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Eletricidade posta a trabalhar
(Parte 9)

Prof. Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br

A divulgação,  meu gosto, é aquela que dá aos jovens as respostas que eles nunca chegaram a fazer.

'Nascem' os aparelhos elétricos
As descobertas no campo da eletricidade dos primeiros anos do século dezenove levaram à invenção de uma quantidade de aparelhos úteis. Assim como as primeiras máquinas a vapor, essas invenções baseavam-se mais na observação e no conhecimento prático do que na compreensão verdadeira da teoria. A teoria veio mais tarde, fornecendo uma visão mais profunda, que levou a grandes melhoramentos nos aparelhos elétricos, e a um fantástico aumento do número de tarefas que a 'eletricidade' podia realizar.

Muito antes que a importância da lei de Ohm obtivesse reconhecimento universal, os industriais já tinham começado a explorar os conhecimentos elétricos com impressionante rapidez. O efeito químico da corrente elétrica foi explorado na galvanização dos metais. Neste processo temos duas variantes a seguir; numa, o sal de um metal é decomposto pela corrente, de tal maneira que as partículas do metal são depositadas sobre outro pedaço de metal ligado ao terminal negativo de uma bateria; noutra (ilustrada abaixo), a peça a ser recoberta pelo metal (1) é ligada ao catodo, o metal (3) do revestimento (em geral em forma de anel) é ligado ao anodo e o eletrólito é uma solução salina.


Galvanização

O efeito 'calorífico' da corrente elétrica também encontrou importantes aplicações. Já em 1845, a lâmpada de arco elétrico era usada para iluminar as ruas em Baltimore. A luz dessa lâmpada é produzida pelo brilho intenso que se forma na folga entre dois bastões de carbono ligados a uma fonte de corrente contínua. O arco voltaico é ligado juntando-se primeiramente as extremidades dos bastões e depois separando-as ligeiramente. Detalhes do arco e das soldaduras podem ser vistos em nossa Sala 12 (clicar).


Arco voltaico

A lâmpada de arco (efeito 'luminoso' das correntes) representou a primeira aplicação, no campo da eletricidade, na iluminação. Por volta de 1879, Joseph Swan, na Inglaterra, e Thomas Edison, na América, tinham desenvolvido lâmpadas incandescentes práticas, utilizando delicados filamentos de carbono. Desde 1820 se faziam lâmpadas incandescentes utilizando filamentos de platina, mas sua vida era extremamente curta. Isto era devido parcialmente à incapacidade que tinham os inventores em obter um vácuo suficientemente perfeito nos bulbos das lâmpadas. Assim que a corrente aquecia o filamento até incandescê-lo, o metal se oxidava e desintegrava. Entretanto, a principal dificuldade era a pequena margem entre a temperatura na qual a platina começa a brilhar e a temperatura na qual na qual ela se funde.
Os filamentos das lâmpadas incandescentes modernas são feitos do metal tungstênio, considerado como refratário, e que brilha a uma temperatura muito abaixo daquela em que se funde. O efeito térmico da corrente elétrica foi também empregado na solda elétrica, nos fogões elétricos e nos fornos elétricos dos metalurgistas.

A corrente elétrica tem uma terceira propriedade extremamente útil, além do aquecimento elétrico e da decomposição química: a capacidade de produzir um campo magnético --- um efeito invariavelmente associado à qualquer corrente elétrica. O efeito magnético foi o primeiro a ser explorado comercialmente, como o principio básico dos sistemas do telégrafo magnético. A telegrafia foi introduzida na década de 1820, e expandiu-se rapidamente na década seguinte, especialmente na América do Norte.

A deflexão da agulha de uma bússola por um imã natural fora sugerida muito antes, como um meio de sinalização. Mas a exploração prática da idéia estava inteiramente fora de cogitação, enquanto a magnetita era a única fonte de magnetismo. Com a descoberta do eletromagnetismo por Oersted, a capacidade de criar ou destruir à vontade o magnetismo -- através do eletroímã -- transformou a telegrafia à longa distância em uma possibilidade real. O primeiro telégrafo eletromagnético foi desenvolvido em 1820 por André Marie Ampère, o grande cientista francês. Ampère utilizou um fio para cada letra do alfabeto, servindo a terra como um condutor de retorno para cada circuito. Pequenas agulhas magnéticas foram colocadas dentro de bobinas na extremidade mais distante de cada fio. Uma corrente passando por um dos fios (e o retorno pela terra) fazia defletir a agulha relacionada, dessa maneira indicando a letra desejada. Era a experiência de Oersted repetida para cada letra e sinal do alfabeto. Mas, com um fio para cada letra ou sinal! Algo assim:


Telégrafo de Ampère

Logo apareceram muitos telégrafos de agulha e, em 1831, o americano Joseph Henry (1799-1878) construiu um telégrafo eletromagnético utilizando apenas um fio. Seu aparelho consistia de uma barra de aço magnetizado que era equilibrada em um eixo, podendo girar no plano horizontal. Um eletroímã colocado nas proximidades podia atrair a barra de aço. Quando era enviada uma corrente através do eletroímã, a extremidade da barra de aço fazia soar uma campainha. A informação era transmitida por meio de códigos de combinações de sons.

O telégrafo Morse
Em 1832, Samuel F. B. Morse, artista americano, retomava da Europa em um navio paquete. Tinha lido uma publicação recente de Faraday sobre o eletromagnetismo, e fez planos para construir um instrumento telegráfico de gravação. Três anos mais tarde, construiu um modelo experimental baseado no famoso código de pontos e traços que ainda hoje leva seu nome. Os pontos e os traços distinguiam-se por 'largura' de pulsos de corrente, longos e curtos. Um ponto correspondia a um pulso de duração de cerca de 1/24 de segundo; os traços eram cerca de três vezes mais longos.


Pontos e traços do código Morse

O coração do aparelho de recepção de Morse era um eletroímã que fazia um lápis deslocar-se quando recebia o pulso de uma corrente elétrica. O lápis estava em contato com um rolo de papel em deslocamento e traçava uma linha reta sobre o papel, quando nenhum sinal estava sendo recebido. Recebendo uma corrente, o lápis deslocava-se para o lado, voltando à posição neutra quando a corrente caía a zero. Dessa maneira, uma seqüência em que a corrente era ligada e desligada ocasionava um traçado como o da ilustração acima. Se a corrente permanecesse ligada por 1/24 do segundo, um “ponto” era traçado pelo lápis. Se ficasse ligada durante 3/24 do segundo, era desenhado um “traço”. O telégrafo gravador de Morse provia, assim, um registro permanente das mensagens, que mais tarde podiam ser decodificadas à vontade.

No decorrer de suas experiências, Morse descobriu que a corrente elétrica, depois de percorrer cerca de 20 milhas (cerca de 32 km), tornava-se demasiado fraca para operar o aparelho registrador. Trabalhando com Joseph Henry, desenhou um relé que repetiria os sinais automaticamente para outra seção da linha telegráfica. O principio está ilustrado abaixo. Quando a (1) chave de telégrafo é fechada, é enviada uma corrente ao longo das primeiras (6) 20 milhas da linha, que passa pela (5) bobina A e regressa à (7) bateria.


Relés de Morse

A corrente magnetiza a (2) estrutura de ferro do relé, e atrai a (3) armadura de ferro articulada que gira no sentido dos ponteiros do relógio, vencendo a atração da (8) mola. O movimento da armadura põe o (4) ponto B em contato elétrico com o ponto C, fechando assim o circuito que contém o segundo segmento de (6) 20 milhas de linha. A bateria deste circuito envia uma nova corrente através da segunda seção da linha, energizando desta maneira um segundo relé, na extremidade oposta. Deste modo, podem ser acrescentados circuitos para qualquer distância desejada.

Em 1838, Morse fez uma demonstração do seu telégrafo perante o Presidente Van Buren e seu gabinete. Com rapidez, o Congresso votou uma lei em 1843, para que fosse construída uma linha entre Washington, D.C. e Baltimore, Maryland. A 24 de maio de 1844, Morse enviou o primeiro telegrama público, através de sua linha de 40 milhas de comprimento. Pouco tempo depois, o diretor dos correios concluiu que o brinquedo de Morse nunca iria render o suficiente para sua manutenção, e o governo retirou seu apoio. Entretanto, Morse obteve capital privado e estendeu a linha até Filadélfia e Nova Iorque em 1845. Na metade do século, cinqüenta companhias, usando as patentes telegráficas de Morse, estavam operando nos Estados Unidos.

