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Interações Magnéticas
(Parte 1- Introdução)
Prof. Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
0 -
Preâmbulos
Em curso de
Física Geral, quando se inicia a exposição do
Magnetismo, revela-se ao estudante um novo aspecto da
realidade física. O estudante já está familiarizado com
o campo de forças de sua experiência quotidiana: o
campo de gravidade g.
Com boa aproximação, o campo de gravidade da Terra,
dentro dela e junto a sua superfície, pode ser
identificado com seu campo de
gravitação G, regido pela Lei de Newton.
Sob alguns aspectos, o
campo eletrostático E
é análogo ao campo gravitacional G. Partícula
tendo massa m e carga elétrica q, nenhuma
nula, gera campo gravitacional e campo eletrostático.
Ambos são centrais e seguem a Lei do Inverso do
Quadrado da Distância. A ambos se aplica a Lei de
Gauss. A ambos se associam energia potencial
e função potencial.
O
campo magnetostático de indução B gerado
por corrente elétrica contínua exibe características que
surpreendem o novato e apresentam dificuldades. Não
existe pólo magnético solitário (monopólo magnético)
análogo a partícula eletrizada (elétron, próton etc.).
As linhas de indução de B não
têm início ou fim; elas
circundam a corrente enlaçando-a segundo a Regra da
Mão Direita (RMD). Sobre elemento de corrente
elétrica o campo B exerce força Fmag.
normal a ambos, segundo a Regra (de Fleming) da Mão
Esquerda (RME). Em espira percorrida por corrente
elétrica o campo B pode exercer binário (torque)
--- princípio de funcionamento dos motores elétricos.
Citamos ainda indução eletromagnética e ondas
eletromagnéticas.
A percepção dos fenômenos
magnéticos e a assimilação da correspondente teoria,
imagem intelectual dos mesmos, demandam do estudante
certa capacidade de abstração e um conveniente domínio
de operações matemáticas. O estudante que não se
contenta com informação
superficial e algumas fórmulas matemáticas sabe que é
condição sine qua non habituar-se à linguagem
específica que para cada campo de fenômenos foi criada
por pesquisadores em Física, desde Galileu.
No presente trabalho
sugerem-se experimentes que podem ser realizados sem
aparelhos custosos, e que visualizam aspectos
característicos do magnetismo.
Física é ciência que
investiga fenômenos (sistemas e processos) concretos,
tangíveis, verificáveis por qualquer pesquisador na
área, em todo o mundo e em qualquer época. Enganos e
fraudes são extirpados implacavelmente. Permanece um
corpo de ciência bem fundamentada e mesmo assim não
definitiva. Sendo submetida a incessante e rigoroso
exame crítico, a Física está aberta a toda inovação
produtiva em seu campo.
O estudante de Física Geral
sente-se motivado quando presencia processos físicos
criteriosamente selecionados para ampliar seus
conhecimentos no campo enfocado. Eis a razão do presente
trabalho: propor experimentos de demonstração de alguns
fenômenos magnéticos básicos para o desenvolvimento de
todo o Magnetismo. A saber:
a)
Como se caracteriza o campo
magnético gerado por corrente elétrica continua?
b)
De que modo o campo magnético
age sobre condutor percorrido por corrente elétrica?
No presente trabalho
mostra-se:
-
como obter o espectro de um campo magnético;
- como caracterizar a força que um campo magnético
exerce em um elemento de corrente elétrica;
- como caracterizar o conjugado (torque) que um
campo magnético exerce em espira portadora de
corrente.
Finalizando, propõe-se um
experimento que evidencia a força exercida por campo
magnético sobre corpo metálico não magnetizável
(correntes de Foucault, pêndulo de Walten-Hofen).
1 -
Introdução
Forças são classificadas segundo critérios diversos.
Conforme o ponto de vista, elas podem ser de interação
ou de inércia, externas ou internas, impressas ou
vinculares, conservativas ou dissipativas, de contato ou
de campo etc.
1.1
- Categorias de forcas
Quanto à sua origem, as forças classificam-se
conforme o quadro seguinte:
| |
de interação |
Forças
gravitacionais
Forças
nucleares fracas
Forças eletromagnéticas
Forças
nucleares fortes |
| |
|
FORÇAS |
|
| |
de inércia |
Força de
arrastamento
Força
complementar |
Presentemente trataremos de
forças eletromagnéticas.
Além de características específicas, elas possuem as
propriedades gerais das forças de interação, a saber:
— são
exercidas mutuamente entre corpos dois a dois;
— independem do referencial adotado (inercial, ou
acelerado que seja);
— seguem a Lei de Ação e Reação.
1.2
- Comparação de forcas de interação
Caracterizado um sistema físico, pode-se comparar as
intensidades das forças fundamentais que agem nele. Por
exemplo, em átomo de hidrogênio o próton e o elétron se
atraem com forças elétricas Fel. e
gravitacionais Fgrav. , sendo |Fgrav.|
= 10-37 |Fel.|.
No
microcosmo predominam:
—
interação forte (ligação em núcleo atômico).
— interação eletromagnética (núcleo e coroa, 10-3
vezes a interação forte).
— interação fraca (decaimento radioativo, 10-25
vezes a interação eletromagnética).
No
macrocosmo predomina a atração gravitacional (10-12
vezes a interação fraca; mecânica celeste). Fora dos
astros é a gravitação a única força a considerar.
