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Eletricidade
posta a trabalhar
(Parte
9)
Prof.
Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
A
divulgação, meu
gosto, é aquela que dá aos jovens as respostas que eles nunca
chegaram a fazer.
'Nascem'
os aparelhos elétricos
As descobertas no campo da eletricidade dos primeiros anos do século
dezenove levaram à invenção de uma quantidade de aparelhos úteis.
Assim como as primeiras máquinas a vapor, essas invenções
baseavam-se mais na observação e no conhecimento prático do que
na compreensão verdadeira da teoria. A teoria veio mais tarde,
fornecendo uma visão mais profunda, que levou a grandes
melhoramentos nos aparelhos elétricos, e a um fantástico aumento
do número de tarefas que a 'eletricidade' podia realizar.
Muito
antes que a importância da lei de Ohm
obtivesse reconhecimento universal, os industriais já tinham começado
a explorar os conhecimentos elétricos com impressionante rapidez.
O efeito químico da corrente elétrica foi explorado
na galvanização dos metais. Neste processo temos duas variantes a
seguir; numa, o sal de um metal é decomposto pela corrente, de tal
maneira que as partículas do metal são depositadas sobre outro
pedaço de metal ligado ao terminal negativo de uma bateria; noutra
(ilustrada abaixo), a peça a ser recoberta pelo metal (1) é
ligada ao catodo, o metal (3) do revestimento (em geral em forma de
anel) é ligado ao anodo e o eletrólito é uma solução salina.
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Galvanização |
O
efeito 'calorífico' da corrente elétrica também
encontrou importantes aplicações. Já em 1845, a lâmpada de arco
elétrico era usada para iluminar as ruas em Baltimore. A luz dessa
lâmpada é produzida pelo brilho intenso que se forma na folga
entre dois bastões de carbono ligados a uma fonte de corrente contínua.
O arco voltaico é ligado juntando-se primeiramente as extremidades
dos bastões e depois separando-as ligeiramente. Detalhes do arco e
das soldaduras podem ser vistos em nossa Sala
12 (clicar).
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Arco
voltaico |
A
lâmpada de arco (efeito 'luminoso' das correntes) representou a
primeira aplicação, no campo da eletricidade, na iluminação.
Por volta de 1879, Joseph Swan,
na Inglaterra, e Thomas Edison,
na América, tinham desenvolvido lâmpadas incandescentes práticas,
utilizando delicados filamentos de carbono. Desde 1820 se faziam lâmpadas
incandescentes utilizando filamentos de platina, mas sua vida era
extremamente curta. Isto era devido parcialmente à incapacidade
que tinham os inventores em obter um vácuo suficientemente
perfeito nos bulbos das lâmpadas. Assim que a corrente aquecia o
filamento até incandescê-lo, o metal se oxidava e desintegrava.
Entretanto, a principal dificuldade era a pequena margem entre a
temperatura na qual a platina começa a brilhar e a temperatura na
qual na qual ela se funde.
Os filamentos das lâmpadas incandescentes modernas são feitos do
metal tungstênio, considerado como refratário, e que brilha a uma
temperatura muito abaixo daquela em que se funde. O efeito térmico
da corrente elétrica foi também empregado na solda elétrica, nos
fogões elétricos e nos fornos elétricos dos metalurgistas.
A
corrente elétrica tem uma terceira propriedade extremamente útil,
além do aquecimento elétrico e da decomposição química: a
capacidade de produzir um campo magnético --- um efeito
invariavelmente associado à qualquer corrente elétrica. O efeito
magnético foi o primeiro a ser explorado
comercialmente, como o principio básico dos sistemas do telégrafo
magnético. A telegrafia foi introduzida na década de 1820, e
expandiu-se rapidamente na década seguinte, especialmente na América
do Norte.