Por aquela época, Alfred Vail descobrira que os sinais telegráficos podem ser “lidos” pelos ruídos do relé no terminal receptor. Ele observou que a armadura produzia sons distintos para o ponto e o traço. Com prática, um operador podia decodificar as mensagens, meramente ouvindo o relé. Oportunamente, o vibrador ou “cigarra” de Morse veio a ser de uso generalizado. Até hoje ele sobrevive, virtualmente inalterado.

O operador telegráfico foi uma parte indispensável do cenário norteamericano durante mais de meio século. Até ser deslocado pelas máquinas automáticas modernas, ele desempenhou seu estranho ofício, vital para o crescimento de uma nação que se espalhava pelo continente inteiro. Podia transmitir e receber até quarenta palavras por minuto, hora após hora, com um staccato de ruídos intermitentes. Sua habilidade, ao lado do telégrafo de Morse, tornara realidade o sonho das comunicações a longa distância.

O Primeiro Cabo Submarino
Pela metade do século, redes de linhas telegráficas haviam espalhado seus tentáculos sobre grande parte da Inglaterra, Europa e América do Norte. Mas a nova arte das comunicações ainda se detinha nos limites do mar. O canal inglês, que fora durante séculos uma barreira protetora colocada entre a Inglaterra e o Continente, logo seria atacado por navios conduzindo milhas de fios de cobre.

As primeiras tentativas para lançar um cabo telegráfico submarino foram feitas em 1839 por um certo Dr. O’Shaughnessy, da East India Company. Algum tempo depois, Morre realizou experiências sob a baía de Nova Iorque, enviando sinais através de cabos recobertos com borracha e metidos em um cano de chumbo. Os resultados de tais testes levaram-no a concluir que a telegrafia através do Atlântico era perfeitamente possível. Aproximadamente ao mesmo tempo, Charles Wheatstone levou a cabo experiências bem sucedidas na Baía Swansea, em Gales.

O primeiro cabo submarino de grande extensão foi lançado em 1850, cruzando o Estreito de Dover. Dois irmãos, John e Jacob Brett, obtiveram uma concessão de 10 anos para lançar o cabo, e contrataram com a Gutta-Percha Company a sua fabricação. O núcleo do cabo era um único fio de cobre envolto em um isolador chamado guta-percha, tendo este a espessura de um quarto de polegada.
Achar um isolante adequado nos primeiros dias da telegrafia era uma tarefa que estava longe de ser simples. Felizmente, a guta-percha apareceu na época certa. Embora tenha sido substituída quase completamente pelos plásticos sintéticos, a guta-percha foi indispensável ao desenvolvimento da telegrafia. Em 1843, William Montgomerie, residente em Singapura, enviou algumas amostras de guta-percha à Royal Society. Depois de examiná-las, Faraday concluiu que o material seria muito útil como isolante elétrico. A Gutta-Percha Company of London (mais tarde Telegraph and Maintenance Company), foi formada em 1845 para comercializar o produto.

A guta-percha provém da goma de uma quantidade de árvores relacionadas, que são encontradas nas florestas da Malásia, Bornéu e Sumatra. O termo vem das palavras malaias getah percha, goma da percha (árvore). Ao contrário da borracha, ela não se distende, sendo bastante dura nas temperaturas normais. Toma-se mole como massa de vidraceiro, em contato com a água quente, revertendo à sua dureza original quando resfriada até à temperatura ambiente. Esta qualidade torna fácil moldar a guta-percha em torno de um fio, no processo de fabricação do cabo.

Tal foi, então, a construção do primeiro cabo cruzando o Canal da Inglaterra — um delgado fio de cobre isolado por uma camada única de guta-percha. Os irmãos Brett presumiram que, uma vez que o cabo tivesse sido depositado no fundo do Canal, estaria perfeitamente seguro, e não necessitaria proteção adicional. Somente as extremidades, próximo do litoral, foram protegidas por uma cobertura externa de chumbo.

