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Eletromagnetismo
(Força
Magnética)
Prof. Luiz Ferraz Netto [Léo]
luizferraz.netto@gmail.com
Introdução
Após a Eletrostática, o estudo dos fenômenos elétricos se completa
com o Eletromagnetismo. Complementações que tratam de aplicações
detalhadas dessa teoria são feitas através da Eletrônica e da Teoria
dos Circuitos.
No Eletromagnetismo encontraremos pela primeira vez dois "novos"
tipos de fenômenos elétricos:
(a) uma força intensa entre
correntes (cargas em movimento) e
(b) campos elétricos produzidos por correntes variáveis.
O novo tipo de força chama-se força magnética e o fenômeno de
um campo elétrico induzido chama-se indução eletromagnética.
Esse tema tem dois pontos culminantes, um é mostrar que a força
magnética não é nada diferente de uma força elétrica da lei de
Coulomb e outro será a demonstração mostrando que uma corrente
variável deve irradiar uma onda eletromagnética propagando-se a uma
velocidade v = c. Esta explicação da luz em termos da teoria da
eletricidade foi a última conquista do que se chama física
clássica.
Corrente
Elétrica
Antes de podermos discutir um novo tipo de força entre correntes,
precisamos definir corrente. Será posto como fluxo de cargas
elétricas através da seção de um condutor. A intensidade de corrente
elétrica I é definida, então, a partir da seguinte equação:
I = Q/Dt
... eq.01
onde Q é a quantidade de carga total que
passou através de uma certa área num intervalo de tempo
Dt.
A unidade oficial 'ampère' (símbolo A) é definida como um 'coulomb'
(símbolo C) por 'segundo' (símbolo s).
Formalmente: 1A = 1C/1s.
No sistema CGS (ainda em uso na prática) a unidade de corrente é o
statampère, definida como um statcoulomb por segundo, de modo que:
1 A = 3x109 statC/s = 3x109
statA
Num fio metálico, as cargas positivas
(núcleos atômicos) não se deslocam; estão 'fixas' (a menos da
agitação térmica) numa estrutura cristalina. Entretanto os elétrons
exteriores ou elétrons de condução estão completamente livres para
se deslocarem ao longo do fio. Isto é contrário a todas as idéias da
física clássica e somente pode ser explicado usando da mecânica
quântica (veremos isso bem mais adiante). Para que tenham um
'visual' disso na mecânica planetária, é como se o Sol e seus
planetas ficassem fixos, porém, todos os satélites pudessem se
deslocar livremente nesse espaço planetário.
Se N elétrons por segundo fluem
através de uma seção transversal do fio, o valor da corrente é então
N.e, onde e é a carga do elétron.
I = Q/Dt
= Ne ... eq.02
Mas qual é o
sentido da corrente? De acordo com a convenção estabelecida
por Benjamin Franklin, uma corrente fluindo para a placa de um
capacitor forneceria carga positiva à placa. Sabemos agora,
entretanto, que a placa de um capacitor torna-se positiva porque os
elétrons de condução fluem para fora da placa. Portanto os elétrons
de condução sempre fluem no sentido oposta à da corrente. Se
tivessem estabelecido convencionar a carga dos elétrons como
positiva em vez de negativa, esta dificuldade jamais teria surgido.
Todavia, nem só de elétrons é constituída uma corrente elétrica,
dela também pode participar íons. Tudo dependerá do tipo de
condutor. Assim, o sentido 'convencional da corrente elétrica' será
sempre o das cargas positivas, se houver, ou o oposto aos das cargas
negativas. Veja detalhes disso
AQUI (clique).
Note-se que
também podemos produzir corrente
elétrica movendo um fio eletrizado com
r
coulombs de carga por metro (densidade linear de carga =
r =
Q/L; medida em C/m), a uma velocidade VL , ao longo de
sua extensão ou simplesmente girando um disco em cuja periferia se
fixa um fio eletrizado com carga Q.
Então a quantidade de carga que passa
por um dado ponto em 1 segundo é
r
vezes o comprimento L do fio que se desloca em 1 s. Neste caso, a
intensidade de corrente será:
I =
r.VL ...
eq.03
para
uma linha de carga que se move com velocidade VL e com
densidade de carga de r
C/m.
Realmente, I = r.VL
= (Q/L)/(L/Dt)
= Q/Dt
.
Dois exemplos
Exemplo 1
No modelo de Bohr do átomo de
hidrogênio, qual é o valor da intensidade corrente definida pelo
elétron que circunda o próton?
