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Elétricas
Prof.
Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
Introdução
Diversos são os experimentos e ensaios
nos quais se verifica, sob altas tensões, a passagem da corrente
elétrica em certos meios que deveriam se comportar como isolantes
elétricos. Tal fenômeno ocorre, por exemplo, no arco
voltaico, no chifre
elétrico, na lâmpada
de plasma, na lâmpada
fluorescente, no faiscador da bobina
de Tesla etc. Trata-se de uma descarga elétrica.
Caracteriza-se pela passagem da corrente elétrica num fluido ou
num dielétrico, normalmente isolante, o qual, submetido à ação
de um campo elétrico intenso, ioniza-se e se torna condutor.
Amantes do misticismo e das pseudo-ciências fotografam essas
perturbações (veja abaixo) no meio envolvente, quando então dão
aos geradores de altas tensões a denominação de "máquinas
Kirlian", e inventam termos 'profundos' com "auras"
e outras manifestações que só eles conseguem imaginar. Além do
que, tais "máquinas" (cujo custo real não supera os R$
100,00) são vendidas a milhares de dólares e os 'avançados'
cursos para entender tudo isso só é dado pelos construtores das máquinas
e nos países de origens. Tem vários 'sites' à disposição na
'www' para quem quiser comprar as deslumbrantes máquinas Kirlian e
entrar no mundo mirabolantes das para-não-sei-o-que.
Descarga
disruptiva
A descarga mais simples, a descarga
disruptiva, manifesta-se pela passagem abrupta de corrente
através de um meio isolante, quando este perde localmente suas
propriedades de isolação. Esta degenerescência pode ter causas
diversas, como o envelhecimento do material, a presença de
defeitos na superfície, modificações da configuração geométrica
tais que, localmente, determinam um valor de campo elétrico devido
à diferença de potencial aplicada, superior ao gradiente crítico
contingente. Quando o arco é escorvado (desencadeado), o dielétrico
é geralmente destruído pela descarga, a não ser que o dielétrico
seja um gás.
É o que ocorre num capacitor, que é inutilizado por uma descarga
interna. A descarga disruptiva nos gases, e em particular no ar,
pode ser estudada com o dispositivo indicado abaixo. A máquina
eletrostática M alimenta um centelhador de esferas S
em paralelo, ao qual é ligado o capacitor C.
'Carregando-se' suficientemente o capacitor, salta uma faísca
entre as esferas, em intervalos regulares. Todo o percurso ao longo
da faísca fica então ionizado, e a emissão de fótons (na
recombinação e desexcitação) é responsável pela luminosidade.
O
voltômetro eletrostático V permite medir a tensão quando
ocorre a faísca. Esta tensão depende de muitos fatores: material
e diâmetro das esferas, distância entre elas, natureza, pressão
e temperatura do gás. Expresso de outra maneira, podemos dizer que
o fenômeno depende da comparação entre o valor do campo eletrostático
no espaço entre as esferas, e o gradiente crítico do dielétrico
neste espaço.
O
fenômeno da descarga com faísca tem aplicações práticas; entre
estas notamos: as velas dos motores de combustão interna e os pára-raios,
dispositivos de proteção das linhas de alta tensão, telegráficas
e telefônicas.
Recomendamos a leitura do trabalho "Chifre
Elétrico" (clique no destaque).
Eflúvios
Se em lugar das esferas utilizamos um elétrodo pontiagudo P1
e um elétrodo plano P2, perpendiculares um ao
outro, conforme se ilustra abaixo, à esquerda, a descarga com faísca
não ocorre mais porque a partir do valor Vo da
tensão aplicada, o galvanômetro G inserido no circuito
indica passagem contínua da corrente.
Nas
proximidades da ponta P1 aparece uma leve
luminosidade, acompanhada de fraca crepitação. O andamento da
corrente em função da tensão aplicada é o indicado acima, à
direita. A diferença de potencial Vo, a partir
do qual começa o eflúvio, depende da
natureza do gás e da agudeza da ponta, mas pouco depende da distância
d, desde que esta seja suficientemente grande (uns dois centímetros,
para uma agulha comum).
