horror vacui. Galileu foi o primeiro a
cogitar por que esse horror cessava subitamente na
altura de dezoito cúbitos, ou cerca de 10 metros, como
diríamos. Aquilo era obviamente um efeito, que
reclamava uma causa.
Isto levou Evangelista
Torricelli (1608-1647), discípulo de Galileu, a
especular sobre a altura a que o horror vacui
podia elevar uma coluna de mercúrio. Sabia que o
mercúrio é cerca de quatorze vezes mais pesado que a
água, e por isso suspeitou que a referida altura seria
de um quatorze avos de dezoito, ou cerca de 21/2 pés
(cerca de 0,76 metros). A experiência foi realizada com
o auxílio de um tubo de vidro de cerca de 6 pés de
comprimento, que foi fechado em uma das extremidades.
Encheu o tubo com mercúrio, vedando a extremidade aberta
com um dedo. O tubo foi então invertido e colocado com a
extremidade vedada pelo dedo mergulhada em uma tina
aberta de mercúrio, conforme se ilustra.
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Barômetro de Torricelli
Embora
inicialmente encha o tubo, o mercúrio cai a
uma altura de cerca de 29 polegadas (75 cm),
quando a extremidade é aberta em uma tina de
mercúrio.
Torricelli
concluiu que a pressão da atmosfera apenas
pode sustentar uma coluna de mercúrio
daquela altura. |
Quando o dedo foi retirado,
o mercúrio do tubo desceu para uma altura de cerca de
trinta polegadas acima da superfície do mercúrio da
tina. Nenhum ar podia ter entrado no tubo, e assim o
espaço livre acima da coluna de mercúrio foi
subseqüentemente chamado de Vácuo de Torricelli.
Torricelli suspeitou que a
coluna de mercúrio era sustentada pela força nascida
pela pressão atmosférica que atuava sobre a superfície
livre do mercúrio. Atribuiu as pequenas variações do
nível da coluna às alterações diárias da pressão
atmosférica. Mais tarde, Blaise Pascal (1623-1662)
descobriu que a altura da coluna era continuamente
reduzida à medida que o aparelho era levado por uma
montanha acima. O instrumento de Torricelli é agora
chamado de barômetro.
O
Principio do Barômetro
Podemos compreender o princípio do barômetro supondo
que o ar têm peso. Imaginemos uma coluna de ar, tendo
sua seção reta com uma área de 1 polegada quadrada. A
coluna estende-se da superfície da Terra até o topo da
atmosfera. Sabemos agora que tal coluna de ar pesa 14,7
libras, se desprezarmos as pequenas variações que
ocorrem de dia para dia. Qualquer outra coluna de ar
tendo a mesma área de seção pesa precisamente o mesmo. É
conveniente, portanto, referirmo-nos à pressão do ar
¾ o peso ou a força
que atua na unidade de área. A pressão da atmosfera é
simplesmente igual a 14,7 libras por polegada quadrada (
1 quilograma-força por centímetro quadrado).
Observamos que a pressão‚
independente da área da seção que estivermos
considerando. Se selecionarmos uma área de 10 polegadas
quadradas, a coluna de ar pesará dez vezes mais, e a
pressão será exatamente a mesma.
Devemos a Pascal o passo
seguinte para nossa compreensão do barômetro. Em 1653,
ele mostrou que a pressão exercida sobre um fluido
(líquido ou gás) é transmitida igualmente em todas as
direções. Sabemos que a atmosfera pressiona a superfície
do mercúrio com uma pressão de 14,7 libras por polegada
quadrada. De acordo com o princípio de Pascal, essa
pressão é exercida em todas as partes do mercúrio.
Ela também atua no mercúrio
que está no fundo do tubo. Mas não há ar no topo do
tubo, capaz de pressionar a coluna de mercúrio. A
pressão atmosférica no fundo do tubo é contrabalançada
somente pela coluna de mercúrio. Como o mercúrio é tão
mais pesado que o ar, uma coluna de trinta polegadas
pesa precisamente o mesmo que uma coluna de ar que tenha
a mesma seção, e que se estenda até ao topo da
atmosfera. As duas colunas se equilibram exatamente,
porque ambas produzem a mesma pressão sobre o
reservatório de mercúrio.
