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Associações
de geradores lineares
(Parte 1)
Prof.
Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
Apresentação
Em variadas situações desejamos dispor de determinadas
intensidades de correntes ou de valores de tensões elétricas as
quais não podem ser logradas com um só gerador elétrico,
sobretudo quando este é uma pilha (célula voltaica) ou mesmo um
acumulador automotivo. Todavia, em muitos casos, esse problema pode
ser resolvido reunindo-se os geradores disponíveis de maneira
adequada. Um agrupamento deste tipo constitui uma associação
de geradores. Essa associação, como veremos, constitui outro
gerador (denominado "gerador equivalente") e, em se
tratando de pilhas ou células voltaicas recebe a denominação de
"bateria".
Bateria é, portanto, uma conveniente associação de pilhas ou de
células voltaicas. Essa denominação aplica-se também aos
acumuladores automotivos, uma vez que, eles mesmos já constituem
associações de células voltaicas.
Toda pilha ou célula voltaica produz uma força eletromotriz (e)
de baixo valor, algo entre 0,6 e 2,0 volts. Desse modo, não existe
'pilha de 9 V', assim como não existe 'bateria de 1 V'.
Parâmetros
de um gerador linear CC
Nesse trabalho, destinado ao Ensino Médio, só nos prenderemos aos
geradores ditos 'lineares' (justificaremos isso a seguir) e de
terminais com polaridade fixa (um pólo positivo e outro negativo,
sem possibilidade de inversão), de modo que só poderão fornecer
ao circuito externo tensões e corrente contínuas (CC ou DC). Os
geradores eletromecânicos (dínamos e alternadores) terão
tratamento diferenciado.
Os parâmetros que caracterizam os geradores de que trataremos são:
sua força eletromotriz (e)
e sua resistência interna (r), ambos supostos constantes.
Desse modo, conhecer um gerador, significa conhecer o par (e,r).
A intensidade de corrente (i) que percorre o interior do
gerador em funcionamento e a diferença de potencial ou tensão elétrica
entre seus pólos (U) não são parâmetros característicos
de um gerador; esses elementos dependem do particular 'circuito
externo'. [Pode parecer
brincadeira, mas infelizmente não é; quantos não são os alunos
que pedem circuito de 'uma fonte que forneça constantemente
"5A sob 12V" para seus vários experimentos em
eletricidade.]
O gerador é dito linear quando a tensão elétrica entre seus pólos
(ou terminais) puder ser determinada como uma função linear de
i, ou seja, uma função do tipo:
com
e e r
constantes, sendo U, e,
r e i medidos em um sistema coerente de unidades. No Sistema
Internacional de Unidades deve-se ter U e e
em volts (símbolo, V), r em ohms (símbolo, W)
e i em ampères (símbolo, A).
A função acima (eq.01) é também conhecida como 'equação
característica do gerador' e seu gráfico cartesiano (reta
'descendente') como 'curva característica do gerador'. Para a
simbologia de tais geradores, qualquer uma das representadas abaixo
são válidas e coerentes:
Comentários
É importante notar três detalhes importantes nessa simbologia,
decorrentes da equação do gerador:
1)
- que o gerador está 'em funcionamento', ou seja, há um circuito
externo (não representado) fechando o percurso da corrente, ou
ainda, há demanda de corrente pela parte externa do circuito;
2) - que o sentido da corrente no interior do gerador é 'do
terminal de menor potencial elétrico para o terminal de maior
potencial elétrico'. Isso pode causar alguma surpresa a certos
alunos e, a causa disso só pode ser uma: houve falha na conceituação
da força eletromotriz! Alunos que confundem (ou identificam)
diferença de potencial elétrico Va - Vb
(ou tensão elétrica U = Va - Vb) com força
eletromotriz e
estarão fadados a cometerem sérios enganos ao longo de seus
estudos. Voltaremos a falar disso, a seguir.
3) - que a diferença de potencial elétrico entre seus terminais
(U = Va - Vb), quando há demanda de corrente
(que é a situação posta no detalhe 1), é menor do que o
valor da força eletromotriz (se i não é nulo, então U < e).
Exclusivamente em situação de circuito
aberto, ou seja, quando não há demanda de corrente (i =
0), a diferença de potencial elétrico tem o mesmo valor da
força eletromotriz (se i = 0, então U = e).
É essa eventual igualdade de valores entre U e e
e o fato de terem a mesma unidade de medida (volt) que desencadeia
a errônea conceituação da f.e.m. colocando-a em igualdade com a
de d.d.p ou tensão elétrica.
Ambas,
a d.d.p. e a f.e.m. implicam em 'separação de cargas elétricas',
o que é efetuado às custas de trabalho de forças num
determinado 'campo de forças' e, eis ai a diferença na
conceituação: a d.d.p. expressa o trabalho por unidade
de carga realizado num campo de forças eletrostáticas, enquanto
que a f.e.m. exprime o trabalho por unidade de carga
realizado num campo de forças não-eletrostáticas.
