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A FÍSICA DE
LILIPUT
(comparando
forças: homem x gafanhoto)
(comparando
velocidade: presa x predador)
Prof. Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
Introdução
Aceitemos
sem maiores considerações as seguintes
proporcionalidades (a
= proporcional a), perfeitamente demonstráveis através
de experimentos:
1) A força de resistência
máxima que um osso longo suporta é proporcional à área
de sua secção transversal.
[Fmáx.
a
Atransv.]
2) O peso de um animal é
proporcional ao seu volume.
[P
a
V]
3) A quantidade de calor que
um animal homeotermo transfere ao meio é proporcional à
área da sua superfície externa.
[Q
a
Aext.]
4) A quantidade mínima de
alimento que um animal homeotermo ingere é proporcional
à quantidade de calor que ele transfere ao ambiente.
[Qa.mín.
a
Q]
5) A área de uma superfície
é proporcional ao quadrado de uma dimensão linear.
[A
a
l2]
6) O volume de um sólido é
proporcional ao cubo de uma dimensão linear.
[V
a
l3]
7) A quantidade máxima de
alimento que um animal consegue ingerir é proporcional
ao seu volume.
[Qa.máx.
a
V]
Idealizemos um experimento
Considere um cavalo. Aumentemos todas as suas
dimensões lineares, por exemplo, de 10 vezes. Isto
significa que a sua altura, o seu comprimento, a sua
largura etc. são aumentadas de 10 vezes. Obtém-se,
assim, um outro cavalo ampliado semelhante ao primeiro.
O cavalo original e o cavalo ampliado são dois 'sólidos'
semelhantes, geometricamente falando. Aumentamos, sem
alterar as proporções --- temos um cavalo gigante com as
mesmas proporções de um normal.
Tudo isso parece-nos inteiramente possível. Contudo,
algumas implicações imediatas desta ampliação torna
muito pouco provável a existência de um tal cavalo
gigante no mundo em que vivemos. Podemos dizer que somos
assim, homens, cavalos, cachorros etc., não por acaso,
mas por que diferentes não poderíamos ser.
Analisemos, por exemplo, a
conseqüência da ampliação sobre um osso longo. Se todas
as dimensões lineares foram aumentadas de 10 vezes,
certamente a área da secção transversal do osso ficou
aumentada de (102) vezes. Isto significa que
esse osso ficou em condições de suportar pelo menos um
peso (102) vezes maior que aquele que
suportava anteriormente. Contudo, o volume do cavalo, e
portanto seu peso, aumentou de (103) vezes.
Em suma, a capacidade de resistência do seu osso
aumentou de (102) vezes, mas o seu peso o fez
de (103) vezes. Com isso acorrerá uma
sobrecarga pouco compatível com a sobrevivência deste
gigante. Se a natureza resolvesse evoluir de um cavalo
normal para um cavalo gigante, ela não aumentaria na
mesma proporção todas as dimensões lineares; em relação
ao osso longo, por exemplo, aumentaria em maior
proporção o seu diâmetro do que o seu comprimento. Com
isto não estaria obedecendo uma mesma escala de
ampliação. O cavalo gigante proposto pela natureza não
seria semelhante ao cavalo normal que conhecemos.
De certa forma, isto pode ser notado no elefante. A
razão diâmetro/comprimento, de um osso longo, é
sensivelmente maior no elefante do que no cavalo.
Há assim pelo menos um
motivo razoável para que não exista um cavalo gigante
semelhante ao normal. E, o que acontecerá se diminuirmos
todas as dimensões do cavalo normal, por exemplo, 10
vezes? Obteremos um cavalo anão semelhante ao normal,
isto é, guardando as mesmas proporções. A sua existência
é viável?
Todo animal homeotermo
extremamente pequeno tem dificuldade de sobreviver. A
razão é muito simples. Para manter sua temperatura
constante o animal homeotermo elimina maior ou menor
quantidade de calor através da pele; e para repor a
energia térmica perdida através da pele, ingere
alimentos. E é lógico, a quantidade de alimento que um
animal é capaz de ingerir depende de seu tamanho. Não é
razoável supor que um animal de massa 1 quilograma coma
tanto quanto um elefante. Assim, a partir da idéia que o
tamanho do animal é de tal maneira pequeno que a
quantidade de alimento ingerido não é mais suficiente
para repor a energia térmica perdida, a sua
sobrevivência estará comprometida. Compreende-se então
que os animais muito pequenos não sejam homeotermos;
eles são poiquilotermos (será essa a nova nomenclatura?
Poiqui = variável) ou animais de 'sangue frio'; a sua
temperatura é praticamente igual à do ambiente que o
cerca.