A
deflexão da agulha de uma bússola por um imã natural fora
sugerida muito antes, como um meio de sinalização. Mas a exploração
prática da idéia estava inteiramente fora de cogitação,
enquanto a magnetita era a única fonte de magnetismo. Com a
descoberta do eletromagnetismo por Oersted,
a capacidade de criar ou destruir à vontade o magnetismo -- através
do eletroímã -- transformou a telegrafia à longa distância em
uma possibilidade real. O primeiro telégrafo eletromagnético foi
desenvolvido em 1820 por André Marie Ampère,
o grande cientista francês. Ampère utilizou um fio para cada
letra do alfabeto, servindo a terra como um condutor de retorno
para cada circuito. Pequenas agulhas magnéticas foram colocadas
dentro de bobinas na extremidade mais distante de cada fio. Uma
corrente passando por um dos fios (e o retorno pela terra) fazia
defletir a agulha relacionada, dessa maneira indicando a letra
desejada. Era a experiência de Oersted repetida para cada letra e
sinal do alfabeto. Mas, com um fio para cada letra ou sinal! Algo
assim:
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Telégrafo
de Ampère |
Logo
apareceram muitos telégrafos de agulha e, em 1831, o americano Joseph
Henry (1799-1878) construiu um telégrafo eletromagnético
utilizando apenas um fio. Seu aparelho consistia de uma barra de aço
magnetizado que era equilibrada em um eixo, podendo girar no plano
horizontal. Um eletroímã colocado nas proximidades podia atrair a
barra de aço. Quando era enviada uma corrente através do eletroímã,
a extremidade da barra de aço fazia soar uma campainha. A informação
era transmitida por meio de códigos de combinações de sons.
O
telégrafo Morse
Em 1832, Samuel
F. B. Morse, artista americano, retomava da Europa em um
navio paquete. Tinha lido uma publicação recente de Faraday
sobre o eletromagnetismo, e fez planos para construir um
instrumento telegráfico de gravação. Três anos mais tarde,
construiu um modelo experimental baseado no famoso código de
pontos e traços que ainda hoje leva seu nome. Os
pontos e os traços distinguiam-se por 'largura' de pulsos de
corrente, longos e curtos. Um ponto correspondia a um pulso de duração
de cerca de 1/24 de segundo; os traços eram cerca de três vezes
mais longos.
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Pontos e traços
do código Morse |
O
coração do aparelho de recepção de Morse era um eletroímã que
fazia um lápis deslocar-se quando recebia o pulso de uma corrente
elétrica. O lápis estava em contato com um rolo de papel em
deslocamento e traçava uma linha reta sobre o papel, quando nenhum
sinal estava sendo recebido. Recebendo uma corrente, o lápis
deslocava-se para o lado, voltando à posição neutra quando a
corrente caía a zero. Dessa maneira, uma seqüência em que a
corrente era ligada e desligada ocasionava um traçado como o da
ilustração acima. Se a corrente permanecesse ligada por 1/24 do
segundo, um “ponto” era traçado pelo lápis. Se ficasse ligada
durante 3/24 do segundo, era desenhado um “traço”. O telégrafo
gravador de Morse provia, assim, um registro permanente das
mensagens, que mais tarde podiam ser decodificadas à vontade.
No
decorrer de suas experiências, Morse descobriu que a corrente elétrica,
depois de percorrer cerca de 20 milhas (cerca de 32 km), tornava-se
demasiado fraca para operar o aparelho registrador. Trabalhando com
Joseph Henry, desenhou um relé que repetiria os sinais
automaticamente para outra seção da linha telegráfica. O
principio está ilustrado abaixo. Quando a (1) chave de telégrafo
é fechada, é enviada uma corrente ao longo das primeiras (6) 20
milhas da linha, que passa pela (5) bobina A e
regressa à (7) bateria.
