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Eletricidade
posta a trabalhar
(Parte
11)
Prof.
Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
Nasce
o conceito de campo ... tubos e linhas de Faraday
O jovem aprendiz de encadernador, Michael
Faraday, instruiu-se com a leitura dos volumes da
Enciclopédia Britânica e
outros livros de boa leitura que lhe vieram às mãos, para encadernar.
Não obstante, apesar da falta de uma instrução formal,
tornou-se um dos maiores cientistas de todos os tempos. A
falta de conhecimentos matemáticos não o impediu de conceber um
quadro teórico dos fenômenos elétricos que ainda hoje é
valido.
Antes
de Faraday apontar o caminho, pensava-se que as forças elétricas
e magnéticas agiam através do espaço vazio. Para seu modo de
pensar, tal “ação a distância” — como era chamada — não
parecia fazer sentido. Quando ele via uma pedra movendo-se por um
campo, esperava sempre ver uma corda puxando-a, ou um pau
empurrando-a. Para compreender as forças que atuam entre as cargas
ou entre os ímãs, ele teve que visualizar o espaço entre eles
cheio de “algo” invisível que pode atrair ou repelir. Esse “algo”
era um campo magnético ou elétrico, ou ambos, dependendo das
circunstâncias.
Ele
concebeu um 'campo' como um sistema de tubos invisíveis com características
de borracha, que se estendem entre um par de cargas ou pólos
magnéticos diferentes, puxando-os para
junto um do outro. Se as cargas ou pólos tiverem o mesmo sinal, os
tubos elásticos tomam uma configuração diferente, separando as
cargas ou pólos. Tais tubos ou linhas de força tendem a se
encolher, exatamente como uma borracha distendida. Eles exercem
também uma força lateral de repulsão, uns contra os outros,
tendendo a separar-se, a medida que se afastam de sua fonte.
Estas
idéias revolucionárias de Faraday abriram uma nova era de
desenvolvimento científico. As forças inexplicáveis que agiam a
distância foram substituídas pelos campos elétricos ou
magnéticos, que ocupam o espaço que fica entre as cargas e entre
os ímãs. Os campos podiam ser “mapeados”, medindo-se a
direção e a magnitude da força que atuava sobre uma pequena
carga elétrica ou pólo magnético, em todos os pontos do campo.
Empregando esta abordagem, um cientista podia calcular, ou pelo
menos estimar, as forças que atuavam entre pares de objetos
magnéticos ou providos de uma carga, separados por um espaço
aparentemente vazio. Embora o conceito de campos elétricos e
magnéticos não fosse de mais fácil compreensão que as antigas
idéias relativas à ação a distância, ele fornecia um meio
intermediário pelo qual tal ação podia ser propagada pelo
espaço.
Faraday
não combinou todas as suas idéias em leis matemáticas. Essa
tarefa foi realizada por um brilhante matemático e físico
escocês, chamado James Clerk Maxwell
(1831-1879).
Eletromagnetismo
Maxwell nasceu em Edimburgo
no mesmo ano em que Faraday publicou sua descoberta da
indução eletromagnética, o princípio do gerador elétrico.
Foi um excelente matemático, tendo ganho uma medalha aos quatorze
anos, por um trabalho em que mostrava como desenhar uma elipse
perfeita utilizando alfinetes e um fio. Em 1856, tomou-se Professor
de Filosofia Natural no Mareschal College de Aberdeen, onde
permaneceu até que foi designado diretor do novo Cavendish
Laboratory, em Cambridge, em 1874.
Maxwell
realizou importante trabalho relacionado com a teoria cinética dos
gases, mas sua maior contribuição para a Ciência e para a
Humanidade foi sua teoria do eletromagnetismo. Combinou
todos os conhecimentos sobre eletricidade e magnetismo em duas
equações matemáticas que ainda são fundamentais, não apenas
para o ramo da eletricidade, como para toda a Física. Elas
representam um feito extraordinário, comparável às leis de
Newton sobre o movimento, conquistando profunda admiração de
todas as gerações de
cientistas que se seguiram. Todos os progressos posteriores, tais
como a mecânica do quantum e a relatividade, pressupõem
familiaridade tanto com as leis de Newton, como com as equações
de Maxwell.