Assuma os seguintes valores: velocidade orbital do elétron = Ve
= 2,18x106 m/s; raio da órbita = Re = 5,3x10-11m.
A intensidade de corrente será o
número de vezes por segundo que o elétron passa por um dado
ponto de sua órbita (freqüência) multiplicado por e (carga do
elétron). Ou, I = fe.e, onde fe = Ve/2pRe
que é a freqüência orbital. Então:
I = Ve.e/(2pRe)
Após a substituição numérica
obtemos I = 1,05x10-3 A
Exemplo 2
Uma corrente de intensidade I
= 1 A flui através de um fio de cobre de área A = 1 mm2
de seção transversal. Qual é a velocidade média (Ve) de
deslocamento dos elétrons de condução? Esse exercício já está
resolvido em
http://www.feiradeciencias.com.br/sala12/12_T06.asp ; aqui o
apresentamos em nova abordagem.
Assuma os seguintes dados:
número de Avogadro =
No = 6,02x1023 átomos/mol;
densidade do cobre = dcu = 8,9x103 kg/m3;
massa atômica do cobre = Mcu = 63,6x10-3
kg/mol,
e que se tenha um elétron de condução por átomo de cobre.
Precisamos primeiro calcular N, ou seja,
o número de elétrons de condução por metro de fio. Conseguido isso,
então r
= N.e ( em C/m) será a carga total por metro e através da equação I
= r.Ve
(em A), poderemos obter a velocidade Ve (em m/s).
Admitido um elétron de condução por átomo, o número de elétrons de
condução por m3 , (X), é o número de moles por m3
vezes o número de Avogadro, ou:
X = (dcu/Mcu).No
= (8,9x103/63,6x10-3).6,02x1023 =
8,5x1028 átomos/m3
Um fio de comprimento 1m e seção
transversal de 1mm2 terá volume de 1mx1mm2 =
1mx(10-3m)2 = 10-6m3 e,
portanto, conterá 8,5 x 1022 elétrons de condução/metro.
Então, sua densidade linear de carga
será r
= N.e = 8,5x1022 elétrons/m x 1,6x10-19 C =
13,6 x 103 C/m.
De acordo com a eq.03, tem-se:
VL = I/r
= (1 C/s)/(13,6x103 C/m) = 0,074 x 10-3 m/s =
0,0074 cm/s
Portadores de carga
Correntes podem circular também em
líquidos, gases e vapores. Luzes fluorescentes e de néon são
exemplos de correntes em gases. Neles a corrente é provocada pelo
movimento dos íons positivos bem
como pelo deslocamento de elétrons. Entretanto, os elétrons
são muito mais rápidos e dão a principal contribuição à corrente.
Quando um elétron colide com um íon de gás ou um átomo, a energia
cinética da colisão pode ser absorvida pelo átomo e a seguir
irradiada na forma de radiação eletromagnética que pode ser
percebida pela vista como luz.
A maioria dos líquidos contém íons
livres e portanto podem conduzir cargas elétricas. Se duas placas
metálicas ou elétrodos forem ligados a uma fonte de tensão e
inseridos em um desses líquidos a corrente será provocada por
íons positivos e negativos, que se movem em sentidos
opostos para atingirem seus respectivos elétrodos. Quando os íons
alcançam os elétrodos, estes se neutralizam. Por exemplo, se se
dissolvermos sal de cozinha (NaCl) em água, íons de Na+
fluirão para o elétrodo negativo e íons de Cl- para o
positivo. Quando os íons Cl- são neutralizados,
combinam-se quimicamente formando Cl2 (gás cloro) que
borbulha para o ar. Este processo de decomposição química é chamado
eletrólise e tem grande aplicação comercial. Na condução em
líquidos (condução iônica), elétrons não participam como portadores
de carga.
Elemento de corrente
Um elemento de corrente
define-se como o produto da corrente (I) num fio, pela pequena
extensão (Dl)
contida nesse fio;
Elemento de corrente = I.Dl
= (r.V).Dl
= (r.Dl).V
Mas (r.Dl)
é a quantidade de carga que se desloca em
Dl.
Se chamarmos isto de Q, temos
I.Dl
=QV ... eq.04
Vemos assim, que uma carga puntiforme Q
em movimento é matematicamente equivalente ao elemento de corrente.
Aqui fica claro porque as forças sobre as cargas em movimento e as
forças sobre as correntes têm que ser realmente a mesma coisa.
