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A queda
da autoridade e do senso comum
Prof. Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
A Ciência não é uma nova
magia e seu método não está reservado a feiticeiros ---
os cientistas loucos, extravagantes e superinteligentes
do cinema. Ela é simples em suas funções, clara em sua
estrutura, elementar em seu método, maravilhosa em seus
resultados. E pode ser compreendida por qualquer pessoa.
Sempre houve elementos
científicos em qualquer pensamento, até na magia. O
primeiro homem (ou pré-homem), ao perceber que
o fogo queima,
fez uma observação científica, nascida do senso comum.
Mas quando atribuiu ao fogo uma vontade própria e
maligna de queimar, deixou de fazer
Ciência para
criar a demonologia.
A Ciência é herdeira do primeiro raciocínio e abandonou
o segundo porque ele não era comprovável. O conhecimento
científico é, pois, conhecimento comprovável!
Falseável, se quisermos
usar um diferenciador mais moderno.
Comprovável, entretanto, de
certa maneira. As provas também têm que ser científicas.
O selvagem pode
provar a presença de um demônio nas chamas,
alegando que ele foi visto certa vez, ou que sonhou com
ele, ou que é assim porque
todos sabem disso.
Esse tipo de prova não interessa à Ciência. Alegações do
tipo alguém viu, a prima viu, o emérito Dr. Fulano de
Tal viu não constituem fator de falseabilidade.
A astrologia, uma
pseudociência, é esperta. Começa baseando-se na
astronomia, um conhecimento científico, para depois
seguir com forças e energias vindas dos
planetas para administrar a vida após a data do
nascimento. As pessoas despreparadas jamais irão
perguntar por que essas influências jamais
atingem os fetos e só começam a se manifestar após o
nascimento. E a astrologia, cujos dados estão baseados
no dogma de que a Terra ainda é o centro do Sistema
Solar, ai continua, como prato saboroso da
televisão. E nem estamos falando dos 'horóscopos' de
revistas e jornais .... e muito menos do 'confronto' de
dois 'mapas astrais' de uma mesma pessoa, feitos por
dois astrólogos!
A observação diária nos diz
que uma pluma flutua no ar e uma pedra se precipita
velozmente para o chão. O que leva o senso comum a
acreditar que, objetos de pesos diferentes caem a
velocidades diferentes. Se perguntarmos à maioria das
pessoas o que cai mais depressa, um peso de 1 'quilo'
ou um de 10, quase todos apontarão o de 10 'quilos'.
Alguns acrescentarão que o de 10 'quilos'
cai dez vezes mais depressa que o outro, assumindo um ar
muito científico.
Se elas respondem assim, pelo seu senso comum, imagine
argumentar que 'quilos'
não existe! Que ele é apenas um prefixo grego que
significa 1 000. Os que estudam sabem que:
massas medem-se em
quilogramas (kg) e
pesos em
newtons (N) ou em
quilogramas-força
(kgf).
Apesar da resposta estar
baseada no senso comum ("as coisas mais pesadas caem
mais depressa"), ela é completamente falsa: pesos
diferentes caem com igual aceleração. Isso foi
demonstrado por Galileu,
quando jogou bolas de metal e de pedra com o mesmo
diâmetro, mas com pesos diferentes, de cima da torre
inclinada de Pisa.
Galileu estava envolvido
numa disputa a esse respeito com seus colegas
professores. Aristóteles afirmara em seu livro sobre
Física que pesos diferentes caem com velocidades
proporcionais a seu peso. Até a Renascença, quando
começa a revolução científica, Aristóteles era
autoridade indiscutível. Já que ele tinha dito, devia
ser assim. Galileu fez a experiência e achou o
contrário. Seus colegas teimaram. Se estava escrito em
Aristóteles, então a tal experiência estava errada. E
sorriam condescendentes.
Galileu foi para cima da
torre e jogou os pesos exatamente na hora em que pela
praça passavam estudantes e professores, para que todos
pudessem testemunhar os resultados. Os estudantes
aplaudiram-no e os professores tornaram-se seus
inimigos. Alguns acrescentaram que se tratava de um
truque, uma ilusão de óptica ou uma trapaça qualquer.
