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A Caixa Preta
Prof. Luiz
Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
O problema da
Caixa Preta surgiu na
eletrotécnica. É dada ao engenheiro uma caixa lacrada, com
terminais de entrada, aos quais se podem aplicar quaisquer
tensões elétricas, choques ou outras perturbações e,
terminais de saída, a partir dos quais efetua observações. O
experimentador deve deduzir o que puder a respeito de seu
conteúdo.
Por vezes o problema surgiu
literalmente, quando um visor de bombeiro lacrado e secreto
apresentou defeitos e foi preciso decidir, sem que se
abrisse a caixa, se valia a pena voltar para consertá-lo ou
se devia ser abandonado.
Outras vezes o problema surgiu na prática, como quando um
técnico de telefonia considerava um conjunto complicado de
relações entre testes aplicados e resultados observados, no
meio de uma massa de máquinas em funcionamento que não
deviam ser desmontadas por razões insuficientes.
Embora o problema tenha surgido
em forma puramente elétrica, seu âmbito de aplicação é muito
amplo. Um clínico que examina um paciente com lesão cerebral
e afasia pode estar tentando, por meio de certos testes e
observação da fala, deduzir algo dos mecanismos envolvidos.
E o psicólogo, que observa um rato em um labirinto, pode
agir sobre o rato com vários estímulos e pode constatar os
vários comportamentos do rato; juntando os fatos pode tentar
deduzir algo acerca do mecanismo neurônico que não pode
observar. Exemplos são os mais variados.
A teoria da
Caixa Preta é, no entanto,
ainda mais ampla na aplicação do que estes estudos
profissionais. A criança que tenta abrir uma porta deve
manipular a maçaneta (a entrada) de modo a produzir o
desejado movimento na lingüeta (a saída) ; e deve aprender
como controlar uma pela outra sem estar capacitada a ver o
mecanismo interno que as liga. Na nossa vida cotidiana
confrontamo-nos, a cada instante, com sistemas cujos
mecanismos internos não estão completamente abertos à
inspeção, e que devem ser tratados por métodos apropriados à
Caixa Preta.
O experimentador não interessado
na Teoria da Caixa Preta
comumente encara qualquer invólucro como mero aborrecimento,
pois atrasa a sua resposta à pergunta: "o que há dentro
desta Caixa?". Assim a "vida" separa o joio do trigo.
O problema da Caixa Preta é uma das armas pesadas da
Cibernética. Vencer a Caixa é o porque de seu estudo. Sem
tal assunto jamais teríamos, por exemplo, o modelo atômico
de Thomsom, ou o de Rutherford, ou da emissão termiônica, ou
o dos semicondutores. É a Caixa Preta que norteia a
concepção dos modelos em todos os ramos do conhecimento
humano. Que belos modelos o do Quantum de Energia, o do
Calor, o das Ondas de De Broglie, só para citarmos alguns.
Ao defrontarmos com uma Caixa,
não devemos fazer qualquer suposição, "a priori", acerca da
natureza da Caixa e seu conteúdo. Essa caixa 'misteriosa'
poderia ser algo, digamos, que tivesse acabado de cair de um
disco voador. Admitiremos, todavia, que o experimentador
possua certos recursos para atuar sobre ela (por exemplo,
incitando-a, incidindo uma luz sobre ela), e certos recursos
para observar seu comportamento (por exemplo, fotografando
-a, registrando sua temperatura).
Agindo sobre a Caixa, permitindo que ela o afete e a seu
aparelho registrador, o experimentador está, por sua vez,
acoplado á Caixa, de modo que ambos formam junto um sistema
com realimentação:
Caixa <==>
Experimentador
|______________________|
'feedback'
A fim de que o acoplamento seja
efetuado, de algum modo definido e reprodutível, a "entrada"
da Caixa deve ser especificada (mesmo que seja arbitrária e
provisoriamente) ; de mesmo modo deve-se proceder com a
"saída". Afinal de contas, daquilo que caiu do disco, não se
sabe qual é 'o lado da frente' ou o 'lado de trás'!