1.3
- Forcas ativas em fenômenos cotidianos
Nos fenômenos rotineiros só nos deparamos com
interações gravitacionais (peso dos corpos e suas
conseqüências) e variadas interações eletromagnéticas.
Dentre estas, citamos:
—
corrente elétrica para iluminação, operação de
eletrodomésticos, acionamento de motores elétricos,
aquecimento, telefone;
— forças exercidas por campos elétricos e magnéticos
manifestam-se, por exemplo, em raio, osciloscópio
catódico, vídeo de TV, ímãs e eletroímãs;
— aplicam-se ondas eletromagnéticas desde as longas
em radiocomunicação até os Raios-X em radiografia.
1.4
- Forças de campo
Antes de Faraday (1791 ---
1867) e Maxwell (1831 ---
1879) acreditava-se em "ação à distância". Por exemplo,
surgindo uma carga elétrica Q em um ponto, ela
exerceria instantaneamente forças sobre todas as outras
cargas circunstantes q1,q2,
q3,... qi, ... próximas ou
distantes.
Pelo contrário, a pesquisa revelou “força de campo”: a
carga Q gera um campo elétrico E, que
invade o espaço com velocidade finita nunca maior do que
a velocidade da luz no vácuo, velocidade limite segundo
a Teoria da Relatividade (Einstein,
1879 --- 1955). A força elétrica passou a ter, então,
caráter 'local' --- ação do campo, naquela região, sobre
a carga ai colocada.
A carga Q exerce a força Fi na
carga qi , segundo a Lei de Coulomb. Esta
força é exercida por intermédio do campo
gerado pela carga Q
no ponto em que se situa a carga qi .
Repetindo: o ente físico
real que atua na carga qi não é a carga
distante Q, mas sim o campo E no próprio
local da carga qi
. Mesmo que a carga Q seja neutralizada em
certo instante, a força
Fi continuará sendo exercida em qi
até que o campo E se extinga no local.
Por exemplo: Luz é onda
eletromagnética. A luz que a Terra recebe, proveniente
do Sol, transita durante 8 minutos na reta Sol ---
Terra. Se, por hipótese, o Sol se extinguisse
instantaneamente em certo instante t, a Terra
continuaria recebendo a radiação solar normalmente, até
a data (t + 8 min).
1.5
- Forças elétricas e magnéticas
Já na antiguidade se conheciam o raio, o fogo de
Santelmo e a atração do âmbar
atritado sobre corpos leves
(âmbar, em grego eléktron),
mas não se relacionavam estes fenômenos entre si. Há
cerca de um milênio descobriu-se a bússola magnética,
que se orienta na direção Sul --- Norte por ação de
débeis forças exercidas em seus pólos pelo campo
magnético da Terra.
Na lenta evolução dos
conhecimentos sobre ações elétricas e magnéticas
destaca-se William Gilbert
(1544 --- 1603). Dois séculos após,
Oersted (1777 --- 1851)
divulgou uma sensacional descoberta:
corrente elétrica gera campo
magnético. Com isto nasceu o eletromagnetismo,
que foi levado a maturidade pelos trabalhos de
Faraday e
Maxwell.
1.6
- Exemplos de forcas elétricas
No átomo, o núcleo atrai os elétrons da coroa com forças
coulombianas. Na molécula, as forças de ligação química
são coulombianas. Em corpo de muitas moléculas
manifestam-se forças de coesão e adesão molecular (por
exemplo, elasticidade de sólidos, tensão superficial de
líquidos); elas também são coulombianas. Em Teoria
Cinética dos Gases estudam-se colisões intermoleculares,
que são interações coulombianas.
Forças de atrito são
decorrentes de interações coulombianas entre as
camadas-limite de corpos em contato. Na fotossíntese, a
clorofila dos vegetais absorve energia da radiação
eletromagnética proveniente do Sol, e com ela promove a
reação:
6 CO2
+ 6 H20 + 2825 kJ ======> C6H12
O6 + 6O2
1.7
- Exemplos de forças magnéticas
Corrente elétrica é carga elétrica em movimento
ordenado. Na coroa atômica, o movimento
orbital dos elétrons e o
spin dos mesmos geram efeitos magnéticos importantes
(dia-; para- e ferro-magnetismo, e suas
conseqüências).
As interações magnéticas são
decisivas no funcionamento de motores elétricos,
transformadores, linhas de transmissão, chaves
magnéticas, osciloscópios etc. Atualmente constroem-se
ímãs permanentes e eletroímãs possantes; entre suas
aplicações destaca-se ferrovia com veiculo mantido
suspenso por repulsão magnética.
Em certos laboratórios
científicos aplicam-se interações eletromagnéticas em
aceleradores de partículas (cíclotron, bétatron,
acelerador linear etc.). Com vistas à fusão nuclear
controlada, estudam-se plasmas, gases em altíssimas
temperaturas, e que só podem ser confinados em garrafas
magnéticas.
1.8
- Indução eletromagnética
Campo magnético pode gerar campo elétrico, portanto,
gerar força eletromotriz. Nisto se baseiam
transformadores e máquinas geradoras de energia elétrica
(dínamos e alternadores). Vice-versa, campo elétrico
pode gerar campo magnético. Nestes processos baseia-se a
emissão e propagação de ondas eletromagnéticas.
Segue
Parte 2: Campo elétrico e campo magnético
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