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Eletricidade
posta a trabalhar
(Parte
14)
Prof.
Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
A
onda diurna
Em 1920, amadores
britânicos e americanos organizaram uma experiência para
determinar se os comprimentos de onda “comercialmente inúteis”
de 200 metros (1500 kHz) e menos podiam atravessar o Atlântico. O
teste falhou. Foi realizado outro em 1921, a despeito da crença
quase universal de que também falharia. Dessa vez, entretanto, foi
um sucesso. Vinte prefixos de estações de amadores dos Estados
Unidos foram identificados nas Ilhas Britânicas, chegando mesmo
uma estação a transmitir uma mensagem completa. Mas os sinais
somente foram recebidos à noite, o que é um defeito fatal,
no que se refere a comunicações. Nem as companhias comerciais,
nem os amadores interessaram-se por outras investigações. Marconi
parece ter sido o único homem cuja imaginação foi acesa pelo
feito extraordinário dos amadores. Escreveu ele em 1922:
"Trouxe
estas idéias e resultados ao conhecimento dos senhores porque
acredito — e talvez os senhores concordem comigo —que o
estudo das ondas elétricas curtas, embora tristemente
negligenciado na prática durante toda a história da telegrafia
sem fio, ainda tem probabilidade de desenvolver-se em muitas
direções inesperadas, abrindo novos campos para proveitosas
pesquisas."
Durante
junho de 1923, Marconi começou a primeira de uma série de
experiências clássicas, relativas às “inúteis” ondas
curtas. Montou um transmissor no histórico sítio de Poldhu, com
um comprimento de onda de 97 metros, e partiu para o sul em seu
iate Elettra. Recebeu os sinais de Poldhu em sua rota para o
sul, achando-os excepcionalmente bons. Nas ilhas do Cabo Verde,
distantes mais de 2500 milhas de Poldhu, os sinais eram muito mais
claros do que jamais tinham sido quando se utilizava uma estação
de ondas longas, a uma distância comparável. Mesmo quando a
potência de transmissão de Poldhu foi reduzida para 1 quilowatt
— fração mínima da potência utilizada nas estações de ondas
longas — os sinais eram mais fortes do que os recebidos das
estações transoceânicas das Ilhas britânicas.
Como
esperava, Marconi descobriu que os sinais de ondas curtas
desapareciam durante o dia. Mas havia uma curiosa diferença entre
os sinais de 97 metros de Poldhu e os sinais de 200 metros dos
amadores de 1921. Embora estes últimos tenham desaparecido
no nascer do sol, os sinais de 97 metros de Poldhu persistiram
durante um tempo considerável, após o nascer do
sol. Marconi imaginou que comprimentos de onda ainda mais curtos
talvez pudessem persistir durante o dia inteiro.
No
ano seguinte, lançou um programa para testar uma série de
comprimentos de onda, de 90 metros para baixo, até 30 metros.
Cruzando pelo Mediterrâneo, comparou a força dos sinais recebidos
em todos os comprimentos de onda. Na Baía de Beirute, em setembro
de 1924, fez a desconcertante descoberta de que o comprimento de
onda de 30 metros, emitido de Poldhu, persistia durante todo o dia.
Após percorrer 2 400 milhas, esses sinais de ondas curtas eram
tão bons como os sinais do período noturno. Os sinais de 90
metros, por outro lado, comportaram-se como nas ilhas do Cabo
Verde. Marconi fizera sua segunda grande descoberta. As
ondas curtas são mais adequadas para as comunicações a longa
distância do que as ondas longas.
O
que Marconi observou foi a transmissão por reflexão de uma
região elevada da ionosfera, que mais tarde ficou conhecida como camada-F.
Para atingir essa camada, as ondas de rádio tinham que atravessar
regiões inferiores da ionosfera, chamadas camada-D
e camada-E. Revelou-se que os
sinais de 90 e de 200 metros eram quase completamente absorvidos
pelas regiões inferiores da ionosfera durante o período diurno,
não podendo, assim, atingir a camada-F.
Os sinais mais curtos de 30 metros passavam por essas camadas (D
e E) com pequena perda de energia,
eram refletidos pela camada-F e
recebidos a 2400 milhas de distância.
Um mês após sua descoberta, Marconi já tinha feito os arranjos
para estabelecer ligações de comunicações de âmbito mundial,
com lugares tão longínquos como a Austrália — e todas foram
extraordinariamente bem sucedidas. Suas estações de ondas curtas
veiculavam mensagens a uma velocidade de 100 palavras por minuto,
velocidade que nenhum cabo submarino ou transmissor de ondas longas
tinha jamais atingido. Agora as ondas longas estavam obsoletas, e
os cabos tinham-se transformado em um meio de comunicação
secundário.
Sondando
a ionosfera
A dramática descoberta de
Marconi despertou considerável interesse a respeito da ionosfera.