A
Investigação
Um homem não pode entrar duas
vezes no mesmo rio; e tampouco realizar duas vezes a mesma
experiência. O que lhe é dado fazer é executar outro
experimento que difira do primeiro apenas em algum aspecto
que se julga desprezível. Os dados básicos são geralmente da
forma:
Tempo
----------
---------- |
Estados de entrada e saída
---------------- -------------------
---------------- ------------------- |
onde, em cada seqüência de
tempos, os estados das várias partes da Caixa, entrada e
saída, são registrados.
Assim, a Caixa que caiu do disco voador pode conduzir ao
protocolo (protocolo, no sentido que o usa a Computação --
comunicação de dados) seguinte :
|
Tempo |
Estado |
|
11h 18min |
não fiz nada --- a
Caixa emitiu um "hum" constante a 240 Hz; |
|
11h 19min |
levantei o comutador
com um sinal 'K' e a nota subiu até 480 Hz e
permaneceu constante; |
|
11h 20min |
acidentalmente puxei
o botão assinalado com '!' --- a Caixa
incrementou 20oC na sua temperatura;
etc. |
Assim, todo sistema,
fundamentalmente, é investigado pela coleta de um longo
protocolo, traçado no tempo, mostrando a seqüência de
estados de entrada e saída.
Desse modo, se um sistema possui
estados possíveis de entrada * e # e possíveis estados de
saída f, g, h e j um protocolo típico pode ser:
|
Tempo |
1 |
2 |
3 |
4 |
5 |
6 |
7 |
8 |
9 |
10 |
11 |
12 |
|
Estado |
*g |
*j |
*f |
*f |
*f |
#f |
#h |
#h |
*h |
*j |
#j |
*h |
Esta forma, embora possa parecer
artificial, é de fato típica e geral. Representará qualquer
coisa, desde a investigação de uma rede elétrica pela
introdução de uma tensão senoidal e observação da saída, até
uma entrevista psiquiátrica onde são colocadas as questões *
e # e provocadas as respostas g, f, h e j. Assim, os dados
primários de qualquer investigação de uma Caixa Preta
consistem de uma seqüência de vetores com duas componentes:
estado entrada ....... estado
saída
O próximo passo consiste na
análise acurada desse protocolo (um generoso comprimento de
registros), tendo-se como perspectiva deduzir sua
representação canônica.
Muitos detalhes são considerados nessa etapa, observando,
por exemplo, a consistência dos vetores. Nada foi aventado
sobre a perícia do experimentador em manipular a entrada.
Os
modelos ... e o isomorfismo
Feito o levantamento, obtida a
representação canônica, em geral seguida de um gráfico (e
depois de muitas peripécias!), constrói-se um modelo
esquemático do conteúdo da Caixa. O modelo especifica ou
identifica o "mecanismo interno", a menos de um isomorfismo.
"lsomorfo" significa,
grosseiramente, "similar no modelo". Trata-se de um conceito
do mais amplo alcance e de máxima importância para todos os
que desejam abordar acuradamente assuntos onde o "modelo"
desempenha uma parte. Eis uns exemplos:
(a) Um negativo fotográfico e a
sua cópia, no que se refere ao molde da foto, são isomorfos.
Os quadrados do negativo aparecem como quadrados na cópia;
os círculos aparecem como círculos; as linhas paralelas em
uma permanecem como linhas paralelas no outro. Assim, certas
relações entre as partes dentro do negativo aparecem com as
mesmas relações na cópia, embora as aparências, no que se
refere à luminosidade, sejam diferentes, na verdade
exatamente opostas.
(b) Um mapa e a região que ele representa são isomorfos (se
o mapa for preciso!). Os relacionamentos na região, tais
como formarem as cidades A, B e C um triângulo eqüilátero,
ocorrem inalterados sobre o mapa, onde os pontos
representativos para A, B e C formam também um triângulo
eqüilátero.