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Relés de
Morse |
A
corrente magnetiza a (2) estrutura de ferro do relé, e atrai a (3)
armadura de ferro articulada que gira no sentido dos ponteiros do
relógio, vencendo a atração da (8) mola. O movimento da armadura
põe o (4) ponto B em contato elétrico com o ponto C, fechando
assim o circuito que contém o segundo segmento de (6) 20 milhas de
linha. A bateria deste circuito envia uma nova corrente através da
segunda seção da linha, energizando desta maneira um segundo relé,
na extremidade oposta. Deste modo, podem ser acrescentados
circuitos para qualquer distância desejada.
Em
1838, Morse fez uma demonstração do seu telégrafo perante o
Presidente Van Buren e seu gabinete. Com rapidez, o Congresso votou
uma lei em 1843, para que fosse construída uma linha entre
Washington, D.C. e Baltimore, Maryland. A 24 de maio de 1844, Morse
enviou o primeiro telegrama público, através de sua linha de 40
milhas de comprimento. Pouco tempo depois, o diretor dos correios
concluiu que o brinquedo de Morse nunca iria render o suficiente
para sua manutenção, e o governo retirou seu apoio. Entretanto,
Morse obteve capital privado e estendeu a linha até Filadélfia e
Nova Iorque em 1845. Na metade do século, cinqüenta companhias,
usando as patentes telegráficas de Morse, estavam operando nos
Estados Unidos.
Por
aquela época, Alfred Vail
descobrira que os sinais telegráficos podem ser “lidos” pelos
ruídos do relé no terminal receptor. Ele observou que a armadura
produzia sons distintos para o ponto e o traço. Com prática, um
operador podia decodificar as
mensagens, meramente ouvindo o relé. Oportunamente, o vibrador ou
“cigarra” de Morse veio a ser de uso generalizado. Até hoje
ele sobrevive, virtualmente inalterado.
O
operador telegráfico foi uma parte indispensável do cenário
norteamericano durante mais de meio século. Até ser deslocado
pelas máquinas automáticas modernas, ele desempenhou seu estranho
ofício, vital para o crescimento de uma nação que se espalhava
pelo continente inteiro. Podia
transmitir e receber até quarenta palavras por minuto, hora após
hora, com um staccato de ruídos intermitentes. Sua
habilidade, ao lado do telégrafo de Morse, tornara realidade o
sonho das comunicações a longa distância.
O
Primeiro Cabo Submarino
Pela metade do século,
redes de linhas telegráficas haviam espalhado seus tentáculos
sobre grande parte da Inglaterra, Europa e América do Norte. Mas a
nova arte das comunicações ainda se detinha nos limites do mar. O
canal inglês, que fora durante séculos uma barreira protetora
colocada entre a Inglaterra e o Continente, logo seria atacado por
navios conduzindo milhas de fios de cobre.
As
primeiras tentativas para lançar um cabo telegráfico submarino
foram feitas em 1839 por um certo Dr. O’Shaughnessy,
da East India Company. Algum tempo depois, Morre
realizou experiências sob a baía de Nova Iorque, enviando sinais
através de cabos recobertos com borracha e metidos em um cano de
chumbo. Os resultados de tais testes levaram-no a concluir que a
telegrafia através do Atlântico era perfeitamente possível.
Aproximadamente ao mesmo tempo, Charles
Wheatstone levou a cabo experiências bem sucedidas na
Baía Swansea, em Gales.
O
primeiro cabo submarino de grande extensão foi lançado em
1850, cruzando o Estreito de Dover. Dois irmãos, John
e Jacob Brett, obtiveram uma
concessão de 10 anos para lançar o cabo, e contrataram com a
Gutta-Percha Company a sua fabricação. O núcleo do cabo era um
único fio de cobre envolto em um isolador chamado guta-percha,
tendo este a espessura de um quarto de polegada.
Achar um isolante adequado nos primeiros dias da telegrafia era uma
tarefa que estava longe de ser simples. Felizmente, a guta-percha
apareceu na época certa. Embora tenha sido substituída quase
completamente pelos plásticos sintéticos, a guta-percha foi
indispensável ao desenvolvimento da telegrafia. Em 1843, William
Montgomerie, residente em Singapura, enviou algumas
amostras de guta-percha à Royal Society. Depois de examiná-las, Faraday
concluiu que o material seria muito útil como isolante elétrico.