Nota do autor: Para explicar
isso hoje, basta mencionar que o mercúrio da cuba age
simplesmente como uma balança de pratos iguais e de
diâmetro igual ao do tubo; em um dos pratos coloca-se a
coluna de ar e no outro a coluna de mercúrio.
Como Pesar o Ar
Utilizando a bomba de ar, tanto Guericke como Boyle
verificaram mais tarde o fato de que o ar tem peso .
Isto foi feito pesando um recipiente de metal ou vidro
antes e depois de o ar ter sido expelido dele. Ambos os
cientistas verificaram que o recipiente perdeu peso
quando o ar foi removido. Boyle descobriu que "a
proporção da gravidade (peso) do ar para a água, com o
mesmo volume, é de 1 para 938". Em seus Discursos e
Demonstrações sobre Duas Novas Ciências, Galileu
apresenta a relação como sendo 1: 400. O dado
verdadeiro, para a temperatura ambiente e ao nível do
mar, é de cerca de 830.
A
Elasticidade do Ar
Boyle publicou os resultados de suas experiências
com a bomba de ar (seu "novo motor pneumático") em 1660.
Essas experiências sugeriram-lhe que o ar tem uma certa
elasticidade.
A pressão aplicada a um
volume de ar confinado obriga-o a comprimir-se em um
volume menor. Quando essa pressão é removida, o ar
recupera seu volume anterior.
Após ler o livro de Boyle,
Richard Towneley sugeriu ao autor uma hipótese "que
supõe que as pressões e expansões estão em proporções
recíprocas (inversas)". Imaginou, em outras palavras,
que dobrando a pressão exercida sobre o ar faria seu
volume reduzir-se à metade. Boyle logo provou que a
idéia de Towneley estava correta, e esta se tornou
conhecida como lei de Boyle.
Boyle utilizou um tubo curvo
para sua experiência, como se mostra na parte (a) da
ilustração a seguir.
Aparelho de
Boyle para medir a "mola de ar"
A perna menor do tubo foi
hermeticamente fechada, e a perna maior ficou aberta e
em contato com a atmosfera. Então, ele derramou mercúrio
no tubo e inclinando freqüentemente o tubo,
permitiu que escapasse uma parte do ar preso na perna
menor. Após muitos ajustamentos, o mercúrio elevou-se
exatamente na mesma altura, em ambas as pernas. A
pressão do ar na perna fechada era então necessariamente
igual à pressão atmosférica que pressionava o mercúrio
na perna aberta. Se as duas pressões fossem desiguais, o
mercúrio não teria subido tão alto na perna que tivesse
a pressão maior. Assim sendo, Boyle concluiu que o ar
encerrado na perna fechada tinha uma pressão igual a uma
atmosfera ¾
14,7 libras por polegada quadrada.
Ele então derramou mais
mercúrio, como na parte (b) do diagrama, até que o ar
encerrado na perna menor fosse reduzido por condensação
(compressão), ocupando apenas metade do espaço que
ocupava ..., anteriormente; lançamos nossos olhos para a
perna maior do tubo ..., e observamos, com prazer e
satisfação, que o mercúrio do tubo maior estava 29
polegadas mais alto que o outro.
Podemos compreender este
resultado relembrando a experiência de Torricelli. O ar
que pressiona o mercúrio na perna aberta da parte (a) é
igual em pressão a uma coluna de mercúrio de 29 ou 30
polegadas de altura, dependendo da pressão atmosférica.
Uma tal coluna de mercúrio
produziria uma pressão de 1 atmosfera, a pressão inicial
atuando na parte fechada. Na parte (b), Boyle verificou
que uma coluna de mercúrio de 29 polegadas de altura
reduziu o volume do ar encerrado à metade de seu volume
inicial. Entretanto, devemos adicionar a essas 29
polegadas outras 29 ou 30 polegadas adicionais de
mercúrio, equivalentes à pressão atmosférica. Afinal de
contas, a pressão atmosférica continua pressionando o
mercúrio na perna aberta.
