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Ciência
- visão de futuro Prof.
Luiz Ferraz Netto A
Ciência tem em vista três grandes
passos que irão permitir um desenvolvimento nunca visto. Podemos
chamá-los de revolução
energética, revolução
dos autômatos e revolução
biológica. O
mundo civilizado vive hoje a terceira revolução industrial. Mas, desde a
primeira, o sonho dos técnicos tem sido a obtenção de energia gratuita.
Nossas atuais fontes de energia são três: energia elétrica, obtida das quedas-d'água que movem
geradores elétricos; energia
química, obtida da combustão (queima) de carvão e petróleo
e energia
nuclear, obtida do rompimento dos núcleos dos átomos pesados ¾
urânio e tório. Nenhuma das três é barata. Além
disso, devido ás nossas maneiras de usá-las ¾
alternadores, motores a explosão e turbinas a vapor ¾
, grande parte da energia produzida por essas fontes não é aproveitada. Entretanto,
temos agora a promessa de uma máquina que, mesmo se usada para acionar
nossas primitivas turbinas a vapor, significará a energia quase grátis:
a máquina termonuclear.
Vários centros de pesquisa trabalham para realizá-la. Ela se baseia num
princípio diverso: em vez de bombardear os núcleos pesados e extrair
energia de sua ruptura, a máquina termonuclear fundirá os núcleos de
lítio e hidrogênio, como acontece na bomba de hidrogênio. O difícil
nesse processo é que para começar a reação de fusão é preciso
aquecer a mistura a alguns milhões de graus (que na bomba H são
conseguidos usando como espoleta uma bomba atômica). A
resposta é, simplesmente
faze-la de nada, isto é, vácuo. O lítio e o hidrogênio em
forma de plasma
(gás ionizado) serão mantidos suspensos magneticamente dentro de um tubo
em anel, sem contato com as paredes do engenho. Apesar de, até então, as
pesquisas ainda não terem alcançado êxito prático, isso se aproxima e vai acontecer. Quando
pudermos usar a energia termonuclear em escala industrial, o velho sonho
estará realizado: energia praticamente grátis, tal é o rendimento da
reação de fusão. Vislumbre
essa imagem: uma fábrica limpa e clara como um hospital. Silenciosa,
cheia de tubulações pintadas em cores vivas e metálicas. De
um lado entra o petróleo bruto, do outro saem seus subprodutos: gasolina,
gás, querosene etc. Tudo isso quase sem intervenção da mão humana. As
máquinas sabem o que fazem. Produzem quantidades certas, sob temperaturas
certas, adicionando os ingredientes certos. Percebem o momento das
operações através de delicados "órgãos dos sentidos"
distribuídos dentro dos tubos, mais ou menos como se distribuem dentro do
nosso sistema circulatório os receptores que informam o cérebro do
estado de oxigenação do sangue. Em vários pontos da usina,
"gânglios nervosos", transistores de metal, tomam decisões a
partir desses dados e usam seus ejetores, os "músculos" e
"glândulas secretoras" da refinaria, para intervir no
processamento da matéria-prima. A fábrica, é quase tão automática e
inteligente quanto os delicados instrumentos que dirigem uma astronave em
vôo, e é mais perfeita que qualquer trabalhador humano. Essa
imagem não é do futuro mas do presente. É a imagem das modernas
refinarias de petróleo, as fábricas que empregam a menor quantidade de
trabalho humano. E dentro de certo tempo, esses inteligentes animais
domésticos que são nossas atuais refinarias parecerão velhos brinquedos
perto das fábricas verdadeiramente inteligentes que serão construídas:
autômatos gigantes que produzirão o necessário à vida dos homens, sem
intervenção humana. A
atual superioridade dos cérebros eletrônicos sobre os nossos reside em
sua velocidade, exatidão e infalível memória. Por exemplo, com o
simples apertar de um botão, a máquina fornece todas as contas e
operações em curso de um sistema financeiro em escala nacional.
Operações que antes emperravam a vida econômica ¾
eram uma espécie de gargalo estreito retardando as decisões ¾
são agora instantâneas. Dentro de certo tempo, máquinas controlarão e
organizarão a vida econômica de vastas regiões e, finalmente, de todo o
globo. O ponto fraco dos atuais autômatos reside, porém, em serem ainda
"gênios idiotas". Eles possuem fraca capacidade de
discriminação e aprendizagem. As
refinarias foram as primeiras a ser automatizadas, exatamente porque é
mais fácil examinar as variações de uma corrente líquida contínua,
que flui por um tubo, do que discriminar diferenças entre peças
metálicas complicadas, produzidas em série. Nenhum cérebro
eletrônico é capaz de distinguir, na assinatura de um cheque, se ela é
verdadeira ou falsa. Essa incapacidade de discriminação obriga as
máquinas a receber informação dos relativamente lerdos e inexatos
cérebros humanos. Com isso grande parte da eficiência destes
velocíssimos aparelhos permanece desaproveitada. Uma
revolução ainda maior que as descritas anteriormente nos espera com o
rápido evoluir da biologia. Ainda
em alguns livros discute-se sobre o mistério
da vida ¾
e já nos laboratórios sintetizou-se, há bom tempo, uma molécula
protéica que se auto-reproduz, como se estivesse viva. Hoje se fala do
Genoma, dos clones etc. Vários centros de pesquisa dedicam-se
exclusivamente aos estudos sobre a origem da vida na Terra. A
grande conquista da biologia, nos próximos decênios, será a
fotossíntese artificial. Até agora, para nossa alimentação, temos
dependido das plantas. Mas
isso terminará. Já estamos bem adiantados no estudo da fotossíntese. Fabricaremos nossos próprios alimentos a partir do gás carbônico (CO2),
água e luz solar. O fim da agricultura e da escravidão ao solo!
