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Referenciais,
suas mudanças e conseqüências na Física
(parte
1)
Preliminares
— Sistema de referência, abreviadamente referencial, é toda estrutura
geométrica concebida para determinar bi-univocamente um ponto qualquer no
espaço.
Coordenadas
geográficas — À superfície do Geóide é quadriculada
mediante linhas meridianas e linhas paralelas. Plano
meridiano contém o eixo Norte—Sul da Terra; sua intersecção com a
superfície do geóide é uma meridiana. Plano paralelo (em
particular, o plano do equador terrestre) é normal ao eixo Norte—Sul;
sua intersecção com a superfície do geóide é uma paralela. Em
cada ponto P concebe-se ainda uma reta pelo centro O da Terra; ela
intercepta a esfera celeste no Zênite (em cima) e no Nadir (em baixo).
Por
um ponto qualquer P na Terra passam um meridiano, um paralelo e um
eixo radial OP. O ângulo diedro l
entre o meridiano de Greenwich (marco zero dos meridianos) e o meridiano
por P é a longitude de P. O ângulo j
entre o plano do equador (marco zero dos paralelos) e o raio OP é a
latitude geocêntrica de P. À partir da superfície do geóide
mede-se a altitude h de P. Longitude l
, latitude j
e altitude h determinam a posição do ponto P na Terra (e
reciprocamente); são elas as coordenadas geográficas do ponto P.
À correspondência biunívoca entre o ponto e suas coordenadas
representa-se na forma P(l,
j,
h). Por exemplo: São Paulo (l
= 47o W, j
= 24o S, h = 700 m).
Coordenadas
cartesianas — São as mais freqüentemente adotadas em
Geometria Analítica e em Física. Referencial cartesiano compõe-se de três
eixos Ox, Oy e Oz perpendiculares dois a dois. Pode-se representar tal
referencial por (Oxyz). Seus vetores de base (versores) são
respectivamente i, j, k.
No
plano horizontal xOy dispensa-se o eixo Oz, mas pode ser útil conservar o
vetor unitário k (por exemplo, para indicar rotações vetoriais).
Na parte 2 desse trabalho veremos as transformações entre
referenciais cartesianos no plano, o caso do vetor de intensidade
constante, as Fórmulas de Poisson e a conceituação das derivadas
absolutas e relativas.
Outros
referenciais — No plano,
usam-se também coordenadas polares (j,
r) (ilustramos a seguir). No espaço
tri-dimensional, podem ser convenientes coordenadas esféricas (j,
q, r)
ou coordenadas cilíndricas (j, q, z).
aplicam-se também outros sistemas de coordenadas. é assunto desenvolvido
em tratado de geometria Analítica.
Classes
de Referenciais
Nota histórica
— Acreditavam os antigos que a Terra fosse estacionária no centro do
universo. Presunção compreensível, "pois é a Terra o habitat do
ser humano, criação suprema". Admitindo este modelo geocêntrico
do universo, Cláudio Ptolomeu (100 — 170 aprox.) elaborou sua
teoria matemática. Embora artificiosa, ela dominou o pensamento dos astrônomos
durante um-e-meio milênios, até o inicio da idade moderna.
A
favor de considerável simplificação, Nicolau Copérnico (1473 —
1543), propôs, em 1507, o modelo heliocêntrico do sistema planetário:
os planetas descrevem órbitas circulares concêntricas no Sol, o que
ainda requer correção. Foi Tycho Brahe (1546 — 1601) quem, mediante
medições minuciosas e precisas, coletou os dados que facultaram a
Johannes Kepler (1571 — 1630) enunciar as três leis do movimento dos
planetas em torno do Sol (órbitas, áreas, períodos). Estava assim
concebida a Cinemática do Sistema Planetário.
Galileu
Galilei (1564 — 1642) investigou fenômenos mecânicos junto à superfície
da Terra. Em seguida, Isaac Newton (1642 — 1727) sintetizou
conhecimentos parciais de seus precursores Kepler e Galileu, enunciando as
três leis básicas da Dinâmica. Assim construiu a base racional
que lhe permitiu estabelecer a Lei de Atração Universal. Desta,
decorrem as Leis de Kepler como corolários. Nasceu a Mecânica Celeste.
Na
evolução destas idéias e de sua formulação matemática desempenha função
primordial o sistema de referência adotado. Ptolomeu adotou
referencial fixo na Terra, hoje denominado “referencial de Foucault”.
Copérnico, Tycho Brahe e Kepler adotaram referencial com origem no Sol e
eixos apontando para estrelas fixas: é “referencial de Copérnico”.
Newton adotou este mesmo referencial de Copérnico, que ele supôs fixo no
“espaço absoluto”.
A
evolução acima descrita sumariamente foi realização gigantesca,
envolvendo não só aspectos racionais, mas também aspectos psicológicos
e religiosos.