A 28 de agosto de 1850, foi lançado o cabo entre Dover e Cap Gris Nez, na França. Em meio de grande excitação, um impressor automático foi ligado à linha para receber a mensagem de John Brett ao Príncipe Luís Napoleão Bonaparte. Infelizmente, nada foi recebido senão uma quantidade de sinais ininteligíveis. Um instrumento de agulha foi tentado em lugar do impressor automático, com resultados apenas ligeiramente melhores. Uma palavra aqui, outra palavra ali, mas verdadeiramente nenhuma mensagem.
Uma vez mais, a prática tinha-se distanciado da teoria. Os Bretts não podiam saber que um fio adequadamente isolado comporta-se diferentemente na água salgada, em relação ao ar. A água salgada, que é condutora, transformara o cabo em um gigantesco vaso de Leyden. Envolvido pela água condutora do mar, o fio submerso tomou-se extremamente “preguiçoso”, devido ao aumento de sua capacitância elétrica. Se os operadores tivessem simplesmente diminuído sua cadência de transmissão, os sinais teriam passado.
Infelizmente, os Bretts tiveram pouco tempo para fazer experiências com o cabo. Na manhã seguinte, a ligação através do canal estava completamente inoperante. O fio delgado de cobre que unia a Inglaterra à Europa tinha-se partido em algum lugar ao longo de seus 40 km de comprimento. Os Bretts
tinham-se deparado com o inimigo natural de todos os cabos submarinos — um pescador apanhou com sua âncora a linha submersa. Puxando-a para a superfície, o ingênuo homem do mar espantou-se com aquela estranha alga marinha que parecia crescer em torno de um núcleo metálico. Suspeitando que o metal pudesse ser ouro, secionou uma boa parte para uma possível venda e divertimento de seus amigos. Seu inocente vandalismo deu início a uma guerra não declarada entre os pescadores e as companhias de cabos submarinos, a qual, acredito, persiste até hoje. Mais danos são causados aos cabos submarinos pelos traineiras e barcos de pesca do que por quaisquer outros meios.

'Nasce' uma nova indústria
A despeito de seu fracasso inicial, os Bretts mostraram que os sinais elétricos, tais como eram, podiam ser enviados através do Canal da Inglaterra. Um ano depois, obtiveram o apoio técnico e financeiro de Thomas Crampton, engenheiro ferroviário e o projeto prosseguiu novamente. Crampton desenhou pessoalmente um novo cabo, o qual, pensou, dessa vez nenhum pescador ousaria avariá-lo. A guta-percha foi envolvida por uma camada de cânhamo e, por cima dela, foi colocada uma blindagem constituída por uma camada de ferro galvanizado. Tinha a resistência de muitos cabos de amarração e pesava trinta vezes mais que o cabo anterior.
A 25 de setembro de 1851, o pesado cabo foi lançado através do Canal, exigindo grande esforço do inadequado mecanismo de lançamento do navio utilizado. Embora grande extensão de cabo se tivesse perdido, havia quantidade suficiente para permitir alcançar o litoral francês. Após algumas semanas de experiências, o primeiro cabo submarino bem sucedido foi entregue ao público, e a Inglaterra subitamente se viu colocada a uma fração de segundo da Europa.
O sucesso do cabo de Crampton provocou uma corrida para o negócio dos cabos submarinos. Dentro de dois anos, mais de dois mil quilômetros de cabos submarinos tinham sido fabricadas. Os cabos logo cruzaram o Mar da Irlanda, o Mar Negro e o Mediterrâneo. Inevitavelmente, a atenção veio a focalizar-se no mais importante de todos os oceanos — o Atlântico.

Cabos cruzam o Atlântico
A força impulsora para o lançamento do primeiro cabo do Atlântico foi Cyrus West Field (1819-1892), homem de negócios americano, que tinha transformado oito dólares em $250.000, antes de aposentar-se aos trinta e três anos. Intrigado com a idéia de um cabo transatlântico, organizou a New York, Newfoundland and London Telegraph Company, em 1854. Levou dois anos e meio apenas para construir uma linha terrestre entre as duas primeiras cidades mencionadas no nome da companhia. A parte “and London” do título envolveu dez anos de frustrações e de falhas, antes que fosse lançado, em 1866, o primeiro cabo transatlântico permanente de sucesso.
A primeira tentativa falhou em 1857, quando o cabo rompeu-se devido à operação defeituosa do mecanismo de Iançamento. Embora Field ficasse desapontado, havia consideráveis razões para manter-se otimista. O rompimento havia ocorrido após o lançamento de cerca de 536 km de cabo na água, a profundidades que iam até 3,5 km. Tinham sido mantidas comunicações através do cabo entre o navio lançador, Niagara, e o terminal marítimo de Valentia Bay, na Irlanda, até o momento do rompimento. Isto provava que não havia nada de impossível em relação ao projeto. Comprariam mais cabo e tentariam novamente.

