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Máquinas elétricas
O
transformador converte-se num gerador ou num motor
Prof. Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
Geradores elétricos
Em um transformador, a tensão no enrolamento secundário
em repouso é decorrente do fluxo magnético variável
Fm
que atravessa
esse enrolamento. Todavia, pode-se obter uma ação
fundamentalmente idêntica alimentando-se o enrolamento
primário com corrente contínua, de maneira que no núcleo
de ferro se obtenha um fluxo magnético constante em
relação ao tempo e se disponha o enrolamento secundário
em um cilindro de ferro doce (induzido) que se encaixe
num recorte praticado no núcleo de ferro, onde o
cilindro, junto com o enrolamento, possam girar.
Ilustremos isso, abaixo à esquerda:
Se o induzido está em
repouso e a superfície do enrolamento se dispõe
perpendicularmente ao fluxo magnético, estando o
enrolamento primário alimentado com corrente alternada,
o dispositivo constitui um verdadeiro transformador ---
que só trabalha menos economicamente que um
transformador cujo núcleo de ferro é completamente
fechado por causa do inevitável espaço de ar originado
na modificação.
Porém, se o enrolamento
primário for alimentado com corrente contínua, podemos
fazer com que o fluxo que passa através do enrolamento
secundário varie com o tempo, simplesmente fazendo girar
esse induzido ao redor de seu eixo.
Seja j
o ângulo que forma a
superfície do enrolamento com o fluxo
F
que o atravessa, e seja
Fo
o fluxo correspondente quando está disposta
perpendicularmente ao mesmo; teremos:
F
= Fo.senj.
Se o induzido girar com velocidade angular
w
= dj/dt
, teremos: j
= w.t
e F
= Fo.senwt
. Portanto, no enrolamento 'secundário' existe uma força
eletromotriz induzida expressa por:
E
= -n.dF/dt
= n.w.Fo.coswt
= n.w.Fo.sen(wt
- p/2)
cuja pulsação é igual à
velocidade angular w
do induzido, exatamente do mesmo modo que se o
enrolamento primário de um transformador estivesse
alimentado com corrente alternada de pulsação
w.
Este é o princípio
fundamental dos geradores e dínamos eletromecânicos, que
são os únicos usados atualmente para a produção de
tensões e correntes elétricas em grande escala.
Na ilustração acima, centro
e direita, temos esquemas algo mais próximos da
realidade. O da esquerda mostra uma carcaça de
ferro/aço/liga exterior, que podemos imaginar imantada,
de modo permanente (ímã), ou mediante uma corrente
contínua que circule por um enrolamento apropriado, na
qual existe, portanto, um fluxo magnético constante, com
linhas de indução como as ilustradas. A diferença
essencial entre os dispositivos da ilustração acima
consiste em que, o do centro e o da direita, formam um
conjunto que é simétrico, pois o primário está
desdobrado.
Se o induzido estivesse em
repouso e a carcaça imantada se excitasse com corrente
alternada, teríamos novamente um transformador, cujo
circuito magnético, como antes, estaria interrompido
pelos estreitos espaços de ar através dos quais o fluxo
magnético penetra no induzido e dele sai. No esquema da
direita, acima, só desenhamos uma 'vareta' (em vermelho)
do enrolamento induzido.
Para as escolas de
engenharia elétrica e cursos técnicos é altamente
recomendável dispor de um 'kit' didático, desmontável,
apto aos experimentos de converter um transformador em
um gerador. Eis minha sugestão:
Nessa sugestão, não incluí
entre as 'peças' do kit, detalhes sobre núcleos
laminados, bobinas primárias e secundárias, suporte para
fixar armadura, dispositivo para girar o induzido etc.
pois, para os professores da engenharia elétrica, meia
palavra basta.
Se no enrolamento giratório
se intercala um circuito externo por meio de contatos
deslizantes apropriados (anéis ou segmentos de cobre com
escovas sobre o induzido), de modo que se estabeleça uma
corrente i, no lapso de tempo dt se consumirá o
trabalho T
= E.i.dt
. Vejamos de onde procede esse trabalho.
Se o circuito externo ligado
ao enrolamento induzido mediante escovas está aberto, o
giro uniforme do induzido não despende trabalho algum se
prescindirmos de perdas devidas ao atrito. Porém, se
circula uma corrente por esse enrolamento, como este se
encontra em um campo magnético B presente nos
espaços de ar, atua sobre o mesmo um momento de giro de
oposição dado por M = - n.i.A.B.senan
, sendo A a área da superfície envolvida pelas espiras,
n o número de espiras e
an
o ângulo que a normal a essa superfície de área A forma
com a direção do campo. Se o induzido efetua um giro dan
no tempo dt , se consome no induzido um trabalho:
dT
= -M.dan
= n.i.A.B.senan.dan
= -n.i.A.B.(dcosan/dt).dt
Segundo a regra da mão
esquerda (ou pela lei de Lenz), já nossa conhecida, é
fácil ver que a corrente induzida na 'vareta' desenhada
na primeira ilustração (à direita, círculo vermelho na
periferia do induzido), quando o induzido gira no
sentido horário, tem sentido 'para fora' (saindo da tela
do monitor); por sua vez, na 'vareta' diametralmente
oposta à anterior (que não está desenhada), a corrente
induzida circula 'para trás' (entrando na tela do
monitor).
