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Eletricidade
posta a trabalhar
(Parte
10)
Prof.
Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
Os
fios aprendem a falar
Muitas descobertas científicas e importantes invenções foram
feitas por acidente, mas Alexander Graham
Bell sabia exatamente o que estava fazendo, quando
desenhou o primeiro telefone. A idéia ocorreu-lhe no meado de
1874. Declarou ele mais tarde:
“Se
eu pudesse fazer uma corrente elétrica variar de intensidade,
precisamente como o ar varia de densidade durante a propagação do
som, eu conseguiria transmitir a palavra telegraficamente.”
Bell
sabia que os sons complexos da fala formam um padrão de pressão
que varia rápida e continuamente, e que se afasta da pessoa que
fala em todas as direções. À medida que essas variações de
pressão, durante sua propagação, dão de encontro a um corpo
colocado próximo à pessoa que fala, o corpo experimenta forças
que variam de maneira correspondente. A nova idéia de Bell era
utilizar essas forças delicadas para gerar uma corrente que varia
no decurso do tempo exatamente da maneira que varia a pressão. Em
linguagem moderna diríamos que ele precisava de um 'transdutor',
no caso, um dispositivo que convertesse a energia mecânica das
variações de pressão sonora em energia elétrica.
O
primeiro instrumento de Bell baseou-se no eletromagnetismo, o qual
foi empregado tanto para transmissor como para receptor. Seu
princípio de operação está ilustrado abaixo.
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Primitivo
transmissor e receptor telefônico de Bell |
Um
ímã permanente exerce uma tensão mecânica sobre um diafragma de
ferro. Uma caixa de plástico (que não aparece na ilustração)
impede o diafragma de entrar em contato direto com os pólos do
ímã. Quando as variações de pressão produzidas pela fala
alcançam o diafragma, produzem neste um movimento correspondente,
para frente e para trás. Essas vibrações do diafragma produzem
variações correspondentes na distância entre os pólos e o
diafragma, o que, por sua vez, provoca variações no campo
magnético do ímã. O campo magnético variável induz então
uma força eletromotriz também
variável nas bobinas, a qual é uma cópia elétrica exata das
variações de pressão originais.
Quando
usado como receptor, a seqüência de operações é invertida. A
força eletromotriz variável proveniente de um transmissor
distante envia uma corrente correspondente através da linha do
telefone e das bobinas do receptor. Esta corrente variável
modifica a força do campo magnético que está atuando sobre o
diafragma. Este se desloca mais para dentro ou mais para fora, em
resposta às variações do campo
magnético e gera ondas sonoras que reproduzem os sons originais.
Os primeiros sons da fala foram transmitidos por fio em 3 de junho
de 1875.
Amplificando
os sons da fala
Os primeiros transmissores de Bell baseavam-se em princípios
científicos corretos, mas produziam correntes elétricas demasiado
fracas para efeitos práticos. Em seu transmissor eletromagnético,
somente uma pequena quantidade de energia das ondas sonoras podia
ser convertida em energia elétrica. Necessitava-se de um método
para aumentar ou amplificar a corrente elétrica. Assim sendo, o
que se procurava era encontrar meios para controlar a corrente de
uma bateria, de acordo com as variações de pressão da fala. Em
vez de mero conversor de energia, um transmissor deveria ser,
então, uma espécie de válvula; um dispositivo que podia usar uma
pequena quantidade de energia acústica para controlar uma
quantidade relativamente grande de energia elétrica proveniente da
energia química de uma bateria.
O
moderno transmissor de telefone foi inventado de acordo com estas
idéias por Henry Hunnings,
clérigo inglês, em 1878. A característica essencial do
transmissor é representada por uma quantidade de grãos de carbono
acondicionados à vontade, como se
vê no diagrama abaixo.
