado. Sulzer não relacionou sua observação com a 'eletricidade', e
ela foi realmente esquecida durante um meio século.
A seguinte
descoberta da “'eletricidade' por contato”, feita por acaso,
não se perdeu para a Ciência. Aconteceu por volta de 1780, quando o
professor italiano de anatomia Luigi Galvani
(1737- 1798) observou as contrações da perna de uma rã. Esta, que tinha
sido recentemente secionada, parecia estar em contato elétrico com o
solo, perto de uma máquina elétrica. Galvani observou que a perna da rã
entrava em convulsões, sempre que se dava uma descarga elétrica. Provou
que esta resposta era de natureza elétrica, tocando o nervo central com o
condutor primário da máquina, enquanto a perna estava ligada ao solo.
Cada vez que o nervo era tocado, a perna dava um pulo.
Galvani
verificou que a 'eletricidade' do vaso de Leyden e das tempestades
produziam o mesmo efeito sobre os nervos dos animais. Decidiu então
determinar se a 'eletricidade' atmosférica normal podia provocar as
misteriosas convulsões. Foi esta experiência que levou à grande
descoberta da 'eletricidade' por contato.
Galvani ligou a
perna da rã a uma grade de ferro. Enfiou também alguns pinos de latão
na medula espinhal, para atrair qualquer 'eletricidade' que o ar pudesse
conter. Observou que as pernas apresentavam contrações ocasionais, mesmo
com tempo bom, mas os resultados eram esporádicos e imprevisíveis.
Finalmente, cansado de esperar, tocou por acaso a grade de ferro com um
pino de latão, e a perna da rã entrou em convulsão. Cada vez que o
latão e o ferro entravam em contato, a perna se contorcia e saltava!
Voltando ao
laboratório, ele colocou a perna sobre uma placa de ferro, tocando-a com
o pino de latão. Mais uma vez a perna saltou. Somente duas explicações
eram possíveis. Ou os pulos eram provocados pela 'eletricidade' gerada
pelo contato dos dois metais diferentes, latão e ferro, ou pela
'eletricidade' gerada no organismo. A despeito de sua experiência com a
máquina elétrica, Galvani declarou que os saltos eram provocados pela
'eletricidade' animal. Ainda mais estranhamente, sua teoria recebeu
aceitação geral. As rãs passaram a ser desmembradas em grande número,
enquanto os cientistas repetiam suas interessantes experiências, mas
somente um homem pensou na 'eletricidade' por contato - Alexandro
Volta.
Volta
repetiu a experiência de Sulzer com sua língua, bem como a de Galvani
com as rãs. Por meio de grande número de
experiências precisas, mostrou que os nervos eram estimulados por uma
fonte externa de 'eletricidade'. Os próprios metais eram a fonte daquela
'eletricidade'. Galvani e Volta empenharam-se em violenta controvérsia
científica sobre o assunto. O primeiro acabou deprimindo-se e morreu sem
jamais compreender a magnitude de sua descoberta, mas a 'eletricidade'
metálica ganhou a disputa contra a 'eletricidade' animal. Sua conquista
tornou-se completa em 1800, com a invenção da pilha voltaica ou bateria
elétrica, feita por Volta.
Uma célula
voltaica simples é vista abaixo. Elétrodos de cobre (Cu) e zinco
(Zn) são imersos em uma solução fraca de ácido sulfúrico, H2S04.
|

Pilha
voltaica |
Tal célula
envia um fluxo contínuo ou corrente de
'eletricidade', através do fio que liga os dois elétrodos metálicos. O
H2S04 dissocia-se em partículas eletricamente
carregadas chamadas íons: o íon H+ e o íon SO4--.
H2SO4
==> 2H+ + SO4--
Os íons H+
são depositados na placa de cobre, dando-lhe uma carga
positiva. Na placa de zinco, alguns dos átomos de zinco se dissolvem para
formar íons Zn++, deixando uma carga negativa na placa.
Zn
==> Zn++ + carga
elétrica negativa sobre a placa de zinco
A carga
negativa sobre a placa de zinco passa pelo fio indo para a placa positiva.
Essa carga negativa une-se com os íons H+, formando
gás hidrogênio.
carga
negativa + H+ ==>
gás hidrogênio
Os íons Zn++
e SO4-- permanecem em solução até que a água se
evapore, quando se unem para formar sulfato de zinco, ZnSO4.
Zn++
+ SO4-- ==> ZnSO4
A
'eletricidade' que percorre o circuito permite que tenham lugar as
reações químicas. Se o fio for desligado de qualquer elétrodo, a carga
negativa não poderá atingir o terminal de cobre, e as trocas químicas
são efetivamente interrompidas. A pilha comum é então simplesmente um
dispositivo que converte a energia contida nas substâncias químicas em
um fluxo de 'eletricidade' através de um circuito externo, ou seja, em
energia elétrica.
A grande importância da pilha voltaica reside em sua capacidade de
produzir um fluxo contínuo de carga elétrica. Embora sua 'eletricidade'
fosse muito mais fraca que a do vaso de Leyden, ela tinha a grande
vantagem de não precisar ser carregada repetidamente com 'eletricidade'
proveniente do exterior. Sua 'eletricidade' surgia espontaneamente, sempre
que necessária.
***
Segue Estudos de eletricidade (parte 4) ***
|