Mas, voltemos ao nosso
cavalo. Dividindo-se as suas dimensões lineares por 10,
a área da sua superfície externa ficará dividida por (102)
e o seu volume por (103). Sendo A e V a área
e o volume iniciais, teremos após a redução:
A' = A/(102)
e V' = V/(103)
E daí:
A'/V' = [A/100]/[V/1000]
= 10. A/V
O cavalo anão terá uma
superfície corporal demasiadamente grande em relação ao
seu volume ( a razão A'/V' é dez vezes maior que
A/V ). Para o volume que passa a ter, a perda de
calor é muito grande. O alimento ingerido poderá não ser
suficiente para contrabalançar a quantidade de calor
eliminado; neste caso ele perecerá rapidamente. E, se
for suficiente, a situação não será de tranqüilidade,
pois, deverá estar constantemente se alimentando para
compensar a proporcionalmente grande perda de calor
através da pele. Aliás, é característica dos pequenos
animais de 'sangue quente' (essa conotação popular é
imprópria), como os ratos, a constante e irrequieta
movimentação à procura de alimentos.
Então ...
Se a
natureza fosse desenvolver um cavalo anão, certamente
ela não o faria com as mesmas proporções do cavalo
normal, para evitar a perda excessiva de calor (acima
analisada). Daria uma forma tal que fizesse diminuir a
área da sua superfície corporal. Para tanto tenderia a
ter uma forma arredondada. Lembrem-se que para corpos de
mesmo volume a esfera é o que possui a menor superfície
externa. Estão se lembrando do porque o gado se amontoa
nos dias frios? Porque o gato enrosca? Porque nós
fechamos a mão e nos dobramos todo sob a coberta? É o
modo encontrado para diminuir a área da superfície
externa exposta. No frio ... o segredo é embolar!
NOTA: O mundo de Liliput, obra da imaginação,
é o nosso mundo com todas as dimensões lineares
reduzidas cerca de 12 vezes. O homem de Liliput seria
semelhante ao homem normal, guardando as mesmas
proporções; a sua altura seria, contudo, cerca de 15 cm.
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Comparando forças: homem X gafanhoto
Vivemos num mundo com enorme
variedade de organismos vivos, cujos tamanhos se
estendem desde aquele da minúscula célula (10-6cm)
ao das grandes sequóias gigantes (102m).
Reparem disso que, vivemos num mundo no qual os tamanhos
dos organismos vivos se dispersam por oito ordens de
grandeza.
As propriedades biológicas
de um organismo, por sua vez, dependem explicitamente de
suas extensões geométricas, a saber, comprimento, área
superficial e volume. Para objetos com forma geométrica
simples, tal qual o cubo, essas dimensões guardam entre
si relações também simples. Assim, para um cubo de
aresta L, teremos para sua área total o valor 6L2
e para seu volume o valor L3. Ainda sobre o
cubo, o comprimento de sua aresta, L, é o seu
'comprimento característico'.
Conhecendo-se o 'comprimento característico', L, de um
ser vivo, de modo geral, sua área total, A, e seu
volume, V, podem ser expressos em função desse
comprimento característico como:
A a L2
e V a
L3
Além disso, sabemos que, se um corpo
for homogêneo (mesma densidade em todas suas regiões),
sua massa, M, também será proporcional a seu volume (M
a
L3)(*).
Que se entende por mudança de
escala, em nosso contexto? Ora, fazer uma mudança de
escala significa alterar o 'comprimento
característico' mediante um dado fator.
Assim, se L è
2L então A è
4A e V è
8V.
Sabemos que muitas propriedades
biológicas de um organismo dependem da razão entre sua
área, A, e seu volume, V, ou seja: A / V
a 1 / L.
Uma dessas propriedades é a capacidade do organismo vivo
mover ou levantar uma dada massa. Esse é o confronto que
pretendemos avaliar tomando, como contendores, o homem e
o gafanhoto. Esse mesmo raciocínio servirá, junto com
suas ressalvas, ao confronto homem / formiga, homem /
pulga etc.
Entre tais ressalvas, salientamos a falta de rigor ao
apresentarmos um 'comprimento característico' para um
organismo vivo. O que se faz é optar por um valor que
faça 'sentido físico' e que não se afaste de uma ordem
de grandeza. Desse modo, não feriremos o 'sentido
físico' e nem fugiremos da ordem de grandeza se
adotarmos, para o homem, o 'comprimento característico'
de 2m, para um cão de 1m e para uma formiga de 5mm.
Usemos desse conceito de 'comprimento
característico' para a compreensão de alguns aspectos
físicos do mundo biológico.
É popular dizer-se que um gafanhoto
(ou uma formiga) é mais forte que um homem. Essa
afirmação deriva do fato de que um gafanhoto consegue
levantar objetos de cerca de 15 vezes seu próprio peso,
enquanto que, um homem adulto, não treinado, consegue
levantar objetos de cerca de 1 vez seu próprio peso.
