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A
lâmpada fluorescente
(Quantum e
Plasma)
Prof.
Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
O 'plasma' na lâmpada fluorescente
No interior de uma lâmpada fluorescente ocorrem
fenômenos físicos muito interessantes. Aprendemos na escola que a
matéria pode se apresentar em três estados físicos, a saber,
sólido, liquido e gasoso. Entretanto, existe um quarto estado da
matéria que ocorre quando ela se transforma numa mistura de íons e
elétrons livres, justamente como no interior de uma lâmpada
fluorescente acesa. Analisemos melhor este fenômeno partindo da
ilustração abaixo.
No interior de um tubo temos dois
eletrodos e um gás sob baixa pressão. Se nos eletrodos for aplicada
uma tensão suficientemente alta, acompanhada de uma componente de
alta freqüência, os átomos do gás são excitados a ponto de
perderem parte de seus elétrons.
Temos então a formação de íons (átomos dotados de carga global
positiva/negativa resultante da perda/captação de elétrons) e
elétrons livres.
A tendência dos elétrons é dirigirem-se em sentido ao eletrodo que
esteja carregado positivamente, ou seja, o anodo, enquanto que os
íons dotados de cargas positivas dirigem-se em sentido ao eletrodo
carregado negativamente (denominado catodo).
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Quando um íon é atraído para o
catodo, o impacto que ocorre provoca a liberação de
elétrons. Esses elétrons contribuem para a excitação de
novos átomos, formando assim novos pares elétrons/íons.
Quando um elétron incide no anodo ele também, pelo impacto,
provoca a liberação de novos elétrons (secundá- rios) que
aceleram o processo de ionização. No entanto, como o anodo
está carregado positivamente, a maior parte dos elétrons
liberados é atraída e recolhida.
Usando eletrodos aquecidos (filamentos) pode-se facilitar a
emissão dos elétrons e conseqüentemente o processo de
ionização, como ocorre nas lâmpadas fluorescentes comuns.
Observe que a corrente que circula no interior do gás é
formada por portadores de cargas negativos (elétrons livres)
e positivos (tons do gás).
Nestas condições a mistura no interior do tubo, formada por
elétrons livres e íons corresponde ao que denominamos
"plasma".
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Evidentemente, com a possibilidade de haver movimentação de
cargas, o gás no interior do tubo se torna condutor.
A mobilidade de elétrons faz com que ocorram colisões entre
elétrons e outros átomos do gás que tendem a liberar novos
elétrons, formando assim novos pares elétrons/íons, mantendo o
processo. Os elétrons e íons que, por outro lado, chegam aos
eletrodos correspondentes, com o impacto conseguem liberar novas
cargas.
O processo é cumulativo, ou seja, uma vez que um pequeno pulso
libere alguns elétrons formando pares elétrons/íons, a liberação
de novos pares ocorre de uma forma rápida "enchendo" todo
o tubo de uma substância com características especiais. Essa
substância, formada principalmente por elétrons livres e íons, é
o que denominamos por "plasma".
No caso da lâmpada fluorescente, como
detalharemos, o processo todo de formação de plasma e condução da
corrente é acompanhado da emissão de radiação eletromagnética
(luz, ultravioleta, raios X etc.).
Assim, para que a lâmpada "funcione" é preciso que o gás
no seu interior, assim como a própria tensão de alimentação,
tenha algumas características especiais.
Podemos então explicar melhor o que ocorre, partindo de um
circuito típico de uma lâmpada fluorescente comum, apresentado na
ilustração abaixo.
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Quando o circuito da lâmpada
fluorescente é alimentado, o starter abre e fecha, criando
pulsos amortecidos de alta tensão e de alta freqüência que
dão inicio ao processo de ionização do gás. Com o
aparecimento de pares íons/elétrons que são atraídos
pelos respectivos eletrodos, temos impactos que liberam novos
elétrons.
Ocorre então um efeito de "avalanche" que acaba
por ionizar todo o gás que, então, se torna condutor.
Nessas condições (gás conduzindo), ocorre uma brusca queda
de tensão e o starter é "colocado fora de ação"
e deixa de funcionar, passando toda a corrente, agora, pela
lâmpada.