A fé que Galileu tinha na
Ciência separou-o do mundo universitário do seu tempo e
terminou por trancafiá-lo num cárcere da Inquisição. Mas
de seus trabalhos nasceu o
método científico
em estado puro. Foi o iniciador da dinastia dos grandes
cientistas modernos que não mantêm relação com a magia,
ao contrário, por exemplo, do seu contemporâneo,
Johannes Kepler (1571-1630). Um dos fundadores da
moderna astronomia (a ele devemos a formulação das três
leis das órbitas planetárias), Kepler era, também, um
astrólogo convicto. Dava tanta importância a suas
descobertas planetárias como a seus horóscopos que ---
seja dita a verdade --- garantiam-lhe o sustento,
possibilitando que estudasse o céu (se houvesse
televisão naquela época ele também apareceria vestido
como a Sra. Walter das quantas). Foi o homem de
transição entre a época do pensamento mágico e a do
científico, o último dos grandes magos-cientistas, como
Paracelso e os alquimistas.
Galileu, ao contrário, só
acreditava no método científico. Assim, foi o primeiro a
denunciar os grandes inimigos deste método: os
argumentos baseados na
autoridade e
no
senso comum.
Tanto Aristóteles --- autoridade indiscutível --- como o
senso comum tinham enganado a todos sobre a queda dos
pesos. E sobre várias outras coisas, entre elas a
categórica afirmação de que a Terra ocupava o centro do
Universo.
Galileu foi o codificador do
método experimental na física, processo que logo se
estendeu a velhos ramos do conhecimento,
transformando-os em ciências.
Por exemplo, todo mundo
sempre soube que os filhos dos cavalos são cavalos, o
mamoeiro só produz mamões e os filhos dos humanos
parecem-se com seus pais. Mas por que é assim? Por que
dos hipopótamos não nascem cabras?
Os massudos calhamaços que
tratavam da descendência usavam um pesado palavreado
grego --- taleogonia, atavismo, xenogênese --- para
ocultar o fato desagradável de que nada sabiam. Em 1866,
no mesmo ano em que Mendel
publicou seu trabalho de quatro páginas resolvendo o
problema da hereditariedade, o professor Virchow, um dos
pais da anatomia patológica, faria editar sobre o
assunto um volume de duzentas páginas que, entretanto,
nada explicava.
Qual a
diferença entre os dois trabalhos?
Virchow acumulou todos os
dados publicados sobre o assunto, catalogou-os e
perdeu-se entre eles, sem conseguir dar-lhes nexo.
Mendel, antes de tudo,
procurou um material que fosse fácil de estudar.
Escolheu a ervilha de jardim porque sua reprodução era
bem conhecida e tinha características, como a cor das
sementes, bem definidas e fáceis de observar. Tendo
garantido que seu material era puro, isto é, que as
plantas de semente verde, quando autofecundadas, só
davam cor verde por várias gerações e as amarelas
procediam da mesma forma, começou a cruzá-las entre si.
Sempre anotando os resultados, foi repetindo as
experiências, até ter certeza de sua constância e
previsibilidade. Finalmente, descreveu seus resultados
de forma que qualquer outro pesquisador pudesse
comprová-los por sua conta. Quando terminou, a ciência
possuía uma exata descrição das leis da hereditariedade,
sobre as quais estruturou-se a genética.
Até
Pavlov, a psicologia
preocupava-se muito com algo chamado 'alma'. Tratados
descreviam suas qualidades, formas, partes e totalidade.
E não havia um psicólogo que estivesse de acordo com
outro. Pavlov não era psicólogo, mas fisiologista. Não
se interessava pela alma. Estudava a salivação dos
cachorros. Salivação é um fato científico, alma é um
dogma místico.
Todo mundo sabe que, quando
se aproxima comida da boca de um cão, ele saliva; se
coçarmos o interior do nariz, espirramos; se acendermos
uma lâmpada, as mariposas voarão de encontro a ela.
Essas reações eram chamadas reflexos. Pavlov
experimentou dar comida a um cão, ao mesmo tempo que
tocava uma campainha. Depois de repetir a experiência
várias vezes, tocou a campainha sem apresentar a comida.
E o cão salivou. O reflexo da salivação fora
condicionado ao som da campainha.
Desta descoberta, em si
muito simples, variando-a e complicando-a sucessivamente
de forma sistemática, Pavlov conseguiu desvendar uma
inteira área do funcionamento psicológico --- a teoria
da aprendizagem. E mais, estabeleceu uma técnica para
estudar as neuroses que ele relacionou com a
aprendizagem. Deixando de lado meditações sobre o
todo da alma
e restringindo-se a detalhes aparentemente simples, que
antes seriam considerados irrelevantes, Pavlov --- como
Mendel e Galileu --- criou uma nova ciência a
reflexologia,
que tem aplicações na pedagogia e na cura dos
desequilíbrios nervosos.
Lembrete aos estudantes ---
foi abolida a
palavra da autoridade,
foi abolida a explicação pelo
senso comum.
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