Exemplificando:
nas pilhas e baterias este campo não-eletrostático é de natureza
eletroquímica, atuando sobre íons do interior do gerador, campo
esse orientado do terminal de potencial mais baixo (pólo negativo)
para o terminal de potencial mais alto (pólo positivo); nos
geradores eletromecânicos (dínamos e alternadores) o campo não-eletrostático
é induzido eletromagneticamente (trabalho das forças de Lorentz
nascidas da ação do campo de indução B sobre cargas elétricas).
A
discussão conceitual e quantitativa do que seja a força
eletromotriz (que, ao fim e ao cabo não é força alguma!) é de
extrema importância para perceber que fontes de alimentação não
são depósitos de carga elétrica como vez ou outra se lê em
livros textos de 'eletricidade'. Nas pilhas e baterias há
armazenamento de energia potencial química e nos geradores
eletromecânicos não há absolutamente armazenamento algum! São
transdutores passivos! [Ali na prateleira da escola há um pequeno
gerador elétrico tocado a manivela e a seu lado um microfone,
exatamente dois transdutores de mesma finalidade: converter energia
mecânica em energia elétrica e, em nenhum deles há qualquer
armazenamento de cargas elétrica.].
Apreciaria sugerir aos autores de livros-textos a substituição da
denominação "força eletromotriz" para "eletromoção".
Associações
de geradores elétricos
Três são os modos de se associarem os geradores: (a) em série,
(b) em paralelo e (c) mista. Os agrupamentos (a) e
(b) têm características bem definidas e seguem as propriedades básicas
das associações série e paralelo já vistas para
os resistores, a saber:
série
(a1): a intensidade de corrente é a mesma para todos os
elementos da série;
(a2): a d.d.p. total é soma das d.d.p.(s) parciais;
(a3): a potência total é soma das potências parciais.
paralelo
(b1): a d.d.p. é a mesma quer para a associação quer para seus
elementos associados;
(b2): a intensidade de corrente total é soma das intensidades
das correntes parciais;
(b3): a potência total é soma das potências parciais.
Assim,
nas associações em série de geradores existe uma única
corrente (de intensidade i) que é comum a todos os geradores da
associação, mas há um 'ganho' em tensão elétrica e nas associações
em paralelo de geradores a d.d.p. (de valor U) entre seus
terminais é comum a todos os geradores da associação, mas há
um 'ganho' em intensidade de corrente.
Por
facilidade de ilustração, admitiremos que em todas as associações
o circuito externo se reduza a um único resistor ôhmico de resistência
elétrica R.
Assim, se tivermos um só gerador (e,r)
a ilustração do circuito e seu equacionamento ficam assim:
No
equacionamento da intensidade de corrente no circuito simples
ilustrado acima, do qual resulta a lei de Ohm-Pouillet,
vale destacar que:
(a)
- se r tem valor ôhmico muito pequeno com respeito a
R teremos, com boa aproximação i = e/R
... (eq.02) . Essa aproximação tem, por limite, a conceituação
do denominado gerador ideal,
caracterizado por apresentar r = 0.
(b) - se, pelo contrário, R for negligenciável com respeito a
r teremos, com boa aproximação i = e/r
... (eq.03) . Essa aproximação tem, por limite, a conceituação
da denominada corrente de curto circuito
cuja intensidade será portanto icc = e/r
... (eq.04). Esse valor de intensidade de corrente, levado à
equação do gerador produzirá:
U
= e -
r.icc = e
- r.e/r
= 0.
É
nula a tensão elétrica U, entre os terminais do gerador (e
do circuito externo), na condição de curto circuito. Essa situação
deveria 'chocar' a todos que confundem d.d.p. com f.e.m. e os
identificam, pois estamos em frente a uma situação inédita: um
condutor (circuito externo) atravessado por intensa corrente elétrica
(icc) sem existir, entretanto, qualquer d.d.p. entre
seus terminais e um gerador demandando a maior intensidade de
corrente possível sem qualquer d.d.p. entre seus terminais! O que
diríamos então de um gerador ideal (r = 0) em curto circuito?
Associação
em série
Diz-se que vários geradores estão associados em série e concordância,
quando estão agrupados de modo que o terminal positivo de um está
conectado ao terminal negativo de outro e assim sucessivamente.
Abaixo ilustramos, superior à esquerda, a associação série de
quatro geradores iguais (e,r)
alimentando um resistor externo (R) , superior à direita, o
gerador equivalente à associação e, inferior, uma associação série
com 4 pilhas de lanterna.