Foram levadas a efeito pesquisas para testar a teoria de
Kennelly-Heaviside. Tais pesquisas realizaram-se na Inglaterra, no
ano de 1924, sob a direção de Appleton e Barnett. Eles puderam
demonstrar que os sinais recebidos de uma estação de
radiodifusão chegam por duas rotas — uma trajetória direta pelo
solo e uma trajetória superior pela
atmosfera. Medindo os ângulos de chegada dos sinais, puderam
calcular a altitude da ionosfera. Não obstante, muitos cientistas
ainda não se deixaram convencer.
Em
1925, foi levada a efeito uma experiência crucial, por George
Breit e Merle Tuve, que estabeleceram a existência da ionosfera. A
idéia surgiu de uma discussão anterior com dois colegas
cientistas da Universidade de Minesota: Professor W. F.
G. Swann e Dr. J. G. Frayne. Consistia em enviar um sinal em uma
direção quase vertical e medir o tempo de ida e volta,
necessário para o eco rádio retomar à terra. Os ecos foram
primeiramente observados em 1925 na estação NKF do U. S. Naval
Research Laboratory, distante apenas 11 quilômetros do receptor.
Um sinal direto foi também recebido via trajetória terrestre, e o
retardo de tempo entre os dois correspondeu à altitude de
reflexão da ionosfera. A maior parte das reflexões proveio de
altitudes na faixa situada entre 160 e 200 quilômetros. Embora a
camada de Kennelly-Heaviside tenha sido sugerida primeiramente em
1902, não foi senão em 1925 que sua existência foi comprovada
experimentalmente, além de qualquer dúvida razoável. Durante
aquele ano, medições de sua altitude foram feitas
independentemente por numerosos cientistas.
O
sucesso das comunicações a longa distância ilustra a igual
importância da teoria e da experimentação no progresso da
Ciência. Este ponto foi adequadamente salientado em 1938 por
Enrico Fermi, o grande físico que desempenhou papel indispensável
na concepção e na execução do projeto da bomba atômica dos
Estados Unidos, durante a guerra:
"É
bem sabido que as descobertas de Marconi foram recebidas
primeiramente com um certo ceticismo na comunidade científica.
Tal ceticismo baseava-se na convicção de que a transmissão de
ondas de rádio não seria passível de realização entre
estações em que uma estivesse além do horizonte da outra. De
fato, o raciocínio era mais ou menos o seguinte: as
ondas eletromagnéticas utilizadas na transmissão de rádio são
substancialmente análogas às ondas de luz, das quais diferem
apenas no comprimento da onda; e a terra, em virtude de sua
condutividade elétrica, age como um corpo opaco para elas. As
radiações emitidas por urna das estações, propagando-se em
linha reta, devem deixar na sombra todas as estações situadas
abaixo do horizonte da estação transmissora, exceto quanto a
uma pequena correção devida ao fenômeno da difração. É uma
felicidade para a Humanidade que tais argumentos, que a priori
podiam parecer razoáveis e bem fundamentados, não tivessem
impedido Marconi de realizar experiências com a transmissão a
grandes distâncias. A história deste primeiro sucesso da
radiotransmissão constitui uma confirmação
do fato de que no estudo dos fenômenos naturais, a teoria e a
experimentação devem andar na mesmo passo.
Raramente pode a experimentação não dirigida por uma
idéia teórica chegar a resultados de grande importância; e é
certamente um dos mais significativos sucessos para a teoria o
fato de que a própria existência e as propriedades essenciais
das ondas eletromagnéticas tenham sido preditas matematicamente
por Maxwell, antes da verificação experimental de sua
existência, e antes que elas (as ondas eletromagnéticas),
através da intuição genial de Marconi, encontrassem seu campo
de aplicação prática; por outro lado, uma confiança excessiva
depositada nas predições teóricas teria desencorajado a
insistência em experiências que estavam destinadas a
revolucionar as técnicas de comunicações.
'Crepúsculo'
do rádio
No início de 1932, Marconi
descobriu uma terceira forma nova de propagação das ondas de
rádio, a qual depende somente do lençol de ar (não ionizado) que
envolve a Terra. Embora os comprimentos de onda reduzidos — nas
vizinhanças de algumas dezenas de metros — fossem refletidos
pela ionosfera, sabia-se que ondas ainda mais curtas penetravam na
ionosfera sem sofrerem reflexão significativa. As chamadas “microondas”
— de comprimento inferior a um metro mais ou menos — eram
portanto inúteis para as comunicações a longa distância. Pelo
menos, era assim que pensava todo mundo.
Uma
vez mais, Marconi, que já envelhecia, decidiu descobrir se as leis
da natureza eram como se supunha que fossem. Construiu um
transmissor que gerava ondas de rádio de 60 centímetros e
instalou-o no topo da Rocca di Papa, uma elevação de uns 2500
pés acima do nível do Mediterrâneo. Partindo para a Sardenha,
instalou o equipamento de recepção a uma altitude de cerca de 1
000 pés acima do nível do mar. A distância era de 168 milhas, e
o mar que ficava de permeio representava um obstáculo de uma milha
de altura entre as duas elevações. Apesar disso, Marconi recebeu
sinais utilizáveis da estação da Itália.
