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Eletricidade
posta a trabalhar
(Parte
13)
Prof.
Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
O
coesor
Em 1894, Oliver
Lodge (1851-1940) desenvolvera um método aperfeiçoado
de detecção das ondas de rádio. Seu aparelho foi realmente
inventado como um protetor das linhas telegráficas contra raios.
Consistia de duas esferas de metal separadas por um pequeno
espaço, como se vê na ilustração abaixo.
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Coesor de
Lodge, um detector mais eficiente
de ondas de rádio |
Uma
delas era normalmente ligada à linha telegráfica, enquanto que a
outra estava presa a uma haste enfiada em terra úmida. Ele
descobriu que as esferas tendiam a fundir-se uma com a outra após
a passagem de uma centelha, podendo entretanto ser separadas
novamente por meio de uma pequena batida. Assim, a resistência
elétrica de uma esfera para a outra era muito alta, antes da
passagem da centelha, e muito baixa, depois dela.
Lodge explicou que as esferas tendiam a “aderir-se” após uma
centelha e o aparelho tomou-se conhecido como coesor,
nome este um tanto esquisito. Lodge demonstrou seu coesor em
uma conferência pronunciada na Royal Institution of London, em
1894. O aparelho foi ligado em série com uma bateria e uma
campainha elétrica, conforme mostramos abaixo.
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Circuito de
recepção de Lodge para
ilustrar o uso das ondas de rádio
para sinalização |
Quando
se deu uma centelha em um circuito próximo, as esferas se
juntaram, o circuito foi fechado e a campainha começou a tocar,
continuando assim até que as esferas fossem separadas por uma
pequena pancada. Quando Lodge colocou a campainha no mesmo suporte
do coesor, a vibração mecânica da primeira batida da campainha
foi suficiente para separar as esferas. Cada centelha foi então
assinalada por um toque separado da campainha.
Um
aparelho melhorado foi logo desenvolvido por Edouard
Branly (1846-1900). O aparelho de Branly consistia de um
tubo de vidro cheio com pó de metal. Um elétrodo em cada
extremidade tornava possível enviar urna corrente fraca através
de pó não comprimido. Branly observou que a resistência
elétrica do pó diminuía substancialmente em presença de uma
centelha próxima. Entretanto, após a pequena pancada, a
resistência elevava-se novamente a um valor bastante alto.
Por
alguma razão, Lodge não fez nenhuma tentativa para transmitir
informações utilizando sua nova técnica. Escreveu ele mais
tarde, em 1923:
“Eu
estava muito ocupado com o trabalho de ensino, para dedicar-me ao
desenvolvimento da telegrafia ou de qualquer outra coisa; também
não tive visão para perceber a extraordinária importância que
veio a ter para as marinhas de guerra e mercante e, igualmente,
para o exército e os serviços de terra.”
As
primeiras conferências de Lodge inspiraram um grande interesse
pela radiotelegrafia. Henry B. Jackson
(1855-1929), oficial da marinha inglesa que mais tarde se tomou
Primeiro Lorde do Almirantado, levou a cabo experiências secretas
de radiocomunicações telegráficas, em 1895 e 1896, mas não
publicou seus resultados e os estudos não foram seguidos. Na
Alemanha, Adolph Slaby
(1849-1913) começou a fazer experiências com as ondas de rádio,
mas escreveu mais tarde que conseguiu poucos progressos nos
primeiros anos. Na Rússia, Alexandre
Stepanovich Popov (1859-1905) realizou experiências com
um circuito semelhante ao de Lodge. Conseguiu registrar certos
distúrbios elétricos, inclusive os de origem atmosférica, desde
1895. Não há prova conclusiva de que ele tenha realmente
utilizado seu aparelho para transmitir sinais telegráficos. De
qualquer modo, não elaborou nenhum sistema prático de
radiotelegrafia.
O uso das ondas de rádio como meio de transmitir sinais
telegráficos começou realmente na Itália. Ali, um jovem chamado Guglielmo
Marconi (1874-1937) começou uma carreira que resultou
em três grandes descobertas científicas no campo da
radiotransmissão e recepção.