A Força Magnética
--- uma correção
relativística
da lei de Coulomb
Até essa altura, no campo de estudos em eletricidade, somente uma
nova lei fundamental da natureza foi introduzida (lei
de Coulomb), e nela se especifica que todas as cargas
precisam estar em repouso. Isto foi feito por uma boa razão.
Acontece que, quando deixamos as
cargas se moverem, algo novo aparece: surge uma nova força que
precisa ser somada à força de Coulomb, e que é chamada força
magnética. De fato, em alguns casos onde a lei de Coulomb prevê
força nula, podem existir forças magnéticas intensas.
Um destes exemplos vê-se ilustrado abaixo, à esquerda. Uma carga
Q em movimento, na presença de uma corrente I, irá sentir
a ação de uma força intensa proporcional à intensidade de corrente
no fio e também proporcional à velocidade V da carga Q.
Isto é verdade mesmo se a carga elétrica resultante do fio (soma
algébrica de todas as cargas positivas e negativas) for zero; isto
é, o campo elétrico que atua em Q é zero! Ainda assim haverá
uma força observável Fm
a
(QVI)/r .
É esta força que provoca a deflexão de
elétrons em movimento no interior de um tubo de televisão.
Variando-se I nos fios (bobinas) que se encontram ao redor do tubo,
tal força sobre o feixe de elétrons varia e movimenta o ponto
luminoso produzido pelos elétrons ao incidirem na tela (ilustração
acima, à direita -- vista lateral de um tubo de televisão onde se
vêm bobinas para deflexão horizontal).
Outro exemplo desta nova força magnética é a força de atração que se
observa entre correntes paralelas, como se mostra na ilustração a
seguir:
O princípio do motor elétrico é a força
magnética entre dois fios paralelos e descarregados, quando através
deles se faz passar uma corrente. Tudo que é necessário para
observar este fenômeno básico é uma bateria, uma chave interruptora
e um fio como se vê na ilustração acima. Quando se fecha a chave os
dois fios repelem-se apreciavelmente.
Nota: Não deixe a chave fechada
por um tempo muito longo porque este tipo de circuito é comumente
conhecido como curto-circuito. Num curto-circuito as
correntes são muito intensas, os fios aquecem-se e a bateria
descarrega-se rapidamente.
Explicando a força
magnética por meio da lei de Coulomb e da relatividade
Em princípio, esta nova força
entre fios não carregados (não eletrizados) não
deveria ter nada a ver com a força de Coulomb, que somente se aplica
a objetos dotados de uma carga elétrica resultante não nula. Por
isso, foi dado um nome diferente - força
magnética - para distingui-la da força eletrostática.
Mas estas duas forças são tipos de força
verdadeiramente independentes?
Além da interação gravitacional e da força
nuclear, precisamos considerar dois tipos básicos de interações
elétricas, a eletrostática e a magnética?
Felizmente a resposta é não.
A natureza geralmente é mais simples do
que se poderia esperar. Einstein
em sua teoria da relatividade, propôs em 1905 que estas duas
forças são na realidade apenas uma. Muitas experiências mostram que
Einstein estava correto, e por isso agora chamamos estas forças de
forças eletromagnéticas. Einstein
propôs que a força magnética é uma mera correção relativística, à
lei de Coulomb.
No que se segue demonstraremos como a fórmula para forças magnéticas
entre correntes pode ser deduzida da lei de Coulomb e de um efeito
famoso em teoria da relatividade - a contração de
Lorentz. A contração de Lorentz
descreve uma contração no comprimento de um objeto que se movimenta.
Ela é discutida com detalhes nos textos de Relatividade Restrita,
como se tem exemplo em
www.feiradeciencias.com.br/sala.... .
De acordo com a lei de Coulomb, a força
eletrostática resultante sobre Q (veja a primeira ilustração desse
texto) deve ser zero, não importa se os elétrons de condução do fio
estão se movendo --- em cada instante a carga total resultante ao
longo do comprimento L do fio é nula. Entretanto, fazendo uso da
teoria da relatividade, o espaçamento médio entre os elétrons de
condução, quando estes começam a se movimentar, decrescerá
pelo fator de contração de Lorentz (1 - v2/c2)1/2
, onde v é a velocidade de deslocamento dos elétrons de
condução. Então, de acordo com a teoria da relatividade, a densidade
de carga r-
dos elétrons de condução aumentará do fator 1/(1 - v2/c2)1/2
; enquanto que a densidade de
carga das cargas positivas fixas permanecerá inalterada (r+
= ro).