A demora foi bem utilizada pelo grande Wílliam Thompson, que desde o início era um dos diretores da companhia de Field. Thompson já tinha firmado sua reputação como um dos grandes cientistas da época. Seus estudos convenceram-no de que, se um detector de sinais de corrente extremamente sensível fosse colocado no terminal de recepção do cabo, a velocidade de sinalização poderia ser significativamente aumentada.
Thompson sabia que os agudos pulsos de corrente tipo “onda quadrada” que eram alimentados em um cabo submarino, sofriam severa degradação na transmissão. Quando os pulsos emergiam na extremidade distante, sua parte inicial já não era mais nítida, mas elevava-se gradualmente até um valor máximo da corrente. O diagrama seguinte ilustra de forma simplificada a idéia geral.


Pulsos de corrente, antes (a) e depois (b) de serem enviados
através do cabo submarino primitivo

Podemos compreender por que os pulsos são deformados e “misturados” no diagrama, se fizermos aplicação do conhecimento sobre as ondas de seno, dos estudos sobre o som e a luz. Um pulso bem nítido de corrente, tal como os que se vêem na parte (a), consiste realmente de uma corrente alternativa em alguma freqüência fundamental, acompanhado por grande número de harmônicos (síntese de Fourier). As freqüências desses harmônicos são múltiplos da freqüência fundamental, exatamente como nas ondas de sons complexos. Se a freqüência fundamental for de 10 Hz, as freqüências harmônicas serão de 20, 30, 40, 50 Hz, etc. Quanto mais nítido o pulso (quanto 'mais quadrado' ele for), maior será o número de harmônicos que ele conterá. Quando um cabo simples é submerso em um meio condutor como a água salgada, verifica-se que as freqüências mais altas propagam-se mais rapidamente que as mais baixas (um fenômeno de dispersão). Assim, os harmônicos mais altos tendem a alcançar os harmônicos mais baixos do pulso anterior (aquele que está 'atrás' corre sobre aquele que está 'na frente', na ilustração acima). Pulsos individuais já não são mais de forma retangular, tendendo a alongar-se. Se for dado um intervalo insuficiente entre os pulsos, eles tenderão a juntar-se, como se indica em (b) na ilustração acima.

Kelvin propôs acelerar a velocidade de sinalização, utilizando um detector de pulso sensível — que pudesse operar eficientemente nas pequenas variações de corrente determinadas pelos pulsos “misturados”.
Infelizmente, Edward Whitehouse, eletricista oficial da companhia, tinha outras idéias. Decidiu resolver o problema por outro método que pareceu igualmente razoável naquela época. Ele iria simplesmente aumentar a magnitude dos pulsos da corrente alimentada no cabo. Seus pulsos gigantes foram produzidos por grandes bobinas de centelha que geravam pelo menos 2 000 volts de diferença de potencial elétrico. Veremos como a utilização feita por Whitehouse da idéia errada levou mais tarde ao desastre.

No início de 1858, o grande empreendimento estava mais uma vez mais em andamento. O cabo tinha sido dividido entre dois navios, o Niagara e o Agamemnon. Depois de emendar o cabo no meio do Atlântico, os dois navios começaram a lançá-lo ao mar, navegando em direções opostas. Seguiu-se uma grande tempestade e, depois de três outros acidentes, durante os quais o cabo se partiu, muito tempo e grande quantidade de cabo haviam sido perdidos. Outra vez os navios rumaram de volta para a Irlanda, derrotados.
No fim de julho do mesmo ano, o Niagara e o Agamêmnon estavam de volta ao meio do Atlântico, para outra tentativa. A 5 de agosto, o poderoso Atlântico tinha sido abarcado pelo cabo. Após algumas experiências, foi recebida uma mensagem a 16 de agosto, da Rainha Vitória para o Presidente Buchanan. A 1º de setembro, Cyrus Field recebeu uma tumultuada ovação pública em Nova Iorque, mas naquele mesmo dia por uma curiosa ironia do destino, o grande cabo emudeceu.

Assim que foram estabelecidas as comunicações utilizando o aparelho sensível de Thompson, Whitehouse, no terminal de Valentia, pôs na linha seu gravador automático patenteado. Embora a máquina funcionasse bem nas linhas curtas, não conseguia interpretar os pulsos fracos e distorcidos que saíam do cabo. Ele insistiu então em substituir as baterias de baixa tensão elétrica de Thompson por suas bobinas de centelha de 2000 volts. Embora o cabo fosse muito mal desenhado e fabricado com pouco cuidado, há poucas dúvidas de que uma tensão tão alta tenha apressado seu fim. Exatamente a última mensagem que passou pelo cabo informou a Cyrus Field, em Nova Iorque, que a companhia ainda não estava em condições de enviar as mensagens do governo dos Estados Unidos para a Inglaterra. Após um mês de união, os dois continentes estavam outra vez separados pelo Oceano Atlântico.