A ionização tem como efeito principal uma emissão de
radiação que se concentra principalmente na faixa
ultravioleta do espectro. Essa radiação incide no
revestimento de fósforo da parede interna do tubo e esse,
por sua vez, a converte em luz visível.
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O reator é um indutor de elevado valor
que funciona em conjunto com o starter. O starter típico é formado
por um capacitor em paralelo com uma pequena lâmpada a néon que
leva em seu interior um interruptor de lâmina bimetálica.
Quando estabelecemos a alimentação
neste circuito o capacitor, em conjunto com o indutor, formam um
circuito ressonante que é excitado pela abertura e fechamento do
contato bimetálico do starter. Este circuito gera uma altíssima
tensão que serve para ionizar os átomos no interior da lâmpada
fluorescente dando assim inicio ao processo de acendimento.
Ao mesmo tempo, a corrente que circula pelo reator e pelo reator e
pelo starter também passa pelos filamentos da lâmpada. A finalidade
dos filamentos é facilitar a liberação de elétrons secundários
quando os íons e elétrons do gás se chocarem contra eles,
aumentando assim a quantidade de pares elétrons/íons e com isso a
condução da lâmpada.
Quando a quantidade de elétrons/íons no gás se torna
suficientemente grande para que uma corrente intensa se estabeleça
pelo tubo, o starter é colocado fora de ação pois, a tensão passa
a ser insuficiente para ionizar o gás de seu interior (repare o
'circuito paralelo' lâmpada/starter). Nestas condições, ele
"abre" e toda a corrente que circula pela lâmpada é
suficiente para mantê-la em condução, com uma elevada ionização.
Os próprios filamentos (que funcionam como anodo e catodo) não
precisam mais ser aquecidos pela corrente para liberarem pares
adicionais elétrons/íons sendo "desligados" no processo
de desativação do starter.
Todo
starter para lâmpadas fluorescentes tem no interior uma lâmina
bimetálica e uma pequena quantidade de gás néon. Quando se aplica
os iniciais 110V a condução gasosa pelo néon inicia (a tensão
mínima de ionização do néon é cerca de 80V); essa corrente
passando pelo bimetal o aquece (efeito Joule), ele enverga e encosta
no outro terminal, fechando o circuito para o filamento da lâmpada
fluorescente. O filamento vai ao rubro, emitindo elétrons (efeito
Edson). Quando o bimetal esfria ele abre os contatos dentro do
starter e nessa fase ocorre a auto-indução no reator elevando a
tensão para cerca de 450V e, com isso, iniciando a ignição da
lâmpada. Com a corrente principal estabelecida, a tensão entre
terminais da lâmpada fluorescente e starter (circuito paralelo) cai
abaixo dos 80V. A lâmpada permanece acesa mas, o néon do starter
não conduz, o filamento permanece desligado.
Veja que a abertura e o fechamento do starter no momento do
acendimento não é só importante para gerar a tensão elevada que
dá inicio ao processo de ionização. Para que este processo ocorra
é preciso haver também uma certa componente de alta freqüência;
dai o fato dos sistemas de iluminação fluorescente gerarem um bom
ruído neste momento.
A emissão da radiação ocorre em função do tipo de gás que
existe no interior do tubo, de sua pressão e, também, de outros
fatores secundários (como a temperatura, a presença de campos
magnéticos etc.). Para as lâmpadas comuns, temos uma mistura de
alguns gases nobres como o neônio, argônio, hélio etc.) sob
pressão levemente inferior à atmosférica.
Com o tempo, por deficiências naturais de vedação, o ar pode
entrar e, com isso, a alteração da pressão fará com que, cada vez
mais, torne-se difícil ocorrer a ionização com a tensão
disponível. Isso explica porque as lâmpadas velhas piscam, piscam e
não acendem.
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Quando a ionização ocorre os átomos são excitados de modo que
seus elétrons passam para níveis de energia mais altos. A
volta desses elétrons aos níveis originais é acompanhada
da emissão de radiação eletromagnética. Esta radiação
se espalha pelo espectro, ocupando diversas faixas estreitas,
conforme se vê na ilustração. No geral, estas faixas
combinadas resultam em uma boa quantidade de radiação que
se concentra principalmente na parte ultravioleta do
espectro.