Efeito
Corona
Pode-se obter um fenômeno análogo ao eflúvio por meio de um
dispositivo com simetria cilíndrica. Neste, o elétrodo pontiagudo
é substituído por um fio muito fino, e o elétrodo plano é
substituído por um cilindro oco, cujo eixo é o fio fino. O fenômeno,
neste caso, recebe o nome de efeito Corona,
e se manifesta por uma luminosidade em volta do fio fino.
Um dispositivo semelhante é utilizado para a purificação da fumaça
produzida em caldeiras e chaminés. Ao passar pelo dispositivo, as
partículas sólidas, que constituem as impurezas, são carregadas
eletricamente e são atraídas pelo elétrodo de sinal contrário,
onde se chocam, caindo depois no fundo do aparelho.
Fenômenos
do tipo eflúvio ou Corona
ocorrem em linhas de transmissão. O elétrodo cilíndrico é
substituído pela terra e pelos condutores vizinhos. Estas
descargas são prejudiciais tanto pela perda de energia, como pela
deformação da onda de tensão que provocam. Para atenuar estas
descargas, o diâmetro externo dos condutores deve ser
suficientemente grande —pelo menos quatro centímetros para tensões
de 400 kV — e isto se obtém na prática com cabos de seção
oca, e condutores múltiplos.
Descargas
em gases rarefeitos
As características das descargas em gases mudam, se a pressão
atmosférica ou próxima da atmosférica ( 760 mm de Hg), é
abaixada drasticamente. Descargas nessas condições são estudadas
com o dispositivo indicado na ilustração abaixo: uma fonte de
alta tensão CC, um tubo de vidro que contém dois elétrodos no
qual a pressão em seu interior pode ser abaixada com auxílio de
uma bomba (bomba de vácuo).
Até
pressões de uns 300 mm de Hg, a descarga conserva as características
antes mencionadas. Em pressões menores, a faísca perde a nitidez
de seu contorno, torna-se mais silenciosa, e possui luminosidade
difusa, cor-de-rosa.
Abaixo
do milímetro de Hg, a luminosidade ocupa todo o espaço do tubo,
formando uma coluna positiva
cor-de-rosa, que não alcança o cátodo. Em volta do cátodo há
um espaço escuro, chamado de espaço escuro
de Faraday. O cátodo se apresenta envolvido por uma luz
violeta, conhecida como luz negativa.
Para pressões da ordem de 0,3 a 0,4 mm de Hg, a coluna positiva
tem estrias; o espaço de Faraday, de limites mal definidos,
desloca-se em direção ao ânodo, e outro espaço escuro for ma-se
junto ao cátodo: o espaço de
Crookes-Hittorf.
Para pressões entre 0,01 e 0,1 ou até 0,2 mm de Hg, a separação
entre coluna positiva, espaço escuro e luz negativa vai
desaparecendo; o vidro adquire luminescência negativa esverdeada
em volta do cátodo, e a luminosidade da descarga apresenta-se
uniforme. Nestas pressões, a tensão de escorvamento
(desencadeamento/partida) da descarga é pequena, da ordem de
centenas de volts.
As
aplicações das descargas em gases rarefeitos são numerosas. Nos
tubos luminosos de neônio a descarga ocorre à pressão de 2 a 3
mm de Hg.
Na espectroscopia são utilizados tubos de descarga em gases puros,
como hidrogênio, nitrogênio, argônio etc.(tubos de Geissler ou
de Plücker). O arco elétrico entre elétrodos de carvão é também
importante para a análise espectroscópica. Colocando na cratera
que se forma num dos elétrodos, uma determinada substância, o
arco provoca a excitação dos átomos, cujo espectro pode ser
estudado.
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