Prof.
Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
A
lei do inverso do quadrado do magnetismo
Muita coisa tinha sido aprendida sobre a 'eletricidade', por
volta de 1800, mas o conhecimento dos efeitos magnéticos de pouco excedia
o que Gilbert conhecera. Descobriu-se que os novos elementos, cobalto e níquel,
eram magnéticos.
O ferro, o cobalto e o níquel vieram a ser chamados de substâncias ferromagnéticas,
devido aos seus efeitos magnéticos relativamente fortes. Por outro lado,
os elementos bismuto e antimônio repeliam os pólos de uma agulha magnética
--- o primeiro exemplo de diamagnetismo. Em vez de serem atraídos
por um ímã, eram repelidos por ele.
A descoberta
magnética mais importante do século foi a de lei
do inverso do quadrado, referente à força magnética, descoberta
esta realizada por Coulomb. Utilizando
o princípio da balança de torção, ele provou que a força de atração
ou de repulsão de dois pólos magnéticos varia inversamente com o
quadrado da distância que os separa. Pólos iguais se repelem, e pólos
diferentes se atraem. Outra lei fundamental da natureza tinha sido
encontrada, a qual variava também com o inverso do quadrado da distância.
Eletromagnetismo
- casamento da eletricidade com o magnetismo
De há muito se suspeitava que a 'eletricidade' estava
relacionada de alguma forma com o magnetismo. Por exemplo, peças de ferro
tinham sido freqüentemente encontradas magnetizadas nas vizinhanças de
algum lugar onde havia caído um raio. Mas a conexão entre as duas ciências
não foi descoberta
senão em 1820.
Naquele ano, o cientista dinamarquês Hans
Christian Oersted (1777 ---1851), fez uma grande descoberta que
deu origem à ciência do eletromagnetismo.
Ele descobriu que um fio conduzindo uma corrente elétrica provoca uma
deflexão de uma agulha magnetizada. O fio foi primeiramente alinhado em
paralelo com a agulha do compasso (que repousa na direção norte-sul), não
havendo fluxo de corrente elétrica, conforme se vê abaixo.
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Descoberta,
feita por Oersted, da interação entre a eletricidade e o
magnetismo. Uma corrente elétrica produz uma força sobre a agu-
lha magnética que estava inicialmente alinhada com o fio |
Quando a
corrente começou a passar, a agulha do compasso girou no sentido
indicado, até ficar em um ângulo reto com o fio. Quando cessou a
corrente, a agulha retornou à sua direção norte-sul normal.
A descoberta de
Oersted foi verdadeiramente momentosa. Embora
um corpo eletricamente carregado não tenha efeito sobre um ímã, uma
corrente fraca de cargas em movimento é capaz de exercer forças sobre pólos
magnéticos --- forças que são transmitidas através do espaço vazio. O
elo de ligação entre a eletricidade e o magnetismo revelara-se como
sendo o movimento.
O significado
da descoberta de Oersted foi reconhecido imediatamente pelos cientistas. François
Arago (1786 --- 1853), experimentador francês, mostrou no
mesmo ano que uma bobina de fio atuava como ímã, quando uma corrente era
passada por ela. Limalhas de ferro previamente desmagnetizadas colavam-se
ao fio enquanto passava a corrente, soltando-se quando esta cessava.
Outro grande francês, André Marie Ampère
(1775 ---1836) determinou as leis que governam a interação das correntes
elétricas entre si e com os ímãs. Ele mostrou que dois fios paralelos
conduzindo correntes exercem forças um sobre o outro, conforme se vê na
ilustração abaixo. Se as correntes correm no mesmo sentido (a),
os fios se atraem; se as correntes são em sentidos opostos, (b),
os fios se repelem.
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Descoberta,
feita por Ampère, de que uma corrente elétrica pode
produzir uma força sobre outra corrente em suas proximidades
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Ampère
mostrou também, seguindo os estudos de Arago, que uma bobina de fio
enrolado na forma de um cilindro comporta-se exatamente como um ímã,
quando uma corrente passa pelo fio. Apresenta um pólo norte e um pólo
sul, e atrai materiais magnéticos.