Apesar
de que, na prática, seja bastante incomum associarem-se geradores
diferentes numa série, nada impede tal associação e vamos nos
aproveitar disso para justificar a existência do 'gerador
equivalente' na montagem abaixo:
Conforme
se observa, a tensão elétrica entre os terminais a e b é Uab
= Va - Vb , entre os terminais b e c é Ubc
= Vb - Vc de modo que a d.d.p. entre os
terminais da associação é Uac = Va - Vc
. Sendo numa série, a tensão total igual à soma das tensões
parciais escrevemos:
Uac
= Uab + Ubc = (e2
- r2.i) + (e1
- r1.i) = (e1+
e2)
- (r1+ r2).i = eeq.
- req..i ... (eq.05)
O
que justifica a conceituação do "gerador equivalente",
acima ilustrado.
Podemos
generalizar o procedimento acima para a associação de 'n'
geradores em série e concordância e concluir que:
eeq.
= e1
+ e2
+ ... + en
req. = r1 + r2 + ... + rn
e,
na hipótese de geradores iguais
eeq.
= n.e
... (eq.06)
req. = n.r ... (eq.07)
U = n.e -
n.r.i = n(e -
r.i) ... (eq.08)
Nessa
hipótese, a lei de Ohm-Pouillet para o circuito equivalente
simples torna-se:
i
= n.e/(n.r
+ R) ... (eq.09)
Valem
três comentários sobre a eq.09:
(a) - se R tem valor
muito grande com respeito a n.r, vale a aproximação: i
= n.e/R
e, tendo-se em conta a eq.02 podemos por: iassociação
= n.iindividual . Ou, em palavras, a intensidade de
corrente que o circuito externo (R, no caso) demanda da
associação é n vezes maior que aquela possibilitada por
um só gerador da associação.
Note, todavia, que e/R
(fornecida por apenas um elemento da associação) é uma
intensidade bem pequena, um valor bem abaixo quer da corrente de
curto circuito quer da corrente média que um circuito externo pode
demandar desse elemento da associação.
(b) - se, pelo contrário, R
tem valor muito pequeno com respeito a n.r, no extremo de
poder ser negligenciado frente a este valor interno, a eq.09
torna-se: i = n.e/n.r
= e/r
e, segundo a eq.03 ou eq.04, iassociação = iindividual
= icc-individual . Em palavras, a intensidade que o
circuito externo demanda da associação é a mesma propiciada por
um só elemento da associação.
(c) - um caso interessante
ocorrerá quando R for igual a n.r (R = n.r).
Essa situação demandará da associação uma corrente de
intensidade:
iespecial
= n.e/(n.r
+ R) = n.e/(n.r
+ n.r) = e/(2.r)
= (e/r)/2 = icc/2
... (eq.10)
Essa
intensidade especial de corrente, metade da corrente de curto
circuito, é exatamente aquela na qual a associação trabalha em
"condição de potência máxima",
ou seja, a situação R = n.r é aquela que permite maior
transferência de energia da associação para o circuito externo
por unidade de tempo. Em linguagem técnica diríamos que a
'associação' está casada com o 'circuito externo',
propiciando a maior transferência de potência elétrica. Ainda,
nessa situação, vale destacar que a tensão elétrica que a
associação fornece ao circuito externo (eq.08), também
tem um valor especial, a saber:
Uesp.
= n.e
- n.r.iesp.= n.e
- n.r.(e/r)/2
= n.e
- n.e/2
= n.e/2
... (eq.11)
De
modo que, a potência útil máxima
que o circuito externo absorve da associação, nessa situação,
se equaciona:
Pmáx.=
Uesp..iesp.= (n.e/2).((e/r)/2)
= n.e2/4r
... (eq.12)
onde
e2/4r
é a potência
máxima que cada gerador individual pode fornecer.
Portanto:
1- Quando a resistência
externa tem valor alto em relação à resistência interna da
associação, a associação em série e concordância é
conveniente porque a intensidade de corrente é multiplicada pelo número
de elementos associados.
2- Quando a resistência
externa é pequena frente à interna da associação, essa não é
conveniente porque a intensidade de corrente é a mesma que
demandaria de um só elemento.
3- Quando a resistência
externa é igual à resistência interna da associação, situação
mais conveniente, o circuito trabalha em condições de potência
máxima.
E,
antes que alguém pergunte por que por vezes insisto em escrever
'associação em série e concordância', lembro que alguém
poderia colocar uma ou mais pilhas 'invertidas' numa associação
em série. A intensidade de corrente continuaria a ser comum a
todas e a d.d.p. da associação continuaria a ser a soma algébrica
das d.d.p.(s) parciais, etc. Por isso diferencio associação em série
e concordância da associação em série e oposição.
Duas pilhas idênticas ligadas em série e oposição não
admitem um gerador equivalente e sim, por equivalente, um mero
resistor.
Para
mostrar que não sou tão 'ranheta' e 'radical' na conceituação física
(como dizem alguns amigos), vou deixar passar que a primeira pilha
da história, a famosa Pilha de Volta, é uma pilha
... mas, não é, é uma bateria, exatamente uma associação
série e concordância de células voltaicas!
Associação
em paralelo
.... Parte 2
desse trabalho.
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