Assim, se usarmos tubos de quartzo para estas lâmpadas (que
são transparentes ao ultravioleta) poderemos aproveitar essa
radiação em diversas outras aplicações (apagamento de
memórias de chips para computadores, germicidas,
cinescópios de plasma etc.).
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No entanto, se quisermos luz para iluminar um ambiente, precisamos
converter esta radiação para a gama visível do espectro
eletromagnético. Isso se consegue através do revestimento da parede
interna do tubo com um ‘pó’ que, ao ser excitado pela radiação
ultravioleta passa a emitir luz branca.
A “cor da lâmpada fluorescente”, portanto, ‘não vem lá de
dentro’ e é sim, determinada pela composição química desse ‘pó’.
Uma crença comum entre as pessoas é que esse gás do interior
dessas lâmpadas é venenoso e que por isso o ferimento provocado
pelo seu vidro demora a cicatrizar. O perigoso, em caso de um corte,
é justamente o pó que reveste o vidro do tubo.
Análise
técnica e trabalho experimental
a) circuito com reator convencional
Num primeiro instante, tudo 'frio', o interruptor é ligado. O starter,
como sabemos, é uma pequena lâmpada néon cujo potencial de
ionização é cerca de 80 V, contendo no seu interior um interruptor
feito de lâmina bimetálica na condição de normalmente aberto.
A tensão aplicada entre os terminais desse interruptor, nesse
instante exatamente igual á tensão da rede elétrica, é suficiente
para ionizar o gás que envolve esse interruptor (a lâmpada néon
'acende') e, assim, a intensidade de corrente que passa a circular
pelo circuito série todo (reator + filamentos + gás néon) é bem
baixa (de 5 a 10 mA) devido á presença de um condutor gasoso (gás
néon ionizado) na série. Apesar de pouco intensa essa corrente é
suficiente para aquecer a lâmina bimetálica, a qual verga e fecha o
circuito, eliminando o condutor gasoso da série. Agora a corrente,
apenas limitada pela alta reatância indutiva do reator, inicia o
aquecimento dos filamentos. Esse aquecimento ao rubro propicia a
emissão de elétrons do filamento (efeito Edson) para o gás no
interior da lâmpada fluorescente toda.
Mas, como os contatos dentro da pequena néon estão fechados
(lâmpada néon apagada) e não há mais corrente através do gás, a
lâmina bimetálica esfria, verga em sentido oposto e abre o circuito
série interrompendo bruscamente a corrente elétrica. O colapso do
campo magnético no reator gera, por indução, um elevado pulso de
tensão que adicionado á tensão da rede (pois o interruptor geral
está fechado) é aplicada á lâmpada fluorescente.
Esse processo se repete ( normalmente
duas ou três vezes, com lâmpadas e starters novos), até que o pico
de tensão seja suficiente para ionizar o gás da lâmpada longa.
Nesse instante, a tensão sobre os terminais da lâmpada néon cai
rapidamente para uns 40 V, que é insuficiente para a ignição do
starter. O processo se estabiliza, a lâmpada longa permanece acesa,
até que desliguemos o interruptor geral.
O
reator está ali para limitar a corrente que circula através da
lâmpada (lembre-se, a resistência do gás ionizado, com o
acréscimo constante de elétrons vindos dos filamentos, tende a
zero) e, além disso, mantém a corrente e a tensão defasadas.
Para bem entender esse papel do reator, basta trocá-lo por uma
lâmpada de 100 W, e ver que é muito difícil fazer a lâmpada
fluorescente acender em 127 VAC. Em 220 VAC, dada a tensão
mais alta, o acendimento ocorrerá (e é por isso, que as lâmpadas
ditas mistas, que contém uma lâmpada incandescente e uma de
vapor de mercúrio na mesma ampola, só funcionam em 220 V).