A
aplicação destas equações requer conhecimento de uma forma de
matemática mais elevada — o cálculo — de maneira que uma
discussão matemática a respeito delas está além do
escopo desta divulgação científica. Não obstante, podemos ter
uma visão do significado das maravilhosas equações de Maxwell,
sem recorrermos aos métodos matemáticos.
Já
adquirimos uma noção dos campos elétricos e magnéticos, e de
sua representação física pelas linhas de força de Faraday. A
direção de cada linha de força representa a direção do campo
elétrico ou magnético, naquele ponto particular. Isto significa
simplesmente que a direção de um campo elétrico em um certo
lugar é a direção na qual uma pequena carga positiva se
deslocaria, se estivesse colocada naquele lugar. Similarmente, a
direção de um campo magnético em qualquer local é a direção
na qual um pequeno pólo norte se deslocaria, naquele local. É
claro também que a "força ou intensidade" de um campo
varia de lugar para lugar. A "força do campo" em
qualquer ponto é determinada pela densidade ou proximidade das
linhas de força naquele ponto. Se um número relativamente grande
de linhas de força for concentrado em uma pequena região do
campo, a 'força' deste será relativamente grande naquela região.
Para resumir, cada espécie de campo tem três características que
se associam a ele: linhas de força, direção e 'força do campo'.
[Hoje resumiríamos tudo isso dizendo que campo é grandeza
vetorial função de ponto, logo, caracterizado por módulo,
direção e sentido, em cada ponto.]
Antes
de prosseguir com as equações de Maxwell, devemos conservar em
mente que o movimento, ou qualquer espécie de variação, é
necessário para a interação dos fenômenos elétricos e
magnéticos. Uma carga elétrica estacionária não exerce nenhuma
força sobre um ímã estacionário. Somente quando um dos dois é
posto em movimento é que pode ser desenvolvida uma força entre
eles. Levando este conhecimento empírico um pouco mais à frente,
podemos dizer que um campo elétrico estacionário (produzido pela
carga) não interage com um campo magnético estacionário
(produzido por um ímã). Eles podem interagir somente quando um
modifica sua força em relação ao outro.
Estando
um ímã sobre uma mesa, tanto ele como seu campo são
estacionários. Se houver uma carga elétrica em repouso nas
proximidades, seu campo será também estacionário. Não há
movimento relativo e não há interação. Suponhamos agora que
deslocamos o ímã de tal maneira que as linhas de força
magnéticas passem pela carga elétrica estacionária. Durante
esse deslocamento, a força do campo
magnético estará se modificando continuamente, quando medida nas
vizinhanças da carga. Uma força é então experimentada tanto
pelo ímã como pela carga. O mesmo efeito ocorrerá se deslocarmos
a carga elétrica de tal maneira que as linhas de força elétricas
passem pelo ímã estacionário. Dizemos que seus campos interagem
durante o período de movimento relativo, de maneira a gerar
as forças observadas. (Observem que
nenhuma força é gerada quando, por exemplo, a carga se desloca ao
longo do eixo do imã. Nenhuma linha de força é cruzada em tal
deslocamento, e não se desenvolve nenhuma força.)
Por
eletromagnetismo queremos simplesmente dizer que é o
ramo que estuda a maneira pela qual os campos magnéticos e
elétricos interagem. A teoria de Maxwell sobre o magnetismo é uma
formulação matemática das leis que governam a interação desses
campos.
