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O empuxo de
Newton
(sistemas
acelerados)
Prof. Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
Introdução
Época, dois mil e
duzentos (e tantos) anos atrás. Arquimedes, de Siracusa,
repentinamente levanta-se da tina de um banho público e sai
gritando pelas ruas: - Eureka! Eureka! Os jornais do dia,
ainda em papiro, com o tradicional sensacionalismo
publicaram:
"Princípio do Homem Nu".
"Nosso grande mestre das filosofias naturais descobriu hoje
o segredo da coroa .....blá, blá, blá....... e enunciou o
seguinte:
Quando um
corpo é imerso, total ou parcialmente, ele desloca uma certa
porção de liquido empurrando-o. O líquido, por sua vez,
aplica no corpo imerso, uma força vertical para cima, cujo
valor é igual ao peso da porção líquida deslocada".
Época, trezentos e setenta (e
tantos) anos atrás. O jovem inglês lsaac Newton, exercitando
a mente, chegou à conclusão que deveria haver uma
proporcionalidade entre força e aceleração. Essa conclusão,
publicada por entidade acadêmica, ficou conhecida como a
Segunda Lei de Newton ou
simplesmente, Princípio Fundamental da Dinâmica. No ensino
médio ele não é apresentado com sua roupagem histórica.
Os alunos atuais conhecem-no assim:
"Força é igual a massa vezes aceleração".
Os professores atuais preferem,
via de regra, enuncia-lo assim:
"Em um sistema de referência inercial, a aceleração que um
corpo apresenta é diretamente proporcional à resultante das
forças externas que nele atuam e inversamente proporcional à
sua massa; e escrevem:
a = R/m".
Outros, preferem enuncia-lo assim:
"Para sistemas inerciais, a resultante das forças que agem
sobre um corpúsculo é dada pelo produto de sua massa pela
aceleração que apresenta; e escrevem: R = m.a
, para deixarem explícito o caráter vetorial".
Desde os tempos de Arquimedes e
Newton, muitos aparelhos, invenções, teorias e demonstrações
têm sido feitas, utilizando-se dessas leis. Hoje, parece
bastante normal ao aluno que, uma é um princípio fundamental
na Hidrostática e a outra é um princípio fundamental na
Dinâmica e, "como cada macaco tem seu galho" tais leis
continuam a ser aplicadas, cada uma em seu setor.
Generalizando
Como esse é um 'Site' de sugestões, acrescento mais essa.
Vamos fundir as duas numa só, enunciando:
"Quando um corpo
é imerso, total ou parcialmente, num fluido acelerado, esse
(o fluido) aplica sobre aquele (o corpo) uma força (N),
que é proporcional ao produto da massa de fluido deslocado
(m'), pela aceleração do fluido (a); ambas as
grandezas vetoriais, N e a têm mesma direção e
sentido ou, analiticamente,
N = m'. a ”.
Essa força, de caráter geral,
deveria ser batizada de Empuxo de Newton (proposta do
autor), mantendo-se a denominação de Empuxo de Arquimedes,
que é um principio "prático", bem particular, para os casos
"terrestres" de fluído em equilíbrio sob a ação da
gravidade.
No fundo, ainda que por causas
distintas, ambos os empuxos têm um fator comum, a saber, um
gradiente de pressão.
Empuxo é força existente em
corpo imerso num fluido, desde que haja um gradiente de
pressão (ou de densidade) nesse fluido. No caso do empuxo de
Arquimedes, esse gradiente de pressão é proveniente do
próprio peso do liquido. Uma camada comprime, pelo seu peso,
a seguinte e assim, progressivamente, na vertical para
baixo, vai determinando um gradiente de pressão.
É um caso muito particular, pois
o gradiente de pressão (crescendo verticalmente para baixo)
tem o mesmo sentido do peso (ou da aceleração da gravidade)
e o empuxo de Arquimedes é vertical para cima. Empuxo de
Arquimedes e aceleração da gravidade, em corpos imersos em
fluido em equilíbrio, têm sentidos opostos. Quem ainda não
percebeu a "coisa" verá, mais adiante, que isso é um caso
único no mundo das forças e acelerações; é um caso restrito
a forças de campo e, totalmente inválido para forças
inerciais.
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Bem, antes de
continuar o assunto, e só para pensar, vou
propor duas situações envolvendo o novo
conceito:
Considere A e B dois
pontos do espaço sideral isento de massas
próximas (é uma zona de imponderabilidade).
Em A temos um recipiente fechado contendo água.
Ainda no seu interior, há um cordel preso a uma
das paredes por um extremo e ligado a uma
bolinha de pingue-pongue pelo outro. O sistema
está em equilíbrio no referencial das estrelas
fixas. Para acelerar tal recipiente temos duas
propostas.

Uma é fazer surgir,
"misteriosamente", em B um enorme corpo de massa
M. As forças decorrentes da ação das massas
incumbem-se de acelera-los na razão inversa de
suas massas.
Outra, é acoplar ao recipiente um
foguetinho e dispará-lo, na direção AB e sentido
de A para B.