É claro, portanto, que a
pressão do ar encerrado na parte (b) corresponde a cerca
do dobro da pressão do mesmo ar na parte (a).
Igualmente, a redução do volume foi produzida
dobrando-se a pressão que atua sobre o ar encerrado.
Boyle repetiu a experiência
para muitas pressões e volumes diferentes, encontrando
que o volume era sempre inversamente proporcional à
pressão aplicada. Em termos matemáticos,
Volume proporcional a
(1/pressão) ou
Volume = k/pressão ou
V = k/P onde k é uma
constante de proporcionalidade, dependendo das unidades
nas quais são medidos o volume e a pressão.
O
Inicio da Química Científica
Os alquimistas, iatroquímicos e metalurgistas tinham
obtido importantes resultados práticos na altura da
metade do século dezessete, mas pouco tinham feito para
promover uma compreensão científica dos processos
químicos. O desenvolvimento da ciência da Química é um
exemplo clássico da interdependência da experiência e da
teoria. Ressalta a importância de combinar os fecundos
fatos experimentais com as idéias teóricas iluminadas
que levam à compreensão e à unidade. Embora as teorias
de Aristóteles fossem estéreis sem a prova experimental,
o uso da experimentação sem a orientação teórica foi um
trabalho cego. Antes que pudesse emergir uma ciência da
massa de fatos químicos conhecidos, teria que surgir uma
teoria que estivesse em estreita concordância com a
experiência.
Três
grandes obstáculos permaneciam no caminho da evolução da
Química.
O primeiro era o fato
ainda não reconhecido de que o ar
¾ agora uma
substância pesada ¾
entra em muitos processos químicos como um componente ou
reagente invisível.
O segundo era a
crença errônea de que o fogo é o elemento universal de
análise, por meio do qual os compostos químicos
são separados em seus elementos.
O terceiro era a
severa limitação colocada diante dos teoristas pelo
pequeno número de elementos básicos.
Os aristotelianos ou
peripatéticos acreditavam ainda nos quatro antigos
elementos de Empédocles: terra, água, ar e fogo. Os
seguidores de Paracelso favoreciam outros princípios
ou elementos: sal, enxofre e mercúrio. Dependendo da
preferência pessoal, outros selecionavam um ou dois
elementos de cada lista.
O pequeno número de
elementos básicos levou a atribuir o mesmo nome a muitas
substâncias diferentes. Também a falta de uma lista de
elementos e compostos aceita por todos levou à confusão
e à falta de compreensão mútua entre os químicos.
O fato de que qualidade
ocultas, espíritos e formas substanciais
fossem invocadas para explicar as reações químicas
confirmava a opinião geral de que a Química era uma
espécie de mágica ou, na melhor das hipóteses, uma arte.
As pesquisas de Galileu na
mecânica tinham estabelecido um modelo de pesquisa
científica em uma ciência afim. Era tempo agora de uma
reavaliação crítica das teorias químicas comuns da
época. Também se fazia necessário um método científico
para conduzir e interpretar a experimentação química.
Boyle e Hooke penetraram
nesse vazio intelectual e lançaram os fundamentos da
ciência da Química.
O
Químico Cético
Dos muitos livros escritos por Boyle, o mais
importante foi O Químico Cético, que apareceu em
1661. Boyle começou atacando a idéia de que há somente
um pequeno número de elementos químicos fundamentais.
Ele compara essa preconcepção do mundo a um homem
tentando decifrar um livro no qual "ele fosse
familiarizado com apenas três letras". "O Livro da
Natureza", observou ele, pode necessitar de mais que
três ou quatro elementos para sua compreensão. Boyle
tinha finalmente banido a idéia dos gregos de que a
Química podia, como a Geometria, ser desenvolvida
logicamente, partindo de alguns poucos princípios
auto-explicativos. Prosseguiu mais além, dividindo todas
as substâncias puras em duas classes. Uma delas continha
as substâncias que haviam, até ali, resistido a todas as
tentativas de decomposição ou divisão em substâncias
mais simples que elas próprias. A essas ele chamou de
elementos verdadeiros. A segunda classe de
substâncias puras inclui aquelas que, por um meio ou por
outro, podem ser decompostas em substâncias mais
simples. A essas, ele chamou de compostos.