A Gutta-Percha Company of London (mais tarde Telegraph and
Maintenance Company), foi formada em 1845 para comercializar o
produto.
A
guta-percha provém da goma de uma quantidade de árvores
relacionadas, que são encontradas nas florestas da Malásia, Bornéu
e Sumatra. O termo vem das
palavras malaias getah percha, goma da percha (árvore). Ao
contrário da borracha, ela não se distende, sendo bastante dura
nas temperaturas normais. Toma-se mole como massa de vidraceiro, em
contato com a água quente, revertendo à sua dureza original
quando resfriada até à temperatura ambiente. Esta qualidade torna
fácil moldar a guta-percha em torno de um fio, no processo de
fabricação do cabo.
Tal
foi, então, a construção do primeiro cabo cruzando o Canal da
Inglaterra — um delgado fio de cobre isolado por uma camada única
de guta-percha. Os irmãos Brett presumiram que, uma vez que o cabo
tivesse sido depositado no fundo do Canal, estaria perfeitamente
seguro, e não necessitaria proteção adicional. Somente as
extremidades, próximo do litoral, foram protegidas por uma
cobertura externa de chumbo.
A
28 de agosto de 1850, foi lançado o cabo entre Dover e Cap Gris
Nez, na França. Em meio de grande excitação, um impressor automático
foi ligado à linha para receber a mensagem de John Brett ao Príncipe
Luís Napoleão Bonaparte. Infelizmente, nada foi recebido senão
uma quantidade de sinais ininteligíveis. Um instrumento de agulha
foi tentado em lugar do impressor automático, com resultados
apenas ligeiramente melhores. Uma palavra aqui, outra palavra ali,
mas verdadeiramente nenhuma mensagem.
Uma vez mais, a prática tinha-se distanciado da teoria. Os Bretts
não podiam saber que um fio adequadamente isolado comporta-se
diferentemente na água salgada, em relação ao ar. A água
salgada, que é condutora, transformara o cabo em um gigantesco
vaso de Leyden. Envolvido pela água condutora do mar, o fio
submerso tomou-se extremamente “preguiçoso”, devido ao aumento
de sua capacitância elétrica. Se os operadores tivessem
simplesmente diminuído sua cadência de transmissão, os sinais
teriam passado.
Infelizmente, os Bretts tiveram pouco tempo para fazer experiências
com o cabo. Na manhã seguinte, a ligação através do canal
estava completamente inoperante. O fio delgado de cobre que unia a
Inglaterra à Europa tinha-se partido em algum lugar ao longo de
seus 40 km de comprimento. Os Bretts tinham-se
deparado com o inimigo natural de todos os cabos submarinos — um
pescador apanhou com sua âncora a linha submersa. Puxando-a para a
superfície, o ingênuo homem do mar espantou-se com aquela
estranha alga marinha que parecia crescer em torno de um núcleo
metálico. Suspeitando que o metal pudesse ser ouro, secionou uma
boa parte para uma possível venda e divertimento de seus amigos.
Seu inocente vandalismo deu início a uma guerra não declarada
entre os pescadores e as companhias de cabos submarinos, a qual,
acredito, persiste até hoje. Mais danos são causados aos cabos
submarinos pelos traineiras e barcos de pesca do que por quaisquer
outros meios.
'Nasce'
uma nova indústria
A despeito de seu fracasso
inicial, os Bretts mostraram que os sinais elétricos, tais como
eram, podiam ser enviados através do Canal da Inglaterra. Um ano
depois, obtiveram o apoio técnico e financeiro de Thomas Crampton,
engenheiro ferroviário e o projeto prosseguiu novamente. Crampton
desenhou pessoalmente um novo cabo, o qual, pensou, dessa vez
nenhum pescador ousaria avariá-lo. A guta-percha foi envolvida por
uma camada de cânhamo e, por cima dela, foi colocada uma blindagem
constituída por uma camada de ferro galvanizado. Tinha a resistência
de muitos cabos de amarração e pesava trinta vezes mais que o
cabo anterior.
