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Noções
básicas sobre transformadores
Prof. Luiz Ferraz Netto
[Léo]
leobarretos@uol.com.br
A grande vantagem técnica da corrente alternada em
confronto com a corrente contínua repousa na
possibilidade de se obter, a partir da primeira,
qualquer tensão elétrica desejada, quase sem perdas, por
meio dos transformadores. Ordinariamente, no local de
utilização, se necessita baixas tensões que não sejam
(tão) perigosas para o organismo humano (é comum o
emprego de tensões de 127 volts e 220 volts).
Por outro lado, o transporte da energia elétrica desde o
local de sua geração até o de sua utilização, convém que
seja efetuado sob tensões mais altas possíveis; as
usuais são: 230, 500 e 750 kV . Porém, ao funcionamento
mais econômico das máquinas que produzem a energia
elétrica corresponde uma tensão média de alguns milhares
de volts. Portanto, em toda rede de distribuição existe
sempre a necessidade de transformar a tensão
elétrica.
Um transformador consiste em
um núcleo fechado sobre si mesmo, formado por lâminas de
ferro doce (para diminuir as perdas devidas às correntes
de Foucault), no qual há um enrolamento primário (A) e
outro secundário (B), conforme se ilustra.
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Consideraremos,
para iniciar, que o enrolamento (B) está
aberto, ou seja, por ele não circula
corrente alguma.
Suponhamos que aos terminais do enrolamento
(A) seja aplicada uma tensão alternada U1
= Uo.senw.t
que produz no mesmo uma corrente elétrica im
(corrente de magnetização). Essa corrente
excita no núcleo de ferro um fluxo magnético
F
= (FMM)m/Rm = n1.im/Rm
, sendo n1 o número de espiras do
enrolamento primário e Rm a
relutância do núcleo de ferro. (FMM)m
= n1.im é uma força
magnetomotriz.
Porém, como im varia com o tempo,
o mesmo ocorre com o fluxo
F
, e o fluxo variável determina em cada uma
das n1 espiras do enrolamento
primário uma força eletromotriz - dF/dt,
e no total uma força eletromotriz
E
= - n1.dF/dt.
Se R1 é a resistência ôhmica do
enrolamento primário, teremos U1
+ E
= R1.im. |
Porém, R1 é
sempre pequeno e podemos considerar R1 = 0,
obtendo-se então U1 +
E
= 0 , ou seja,
Uo.senw.t
= n1.dF/dt
ou ainda dF/dt
= (Uo/n1).senw.t
Por integração se obtém:
F
= - (Uo/w.n1).cosw.t
= (Uo/w.n1).sen(w.t
- p/2)
O fluxo magnético no núcleo
de ferro apresenta, portanto, a mesma forma senoidal que
a tensão primária U1, porém tem sua fase
atrasada de p/2
com relação a tensão. A relação acima, entre o fluxo
F
e a tensão primária U1 existe sempre no
enrolamento primário, inclusive quando existir
corrente no enrolamento secundário, já que é uma
conseqüência necessária da relação sempre válida U1
+ E
= 0.
Consideremos agora a
corrente de imantação im que produz o fluxo
F.
Posto que F
= n1.im/Rm , resulta
que im fica fixada a todo momento pelo
valor de F.
Porém, a relutância Rm depende da
resistividade magnética
h
ou da permeabilidade magnética
m
= 1/h
do núcleo de ferro, que está submetido a uma imantação
cíclica permanentemente.
A permeabilidade, por sua vez, depende (ainda que não de
modo unívoco) da excitação magnética, quer dizer, de im
em última instância, de maneira que Rm é
função de im (aliás, de uma forma bem
parecida com a lei de Ohm).
Portanto, a relação existente entre im e
F
é muito complicada, e enquanto
F
apresenta um desenvolvimento puramente senoidal, não
ocorre o mesmo com im. Mas,
F
é o único que interessa. Observe que im tem
um valor finito, mesmo que se ponha U1 +
E
= 0; isso se deve à hipótese R1 = 0. Trata-se
de um caso completamente análogo ao da corrente de
indução em um supercondutor (R = 0).
O fluxo
F
atravessa todo o núcleo de ferro e, portanto, passa
também através das n2 espiras do
enrolamento secundário; recorde que iniciamos a
discussão considerando um circuito aberto no secundário.