Esse é um experimento recomendável para as Salas
de Aula; montar uma lâmpada fluorescente com seu circuito
todo bem visível (utilize uma prancheta vertical e grossos fios de
cobre para a fiação) e uma chave comutadora que permita trocar,
rapidamente, o reator por uma lâmpada incandescente.
Se
introduzirmos um circuito de controle de ângulo de condução com
tiristores ou TRIACs (dimmers comuns), além do problema exposto
acima, poderá ocorrer de selecionarmos um ângulo de condução no
qual a tensão seja insuficiente para disparar a ignição do gás ou
manter sua condução.
b)
circuito com reator eletrônico
Reatores eletrônicos, dos quais existem diversos tipos, funcionam de
modo algo diferente:
1 - Eles têm internamente um circuito retificador e um oscilador
transistorizado na casa dos kHz, alimentando um pequeno transformador
inversor, cuja saída é ligada à lâmpada;
2- Esse oscilador não é senoidal, tendendo à uma onda
retangular, portanto, o sinal de saída do transformador, conterá
picos breves de tensão muito alta acima da tensão de ionização da
lâmpada, e uma tensão média apenas um pouco acima da
tensão de manutenção. As pequenas diferenças entre a tensão de
saída e a tensão de manutenção da lâmpada, são ' absorvidas'
pela resistência interna do enrolamento secundário. Portanto, a
lâmpada estará sendo continuamente "reionizada" a cada
ciclo do oscilador.
Um
reator eletrônico para duas lâmpadas fluorescentes de 40W, que
utiliza dois MOSFET M1 e M2, é ilustrado abaixo, para uma simples
análise das etapas constituintes:
Lâmpadas
fluorescentes e os quanta
Essa inserção a respeito do ‘quantum’ originou-se de uma
pergunta feita ao autor, numa lista de discussão na WWW. Dada a
importância (e o interesse) para o nível médio, como divulgação,
vamos a uma introdução.
Introdução
O mundo dos átomos está cheio de coisas inesperadas. Quando
tentamos penetrar na estrutura interna do átomo, observamos coisas
estranhas que parecem contraditórias porque são muito diferentes de
nossas experiências com a matéria comum em larga escala. Elas
também não fazem sentido com nossas idéias habituais sobre
partículas e seu comportamento. Estamos conscientes de que alguma
coisa nova e incomum deve ser descoberta se desejarmos explicar os
fatos da natureza observados ao nosso redor.
Para quem já iniciou seus estudos da
Teoria Atômica, chamamos a atenção para as sérias contradições
que afligem o estudo da estrutura do átomo, conforme seu professor
já deve ter destacado.
Por um lado, deve ter dito ele, o átomo revelou-se como um ‘pequeno
sistema planetário’ com elétrons circulando em torno do núcleo;
por outro lado, salientou, encontramos uma estabilidade e uma série
de propriedades características completamente estranhas a um sistema
planetário.
Nessa breve divulgação, vamos começar por dar uma descrição
mais detalhada de outras observações não usuais a respeito dos
átomos e das partículas atômicas, e esperamos, com isso, abrir
caminho até os novos fenômenos que governam o interior dos átomos.
Não apresentaremos relato histórico. Infelizmente, no estágio
atual de desenvolvimento da ciência, é raro que uma descoberta seja
feita no momento em que poderia ser mais útil para nossa
compreensão dos fatos; em geral ela só é realizada depois que o
desenvolvimento tecnológico já criou os meios de se efetuar as
medidas necessárias.
Neste texto, destacaremos apenas um
conjunto de observações sobre as novas descobertas, dos três
que revelam características estranhas e incomuns do mundo atômico.
Esse primeiro conjunto engloba as descobertas dos estados
quânticos do átomo (o segundo
diz respeito à natureza quântica da luz, e o terceiro,
às propriedades ondulatórias das partículas materiais).
Estados
quânticos do átomo
Em 1913, James Franck e Gustav Hertz realizaram uma série de
experiências nas quais tentaram modificar as órbitas planetárias
dos elétrons no átomo. Eles raciocinaram da seguinte maneira: o
átomo parece resistir a qualquer modificação das órbitas
eletrônicas; tentemos modificar "à força" essas órbitas
para vermos de que maneira e até que ponto o átomo pode resistir.