Empregando-se a regra da mão
esquerda ou a do saca-rolhas, se conclui que sobre cada
'vareta' atua uma força magnética tal, e sobre todo o
induzido um momento de giro tal, que tende a fazer girar
em sentido anti-horário, ou seja, que tende a 'brecar' o
movimento do induzido que se realiza no sentido horário.
É essa 'oposição' que se sente quando se tenta girar com
a mão a manivela ligada ao induzido, numa montagem
didática. A lei de Lenz permite chegar à mesma
conclusão. Para vencer o momento mencionado, é preciso
realizar trabalho sobre o induzido.
Por outro lado, no circuito
externo ligado ao enrolamento (e no próprio
enrolamento), o induzido realiza um trabalho dT'
= E.i.dt
no tempo dt. Como temos
E
= - n.dF/dt
= -n.A.B.dcosan/dt
, podemos escrever:
dT'
= -n.i.A.B.(dcosan/dt).dt
= dT
Assim, o trabalho efetuado
pelo induzido é igual ao realizado por ele; a energia
consumida para fazer girar o induzido uniformemente se
transforma integralmente (prescindindo das perdas por
atrito) em trabalho elétrico. Isto corresponde ao fato
de que num transformador o gasto realizado pelo
enrolamento primário pela corrente i1 , é
igual ao obtido pelo enrolamento secundário, por meio da
corrente i2 (desprezando as perdas
inerentes).
Motores elétricos
Imaginemos agora que o induzido esquematizado acima
(direita) não gire mediante ação de um momento exterior,
mas que pelo seu enrolamento se faça circular uma
corrente que procede de uma fonte exterior, cujo sentido
seja igual ao da corrente que se originaria pelo giro do
induzido no sentido horário. Temos visto que a
existência de uma corrente no induzido origina um
momento de giro que tende a frear a rotação efetuada no
sentido horário e a produzir uma rotação em sentido
anti-horário. No caso presente temos a corrente, porém
falta o giro mecânico externo (ninguém gira a manivela!)
que fazia girar o induzido no sentido horário; por
conseguinte, o momento de giro anti-horário pode ser
eficaz. E assim chegamos ao princípio fundamental
dos motores elétricos.
Resulta, pois, que os
geradores e os motores coincidem em seus fundamentos,
ainda que na maioria dos casos práticos sua construção
técnica seja diferente. Um gerador pode funcionar como
motor fornecendo-lhe corrente de um modo apropriado, e
um motor pode ser usado como gerador quando seu induzido
é posto em rotação sob a ação de um momento de giro
externo. Um mesmo dispositivo permite transformar
trabalho mecânico em energia elétrica, e energia
elétrica em trabalho mecânico.
De todo modo, o induzido de
nosso dispositivo original, quando se emprega como
motor, não pode ser alimentado com corrente contínua se
pretendemos manter uma rotação permanente, e sim que o
curso da corrente (pelo menos em suas linhas gerais)
deve corresponder ao da corrente induzida obtida quando
o dispositivo é usado como gerador. Temos que usar,
pois, uma corrente alternada, cuja freqüência coincida
exatamente com a velocidade angular do induzido; isso é
fácil de se compreender. Dissemos antes que a corrente
que circula pela 'vareta' desenhada na ilustração acima
(direita), quando o giro é horário, tem sentido 'para
fora', e que na 'vareta' diametralmente oposta a
corrente tem sentido 'para trás', caso o dispositivo
seja usado como gerador. O mesmo deve ocorrer quando se
usa o dispositivo como motor, com induzido girando em
sentido anti-horário. Porém, a 'vareta' desenhada,
depois de meia volta, se coloca precisamente na posição
da não desenhada, e se pelo enrolamento passar corrente
contínua, a corrente que passará agora pela 'vareta'
terá sentido oposto ao da corrente anterior; o momento
de giro inverterá também seu sentido --- a tendência do
induzido seria a de oscilar para frente e para trás e
não de girar!. Então, no curso de uma meia-volta, a
corrente que circula pelo enrolamento deve mudar seu
sentido; há que comportar-se como uma corrente alternada
cuja freqüência coincida com a velocidade angular do
induzido. Neste caso, o induzido apresentará um
movimento de rotação permanente, sempre de mesmo sentido
(o sistema de coletores e escovas se incumbem desse
serviço --- trocar o sentido da corrente a cada meia
volta do induzido). Este problema está resolvido
inclusive no caso em que se alimenta o induzido com
corrente contínua.
Do mesmo modo, se pode
conseguir que o induzido de um gerador forneça corrente
contínua apesar de que em suas 'varetas' (laterais úteis
dos enrolamentos) se produzam tensões alternadas. Como
sabemos, ambos resultados se obtém dispondo de contatos
deslizantes de maneira apropriada, através dos quais o
gerador se une ao circuito externo, ou um motor com sua
fonte de corrente. Não entraremos em detalhes relativos
às particularidades técnicas e as diferentes formas
práticas que poderemos dotar as máquinas de corrente
contínua e alternada (geradores e motores); ficaremos
com as idéias gerais.
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