Nascimento
da telegrafia sem fio
Em meados de 1894, em
férias nos Alpes, o jovem Marconi, com vinte anos, deparou-se com
um artigo que descrevia as experiências de Hertz. Mais tarde, ele
escreveu:
Pareceu-me
que, se a radiação pudesse ser aumentada, desenvolvida e
controlada, seria possível enviar sinais através do espaço a
consideráveis distâncias. Minha principal dificuldade foi que a
idéia era tão elementar, tão simples em sua lógica, que me
parecia difícil acreditar não ter ninguém jamais pensado em
colocá-la em prática. Eu argumentava que devia haver cientistas
muito mais amadurecidos que tivessem seguido a mesma linha de
pensamento, chegando a conclusões quase idênticas. Desde o
princípio, a idéia pareceu-me tão real que não compreendi que
a teoria pudesse parecer quase fantástica para os outros.
Após
estudar os resultados das experiências de Hertz, Marconi voltou
às pressas para casa, reuniu uma bobina de indução, um
centelhador, uma chave de telegrafia, baterias e um coesor Branly.
Seguindo os métodos de Hertz e de Lodge, seu primeiro aparelho
enviou sinais da extremidade de uma mesa para a outra. Melhorando o
aparelho e utilizando centelhas mais intensas, foi-lhe possível
aumentar essa distância para várias milhas. Tudo isto foi
realizado com aparelhos que, pelo menos na forma, eram
essencialmente iguais aos de seus predecessores. Sendo otimista,
ele previu que o alcance eventualmente seria estendido a centenas
de milhas.
A
maior parte dos cientistas da época ridicularizou a opinião de
Marconi. Argumentavam que as ondas de rádio têm as mesmas
propriedades que as ondas de luz e, assim sendo, somente se
propagam em linha reta. Uma vez além do horizonte, elas se
perderiam no espaço, e a recepção seria interrompida. A despeito
da opinião unânime, Marconi continuou suas experiências, e
descobriu um novo princípio. Aprendeu a “amarrar” suas ondas
de rádio à superfície da terra, ligando seu transmissor a dois
condutores, um estendido bem acima do solo, e o outro mergulhado na
terra úmida. Desta maneira, suas ondas eram guiadas em torno da
superfície da terra até distâncias de cerca de duzentas milhas.
O segredo vital do primeiro sucesso de Marconi foi sua onda ligada
à terra.
Compreendendo
que tinha uma nova força à sua disposição, Marconi concebeu o
ousado projeto de cruzar o Atlântico. Instalou um poderoso
transmissor em Poldhu, Cornwall, na Inglaterra, e um sistema
receptor em St. John’s, Newfoundland, no ano de 1901. (Um grande
sistema de antena em Cape Cod tinha acabado de ser derrubado por um
furacão.) Depois de encontrar considerável dificuldade com
antenas sustentadas por balões e “papagaios” em St. John’s,
conseguiu manter no ar, a 12 de dezembro, um fio de 400 pés de
comprimento, durante o tempo suficiente para convencê-lo de que
tinha recebido os sinais de Poldhu. A letra S, três traços
em código Morse, tinha sido transmitida de Poldhu para
Newfoundland, a cerca de 2 000 milhas de distância. Em sua
transmissão através do oceano, suas ondas de rádio tinham
passado sobre uma montanha de água de mais de 100 milhas de
altura!
A
afirmativa de Marconi era tão incrível que muitos cientistas e
leigos simplesmente não podiam acreditar. Entretanto, recebeu
os sinais de Poldhu a bordo do vapor Philadelphia, navegando
a aproximadamente duas mil milhas. Quando o navio encostou nas
docas de Nova Iorque em março daquele ano, ele desceu a escada de
bordo e estendeu aos repórteres jardas de fita “telegráfica”
mostrando traços e pontos gravados automaticamente enquanto
viajava através do oceano.
“Agora
— exclamou ele — quero que alguém diga que eu estava
enganado em Newfoundland!”
Em
sua viagem através do Atlântico, Marconi descobriu que o alcance
de recepção era maior à noite do que durante o dia. Tendo
recebido sinais a até 2000 milhas, verificou que durante o dia o
alcance era de apenas um terço. Suas experiências subseqüentes
mostraram, entretanto, que a diferença entre o alcance à noite e
durante o dia podia ser reduzida pelo uso de comprimentos de onda
extremamente longos. Esta pesquisa culminou em 1907 com o
estabelecimento do primeiro serviço radiotelegráfico
transatlântico, entre a Nova Escócia e a Irlanda. O transmissor
de centelha de Marconi gerava ondas de rádio que tinham
comprimentos de onda de vários milhares de metros. Pelo menos 50
quilowatts de potência elétrica foram usados para gerar essas
ondas, tendo sido construídas antenas gigantescas para
transmiti-las e recebê-las. Em anos seguintes, os comprimentos de
onda atingiram 10000 metros, tendo sido construídas antenas de uma
milha de comprimento estendidas a 1 000 pés acima do solo, para
recebê-las.