Uma hipótese aceitável, no modelo do sistema planetário, leva a
crer que as órbitas dos planetas sejam modificadas se uma estrela
passasse perto de nosso sistema solar. Franck e Hertz planejaram uma
experiência que corresponderia, no mundo atômico, a um cataclismo
solar daquele tipo.
Em termos simples, a experiência foi a seguinte: temos um
recipiente cheio com um gás de átomos - por exemplo, átomos de
sódio ou hidrogênio. Fazemos passar através do gás um feixe
estreito de elétrons. Como os elétrons exercem intensa ação
elétrica uns sobre os outros, esperamos que um feixe de elétrons
que passe perto de um átomo exerça uma influência sobre os
elétrons orbitais do átomo e modifique suas órbitas, da mesma
maneira que a estrela modificaria a órbita da terra.
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Esta ilustração dá uma idéia geral
de uma experiência para medir as variações de energia
sofridas por elétrons quando colidem com átomos de um
gás.
Os elétrons saem de um emissor de
elétrons, são acelerados por uma diferença de potencial e
penetram na câmara central, com energia conhecida.
Nessa câmara, atravessam uma amostra
de gás (vapor de mercúrio). A energia que lhes resta depois
das colisões é medida na câmara da direita. |
Não podemos olhar diretamente as
órbitas eletrônicas para verificar se foram modificadas, mas
podemos descobrir indiretamente o que aconteceu. Fazemos com
que todos os elétrons do feixe tenham exatamente a mesma velocidade
quando penetram no gás. Qualquer modificação que os elétrons
produzam nos átomos estará associada com uma modificação na sua
própria velocidade. Essa previsão é conseqüência da lei da
conservação da energia. É necessário energia para alterar a
órbita de um elétron num átomo; portanto, se a órbita for
modificada por um elétron que passa por perto, esse elétron deverá
perder alguma energia. Velocidade é energia; portanto, a velocidade
do elétron será reduzida e essa redução pode ser observada quando
o feixe sai do outro lado do recipiente que contém o gás. O mesmo
aconteceria se uma estrela passasse pelo nosso sistema solar. Sua
passagem daria um empurrão na Terra, aumentando a energia da Terra e
diminuindo a energia da estrela.
O que deveríamos esperar, baseado no ‘modelo
planetário'?
Haveria todos os tipos de modificações de órbitas, pequenos e
grandes, dependendo de quão próximo do átomo houvesse passado o
elétron. Deveríamos esperar todos os valores de perdas de energia
(ou, às vezes, ganho) a partir de zero; a perda média deveria ser
menor quando o feixe atravessasse um gás mais rarefeito, pois, nesse
caso haveria menor número de passagens próximas a átomos.
Entretanto, os fatos observados foram completamente diferentes.
Quando a energia dos elétrons era menor do que um certo mínimo,
não se observava variação alguma na velocidade. Essa energia
mínima era bastante alta --- mais que cem vezes maior do que a
energia térmica de elétrons
em temperaturas habituais. Quando a energia era maior do que esse
mínimo, os elétrons perdiam certas quantidades especificas de
energia ou nenhuma energia. Essas quantidades específicas e também
a energia mínima são características do tipo de átomo do gás;
não dependem da densidade do gás nem de nenhuma outra
circunstância externa.
O que pode
significar esse estranho resultado?
Ele nos diz que não podemos modificar as órbitas dos elétrons no
átomo de maneira arbitrária. Ou elas não mudam, ou sofrem
alterações especificas e bastante grandes de energia. Nesse ponto,
entra o conceito de "quantum" de energia. A energia pode
ser fornecida a um átomo apenas em "quanta'' característicos -
nem mais, nem menos.
'Tudo se passa' como se o átomo aceitasse energia apenas em bocados
predeterminados. Não aceita uma pequena porção, mas apenas o
bocado completo. Cada átomo só pode aceitar bocados de energia
característicos.
Se oferecermos menos, o átomo absolutamente não reage .