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Transmissor
telefônico de grânulos de carvão |
Os
terminais da linha telefônica são ligados ao diafragma e à placa
de metal, conforme se pode ver. Uma corrente contínua passa
normalmente entre diafragma e placa, através das partículas de
carbono não comprimidas, e através da linha telefônica, até o
receptor colocado à distância. Na operação normal, as ondas
sonoras chocam-se contra o transmissor e o diafragma vibra para
frente e para trás. Quando ele se
desloca para a direita (conforme ilustração), os grãos ficam
mais comprimidos, e a corrente aumenta proporcionalmente. Quando se
desloca para a esquerda, os grãos ficam mais soltos, e a corrente
é reduzida. A pequena quantidade de energia sonora da onda que se
choca contra o diafragma é utilizada simplesmente para controlar
uma quantidade muito maior de energia elétrica proveniente de uma
bateria. Os transmissores dos telefones modernos, funcionando sob
este princípio, produzem uma amplificação correspondente a mil
vezes os sons da fala original que alcançam o diafragma.
Capacitância
Desenvolvendo-se o serviço telefônico, tornou-se aparente que as
linhas telefônicas teriam que ser melhoradas significativamente,
antes que pudesse ser prestado um serviço eficiente. Descobriu-se
que as linhas comuns, constituídas por dois fios elevados,
produziam uma grande e inesperada redução na corrente do sinal. A
corrente no terminal de recepção era muito mais fraca do que se
podia prever, com base na lei de Ohm. Ficou também claro
que as partes da corrente de voz que tinham freqüências mais
elevadas eram reduzidas ou atenuadas em grau mais elevado do que as
partes que tinham freqüência mais baixa.
A razão para este comportamento das linhas telefônicas foi
esclarecida pela primeira vez por Oliver
Heaviside, físico inglês, que se tornou famoso mais
tarde devido aos seus trabalhos sobre radiocomunicações a longa
distância.
Uma
linha telefônica (dois longos fios isolados e separados pelo ar)
é como um vaso de Leyden ou um capacitor (à época, era
denominado 'condensador'), no sentido de que há necessidade de uma
considerável quantidade de 'eletricidade' para “enchê-la”.
Ela tem uma grande 'capacidade para a eletricidade'. O termo
moderno que designa esta propriedade é "capacitância",
grandeza física inerente ao capacitor e que indica quanto de carga
elétrica ele (o par de fios, no caso) pode armazenar quando
submetidos a uma diferença de potencial elétrico, ou seja, uma
tensão elétrica.
Se uma tensão elétrica U for aplicada a um par de
condutores e aparecer neles (armazenado) uma carga elétrica de Q
coulombs, sua capacitância C será expressa por:
C
= Q/U
A
capacitância é medida em farad (símbolo, F), em
homenagem a Michael Faraday, o grande
cientista inglês. O valor da capacitância aumenta, ou seja, sua
capacidade de armazenar cargas elétricas, quando os condutores
são colocados mais próximos um do outro. Heaviside demonstrou
teoricamente que a atenuação de uma linha telefônica podia ser
reduzida se fosse descoberto algum meio de contrabalançar o efeito
de capacitância inerente na construção da linha. Isto levou ao
estudo de um efeito diferente, já percebido, e que foi descoberto
independentemente por Joseph Henry
e, mais tarde, por Faraday. O efeito é chamado de “auto-indução”
ou “indutância”.
Indutância
Henry observou em 1829 que
tensões elétricas extremamente elevadas podem ser produzidas de
modo muito simplesmente, usando com uma bateria de baixa tensão e
um pedaço de fio enrolado na forma de uma bobina. Consideremos o
circuito ilustrado abaixo:
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Constatação
dos efeitos da auto-indução |
Quando
o interruptor é fechado, desenvolve-se uma corrente na bobina que
alcança uma magnitude constante, determinada pela lei de Ohm.
Produz-se então um campo magnético constante no interior e em
torno da bobina. Quando o interruptor é aberto, o campo começa a
cair para zero. Ao fazê-lo, as linhas de força magnéticas passam
pelas espiras da bobina e induzem nela uma força eletromotriz.