Importante, os modelos não
precisam ser visuais. Se uma pedra é lançada verticalmente
para cima com uma velocidade inicial de 15m/s, há um
isomorfismo entre o conjunto de pontos no ar tal que no
instante t a pedra esteja h metros acima do solo, e o
conjunto dos pontos do gráfico que satisfazem à lei:
h = 15.t - 5.t2
(h em m, t em s)
As linhas ao longo das quais o
ar flui (em velocidades subsônicas) através de um aerofólio
formam um padrão idêntico às linhas ao longo das quais passa
uma corrente elétrica num líquido condutor através de um não
condutor do mesmo formato que o aerofólio. Os dois modelos
são iguais, embora as bases físicas sejam diferentes.
Um estudo bem mais aprofundado sobre tratamentos em
isomorfismo pertence ao campo da Cibernética.
Homomorfismo ... Caixa simplificada
Falamos em "homomorfismo" quando
pudermos (necessariamente com perdas de detalhes!)
substituir uma Caixa, por outra que seja isomorfa de outra
mais simples. Desse modo diz-se: a Caixa N equivale a uma
versão simplificada da Caixa M. Esse homomorfismo é
acentuadamente comum em biologia.
Nenhum sistema biológico foi por
enquanto estudado em sua plena complexidade, e nem o será,
provavelmente, por muito tempo ainda. Na prática, o biólogo
sempre impõe tremenda simplificação antes de encetar o
trabalho: se estiver observando um pássaro a construir seu
ninho, não vê o intrincado padrão de pormenorizadas
atividades neurônicas no cérebro do pássaro; se estiver
estudando como o lagarto escapa de seus inimigos, não repara
nas mudanças iônicas e moleculares particulares em seus
músculos; se, em particular, dedicar-se ao estudo de uma
tribo em conselho, não nota os numerosos processos
pormenorizados que se desenvolvem nos indivíduos.
O biólogo assim, estuda costumeiramente apenas fração do
sistema com que se defronta. Qualquer afirmação que faça é
somente meia "verdade" : simplificação. Em que medida podem
ser justificadamente simplificados os sistemas? Podem os
cientistas trabalhar devidamente com meias "verdades"?
O homem prático, por certo,
jamais duvidou disso.
Vejamos se é possível tornar
clara e exata a posição.
O conhecimento pode sem dúvida
ser parcial e no entanto completo em si mesmo. O exemplo
mais contundente talvez ocorra em conexão com a
multiplicação ordinária. A verdade completa acerca da
multiplicação é, por certo, muito extensa, pois incluem os
fatos relativos a todo par possível, inclusive itens tais
como:
14 792 x 4,183584 = 61
883,574528
Há, no entanto, uma porção bem
menor do todo que consiste simplesmente nos seguintes fatos:
par x par = par
par x ímpar = par
ímpar x par = par
ímpar x ímpar = ímpar
O importante aqui é que, embora
este conhecimento seja apenas uma minúscula fração do todo,
é completo em si próprio (trata-se, de fato, do primeiro
homomorfismo considerado em matemática). Creio que tal
exemplo preenche a finalidade proposta.
O assunto Caixa Preta não
encerra aqui, há tratados de centenas de páginas sobre ele.
Pretendemos apenas alertá-lo de sua importância e decidimos
por sua inclusão aqui na Sala de Sugestões
Didáticas.
Em exposições, mostre uma Caixa
Preta com apenas um componente em seu interior, como por
exemplo um imã. Externamente monte um carrinho ou um vagão
de trem de brinquedo, com um ímã preso nesse vagão. Apenas
com elementos externos o expectador deve inferir ou que há
dentro da caixa-preta.
Essa informação, tipo "só há um
componente dentro da caixa", ou outras mais simplórias
ainda, você não encontrará nas Caixas de sua vida!
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