Reage (muda o seu estado) apenas se lhe oferecemos a quantidade
necessária.
Essa situação é, certamente,
estranha a nossa imagem de um sistema planetário. Uma estrela que
passe pode fornecer qualquer quantidade de energia à Terra. Quanto
maior for a distância de passagem, menor será a quantidade de
energia transferida. Mas o resultado dessa experiência não é tão
surpreendente em vista do que já sabemos acerca do átomo. Ele
mostra que o estado do átomo tem uma estabilidade intrínseca.
Impactos fracos não podem modificá-lo; para consegui-lo é preciso
uma grande quantidade de energia. Deve haver alguma coisa que
conserva o átomo em seu estado normal característico, e essa alguma
coisa só pode ser vencida por grandes energias.
Esse fato não
poderia
estar relacionado com o fenômeno que dá origem à especificidade
dos átomos e que força sempre os elétrons para a configuração
característica de cada tipo especial de átomo?
Nesse ponto, precisamos ser mais quantitativos.
Qual é a energia mínima necessária para
modificar o estado de um átomo'?
Façamos, agora, uma pequena pausa na discussão, para saber como
são expressas as energias nos problemas atômicos. Medimos a energia
de partículas atômicas com uma unidade chamada
"elétron-volt", símbolo "eV". Definição do
elétron-volt: é a quantidade de energia que um elétron (devido à
sua carga elétrica) recebe/cede ao passar de um ponto a outro, cuja
diferença de potencial elétrico é de 1 volt (U = 1V). Essa unidade
substitui o "joule" (J) nas interações atômicas. Vamos
dar um pincelada nisso, em forma de perguntas (P) e respostas (R).
P:
De onde vem a energia elétrica?
R: A energia elétrica decorre da separação de cargas elétricas
num sistema. Visualize um sistema formado por dois lápis de cor, um
vermelho eletrizado positivamente e um azul eletrizado negativamente.
Devido à natural atração das cargas positivas e negativas, esse
sistema de dois lápis eletrizados terá energia elétrica mínima
quando estiverem juntos (estado natural --- energia potencial
elétrica nula). Para separar esses lápis, deve-se aplicar forças
que contrariem essa atração elétrica. O trabalho realizado por
essas forças externas ao sistema será a medida da quantidade de
energia potencial elétrica que eles lápis apresentarão quando
separados. Então, lápis eletrizados juntos = sistema isento de
energia potencial elétrica; lápis eletrizados separados = sistema
dotado de energia potencial elétrica. Esses dois lápis separados
têm agora algo que não apresentavam quando eletrizados e juntos.
Cada lápis apresentará uma energia potencial elétrica em relação
ao outro. Se referenciarmos um deles como 'energia zero' ou outro
armazenará, graças à sua carga elétrica, um certo 'tanto' de
energia potencial elétrica. Esse 'tanto' de energia elétrica, por
unidade de carga, caracterizará a tensão elétrica ou diferença de
potencial entre eles.
P:
Como medir essa tensão elétrica?
R: Vamos exemplificar
usando, de início, de uma bateria de automóvel. Uma bateria
armazena energia potencial química, ou seja, os componentes da
solução estão 'fora de seu estado natural'. Dizer que entre os
terminais dessa bateria existe uma tensão elétrica de 12V é o
mesmo que dizer que, cada 'coulomb' (1C) de carga elétrica, para
passar de um terminal a outro, deve receber/ceder 12 joules de
energia elétrica. Se ele passar 'por dentro' da bateria, ele recebe
esses 12 J (e a energia química da bateria diminui de 12J) e se ele
passar via circuito externo, cede 12J (para os elementos que
participam do circuito externo). Na tomada de sua casa a tensão
elétrica entre os dois 'furos' (terminais) é de 110V (nominal).
Esses terminais, no fundo, traduzem os terminais do gerador
eletromecânico que abastece sua casa com energia elétrica. Se você
liga um aquecedor elétrico nessa tomado, cargas começarão a
'circular' pelo circuito todo, de modo que, cada coulomb de carga que
passa pelo gerador, recebe 110J de energia elétrica e cada coulomb
de carga que passa pelo aquecedor cede 110J de energia (o aquecedor
transformará esses 110J de energia elétrica em térmica). Se, em
lugar de 1 coulomb de carga tomarmos, por unidade, o valor absoluto
da carga do elétron, a energia trocada com a bateria passaria a ser
de 12eV e a trocada com a tomada de 110eV.