A 25 de setembro de 1851, o pesado cabo foi lançado através do
Canal, exigindo grande esforço do inadequado mecanismo de lançamento
do navio utilizado. Embora grande extensão de cabo se tivesse
perdido, havia quantidade suficiente para permitir alcançar o
litoral francês. Após algumas semanas de experiências, o
primeiro cabo submarino bem sucedido foi entregue ao público, e a
Inglaterra subitamente se viu colocada a uma fração de segundo da
Europa.
O sucesso do cabo de Crampton provocou uma corrida para o negócio
dos cabos submarinos. Dentro de dois anos, mais de dois mil quilômetros
de cabos submarinos tinham sido fabricadas. Os cabos logo cruzaram
o Mar da Irlanda, o Mar Negro e o Mediterrâneo. Inevitavelmente, a
atenção veio a focalizar-se no mais importante de todos os
oceanos — o Atlântico.
Cabos
cruzam o Atlântico
A força impulsora para o
lançamento do primeiro cabo do Atlântico foi Cyrus West Field
(1819-1892), homem de negócios americano, que tinha transformado
oito dólares em $250.000, antes de aposentar-se aos trinta e três
anos. Intrigado com a idéia de
um cabo transatlântico, organizou a New York, Newfoundland and
London Telegraph Company, em 1854. Levou dois anos e meio apenas
para construir uma linha terrestre entre as duas primeiras cidades
mencionadas no nome da companhia. A parte “and London” do título
envolveu dez anos de frustrações e de falhas, antes que fosse lançado,
em 1866, o primeiro cabo transatlântico permanente de sucesso.
A primeira tentativa falhou em 1857, quando o cabo rompeu-se devido
à operação defeituosa do mecanismo de Iançamento. Embora Field
ficasse desapontado, havia consideráveis razões para manter-se
otimista. O rompimento havia ocorrido após o lançamento de cerca
de 536 km de cabo na água, a profundidades que iam até 3,5 km.
Tinham sido mantidas comunicações através do cabo entre o navio
lançador, Niagara, e o terminal marítimo de Valentia Bay,
na Irlanda, até o momento do rompimento. Isto provava que não
havia nada de impossível em relação ao projeto. Comprariam mais
cabo e tentariam novamente.
A
demora foi bem utilizada pelo grande Wílliam
Thompson, que desde o início era um dos diretores da
companhia de Field. Thompson já tinha firmado sua reputação como
um dos grandes cientistas da época. Seus estudos convenceram-no de
que, se um detector de sinais de corrente extremamente sensível
fosse colocado no terminal de recepção do cabo, a velocidade de
sinalização poderia ser significativamente aumentada.
Thompson sabia que os agudos pulsos de corrente tipo “onda
quadrada” que eram alimentados em um cabo submarino, sofriam
severa degradação na transmissão. Quando os pulsos emergiam na
extremidade distante, sua parte inicial já não era mais nítida,
mas elevava-se gradualmente até um valor máximo da corrente. O
diagrama seguinte ilustra de forma simplificada a idéia geral.