O fluxo F,
variável com o tempo, induz nesse enrolamento secundário
uma força eletromotriz
E2
= - n2.dF/dt
e, portanto, dF/dt
= E2/(-n2)
que levada à expressão Uo.senw.t
= n1.dF/dt
fornecerá:
Uo.senw.t
= n1.E2/(-n2)
ou, E2
= - (n2/n1).Uo.senw.t
= - (n2/n1).U1 = (n2/n1).Uo
sen(wt
- p)
Assim, a força eletromotriz
induzida no enrolamento secundário (E2),
que tratando-se de um enrolamento aberto corresponde
integralmente à tensão que aparece entre seus terminais
(U2), é superior ou inferior à
tensão primária U1 na relação n2/n1
(relação de transformação), e tem um desenvolvimento
puramente senoidal; sua fase apresenta um atraso igual
a p
com respeito à tensão primária.
Quando o enrolamento
secundário estiver sendo atravessado por corrente i2
(pense inicialmente numa carga puramente resistiva),
está produzirá um fluxo adicional
F2
no núcleo de ferro, que atravessa também o enrolamento
primário; com isso, resultará perturbada a condição de
equilíbrio no enrolamento primário, expressa pela
equação U1 +
E
= 0. Porém, este se restabelece instantaneamente, porque
além da corrente de imantação im , se
origina uma corrente adicional i1 às custas
do gerador que alimenta o enrolamento primário, cuja
intensidade é justamente a necessária para a produção do
fluxo F1
que anula exatamente o fluxo
F2
de i2. Com carga, a corrente no primário
aumenta!
Assim, independentemente do consumo, no núcleo de
ferro existe sempre o fluxo
F
determinado exclusivamente pela tensão primária e à
existência da corrente im .
O fluxo
F2
vale F2
= n2.i2/Rm e sendo
F1
= n1.i1/Rm , pelo fato
de ser F1
+ F2
= 0 ,podemos por n1i1 = - n2i2,
ou seja: i1 = - (n2/n1).i2.
Num dado instante, a
potência da corrente secundária vale P2 =
E2.i2
= - (n2/n1).U1.i2
. A potência da corrente i1 (uma parte da
corrente primária, pois ainda há a parcela im)
é P1 = U1.i1 = - (n2/n1).U1.i2.
Tem-se, pois, P1 = P2 .
A potência fornecida pela parte i1 da
corrente no enrolamento primário se recolhe
integralmente no circuito secundário. Se prescindimos da
corrente de imantação im, um transformador
converte uma tensão dada em outra diferente sem perda de
energia.
Se o núcleo de ferro não apresentasse histerese
magnética, não teria que ocorrer uma imantação cíclica
no transcurso de um período da corrente alternada, e, a
corrente im corresponderia a uma pura
reatância, de modo que, o valor médio do gasto relativo
a um período, seria nulo. Por seu lado, uma imantação
cíclica exige um trabalho proporcional à área do
ciclo de histere, que deve ser efetuado pela
corrente i. Porém, na prática, im é sempre
pequena em confronto com i1 que circula pelo
enrolamento primário; isso significa que a potência
envolvida com im é apenas uma pequena fração
daquela envolvida no gasto total no primário.
Outras causas de perda de
energia são: as ligeiras dispersões de linhas magnéticas
para o ar, nos ângulos do núcleo, onde umas poucas
linhas de campo dos fluxos se fecham através do ar, fora
dos enrolamentos primário e secundário e o fato de que
as resistências ôhmicas dos dois enrolamentos não podem
ser consideradas rigorosamente nulas. Todavia, essas
perdas de energia (e algumas outras que não citamos) são
muito pequenas e, um bom transformador deverá funcionar
com rendimento próximo de 100%.
Vimos que a força
eletromotriz secundária
E2
se deve unicamente ao fluxo variável com o tempo
produzido pela corrente im, a qual é
independente da carga. Por causa disso não é possível
fabricar um transformador que trabalhe economicamente e
que seja construído sem ferro (núcleo), ainda que os
dois enrolamentos se disponham tão juntos quanto
possível. O fluxo é proporcional à permeabilidade
m
e, portanto, im será tanto maior quanto menor
for o m.
Se substituirmos o ferro por ar, im se
tornará umas m
vezes maior, quer dizer, umas centenas de vezes mais
intensa e já não representará uma fração insignificante
da corrente total; a potência im2.R1
será agora considerável --- o transformador não
resultará econômico.
As vantagens apresentadas
pela elevadas tensões para o transporte da energia
elétrica se deduz das seguintes considerações: Seja R a
resistência dos condutores à longa distância e i a
intensidade de corrente que circula por eles. A condução
consome uma potência i2.R =
DP.
Sendo E
a força eletromotriz responsável pela condução, a
potência total será P =
E.i.
Portanto, na condução desaparece a fração
DP/P
= R.i/E
que resulta inutilizável. Porém, quanto maior for
E,
para uma dada potência P =
E.i,
tanto menor será a intensidade i. Por conseguinte, a
perda relativa diminui quando
E
aumenta.
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