Desta vez, foram necessários sete anos para que Cyrus Field pusesse seu projeto novamente em andamento. Foi desenhado um novo cabo, desta vez com grande cuidado. Muitas amostras foram experimentadas, tanto eletricamente, como mecanicamente. O novo cabo tinha um fio condutor três vezes maior que o cabo de 1858, e era muito mais pesadamente blindado. Tendo mais de "uma polegada de diâmetro, pesava 1,75 toneladas por milha". O maior navio do mundo, o Great Eastern, foi preparado para lançar o cabo. Tudo parecia pronto para um assalto final bem sucedido ao teimoso Atlântico. Mas o novo cabo, tão cuidadosamente desenhado, continha as sementes do desastre.
A 23 de julho de 1865, o Great Eastern começou sua primeira viagem para lançamento do cabo. Depois de ter lançado "oitenta e quatro milhas de cabo", uma falha elétrica foi revelada em uma parte do cabo recentemente submersa. Não havia alternativa senão puxá-lo para investigar a razão da falha. Após recolher "dez milhas de cabo", a falha foi descoberta. Um pedaço de arame de ferro de duas polegadas tinha sido introduzido no cabo, produzindo um curto-circuito entre o condutor interno e a água salgada do oceano. Os encarregados suspeitaram de sabotagem, mas acabou-se descobrindo que o pedaço de fio de
ferro era parte da blindagem de ferro do cabo. Este tinha sido enrolado, camada após camada, em um grande porão do navio. O enorme peso do cabo tinha arrebentado o frágil fio da blindagem, forçando um pedaço dele a entrar no cabo. A falha foi prontamente reparada, e o Great Eastern voltou à sua tarefa de lançamento.
Na manhã de 2 de agosto, o Great Eastern tinha lançado quase três quartos do seu cabo, quando se apresentou neste outro curto-circuito. Durante o processo de reparar a falha, uma seção mais fraca partiu-se, e a extremidade rompida afundou rapidamente nas profundezas. Embora o Great Eastern não estivesse adequadamente preparado para a tarefa, decidiu-se “pescar” a extremidade partida, a "duas milhas e meia de profundidade". O arpéu conseguiu apanhar o cabo, mas a amarra partiu-se a menos da metade da subida, quando trazia sua presa. Uma segunda tentativa falhou também devido ao equipamento inadequado. Foi então improvisada uma grande bóia para marcar o local e o Great Eastern navegou de volta, cheio de frustração.

No princípio de 1866, Field levantara capital suficiente para uma nova tentativa. Imediatamente encomendou 1990 milhas de cabo, o qual foi desenhado para impedir uma repetição das dificuldades anteriores. O Great Eastern partiu mais uma vez, em 30 de junho de 1866. Dessa vez, a viagem foi sem incidentes, e o cabo, um sucesso completo. A 27 de julho de 1866, o Great Eastern atingiu Newfoundland com um cabo em comunicação direta com a Irlanda. O cabo podia transmitir 15 letras por minuto, e rendeu cinco mil dólares em seu primeiro dia de operação. As águas frias do Atlântico tinham finalmente começado a retribuir as fortunas que haviam sorvido durante a década anterior.

Field embarcou imediatamente no Great Eastem para recuperar o cabo partido em 1865, a setecentas milhas de distância. No fim de agosto, o cabo tinha sido recuperado, içado para bordo e emendado. Pela primeira vez na história, um navio mantinha contato ao mesmo tempo com a Europa e a América do Norte. O Great Eastem estava em comunicação com a Inglaterra, através do cabo reparado, e a Inglaterra podia comunicar-se com a América por meio do cabo lançado em 1866. A despeito de uma tremenda tempestade, o Great Eastem estabeleceu seu segundo cabo transatlântico, apenas quatro semanas após o primeiro. Desde aquela época, os Estados Unidos e a Europa jamais ficaram sem comunicações por mais de umas poucas horas, de cada vez. Chegara finalmente a era das "rápidas comunicações globais".

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