Como compreender isso usando o comprimento
característico?
Uma 'pista' importante que devemos
acrescentar é que a força, F, que um músculo pode
desenvolver é proporcional ao número de fibras no
músculo e, como esse número depende da área da secção
reta do músculo, podemos escrever que: F
a
L2 (**)
Para comparar a força desenvolvida
por organismos de tamanhos diferentes, iniciemos por
dividir a intensidade dessa força pela sua própria
massa. A esse quociente vamos nomear por "força
específica", Fe:
Fe = F / M (***)
Para saber como essa forca
específica, Fe, se relaciona com o
comprimento característico, L, vamos levar os resultados
(**) e (*) na (***); teremos:
Fe
a 1/L
Adotando-se L = 2m para o homem e L =
2cm para o gafanhoto vem:
Fe,gafanhoto / Fe,homem
= 100
Obviamente que essa estimativa não
deu (e nem poderia dar) aquele esperado valor 15 para
tal quociente, como se sabe ser verdade.
As diferenças decorrem das rudes estimativas adotadas.
Nosso cálculo, por exemplo, não contabiliza o fato dos
humanos usarem a sua capacidade muscular com mais
eficiência que os gafanhotos (se essa afirmação for um
tanto exagerada peço desculpas aos gafanhotos).
A (**), por exemplo, na qual colocamos F
a L2
, requer crítica. O amigo Roberto M. Takata comenta:
"Vejamos a situação de um
mesmo músculo em uma mesma pessoa. Quando alguém se
exercita e desenvolve sua musculatura, o comprimento dos
músculos não aumenta, a região de origem e inserção dos
músculos continuam no mesmo lugar. O que aumenta é a
espessura do músculo. Tentar extrapolar isso para
organismos diferentes então, deixa a coisa mais
complicada e tanto mais complicada quando não podemos
nem mesmo garantir a homologia (isto é, origem evolutiva
comum) entre as estruturas (como no caso dos músculos da
perna de um gafanhoto e de um atleta olímpico)."
Todavia, nossa estimativa deixou algo
bem claro, os modelos que usamos na Física são
consistentes com o fato dos gafanhotos levantarem coisas
bem mais pesadas do que os humanos o fazem.
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Confrontando velocidades: presa X predador
Introdução
Usemos o conceito de
comprimento característico
para analisar a velocidade de corrida dos mamíferos.
Comparando
Para um mamífero
se movimentar com velocidade constante deve ocorrer uma
conversão de energia cinética em calor (ou seja, numa
outra forma de energia de menor qualidade, degradada, no
sentido que não pode ser aproveitada). No caso do ser
humano, por exemplo, as sucessivas acelerações e
desacelerações das pernas (com cerca de 30% da massa
total do corpo) durante o movimento, para permitir o
avanço de todo o corpo, requer uma grande transformação
de reservas energéticas químicas em calor.
O trabalho realizado pelas
pernas de um mamífero ao correr é dado por:
T = F.d = (1/2).m.V2
onde F é a intensidade da
força muscular aplicada, d é a distância durante a qual
o músculo se desloca em cada passada e m é a massa dos
músculos da perna. Como vimos na divulgação anterior a
intensidade da força é proporcional ao quadrado do
comprimento característico L, a distância d é
proporcional a L (mamífero maiores possuem uma passada
maior) e a massa a L3. Assim podemos ver que:
V2 = (2.F.d)/m
a
(L2 .L)/L3 = Cte.
A equação anterior diz-nos,
pois que a velocidade de um mamífero deverá ser
independente do seu tamanho. A Tabela a seguir mostra
que esta conclusão é aproximadamente correta dentro de
um fator de 2 para mamíferos que se movimentam sobre
quatro patas.
Velocidades de corrida de alguns mamíferos
|
Animal |
chita |
gazela |
raposa |
cavalo |
coelho |
lobo |
galgo |
homem |
|
V (m/s) |
30 |
28 |
20 |
19 |
18 |
18 |
16 |
11 |
Se as velocidades de
corridas não fossem mais ou menos independentes do
tamanho dos animais, então o equilíbrio natural entre
presas e predadores seria quebrado. Repare-se que o
coelho e o lobo possuem mais ou menos a mesma velocidade
de corrida, sendo isso também verdade para a gazela e a
chita. Os humanos não são corredores muito eficientes,
pois o seus músculos propulsores estão apenas
localizados em duas pernas, aumentando, assim, a massa
que é acelerada e desacelerada no processo de corrida.
Os animais mais rápidos são os que possuem pernas longas
e finas, com a massa muscular localizada no corpo. Esta
diferença entre corredores de duas e quatro pernas,
leva-nos ao conceito de semelhança física.
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