Nesse último caso, os elétrons sairiam do terminal positivo do
gerador, passariam por dentro dele, e sairiam do terminal negativo
com a energia de 110eV; em continuação, sairiam desse terminal
negativo da tomada, passariam pelo aquecedor, entregando a ele os
110eV e retornando ao terminal positivo.
A tensão elétrica ou d.d.p. indica, portanto, quanto de energia
elétrica a unidade de carga recebe ou cede ao passar de um ponto a
outro.
O
elétron-volt (1eV) é a unidade de energia
potencial elétrica quando se toma como unidade de carga o
valor absoluto da carga do elétron (|e|) e da unidade de tensão, 1
volt (1V), como sendo a diferença de potencial entre os dois pontos
considerados. [ 1eV = 1|e|.1V ]. Como exercício, relacione as
unidades joule e eV.
Os
elétrons não saltam de um terminal da tomada para o outro devido ao
meio (ar) ser um mau condutor de corrente elétrica mas, se
aproximarmos suficientemente um terminal do outro, os elétrons
vencerão essa dificuldade, saltando. Observamos esse fenômeno sob a
forma de uma faísca.
O elétron-volt
é uma unidade de energia conveniente para nossos problemas. Por
exemplo, no ar, á temperatura ambiente, as moléculas voam em todas
as direções com energia cinética média de 1/30 de elétron-volt.
Essa é a energia média por átomo de qualquer tipo para o movimento
térmico á temperatura ambiente; é, por exemplo, a energia das
oscilações térmicas irregulares que os átomos
efetuam num pedaço de metal, aquelas que causam a fusão a
temperaturas mais elevadas, quando as forças que mantêm os átomos
no lugar são sobrepujadas.
Voltemos agora às experiências de
Franck e Hertz, nas quais energia é transmitida a átomos por meio
de um feixe de elétrons. Verificou-se que a energia limiar de um
átomo de sódio --- isto é, a energia mínima que ele é capaz de
receber e adicionar ao seu conteúdo de energia --- é de 2,1
elétron-volts; no átomo de hidrogênio, essa energia mínima chega
a 10 elétron-volts. São energias muito mais altas do que as
energias do movimento térmico à temperatura ambiente. Imediatamente
ligamos esse fato àquele outro de que os átomos de um gás á
temperatura ambiente conservam sua identidade e não são modificados
apesar das muitas colisões sofridas. A energia dessas colisões
está bem abaixo da energia limiar, isto é, abaixo do menor quantum
de energia que o átomo pode aceitar. Portanto, as experiências de
Franck-Hertz mostraram, à sua maneira, a surpreendente estabilidade
dos átomos, dando a ela um aspecto quantitativo. O átomo permanece
inalterado e estável enquanto os impactos recebidos são menos
energéticos do que uma energia limiar bem definida, e essa energia
tem um valor característico para cada elemento.
Sem dúvida, Franck e Hertz "mediram" a
estabilidade atômica.
Os resultados das experiências de Franck.Hertz. vão ainda
além.
Elas nos informam não apenas da quantidade mínima de energia que os
átomos aceitam, mas nos dão a série completa de valores
específicos da energia que o átomo é capaz de aceitar. Apenas
esses valores podem ser fornecidos ao átomo; ele rejeita qualquer
coisa que fique entre esses valores.
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Por exemplo, o átomo de hidrogênio aceita apenas as seguintes
quantidades: 10 eV, 12 eV, 12,5 eV e 12,9 eV, e valores mais
elevados e mais próximos uns dos outros.
O átomo de sódio, por exemplo, aceita somente 2,1eV, 3,18 eV, 3,6
eV, 3,75 eV, etc.
A ilustração ao lado é uma representação gráfica dessas
energias, para o hidrogênio. Cada energia corresponde a um
certo estado de movimento do elétron no átomo. Portanto,
cada linha representa um estado particular que o átomo pode
assumir.
