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Lenha na
fogueira
(Temperatura
e calor)
Prof. Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
Introdução
Tudo começou no século XII. Avançou até o século
XVI. Foi uma devastação total nas florestas inglesas. A
lenha era usada para aquecer as casas no inverno e
também para as indústrias que começavam a se instalar.
No século XVII já não havia
mais lenha suficiente. Os ingleses recorreram ao carvão
de pedra. E aqui começa um importante capítulo da
Física.
As minas de carvão de então
eram superficiais mas, com o esgotamento dessas jazidas,
começaram a abrir buracos e galerias cada vez mais
profundos. Essas minas freqüentemente ficavam inundadas
de água (devido aos lençóis subterrâneos) e era
necessário bombear essa água para fora para extrair o
carvão.
A máquina a vapor foi
inventada para este fim específico
¾
bombear a água para esvaziar as minas.
O que é o calor?
Quanto calor é necessário fornecer a um corpo para
aumentar sua temperatura?
Como se pode realizar trabalho, produzir energia, a
partir do calor?
Estas perguntas são
respondidas pela Termodinâmica,
que é uma parte da Física que se desenvolveu justamente
da tentativa de compreender e de aperfeiçoar a máquina a
vapor.
Da Grécia antiga há relatos
sobre como produzir movimento por meio do calor. Há
citações sobre como as portas de um templo se abriam
"sozinhas" quando era aceso um fogo no altar (o ar
dentro do altar era aquecido e se expandia, assim
causava o movimento das portas). Você pode construir uma
"engenhoca" dessas para abrir portas "misteriosamente".
Eis o plano de construção:
Todavia, não havia máquinas
que funcionassem continuamente à base de calor.
Havia moinhos e indústrias
incipientes que eram movidas por rodas d'água, mas isto
só era possível em locais onde havia quedas d'água.
A primeira máquina a vapor
foi construída em 1698, mas era pouco eficiente e só se
tornou de importância econômica e social depois de
aperfeiçoada durante cerca de setenta anos. Foi nesse
período também que as idéias fundamentais do estudo do
calor se tornaram mais claras. Ainda não havia uma
distinção entre temperatura e quantidade de calor.
Depois ficou evidente que eram necessárias estas duas
grandezas para que se pudessem descreverem coerentemente
os fenômenos observados. Ficou patente que: para
aumentar a temperatura de um corpo deve-se fornecer
calor a ele, como, por exemplo, uma panela com água no
fogo. Quanto mais calor a panela receber do fogo, mais
alta será sua temperatura.
Constatou-se que, para
atingir uma certa temperatura, por exemplo, para fazer a
água ferver, a quantidade de calor necessária vai
depender da quantidade de água: para fazer ferver dois
litros, o tempo (a quantidade de calor) será
aproximadamente o dobro do que para um litro. Isto
mostra que quantidade de calor e temperatura são coisas
distintas. Além do mais, se em vez de água houver óleo
ou outra substância na panela, o calor que precisa ser
fornecido para atingir a mesma temperatura é novamente
diferente: as diferentes substâncias, mesmo em volumes
(ou pesos) iguais, precisam de diferentes quantidades de
calor para atingir a mesma temperatura final.
O
que é então o calor?
Acreditava-se, no século XVIII, que era uma substância
invisível que podia penetrar em qualquer corpo, chamada
calórico. As explicações de então era algo assim:
O calórico era atraído
pelos átomos das substâncias, mas era auto-repelente.
Formava-se uma nuvem de calórico em torno de cada átomo
e estas nuvens se repeliam entre si, evitando assim que
os átomos se aproximassem demais. A temperatura dependia
da densidade de calórico na superfície do corpo. Para
aumentar a temperatura, fornecia-se calórico ao corpo.
Isto aumentava não só o calórico na superfície, mas
também a repulsão entre os átomos, fazendo com que o
corpo aumentasse de volume.
Explicava-se assim o fato de
os corpos se dilatarem quando a temperatura aumenta.