Portanto a carga resultante não será mais zero. Esta situação no
sistema do laboratório fica algo como ilustramos abaixo;
* à esquerda: Uma carga Q em
movimento à velocidade V e um fio percorrido por uma corrente
no sistema do laboratório. A velocidade de deslocamento dos elétrons
de condução é v. As cargas positivas estão fixas.
* à direita: Mesma situação
anterior, mas vista por um observador movendo-se junto com Q. Agora
Q está em repouso, as cargas positivas têm agora velocidade (-V)
e os elétrons de condução têm velocidade (-V) + v.
Sabemos que é seguro usar a lei de
Coulomb para calcular a força resultante sobre Q, se Q estiver em
repouso. Então a força eletrostática seria Felet. = QE,
onde E é o campo elétrico resultante produzido pelo fio, agora com
densidades de cargas positivas e negativas diferentes [Outro modo de
dizer isso: o centro elétrico de todas as cargas positivas no
elemento de corrente não coincide com o centro elétrica das cargas
negativas]. Embora Q não esteja em repouso no sistema de
laboratório, podemos colocá-la em repouso movendo-nos junto com ela;
(um observador movendo-se para o topo da tela à velocidade V
verá a situação mostrada na ilustração acima, à direita). Nesta
situação, onde as cargas positivas movem-se com velocidade (-V)
e os elétrons com velocidade (-V) + v , a contração de
Lorentz afeta ambos e permite-nos recalcular:
r+
= ro
(1 - V2/c2)-(1/2)
e
r-
= -ro
(1 - (v+V)2/c2)-(1/2)
A carga resultante no fio é agora
r+
+ r-
e o campo resultante em Q é dado por:
E = 2r/r
= 2(r+
+ r-)/r
= (2ro/r)[
(1 - V2/c2)-(1/2) -
(1 - (v+V)2/c2)-(1/2)
] ...eq.05
Já sabemos, do Exemplo 2 acima, que a
velocidade de deslocamento dos elementos de condução num metal é
tipicamente da ordem de 1 mm/seg ou menos. Portanto v/c é muito
menor que um, e podemos seguramente usar a teoria binomial que nos
diz que
(1 + a)-(1/2) ~ [1
+ (1/2)a] e, então, (1 - V2/c2)-(1/2)
~ 1 + (1/2).V2/c2
e a eq.05 torna-se:
E ~ (2ro/r)[
(1 + V2/2c2) -
(1 + (v+V)2/2c2)
] = (2ro/r)[(V2
- (v+V)2)/2c2] = -(rov/rc2)(2V+v)
Estamos interessados em exemplos onde V
é maior que 1 cm/seg, ou quando V>>v de forma que podemos desprezar
o termo v comparado a 2V na equação acima. Então
E ~ - 2rovV/c2r
e de F = QE vem F
~ Q(- 2rovV/c2r)
~ (-Q.V/c)(2I/cr)
onde I =
rov
é a corrente no fio. O sinal menos indica uma força atrativa.
Realmente, na teoria da relatividade a força vista por um observador
em movimento não é a mesma que a vista por um observador parado.
Resulta-se que, se o cálculo acima for feito sem nenhuma aproximação
usando a teoria da relatividade, a resposta correta no sistema de
laboratório (a situação de nossa primeira ilustração) será uma força
atrativa de intensidade
Fmag. = (QV/c).(2I/cr)
...eq.06
Esta é a fórmula para a força magnética
entre uma carga Q em movimento (V) e um fio retilíneo percorrido por
uma corrente elétrica de intensidade I.
Mas por que as
forças magnéticas são tão intensas se são meramente pequenas
correções relativísticas da
lei de Coulomb?
De fato, vimos na dedução acima que o efeito relativístico é da
ordem de vV/c2 vezes a
força eletrostática exercida somente
pelos elétrons de condução, e sabemos que sua velocidade de
deslocamento v é tão pequena que v/c ~ 10-12. A resposta
a esta charada repousa na quantidade enorme de carga que se move no
fio. Vimos no Exemplo 2 que existem, num fio comum, aproximadamente
1022 elétrons de condução/metro; tipicamente 1020
vezes mais carga do que se pode aplicar ao fio para produzir forças
eletrostáticas.
... em construção (lembrete: racionalizar a
expressão final da Força de Lorentz).
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