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Pulsos de
corrente, antes (a) e depois (b) de serem enviados
através do cabo submarino primitivo |
Podemos
compreender por que os pulsos são deformados e “misturados” no
diagrama, se fizermos aplicação do conhecimento sobre as ondas de
seno, dos estudos sobre o som e a luz. Um pulso bem nítido de
corrente, tal como os que se vêem na parte (a), consiste
realmente de uma corrente alternativa em alguma freqüência
fundamental, acompanhado por grande número de harmônicos (síntese
de Fourier). As freqüências desses harmônicos são múltiplos da
freqüência fundamental, exatamente como nas ondas de sons
complexos. Se a freqüência fundamental for de 10 Hz, as freqüências
harmônicas serão de 20, 30, 40, 50 Hz, etc. Quanto mais nítido o
pulso (quanto 'mais quadrado' ele for), maior será o número de
harmônicos que ele conterá. Quando um cabo simples é submerso em
um meio condutor como a água salgada, verifica-se que as freqüências
mais altas propagam-se mais rapidamente que as mais baixas (um fenômeno
de dispersão). Assim, os harmônicos mais altos tendem a alcançar
os harmônicos mais baixos do pulso anterior (aquele que está
'atrás' corre sobre aquele que está 'na frente', na ilustração
acima). Pulsos individuais já não são mais de forma
retangular, tendendo a alongar-se. Se for dado um intervalo
insuficiente entre os pulsos, eles tenderão a juntar-se, como se
indica em (b) na ilustração acima.
Kelvin
propôs acelerar a velocidade de sinalização, utilizando um
detector de pulso sensível — que pudesse operar eficientemente
nas pequenas variações de corrente determinadas pelos pulsos
“misturados”.
Infelizmente, Edward Whitehouse, eletricista oficial da companhia,
tinha outras idéias. Decidiu resolver o problema por outro método
que pareceu igualmente razoável naquela época. Ele iria
simplesmente aumentar a magnitude dos pulsos da corrente alimentada
no cabo. Seus pulsos gigantes foram produzidos por grandes bobinas
de centelha que geravam pelo menos 2 000 volts de diferença de
potencial elétrico. Veremos como a utilização feita por
Whitehouse da idéia errada levou mais tarde ao desastre.
No
início de 1858, o grande empreendimento estava mais uma vez mais
em andamento. O cabo tinha sido dividido entre dois navios, o Niagara
e o Agamemnon. Depois de emendar o cabo no meio do Atlântico,
os dois navios começaram a lançá-lo ao mar, navegando em direções
opostas. Seguiu-se uma grande tempestade e, depois de três outros
acidentes, durante os quais o cabo se partiu, muito tempo e
grande quantidade de cabo haviam sido perdidos. Outra vez os navios
rumaram de volta para a Irlanda, derrotados.
No fim de julho do mesmo ano, o Niagara e o Agamêmnon estavam
de volta ao meio do Atlântico, para outra tentativa. A 5 de
agosto, o poderoso Atlântico tinha sido abarcado pelo cabo. Após
algumas experiências, foi recebida uma mensagem a 16 de agosto, da
Rainha Vitória para o Presidente Buchanan. A 1º de setembro,
Cyrus Field recebeu uma tumultuada ovação pública em Nova
Iorque, mas naquele mesmo dia por uma curiosa ironia do destino, o
grande cabo emudeceu.
Assim
que foram estabelecidas as comunicações utilizando o aparelho
sensível de Thompson, Whitehouse, no terminal de Valentia, pôs na
linha seu gravador automático patenteado. Embora a máquina
funcionasse bem nas linhas curtas, não conseguia interpretar os
pulsos fracos e distorcidos que saíam do cabo. Ele insistiu então
em substituir as baterias de baixa tensão elétrica de Thompson
por suas bobinas de centelha de 2000 volts. Embora o cabo fosse
muito mal desenhado e fabricado com pouco cuidado, há poucas dúvidas
de que uma tensão tão alta tenha apressado seu fim. Exatamente a
última mensagem que passou pelo cabo informou a Cyrus Field, em
Nova Iorque, que a companhia ainda não estava em condições de
enviar as mensagens do governo dos Estados Unidos para a
Inglaterra. Após um mês de união, os dois continentes estavam
outra vez separados pelo Oceano Atlântico.