A teoria do calórico
explicava quase todos os fenômenos térmicos e foi aceita
durante todo o século XVIII. Ainda hoje a parcela da
população não científica (e que pensa sobre estes
fenômenos) julga o calor como se fosse um fluido, e
mesmo entre os cientistas muitas palavras e muitas
idéias vêm dessa teoria. No entanto, ela foi abandonada,
em meados do século XIX, porque ficou claro que o calor
é uma forma de energia que passa de um corpo a outro e
que é devida às energias de movimento de todos os átomos
do corpo.
Se o corpo é sólido, o
movimento de seus átomos é de vibração em torno de uma
posição de equilíbrio: quanto maior a temperatura, mais
intensas estas vibrações.
Se é um gás ou um líquido,
seus átomos (ou moléculas) se deslocam com velocidades
tanto maiores, quanto maior for a temperatura.
Há muitas transformações
possíveis de outras formas de energia em calor e
vice-versa. Por exemplo, quando dois corpos sólidos são
esfregados um sobre outro, produz-se o calor: era assim
que os índios faziam fogo. Uma observação famosa deste
tipo foi feita pelo conde Rumford, um aventureiro e
cientista americano, na Bavária, em fins do século
XVIII.
Ele estava fabricando
canhões para o potentado local, e para isto um tarugo de
bronze precisava ser furado por uma broca de aço, para
se fazer a alma do canhão (o furo do cano). Ele observou
que o atrito da broca com o canhão produzia calor
continuamente, mesmo quando a broca já tinha perdido o
seu corte. Parecia haver um reservatório infinitamente
grande de calórico que fornecia o fluido à broca e ao
canhão enquanto os dois estivessem se movimentando com
atrito.
Aliás, quem já utilizou uma
furadeira elétrica, sabe que sempre a broca esquenta e
precisa ser resfriada com água para não se destemperar a
altas temperaturas.
Quando a broca está cega
(sem corte), ela esquenta muito mais. A energia que é
gasta no motor que faz a broca girar (Rumford usava uma
parelha de cavalos em vez de motor), aparece como calor
que aquece a broca e a peça que está sendo furada.
Quando um ferro de passar
roupa é ligado, a corrente elétrica que passa dentro faz
ele ficar quente: é energia elétrica sendo transformada
diretamente em calor. Reações químicas também liberam
calor: quando comemos alimentos, a digestão (que
consiste numa série de reações químicas) produz calor
que, entre outras coisas, mantém a nossa temperatura
próxima de 37°C.
Se não houvesse fornecimento
contínuo de calor ao nosso corpo, ele logo se resfriaria
até ficar à mesma temperatura do ambiente, por exemplo,
20°C: é o que acontece na morte. Um cadáver adquire a
mesma temperatura dos objetos em volta dele, como se
fosse uma pedra ou um pedaço de madeira. Os corpos vivos
só mantêm uma temperatura mais alta do que o ambiente
graças à energia que recebem pela alimentação.
O calor pode dar lugar a
outras formas de energia: a máquina a vapor produz
trabalho ou energia mecânica a partir do calor.
Um termopar é um dispositivo
que produz energia elétrica quando é aquecido; é
utilizado (nos termostatos) para controlar a temperatura
e mantê-la constante. Por exemplo, pode se fazer com que
seja ligado a um aquecedor sempre que a temperatura de
um local aquecido caia abaixo de um valor
preestabelecido.
Calor é uma energia diferente das outras
O calor é uma forma de energia. Assim como existe
energia mecânica, elétrica, química, nuclear, existe
também energia térmica e calor.
Entretanto desde o início da
termodinâmica ficou claro que
calor
é uma forma especial de energia, diferente das outras.
É energia em forma caótica, desordenada.
É possível transformar energia mecânica totalmente em
energia térmica (e, posteriormente, em
calor); também é possível
transformar energia elétrica totalmente em calor. Mas
não é possível transformar
totalmente calor em energia mecânica ou em energia
elétrica.
Para se produzir trabalho ou
eletricidade a partir do calor, é necessário sempre
ter-se um excesso de calor e jogar-se grande parte dele
fora. Isto foi percebido, já em 1824, por um jovem
cientista francês, Sadi Carnot,
que procurava um jeito de tornar a máquina a vapor mais
eficiente: gastar menos carvão ou lenha e realizar mais
trabalho.