Os gases acelerados para trás aplicarão no
recipiente uma força para frente, acelerando-o,
na direção AB.
Aqui abre-se um
ponto de discussão: Vale o postulado relativista
da equivalência entre referencial acelerado e
gravitação?
Em cada caso, qual a
configuração do cordel e bolinha? |
Continuemos.
O empuxo de Newton é lei bem mais geral, porém, também
proveniente de um gradiente de pressão (ou de densidades).
Se um fluido acelera para a
direita, o gradiente de pressão no fluido, por sua inércia,
cresce para a esquerda, determinando no corpo imerso um
empuxo de Newton para a direita, na mesma direção e sentido
que a aceleração. Para clarear bem as idéias, vejamos três
situações, envolvendo acelerômetros de pêndulo, em
translação acelerada.
(1) pêndulo
simples, (2) pêndulo simples imerso num líquido, com A
< P e (3) pêndulo invertido com flutuador (bóia)
imerso num líquido, com A > P
Na coluna (a), mostramos três
sistemas físicos (acelerômetros de pêndulo) montados num
carrinho base, com aceleração horizontal para a direita. A
coluna (b) mostra os diagramas do corpo-livre e a coluna (c)
mostra os diagramas vetoriais. Nas ilustrações, A é o
empuxo de Arquimedes, N é o empuxo de Newton, P
é o peso da bolinha, T é atração aplicada pelo cordel
e R é a força resultante.
Em (1), na esferinha do pêndulo,
agem apenas duas forças: seu peso P e a tração T
determinada pelo fio ideal.
A componente de T, na
vertical (T.cosq)
equilibra o peso P (P = T.cosq)
; a componente de T, na horizontal (T.senq),
não tem equilibrante, ela representa a resultante das forças
atuantes na esferinha (R = T. senq).
O sistema de equações:
R=T.senq
P=T.cosq
fornece: R = P.tgq
e, como R = m.a e P = m.g, vem m.a = m.g.tgq
ou
a = g.tgq
o que faz do dispositivo um
acelerômetro.
Em (2), na esferinha do pêndulo,
mais densa que o líquido envolvente, agem quatro forças: o
peso da esferinha (P = m . g), a tração devida
ao cordel (T), o empuxo de Arquimedes (A),
devido a um gradiente de pressão ocasionado pelo peso do
liquido e o empuxo de Newton (N) determinado pelo
gradiente de pressão ocasionado pela inércia do líquido
acelerado. Para destacar A e N lembramos que:
se o liquido é água, por exemplo, a pressão da água no fundo
do recipiente é maior que em seu topo e, a pressão na parede
interna traseira é maior que na parede interna dianteira.
Assim, na vertical, a força hidrostática é maior na base da
esferinha que no seu topo e dai nasce A [detalhes na
ilustração abaixo, em (a)]; na horizontal, a força nascida
da pressão sobre a esferinha é maior da esquerda para a
direta do que da direta para a esquerda [detalhes na
ilustração abaixo, em (b)], e a resultante delas é o empuxo
N.
(a) Gradiente de
pressão devido ao peso, forças decorrentes desse gradiente e
sua resultante A;
(b) Gradiente de pressão devido à inércia, forças
decorrentes desse gradiente e sua resultante N;
Destaque: A e g sentidos opostos; N e a,
mesmos sentidos
A componente de T,
na vertical, é T.cosq
e, na horizontal, é T.senq.
Na vertical, A + T.cosq
equilibram o peso P; temos:
P = A + T.cosq
{1}
Na horizontal N + T.senq
constitui a resultante R:
R = N + T.senq
{2}
Sendo P = m.g, R = m.a (m =
massa da esferinha), de {1} e {2} vem:
mg - A = T.cosq
{3}
ma - N = T.senq
{4}
Dividindo-se, membro a membro,
{4} por {3}, tem-se:
ma - N
--------- = tgq
{5}
mg - A
Recordemos que A tem
intensidade igual ao peso do liquido deslocado, logo, A =
m'.g; indicando-se por m' a massa do líquido deslocado pela
esferinha.
Lembremos também, que o empuxo
de Newton é dado pelo produto da massa de líquido deslocado
pela aceleração do líquido, logo, N = m'. a.
Substituindo-se em {5} , A e N,
respectivamente, por m'.g e m'.a, teremos:

o que faz do dispositivo em
questão, também, um acelerômetro.
Perceba-se que, esse resultado
(a = g.tgq),
tanto para o acelerômetro (1) como (2), são independentes
das densidades dos fluidos, das massas e dos volumes das
esferinhas dos pêndulos. Por isso são chamados de
acelerômetros: não importa formato, constituição,
líquido, volume etc, conhecido g, a é função exclusiva de tgq
(ou vice-versa).