Quanto ao aspecto racional, argumentemos com um comentário: imagine-se
uma praça ampla e desnuda (por exemplo, um campo de pouso).
No centro da praça e com referencial fixo nela, está o guarda de
transito (A). Um caminhão de plataforma leva uma cadeira giratória na
qual está sentado o engenheiro (R); um motor faz a cadeira girar
lentamente. O caminhão, e outros veículos na praça, dão voltas em
torno de (A), circulares ou não. (R) gira uniformemente em sua cadeira,
à qual esta ligado seu referencial. Ele deve descrever o movimento de
outros veículos; para cada um deles, em instantes sucessivos, deverá
medir azimute e raio-vetor, por exemplo. O mesmo fará (A).
Em
comparação com a descrição dada por (A), a descrição fornecida por
(R) é muito mais complicada, pois (R) gira em relação ao pavimento, ao
passo que (A) está fixo nele. Identifica-se (R) com Ptolomeu, (A) com Copérnico,
Kepler e Newton.
Referenciais
inerciais e acelerados — Modernamente, é básico o Referencial
galático: seus eixos são fixos em galáxias. Tal referencial é que
corresponde melhor ao “espaço absoluto” vislumbrado por Newton.
Referencial
galileano executa translação reta
e uniforme em relação a referencial galático. Em relação a
referencial galático, sabe-se que o Sol executa movimento reto e
uniforme, levando consigo o sistema planetário todo. Portanto,
referencial de Copérnico é referencial galileano.
Referenciais
galáticos e galileanos são os únicos “referenciais inerciais”. Só
em relação a eles valem a Lei da Inércia e a Lei de Ação e Reação.
Em relação a eles manifestam-se exclusivamente “forças de interação”.
Qualquer
outro referencial é acelerado. Em relação a referencial inercial (galático
ou galileano), “referencial acelerado” executa movimento qualquer que
não translação reta e uniforme. A Lei da Inércia não se aplica. Alem
das forças de interação manifestam-se também forças de inércia, que
não seguem a Lei de Ação e reação.
Por
ser fixo na Terra, referencial de Foucault acompanha os movimentos desta
em relação a referencial de Copérnico: translação elíptica em torno
do Sol, composta com rotação uniforme em torno do eixo Sul—Norte. O
período deste movimento é chamado “dia sideral” e tem duração de
86 164 s. Referencial de Foucault é “referencial acelerado”, pois sua
translação não e reta nem uniforme (com efeitos exíguos), e é
combinada com rotação (com efeitos consideráveis). Todavia, em condições
ordinárias (fenômenos de pequena duração em confronto com o dia,
velocidades baixas etc.) a Lei da Inércia vale muito aproximadamente, forças
de inércia podem ser desprezadas.
Ao
iniciar o estudo de Física, é em relação a referencial de Foucault que
se observam os movimentos ensaiados ('air-track', queda livre, balística
etc.). Referencial fixo no laboratório da escola, no pátio da escola, no
campo de futebol, na rodovia, é referencial de Foucault. Incoerências não
se percebem, pois eventuais medições são grosseiras, as velocidades são
baixas, os percursos são pequenos face as dimensões do globo terrestre,
as durações são pequenas face ao dia. Isso deve ser despertado no
aluno.
Todavia,
há fatos que revelam a rotação da Terra; mencionamos:
a)
Pêndulo de Foucault: em relação ao edifício onde se monta o pêndulo,
o plano de oscilação gira em sentido oposto ao da rotação da Terra.
b)
Queda livre de grande altitude: pedra abandonada no alto da Torre Eiffel
(320 m) desvia-se da vertical para Este, atingindo o solo a 8 cm de
distancia da prumada.
c)
Tiro de artilharia de longo alcance, de Sul para Norte: o projétil
desvia-se para Oeste no hemisfério Sul, para Este no hemisfério Norte.
Citamos
ainda: desvio de correntes marítimas e atmosféricas, formação de
ciclones (furacões), desgaste desigual de trilhos de ferrovia, erosão
assimétrica nas margens de rios (Lei de Baer).
Veículos
terrestres, aquáticos e aéreos podem realizar acelerações e decelerações
elevadas, e deflexões rápidas. Em decorrência, podem surgir esforços
consideráveis na estrutura, inclusive em peças do motor (por exemplo,
efeito giroscópico). Surgem também efeitos no fluxo de combustível e
comburente.
Nota:
Os exemplos acima citados estarão propostos e resolvidos nas Parte 6 e 7
desse trabalho.
O
exposto é motivação para se estudar mudança de
referencial inercial para referencial acelerado, ou vice-versa. Na
ordem natural estudaremos mudança de referencial primeiro em Cinemática,
depois em Dinâmica.
Importante:
Este trabalho está em fase de edição. Críticas/Sugestões
são bem vindas.
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