Na caldeira, o fogo aquece a
água transformando-a em vapor a alta temperatura e,
conseqüentemente, a alta pressão.
Esse vapor se expande no
cilindro, forçando o pistão a recuar
¾
é nesse movimento que há realização de trabalho. A
expansão esfria um pouco o vapor, mas ele continua
quente; para continuar o processo e fechar o ciclo,
fazendo a água voltar à caldeira, é necessário esfriar o
vapor ainda mais e liquefaze-lo, o que ocorre no
condensador.
O que Carnot percebeu é que o condensador é
indispensável em um processo cíclico, e que ele
representa uma ineficiência intrínseca, irremovível, do
processo, pois nele parte do calor que a caldeira
forneceu, e que não foi transformada em trabalho no
pistão, é transferida para fora da máquina, por exemplo,
para a água do rio que resfria o condensador.
Não é possível construir-se
uma máquina, seja a vapor ou de outro tipo, que
transforme totalmente em trabalho (energia mecânica) uma
certa
quantidade de calor fornecida por uma chama ou por outra
forma: parte do calor sempre sobra e precisa ser
retirada. Esta impossibilidade é uma lei da natureza,
que se chama Segundo Princípio da termodinâmica
(o Primeiro Princípio afirma que o calor é uma forma de
energia).
Os movimentos estudados na
Mecânica são todos reversíveis, isto é, podem decorrer
de trás para frente: a Terra poderia girar de leste para
oeste em vez de como ela efetivamente gira; uma bola que
rola rampa abaixo, acelerada, poderia rolar para cima,
desacelerada, se assim fosse lançada. Quando vemos um
filme de cinema projetado de trás para frente, muitas
vezes demoramos para percebe-lo se só aparecerem
movimentos puramente mecânicos, reversíveis. Só quando
aparece um processo irreversível, onde há produção de
calor, a coisa fica óbvia: um homem que salta do
trampolim e cai numa piscina não pode voltar para cima,
pois, quando cai na água, sua energia mecânica (de
movimento) desaparece para dar lugar a pequenos
movimentos desordenados da água, e a calor, e este
processo é irreversível.
Os processos em que intervém
o calor são irreversíveis. Uma xícara de café quente
colocada sobre a mesa perde calor até que sua
temperatura se iguale à do ar circundante. Nunca ocorre
o inverso uma xícara de café frio sobre a mesa não se
aquece espontaneamente, retirando calor do ar em volta.
A impossibilidade deste processo também leva ao Segundo
Princípio.
A energia térmica, que pode
ser transferida a outro corpo sob a forma de calor,
consiste na soma das energias de movimento
desordenado de bilhões de átomos. Já a energia de
movimento da Terra quando gira ou de uma bola que rola é
soma de energias de movimento ordenado de muitos
e muitos átomos. Nos dois casos, são os movimentos dos
átomos que detêm
(armazenam)
a energia, mas num caso todos se movem em conjunto,
coordenados, quando o corpo todo se move, e noutro caso
cada átomo se move em uma direção diferente, com
velocidade diferente e mudando rapidamente. O quente de
uma xícara de café consiste no movimento desordenado mas
rápido de todos os seus átomos, uns vibrando sem sair do
lugar, outros indo para cima, outros para baixo, para o
lado, e assim por diante. Quando o café esfria, estes
movimentos continuam, mais devagar, entretanto, com
menos energia. A figura mostra como seria o caminho de
uma partícula em um movimento desordenado desses.
É interessante notar que
este movimento foi descoberto por um botânico chamado
Brown, quando observava grãos de pólen de flores, com um
microscópio. Depois percebeu-se que tais movimentos
ocorrem para quaisquer partículas no ar ou em um
líquido. Nos sólidos, os movimentos das partículas,
devido à energia térmica, são diferentes da figura, pois
são deslocamentos em torno de uma posição fixa, como uma
corda de violão que vibra para um lado e para outro de
sua posição de equilíbrio.
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