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Ao que parece, todos os outros estados situados entre esses são
proibidos. Os estados permitidos são chamados estados quânticos. O
estado de mais baixa energia é o estado fundamental; é nesse estado
que o átomo está geralmente; os outros são chamados estados
excitados. A energia limiar é a diferença entre a energia do
primeiro estado excitado e o estado fundamental. Esses estados foram
destacados para o plasma da lâmpada fluorescente no texto inicial.
Estes fatos estão em contraste agudo com o que esperamos a partir do
comportamento do modelo planetário.
Por que a energia dos elétrons dentro do
átomo seria quantizada?
O que nos impede de acrescentar uma quantidade
arbitrariamente pequena de energia a um átomo?
Se compararmos a energia de um átomo a uma conta bancária, tudo se
passa como se o banco só permitisse a retirada e o depósito de
determinadas quantias, de maneira a manter a conta em certos valores
predeterminados.
Consideremos agora mais detalhadamente os diferentes estados
quânticos. Em geral designamos a série de valores permitidos para a
energia como o "espectro" do átomo. O espectros da
ilustração acima (para o hidrogênio), assim como outros (não
ilustrados), revelam uma propriedade geral muito importante dos
estados quânticos:
quanto mais alto é o valor da energia acima do estado fundamental,
menor é o intervalo entre os estados quânticos (repare isso, na
ilustração). Essa é uma propriedade observada em todos os sistemas
atômicos; para grandes energias de excitação, os estados
quânticos tornam-se tão próximos uns dos outros que praticamente
se confundem. Para energias elevadas, os efeitos quânticos
desaparecem. O átomo pode ser, então, afetado por qualquer
quantidade de energia, como um sistema planetário comum o seria.
Tudo se passa como se as estranhas regras a respeito da conta
bancária fossem abandonadas para contas muito altas, pois os
depósitos e retiradas permitidos tornam-se cada vez menores para
grandes contas.
Verificou-se que esse fato é de importância muito mais fundamental
do que parece. Atualmente sabemos que, se introduzimos grandes
energias nos átomos, eles se comportam como sistemas planetários.
Essas condições podem ser realizadas em temperaturas extremamente
altas, que podem ser produzidas por meio de fortes descargas
elétricas em gases. Nessas condições, o gás forma o chamado
"plasma",(e voltamos à
lâmpada fluorescente) e os átomos perdem suas propriedades
características. Um plasma de neônio gasoso, no qual cada átomo
tem 10 elétrons, tem as mesmas propriedades que um plasma de sódio
gasoso, no qual cada átomo tem 11 elétrons.
Não há mais órbitas eletrônicas selecionadas; não há mais
radiação característica. Reina o caos no plasma; é um caos de
temperaturas extremamente elevadas, raramente encontrado na Terra,
exceto quando produzido em nossos laboratórios. Entretanto, no
espaço cósmico, esse estado é encontrado nos gases expelidos pelo
Sol e por outras estrelas
quentes.
No plasma, desaparecem todas as
características de ordem pelas quais distinguimos um átomo de
outro. À ordem e a diferenciação ocorrem apenas quando os átomos
estão em seus estados de baixa energia, os quais estão afastados
uns dos outros na escala de energia. Nesses estados (baixa energia),
encontramos a estabilidade que conduz a formas e órbitas especificas
e, conseqüentemente, a propriedades químicas e físicas
especificas. Para energias elevadas, todas essas características
desaparecem. Tenhamos presentes, entretanto, que foram as
propriedades características de 'baixas' energias que definiram
nossas concepções. O comportamento caótico dos átomos em energias
elevadas é exatamente o que esperaríamos de um modelo planetário,
isto é, de sistemas planetários colidindo uns com os outros em
altas velocidades.
NOTA:
O nome "plasma" não tem nada a ver com o plasma
sanguíneo, ou com a matéria viva da célula. A expressão deriva do
fato de que as primeiras realizações de um plasma atômico em um
tubo de descarga assemelhavam-se ao plasma biológico.
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