Desta
vez, foram necessários sete anos para que Cyrus Field pusesse seu
projeto novamente em andamento. Foi desenhado um novo cabo, desta
vez com grande cuidado. Muitas amostras foram experimentadas, tanto
eletricamente, como mecanicamente. O novo cabo tinha um fio
condutor três vezes maior que o cabo de 1858, e era muito mais
pesadamente blindado. Tendo mais de "uma polegada de diâmetro,
pesava 1,75 toneladas por milha". O maior navio do mundo, o Great
Eastern, foi preparado para lançar o cabo. Tudo parecia pronto
para um assalto final bem sucedido ao teimoso Atlântico. Mas o
novo cabo, tão cuidadosamente desenhado, continha as sementes do
desastre.
A 23 de julho de 1865, o Great Eastern começou sua primeira
viagem para lançamento do cabo. Depois de ter lançado
"oitenta e quatro milhas de cabo", uma falha elétrica
foi revelada em uma parte do cabo recentemente submersa. Não havia
alternativa senão puxá-lo para investigar a razão da falha. Após
recolher "dez milhas de cabo", a falha foi descoberta. Um
pedaço de arame de ferro de duas polegadas tinha sido introduzido
no cabo, produzindo um curto-circuito entre o condutor interno e a
água salgada do oceano. Os encarregados suspeitaram de sabotagem,
mas acabou-se descobrindo que o pedaço de fio de ferro
era parte da blindagem de ferro do cabo. Este tinha sido enrolado,
camada após camada, em um grande porão do navio. O enorme peso do
cabo tinha arrebentado o frágil fio da blindagem, forçando um
pedaço dele a entrar no cabo. A falha foi prontamente reparada, e
o Great Eastern voltou à sua tarefa de lançamento.
Na manhã de 2 de agosto, o Great Eastern tinha lançado
quase três quartos do seu cabo, quando se apresentou neste outro
curto-circuito. Durante o processo de reparar a falha, uma seção
mais fraca partiu-se, e a extremidade rompida afundou rapidamente
nas profundezas. Embora o Great Eastern não estivesse
adequadamente preparado para a tarefa, decidiu-se “pescar” a
extremidade partida, a "duas milhas e meia de
profundidade". O arpéu conseguiu apanhar o cabo, mas a amarra
partiu-se a menos da metade da subida, quando trazia sua presa. Uma
segunda tentativa falhou também devido ao equipamento inadequado.
Foi então improvisada uma grande bóia para marcar o local e o Great
Eastern navegou de volta, cheio de frustração.
No
princípio de 1866, Field levantara capital suficiente para uma
nova tentativa. Imediatamente encomendou 1990 milhas de cabo, o
qual foi desenhado para impedir uma repetição das dificuldades
anteriores. O Great Eastern partiu mais uma vez, em 30 de
junho de 1866. Dessa vez, a viagem foi sem incidentes, e o cabo, um
sucesso completo. A 27 de julho de 1866, o Great Eastern atingiu
Newfoundland com um cabo em comunicação direta com a Irlanda. O
cabo podia transmitir 15 letras por minuto, e rendeu cinco mil dólares
em seu primeiro dia de operação. As águas frias do Atlântico
tinham finalmente começado a retribuir as fortunas que haviam
sorvido durante a década anterior.
Field
embarcou imediatamente no Great Eastem para recuperar o cabo
partido em 1865, a setecentas milhas de distância. No fim de
agosto, o cabo tinha sido recuperado, içado para bordo e emendado.
Pela primeira vez na história, um navio mantinha contato ao mesmo
tempo com a Europa e a América do Norte. O Great Eastem estava
em comunicação com a Inglaterra, através do cabo reparado, e a
Inglaterra podia comunicar-se com a América por meio do cabo lançado
em 1866. A despeito de uma tremenda tempestade, o Great Eastem estabeleceu
seu segundo cabo transatlântico, apenas quatro semanas após o
primeiro. Desde aquela época, os Estados Unidos e a Europa jamais
ficaram sem comunicações por mais de umas poucas horas, de cada
vez. Chegara finalmente a era das "rápidas comunicações
globais".
segue
Eletricidade posta a trabalhar - Parte
10 ... Os fios aprendem a falar
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