No mesmo ano, 1820, Davy e Arago,
trabalhando independentemente, mostraram que um pedaço de aço podia ser
magnetizado permanentemente, colocando-o momentaneamente, em uma bobina de
fio atravessada por uma corrente --- nasce o ímã permanente
artificial. Mas se o ferro doce for usado em vez do aço, perderá a
maior parte de seu magnetismo, logo que a corrente for interrompida. Esses
eletromagnetos (ou eletroímãs), como mais tarde foram
chamados, eram extremamente poderosos e, por volta de 1825, já estavam
sendo fabricados em grande número.
Em
1825, Ampère deu com a explicação correta da fonte do magnetismo. Ele
sabia que uma espira de fio toma-se um ímã, quando uma corrente passa
por ele. Portanto, o ferro é magnético, porque correntes circulares de
eletricidade correm em cada um de seus átomos. Cada átomo ou molécula
de uma substância magnética tem um pólo norte e um pólo sul. Se esses
pólos moleculares apontam em direções ao acaso, eles se anulam, e a peça
é desmagnetizada. Se eles se alinham, em certa quantidade, na mesma direção,
seu magnetismo individual se soma, e a peça é magnética. A existência
de todos os efeitos magnéticos tem sido explicada com base nas cargas elétricas
em movimento.
Logo
depois que as descobertas de Ampère foram publicadas, em 1820, muitos
cientistas passaram a usar as forças eletromagnéticas para detetar e
medir as correntes elétricas. Os instrumentos chamados galvanômetros
consistiam a princípio de uma bobina de fio envolvendo uma agulha de
compasso montada sobre um eixo. Conforme se ilustra abaixo, o instrumento
era alinhado de tal maneira que o enrolamento da bobina ficasse na direção
norte-sul.
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Um galvanômetro
primitivo, para detetar a presença de
uma corrente elétrica |
Quando
uma corrente era passada pela bobina, a agulha do compasso afastava-se da
direção norte-
-sul, segundo um ângulo que dependia da quantidade de corrente que
passava. Sua deflexão era uma medida grosseira da força da corrente elétrica.
Podemos
fazer nosso próprio galvanômetro sensível, enrolando cerca de duzentas
voltas de fio de cobre isolado (esmaltado) em torno de um tubo de papelão.
Coloca-se uma bússola magnética barata no interior do cilindro e
alinha-se o galvanômetro de maneira a que a agulha aponte em um ângulo
reto com o eixo do tubo, quando não está passando corrente. A agulha será
defletida sempre que uma pequena pilha for ligada aos terminais da bobina.
Podemos também fabricar nossa própria “bateria de copos” com latas
de “estanho” e folhas de alumínio. Selecionam-se latas de conservas
que tenham uma superfície brilhante, sem nenhuma camada de revestimento
visível no interior. A lata é um terminal de cada célula voltaica, e a
folha de alumínio é o outro. Uma bateria de duas células é ilustrada
abaixo.
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Bateria voltaica
simples |
O
eletrólito é feito de salmoura obtida pela dissolução de quatro
colheres de chá de sal para cada copo de água quente. Usa-se fio de
cobre ('cabinho 22') para ligar os terminais, conforme se mostra. Deve-se
tomar cuidado para impedir que a folha de alumínio encoste na lata de
metal. Qualquer material isolante, inclusive lápis secos, pode ser usado
em lugar dos bastões de vidro para sustentar as folhas de alumínio.
Podemos aumentar a deflexão de nosso galvanômetro utilizando dez ou
vinte células voltaicas na bateria, ou aumentando o número de voltas do
fio do galvanômetro.
Embora
o aparelho acima descrito possa parecer rudimentar pelos padrões
modernos, ele equivale aos que eram encontrados na maioria dos laboratórios,
por volta de 1820. Com este modesto princípio, os eletricistas do século
dezenove desvendaram os segredos da 'eletricidade' e do magnetismo,
tornando possível uma indústria nova e maravilhosa.
A descoberta de que cargas elétricas em movimento podem fazer defletir
uma agulha magnética, foi um ponto marcante na história da Humanidade.
Por volta de 1820, a máquina a vapor havia substituído a força do músculo
do homem e do cavalo pela energia inanimada do carvão. Mas não havia
nenhum meio conveniente de transmitir esta nova força a todos os setores
onde se exercesse a atividade humana. A eletricidade viria a eliminar tal
deficiência. A exploração teórica e experimental da eletricidade e do
magnetismo foi o maior feito dos físicos do século dezenove.
*** Segue
Estudos
de eletricidade (parte 5) ***