Outra
vez mais, sua comunicação foi recebida com ceticismo. Nenhuma
teoria existente podia explicar o sucesso de sua experiência. A
teoria da 'linha de visada’, referente à transmissão das ondas
com o comprimento da ordem de centímetros, estava enraizada
demasiado firmemente para ser perturbada por uma só
experiência, mesmo que o experimentador fosse Marconi. Sua saúde
combalida e a morte subseqüente impediram-no de prosseguir
em sua terceira descoberta, mas não há dúvida sobre sua
confiança neste novo meio de propagação.
“A
respeito do alcance de propagação limitado dessas microondas,
ainda não foi dita a última palavra.”
Em
agosto do ano seguinte, uma experiência semelhante foi executada
nos Estados Unidos por W.D. Hershberger, cientista do Signal Corps
Laboratories, em Nova Jersey. Utilizando um comprimento de onda de
75 centímetros, Hershberger pode receber sinais telegráficos
aproveitáveis a bordo de um pequeno bote, a uma distância de 80
milhas do transmissor. Essa distância foi cinco vezes maior do que
a prevista pelas teorias existentes, relacionadas com a linha de
visada. Concluiu Hershberger:
“Assim
sendo, não se trata de nada que se pareça remotamente com a
propagação retilínea (linha de visada) das ondas de 75
centímetros. Estas observações experimentais são oferecidas
sem comentários.”
A
questão permaneceu neste ponto por quase vinte anos, até que o
efeito foi redescoberto independentemente quando os receptores de
televisão começaram a receber interferência de sinais
inesperadamente fortes, emitidos por estações situadas em cidades
distantes. Seguiu-se uma suspensão da distribuição de canais em
1948, e nenhuma estação nova de TV foi autorizada a funcionar,
até que o problema da interferência viesse a tornar-se melhor
compreendido, quatro anos mais tarde.
Hoje
sabemos que as ondas de rádio de freqüências muito altas
(comprimentos de onda muito curtos) não desaparecem completamente,
quando o receptor está situado abaixo da linha do horizonte do
transmissor. A força do sinal recebido cai consideravelmente logo
além do horizonte, mas a queda a distâncias maiores é muito mais
moderada. O comportamento dessas ondas é semelhante ao crepúsculo
comum. Assim que o sol desce abaixo do horizonte, percebemos uma
grande redução na iluminação. Depois, estabelece-se um período
de crepúsculo, durante o qual a iluminação decresce muito mais
gradualmente, até o sol atingir cerca de 15 graus abaixo do
horizonte. Para fazer uso dos sinais fracos mas sempre presentes,
do “crepúsculo” do rádio, é necessário utilizar
transmissores de potência extremamente elevada e grandes antenas,
para compensar a queda inicial da força do sinal, nas proximidades
do horizonte. As estações de comunicações desta espécie,
chamadas de sistemas dispersos da troposfera, transportam
grande número de conversações telefônicas e até mesmo sinais
de televisão, a centenas de milhas.
Os
cientistas concordam que esta nova espécie de propagação das
ondas de rádio se torne possível de alguma maneira pela porção
inferior da atmosfera, chamada de troposfera. Uma teoria
sustenta que as ondas de rádio são refletidas ou dispersadas por blobs
ou volumes turbulentos existentes no ar. Outra sustenta que os
sinais são causados por reflexões das camadas de ar que se tornam
menos densas à medida que aumenta a altitude. Lavra agora uma
grande controvérsia a respeito do assunto, entre os cientistas
especializados. Não importa qual das duas teorias conquiste a
aceitação final; o fato é que a propagação pelo “crepúsculo”
do rádio é reconhecida como a descoberta mais importante na
propagação das ondas de rádio a realizar-se em quase trinta
anos.
Em
tempos recentes, tem havido um mundo de conjeturas sobre quem foi
realmente o Pai do Rádio. A honra foi reivindicada por Lee De
Forest, o inventor da válvula de rádio, em sua autobiografia que
tem aquele título. Outros observam que nenhum progresso foi feito
até que Lodge pronunciasse suas importantes conferências. Outros
ainda proclamam que Popov transmitiu sinais em código Morse alguns
meses antes de Marconi. Mas todas estas reivindicações parecem
perfeitamente irrelevantes. somente Marconi teve a coragem e a
visão para realizar suas experiências contra as crenças
científicas da época. Até o grande Hertz disse que a
radiotelegrafia a longa distância, além do horizonte, não podia
ser realizada a menos que “se pudesse construir um espelho tão
grande como um continente”. Não podia ter-lhe ocorrido que a
natureza tinha providenciado tal espelho, na forma de um lençol de
elétrons, colocados bem no alto, na atmosfera. Assim, como
provisório fechamento desse Histórico da Ciência, se o título
de Pai do Rádio pode ser atribuído a algum homem, esse homem
somente pode ser Marconi. MAS ... e o Padre Landell de Moura ...
como fica?
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