Os cientistas e engenheiros estavam agora convencidos de que
comunicações seguras a longa distância dependiam do uso de
grandes quantidades de energia, e de comprimentos de onda cada vez
maiores. Como veremos, o rádio enveredara por um caminho
errado.
Mas, muito antes de tomar-se óbvio o erro de utilizar ondas
longas, a Ciência descobriu o mecanismo pelo qual as ondas de
rádio circulam em torno da Terra.
A
ionosfera
O feito de Marconi, vencendo
o Atlântico em 1901, não podia ser explicado com base nos
conhecimentos existentes. Suas experiências anteriores,
compreendendo um alcance muito mais curto, não tinham ameaçado
seriamente a crença científica de que as ondas de rádio se
propagam somente em linha reta. Mas o pulo de duas mil milhas sobre
o Atlântico trouxe à mente a figura de uma montanha de água
salgada, interposta entre o transmissor e o receptor. Era claro que
alguma coisa tinha sido deixada de lado no raciocínio científico
que levou ao pessimismo inicial.
A
resposta foi primeiramente sugerida por A.
E. Kennelly em 1902, ao concluir que uma camada
condutora de cargas elétricas deve existir na atmosfera superior
da Terra, a uma altitude de 80 quilômetros. Ele calculou que a
camada teria uma condutividade elétrica cerca de vinte vezes maior
que a água do mar.
Era
bem conhecido que uma grande superfície condutora era bom refletor
de ondas de rádio. Hertz tinha demonstrado tal fato pela
experiência. Talvez a atmosfera superior contivesse um grande
espelho de rádio, que refletisse as ondas de rádio de volta para
a Terra. A água do mar e a terra molhada são também bons
condutores de carga elétrica, havendo assim, na realidade, dois espelhos
envolvidos. Nas palavras do próprio Kennelly:
Parece
razoável inferir que os distúrbios eletromagnéticos emitidos
por uma antena emissora de telegrafia sem fio espalham-se para
fora horizontalmente, bem como para cima, até que são
encontradas as camadas condutoras da atmosfera, após o que as
ondas se deslocam horizontalmente para fora em uma camada de 50
milhas, entre a superfície refletora de 'eletricidade', ou
séries sucessivas de superfícies, no ar rarefeito de cima.
Pouco
após ter sido publicado o documento de Kennelly, Oliver
Heaviside fez uma sugestão semelhante:
A
água do mar, embora transparente à luz, tem suficiente
condutividade para fazê-la comportar-se como um condutor de
ondas hertzianas, e o mesmo é verdadeiro com referência à
terra, de maneira mais imperfeita. Daí as ondas acomodarem-se à
superfície do mar, da mesma maneira que elas seguem os fios. As
irregularidades provocam confusão, não há dúvida, mas as
ondas principais são arredondadas pela curvatura da Terra, e
não escapam. Há também uma outra consideração. É possível
haver uma camada suficientemente condutora no ar superior. Se
assim for, as ondas serão mais ou menos apanhadas por elas, por
assim dizer. Em seguida, a orientação será feita pelo mar, por
um lado, e pela camada superior, por outro lado.
A
camada de Kennelly-Heaviside, como foi chamada, foi
ridicularizada e menosprezada por quase uma geração. A maior
parte dos cientistas tentou explicar os resultados de Marconi com
base na difração, ou curvatura em direção à sombra da Terra.
Eles salientaram que os comprimentos de onda eram excessivamente
longos, e que podia ocorrer suficiente refração para
responsabilizar-se pelos resultados observados. Embora uma
pequena quantidade de desvio por difração das ondas longas de
rádio realmente ocorra, nenhuma teoria completamente satisfatória
foi desenvolvida para explicar os alcances de 2000 milhas ou mais.
Não obstante, a camada de Kennehly-Heaviside, ou ionosfera,
como agora é chamada, não foi aceita universalmente e teve
que esperar até que Marconi fizesse sua segunda grande descoberta
—com auxílio dos radioamadores.
Segue
Parte 14 (final) --- crepúsculo do
rádio
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