Diz-se que essa tensão é auto-induzida e tende a manter a
corrente circulando. É como se uma inércia elétrica tendesse a
manter o fluxo da corrente por um breve período, mesmo depois de
ter sido aberto o interruptor. Se a bobina tiver muitas voltas, sua
auto-indução produzirá tensão suficiente para estalar uma
faísca entre os terminais do interruptor quando eles são
afastados. Esta propriedade dos fios e das bobinas, semelhante à
inércia mecânica, é chamada de "indutância" ou
"auto-indução".
Ocorre
um efeito correspondente quando o interruptor é fechado outra vez.
À medida que a corrente começa a percorrer a bobina, induz nela
uma tensão. Como anteriormente, essa tensão tende a opor-se a
qualquer alteração na corrente que atravessa a bobina, exatamente
como a inércia mecânica tende a opor-se à mudança de velocidade
de um automóvel em movimento. A indutância da bobina reduz a
rapidez com que se desenvolve a corrente na bobina. Quanto maior a
indutância, tanto mais tempo levará a corrente para
desenvolver-se até atingir sua magnitude constante.
A
indutância é medida em unidades chamadas henry (símbolo, H).
Um condutor
ou uma bobina têm uma indutância de 1 henry quando uma corrente
que está variando à razão de 1 ampère por segundo produz uma
tensão auto-induzida de 1 volt entre seus terminais.
Todos os condutores têm alguma indutância, mas um fio enrolado,
formando uma bobina, tem muito mais indutância do que teria como
um fio esticado.
Linhas
sobrecarregadas
Heaviside mostrou
teoricamente que as linhas telefônicas então em uso podiam ser
melhoradas pela redução de sua capacitância ou aumento de sua
indutância, ou por ambos os processos. A capacitância podia ser
reduzida simplesmente aumentando o espaçamento entre os dois fios,
mas a indutância apresentava um problema mais difícil.
A solução foi encontrada por Michael
Pupin, professor da Universidade Columbia, de Nova
Iorque. Ele nada mais fez que acrescentar bobinas de fio,
intervaladas ao longo da linha. Essas bobinas, ligadas em série
com a linha, aumentavam a indutância de uma quantidade suficiente
para dobrar a distância em que podia ser utilizada a linha. Elas
são chamadas “bobinas de sobrecarga”, e as linhas que as
contêm são “linhas sobrecarregadas”. O sobre-carregamento das
linhas telefônicas ilustra dramaticamente as vantagens de ter a
teoria e a prática trabalhando de mãos dadas.
A
quantidade excessiva de capacitância é consideravelmente maior
nos cabos submarinos do que nas linhas terrestres. Para compreender
o porque, imaginemos um único fio isolado suspenso por postes
sobre a terra. A capacitância entre o fio e a terra é
relativamente pequena, devido à grande distância existente entre
um e a outra. Imaginemos agora o mesmo fio isolado imerso em água
salgada. O condutor interno pode ser considerado como uma das
placas de um capacitor, sendo a água condutora a outra. Como os
dois encontram-se bastante próximos, o cabo tem uma grande
capacitância e seu desempenho na transmissão de informações
elétricas é pobre.
Não
obstante, as equações de Heaviside mostraram aos engenheiros
exatamente a quantidade de indutância que devia ser acrescentada
para contrabalançar a capacitância e melhorar o desempenho. De
fato, por meio de ajustamentos adequados, a indutância e a
capacitância podem ser perfeitamente equilibradas, produzindo o
que Heaviside chamou de “linha sem distorção”, na qual todas
as freqüências propagam-se com a mesma velocidade, e sofrem a
mesma quantidade mínima de atenuação.
Devida à dificuldade de inserir bobinas em um cabo submarino, o
sobre-carregamento era normalmente feito enrolando um fio ou fita
de ferro em torno do condutor interno, aumentando assim sua
indutância.