A idéia de que as
preconcepções teóricas deviam dar lugar aos fatos
experimentais tinha finalmente encontrado um campeão
entre os químicos.
Boyle atacou também a noção
de que o fogo é o método universal de separação de todos
os compostos em seus elementos.
Salientou que o vidro não
pode ser "analisado" pelo fogo, muito embora todos os
químicos soubessem que ele contém minerais (areia e
óxido de cálcio) e as cinzas de plantas queimadas (soda
ou potassa). Acrescentou que mesmo quando o fogo separa
uma substância em novos corpos químicos, estes não são
elementos necessariamente. Para ilustrar, a madeira
produz fuligem e cinzas quando queimada, e óleo,
espíritos, água e carvão, quando destilada. Seguramente,
todas estas substâncias não são elementos.
Boyle também observou a
importância do ar nas reações químicas. Se o carvão for
queimado em ar livre, será reduzido a cinzas, mas não
se calcinará de maneira alguma se for aquecido ao rubro
em um vaso fechado. Seu interesse pelo ar e pelo fogo
quase levou Boyle à descoberta do oxigênio. Ele
compreendeu que apenas uma parte do ar era necessária
para a combustão:
"Deve haver no resto da
atmosfera alguma substância singular devido à qual o ar
é tão necessário à manutenção da chama."
Com a ajuda de sua bomba de
ar, Boyle mostrou também que alguma coisa existente no
ar é necessária para a vida animal. Embora tivesse
falhado em identificar essas "partes" do ar, ele deu
vida à idéia de uma substância vital contida no ar. Cem
anos depois, Lavoisier iria provar que o oxigênio é
necessário tanto para a vida como para a combustão.
Hooke e outros expandiram as
idéias de Boyle nos campos da combustão e da respiração.
Hooke mostrou que a parte do ar consumida por uma chama
é a mesma parte consumida na respiração. Demonstrou
também que um rato viveria mais tempo em um vaso
contendo ar comprimido do que em um outro contendo ar à
pressão normal. Em 1663, Wren sugeriu que o ar contém
vapores salitrosos que sustentam a vida, e Hooke
estendeu o conceito para incluir a combustão. Em 1665,
Hooke provou experimentalmente que as sementes
necessitam de ar para se desenvolverem.
Muito progresso tinha sido
conseguido, desde a invenção do barômetro e da bomba de
ar. O ar tomara-se conhecido como uma substância
material que sustenta a vida e influencia certas reações
químicas. Representava um terceiro estado da matéria. A
compressibilidade ¾
conforme descrito pela Lei de Boyle
¾ era uma
característica da matéria no estado de vapor.
A teoria da matéria teve que
levar em conta este fato. Demócrito ensinara que a
matéria consiste de átomos distintos separados por
espaços vazios, conceito este que se encaixava bem com a
observação da compressão. Assim, a idéia do átomo
parecia muito mais plausível do que nas épocas
anteriores. A ocasião parecia propícia para um grande
desenvolvimento teórico da Química, mas este não veio
senão muito tempo depois.
O calor, por exemplo, era
ainda um elemento químico, em vez de um ramo da Física.
Ao contrário do ar, os espíritos ainda não eram
compreendidos como substâncias químicas em estado
gasoso. Os golpes de discernimento que ocorreram aqui e
ali estavam destinados a serem asfixiados pela mera
especulação, perdendo-se para os outros cientistas. A
troca de comunicações era pequena entre os químicos,
devido a uma tradição de segredo e à falta de uma
terminologia precisa que facilitasse a comunicação.
Alguns progressos nessas áreas estavam então começando a
ocorrer na Mecânica, sob a influência de Newton e
outros. Não obstante, os químicos não tinham uma noção
adequada dos progressos realizados pelos físicos do
século dezessete. Ainda transcorreria uma centena de
anos às apalpadelas, antes que a precisão dos físicos se
transmitisse à arte da Química. A revolução da Química
não podia ocorrer até que os químicos tivessem
apreendido suficientemente a Física para manter ambas as
ciências constantemente diante do espírito.