Para
compreender a primeira equação de Maxwell, imaginemos um
imã e um corpo carregado em repouso sobre uma mesa. Se o imã for
posto em movimento de tal maneira que a 'força do campo
magnético' no corpo carregado varie com o decorrer do tempo, uma
força é sentida no corpo carregado. Maxwell sustentou a opinião
de que a força não é produzida diretamente pelo campo magnético
em variação. Em vez disso, o campo
magnético em variação produz um campo elétrico que
exerce uma força sobre o corpo carregado. Este último campo não
deve ser confundido com o campo elétrico original, associado com o
corpo carregado. É um novo campo elétrico, produzido pelo campo
magnético em variação. Ele existiria mesmo que não existisse
nenhum corpo carregado nas proximidades, para sentir sua presença.
No
exemplo dado acima, o campo magnético em variação foi produzido
por um magneto em movimento. Um campo magnético pode também ser
produzido por uma corrente de eletricidade — um fluxo de cargas
elétricas. Se o fluxo for constante, isto é, se a magnitude da
corrente permanecer invariável, o campo magnético será também
invariável. Mas se a corrente variar de intensidade com o decorrer
do tempo, o campo magnético também variará em intensidade.
Imaginemos uma região do espaço ocupada por um campo magnético
cuja intensidade de campo modifica-se no decorrer do tempo.
A
primeira equação de Maxwell diz-nos, portanto, que um campo
elétrico é produzido em tal região pelo campo magnético
em variação. A intensidade do campo elétrico induzido
depende somente da proporção em que varia a intensidade do
campo magnético.
A
segunda equação de Maxwell descreve como um campo
magnético é criado em uma região do espaço. Ela nos diz que
um campo magnético pode ser induzido de duas maneiras: por uma
corrente elétrica (cargas em movimento), ou por um campo
elétrico em variação.
Estamos familiarizados com o primeiro método; é o princípio
do eletroímã. O segundo método é a novidade introduzida por
Maxwell. Ele foi o primeiro cientista a compreender que um campo
elétrico em variação induz um campo magnético em uma região do
espaço. Foi esta idéia nova que levou à
predição teórica e, mais tarde, à descoberta das ondas de
rádio e à outra descoberta, de que a luz tem características
eletromagnéticas.
A
segunda equação de Maxwell nos informa como um campo magnético
é produzido numa dada região do espaço onde se verifica uma
variação do campo elétrico.
Maxwell
pôde deduzir de suas equações que campos elétricos e
magnéticos em oscilação devem deslocar-se pelo espaço, sob a
forma de ondas. Essas ondas eletromagnéticas absorveriam a
energia originalmente suprida aos dois campos. A teoria de Maxwell
sobre o eletromagnetismo foi publicada em 1873, em seu grande Treatise
on Electricity and Magnetism.
A
velocidade das ondas eletromagnéticas
Uma importante conclusão
tirada das equações de Maxwell foi que as ondas eletromagnéticas
devem propagar-se pelo espaço a uma velocidade igual à da luz.
“Dificilmente
podemos evitar a inferência” — disse ele — de que a luz
consiste nas ondulações transversais do mesmo meio que é a causa
dos fenômenos elétricos e magnéticos.”
Suas equações predisseram que as ondas eletromagnéticas deviam
deslocar-se a uma velocidade de 3 x 108 metros por
segundo (186 000 milhas por segundo). Por aquela época, a
velocidade da luz era conhecida como resultado das medições de
Fizeau, feitas em 1849. Ela concordava quase perfeitamente com a
velocidade deduzida das equações de Maxwell. Se suas equações
estivessem corretas, então a luz devia ser de origem elétrica e
consistir de ondas eletromagnéticas.
Através
da Química, a Eletricidade encontrara seu caminho condizente com a
própria estrutura dos átomos, íons e moléculas. Começava agora
a parecer que a 'eletricidade' estava também ligada à natureza da
luz. Um cientista alemão chamado Heinrich
Hertz (1857-94) decidiu testar as equações de Maxwell.
Se este estivesse com a razão, seria possível gerar ondas
eletromagnéticas de comprimento de onda relativamente longo —
nossas atuais ondas de rádio — e detectá-las a alguma
distância de sua fonte.
Ele decidiu tentar.
Segue
Parte 12 ... a descoberta das ondas de
rádio
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