Para o acelerômetro (3), vamos
nos limitar ao equacionamento, visto ser análogo ao caso (2)
:
Na horizontal : R = N - T.senq
{6}
Na vertical: A = P + T.cosq
{7}
De {6} e {7} vem:
(N -
R)/(A - P) = tgq
Sendo N=m'.a, A=m'.g, R=m.a
e P=m.g vem:
a(m' -
m)/g(m' - m) = tgq
ou, novamente, a = g.tgq
Os
resultados mostram que os acelerômetros "terrestres"
dependem de g, logo, num satélite em órbita ou zonas de
imponderabilidade, eles não funcionam. O empuxo de
Arquimedes desaparece (pois é apenas uma lei "prática",
"terrestre", particular), pois não há mais as forças de
campo. Os pêndulos ficariam com os cordéis 'frouxos “, pois
não há quem os tracione!”.
Eis uma solução "elástica" para
tais situações: uma bóia é mantida imersa num líquido por
duas molas cujas constantes elásticas k são ajustadas para
serem as mesmas em todas as direções.
Acelerômetro
inercial. Forças em relação às 'estrelas fixas'
Nesse acelerômetro, a indicação
será dada pelo vetor deslocamento d. Do diagrama
vetorial obtemos:
R = N - k.d
m.a = m'.a - k.d
a(m'-m) = k.d
Sendo m' = u'.V
e m = u.V, onde u'
e u são, respectivamente, as densidades absolutas do liquido
e da bóia, com u' > u e V o volume da bóia, vem:
a.V(u' - u) = k.d
ou
k
a = -----------------.d
V(u' - u)
O deslocamento d pode ser
alterado atuando sobre k, V, u' e u.
Fixados
esses valores, a aceleração a (no sistema inercial) e d são
diretamente proporcionais.
Ainda na
Sala 05 - Dinâmica, desse 'site' você encontrará,
para reforço, outras aplicações dos acelerômetros,
incluindo-os na rotação uniforme. O empuxo de Newton é,
assim, substancialmente ressaltado.
Respondendo à
questão proposta
A questão, para pensar,
colocada no início de nossas explanações, é agora facilmente
respondida:
Primeira
hipótese: No campo de gravidade devido à massa M (colocada
no ponto B), todas as porções de nosso sistema (recipiente,
água, cordel e bolinha) adquirem mesma aceleração, devido às
forças de campo. No líquido não há gradiente de pressão, não
há empuxo de Arquimedes ou de Newton. A configuração do
cordel e bolinha é qualquer.
Segunda hipótese: No caso do foguetinho, surge gradiente de
pressão, devido à inércia da água, o empuxo de Newton
empurra a bolinha para a DIREITA até que o cordel estique
aplicando força T. A resultante de N e T acelera a bolinha
para a direita.
O
recipiente, a água, o cordel e a bolinha terão a mesma
aceleração para a direita. Não há empuxo de Arquimedes.
Talvez
alguém relute em não entender porque na primeira situação
(forças de campo) não há empuxo de Newton, uma vez que o
sistema está acelerado, e porque na segunda situação não há
empuxo de Arquimedes.
Na primeira
situação, todas as partículas da água já estão sob a ação de
forças externas (decorrentes da ação das massas) e nenhuma
quer ficar individualmente para trás (para obedecer ao
princípio da inércia), por isso, não precisam ser empurradas
quer pelas outras partículas de água ou pela parede
"traseira" do recipiente. Não há forças normais 'de
contato'. Cada partícula é independente por si só, apenas
estão juntas por forças internas de coesão (que não
determinam acelerações). Como as inércias dessas partículas
já foram "vencidas" pelas forças de campo e já estão
aceleradas, não há necessidade de alguma outra força (que
seria o empuxo de Newton) para acelerá-las.
Na segunda
situação, não há forças de campo. Cada partícula de água
quer manter a velocidade atual (princípio da inércia). Para
acelerá-la, a partícula de trás deve-lhe aplicar uma força
normal (fluido não resiste a esforços tangenciais). A
partícula que precede a de trás deve aplicar força normal de
intensidade duplicada (pois tem que acelerar duas
partículas) e assim sucessivamente, até que chega na parede
"de trás", que tem que aplicar a força necessária para
acelerar toda a massa de água.
Dessa distribuição de forças normais decorrentes das
inércias das partículas de água é que surge o empuxo de
Newton sobre a bolinha, pois para as partículas de água, não
interessa quem vem pela frente, tudo se passa como se fosse
água. Daí a expressão do empuxo de Newton. Se no lugar da
bolinha houvesse água, de massa m', a resultante das forças
nela, também seria m'.a.
O gradiente de pressão nasce da inércia da massa de água e
não do peso da água; por isso não há empuxo de Arquimedes.
Ressalte-se, ainda, que o sistema não está em equilíbrio.
Encerramos
propondo uma situação mais "terrestre", simplesmente
colocando nosso recipiente com o pêndulo de bóia dentro de
um elevador em queda livre. Discuta essa situação.
Que o
empuxo inercial de Newton lhe seja útil. Segue-se, nessa
Sala, os exemplos para aplicação desse conceito "Empuxo de
Newton" o qual, possivelmente, é inédito nos textos de
Mecânica.
O autor agradece
críticas e comentários sobre esse trabalho.
Veja na
Sala 05 - Dinâmica, texto 31 os exemplos referentes ao
Empuxo de Newton.
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