A
descoberta de Heaviside tornou possível a telefonia submarina a
distâncias de algumas centenas de milhas. O sobre-carregamento
indutivo foi também utilizado subseqüentemente, nos cabos
telegráficos aumentando grandemente sua velocidade de
sinalização e, conseqüentemente, a quantidade de tráfego que
podiam veicular. Um cabo telegráfico sobrecarregado através do
Atlântico pode operar com velocidade cinco vezes maior que um não
sobrecarregado e oferece assim um potencial de lucro cinco vezes
maior.
Com
a invenção do telefone e com o sucesso dos cabos telegráficos
submarinos, poderia parecer um problema simples o lançamento de um
cabo telefônico através do Atlântico. Não obstante, a primeira
comunicação por fonia através desse oceano ocorreu quase meio
século antes que o primeiro cabo telefônico transatlântico fosse
completado entre Oban, na Escócia, e Clarenville, Newfoundland, em
1956. Três grandes homens de ciência, Maxwell, Hertz e Marconi,
descobriram um meio de projetar no espaço, a grande distância, os
campos eletromagnéticos de Faraday, carregando com eles as
correntes de telegrafia, e mais tarde, a voz humana. De fato, foi o
rádio que forneceu o know-how tecnológico que tornou praticável
a telefonia submarina a longa distância.
Até
mesmo os melhores cabos telefônicos fornecem correntes fracas para
um receptor situado a duzentas milhas de distância. O reforço dos
pulsos enfraquecidos de um sinal telegráfico por meio do relé de
Morse, ou repetidor, tinha sido um problema simples, mas foi
necessário esperar pela invenção da válvula de rádio para
fazer a mesma coisa com as correntes de voz. O primeiro cabo
telefônico transatlântico utilizou amplificadores eletrônicos
espaçados de 40 milhas no fundo do oceano. Sem essas
amplificações, as correntes cairiam abaixo do nível mínimo de
audição, depois de centenas de milhas. O cabo telefônico tomou
emprestado do campo do rádio outra técnica igualmente importante.
Em
vez de uma só conversação em fonia, o primeiro cabo foi
desenhado para permitir trinta e seis conversações telefônicas
ao mesmo tempo, utilizando o mesmo fio. Esta mágica eletrônica é
meramente uma aplicação simples do mesmo princípio de
sintonização que nos permite selecionar qualquer estação de
rádio que desejarmos, escolhendo-a no ar congestionado de ondas. O
significado disso é que, quando falamos em um transmissor
telefônico, não são as correntes de voz do referido transmissor
que são alimentadas no cabo. Em vez
disso, elas são usadas para controlar um dentre trinta e seis
dispositivos que são, na realidade, pequeninos
rádio-transmissores. A saída desses transmissores alimenta no
cabo o equivalente a trinta e seis conversações. Cada transmissor
é sintonizado em uma freqüência ligeiramente diferente, de tal
maneira que as trinta e seis conversações podem ser separadas por
igual número de rádio-receptores, na outra extremidade. A única
diferença essencial entre a verdadeira radiocomunicação e os
métodos empregados no cabo é o meio de transmissão. As ondas de
rádio são projetadas no espaço, enquanto que os cabos
telefônicos orientam seus sinais ao longo de um fio. As muitas
conversações não sofrem mais interferências recíprocas do que
a multidão de programas não relacionados que entra em nosso
aparelho de rádio.
Para
aprender como puderam acontecer essas maravilhas, devemos voltar
aos campos elétrico e magnético de Faraday, e descobrir o papel
dramático que deviam desempenhar na busca interminável do
conhecimento que o homem empreende. Esses 'campos de força'
invisíveis transformaram-se em conceitos fundamentais sobre os
quais repousa grande parte da Ciência. Eles transportam a voz
humana ao redor do mundo e, com sua ajuda, os cientistas
descobriram um importante e jamais sonhado cinturão de
'eletricidade' no céu.
Segue
Parte 11 ... Maxwell
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