Produção ilimitada de alimentos! Hidratos de carbono, proteínas,
gorduras, vitaminas, tudo em quantidades ilimitadas. Novos alimentos,
melhores que os naturais! Essa revolução depende do avanço da
bioquímica. A
bioquímica é, a rigor, uma ciência extremamente jovem. Mas é dela que
devemos esperar a maior das revoluções. Não
trará apenas á fotossíntese artificial que, associada às máquinas
inteligentes e à energia termonuclear, tornará o homem quase
independente dos trabalhos de produção. Trará também a transformação
do próprio corpo humano e acelerará a evolução da espécie. A
bioquímica tornou-se a ciência-base da genética, apoiada no cálculo
das probabilidades. Através dela, descobrimos o que são os misteriosos
genes, portadores das características hereditárias: pedaços de
moléculas de ácido desoxirribonucléico. É questão de tempo saber como
alterar o patrimônio hereditário das espécies, inclusive o nosso que,
aliás, precisa urgentemente de revisão e recondicionamento. (O homem,
como a única espécie que não está mais sujeita à seleção natural,
tem acumulado uma grande quantidade de genes "deletérios". A
genética humana, em seus poucos anos de vida, já conseguiu acumular
muitos dados sobre isso.) Dentro
de certo número de gerações poderemos planejar cientificamente nossos
filhos. Serão mais fortes, mais inteligentes, mais resistentes às
doenças e mesmo imunes a várias delas. E também dotados da
possibilidade de viver por algumas centenas de anos. Isso, associado à
produção de todos os alimentos pelos autômatos, trará naturalmente a
necessidade de planejar cientificamente a própria população. O
leigo mal imagina o que se passa hoje nos laboratórios bioquímicos e com
que velocidade as coisas estão sendo descobertas. Em função das
notícias nos jornais e revistas ¾
aliás justificadas ¾
, o comum é pensar-se que a bioquímica está concentrada apenas na cura
do câncer. Mas coisas muito mais radicais que essa serão obtidas em
pouco tempo. O evoluir da técnica tem feito com que, muito rapidamente, ciências antes separadas ¾ como química e biologia, biologia e eletrônica, biologia e física, biologia e matemática, matemática e lingüística ¾ se fossem fundindo em novas ciências: bioquímica, biofísica, biomatemática, biônica, semântica etc. Essa
fusão continua se processando. Se
a bioquímica vai libertar o homem da agricultura e a cibernética, com a
automação, do trabalho manual, a fusão das duas o libertará das
limitações do meio ambiente, pela criação dos biocibs, isto é, a
associação entre seres vivos e aparelhos inteligentes. Piccard
Filho, para descer ao lugar mais profundo do oceano, a fossa das Filipinas
(11 000 metros) teve de encerrar-se na esfera de aço do batiscafo "Trieste".
Dentro dela quase não se podia mover. Há algum tempo a marinha americana
anunciou que conseguiu "descer" (na realidade, a experiência
foi realizada em tanques de pressão e não no mar) cães a 4 mil metros
de profundidade, sem proteção alguma. O método consiste em encher os
pulmões do animal com uma mistura de água e oxigênio, e mais algumas
substâncias que "captam" o gás carbônico produzido. Pelo que
se sabe via jornais, o processo ¾
que envolve uma traqueotomia, ou seja, abertura da traquéia, não foi
tentada com mergulhadores humanos. Mas o projeto de pesquisa chama-se Man
in the sea, ou seja: Homem no mar. A enorme vantagem deste
sistema de brânquia artificial é que, ao contrário do método clássico
de mergulho com escafandros autônomos, permite subidas e descidas muito
rápidas, além de uma enorme autonomia. Não podemos mais viver sem a Ciência. Nossa vida, hoje e no futuro, dependerá exclusivamente dela. Comentários via e.mail Amiúde, antes de publicar um texto, submeto-o à leitura de diversas autoridades científicas, nos diversos ramos do saber. Entendo que as palavras tentam traduzir uma idéia, assim como entendo as divergências entre as idéias das pessoas. A idéia que entendo como 'correta' e transformo em palavras pode e deve ser de outro modo para outros. A leitura, comentários e críticas são o que há de mais salutar na metodologia científica. Na Ciência, como sabemos, não há a "palavra da autoridade" e, muito menos, o lastramento baseado no senso comum. Na Ciência prevalece o fato, sua reprodução parametrizada e a coerência com a Natureza e, as palavras que resultam disso, essas sim, devem resultam de um consenso de todos. Todos podem participar, contestando ou aprovando --- isso é o que diferencia a Ciência das pseudociências. Reproduzo abaixo os e.mails na ordem em que vão chegando: =============== -----Mensagem Original----- De:
Alberto
Mesquita Filho Olá Vou aqui apenas emitir minha "opinião" extraída de uma rápida leitura, e deixarei possíveis "críticas" para os próximos dias. O artigo está muito bom, como aliás, todo o conteúdo de seu site. Gostei em particular da maneira como a multidisciplinaridade é enfocada e a revalorização da bioquímica, que nas últimas décadas perdeu em prestígio para a genética. Obviamente, trata-se de uma conquista necessária e como você dá a entender, certamente haverá o caminho inverso, da genética para a bioquímica e desta para as ciências mais básicas, a culminar com a física. Meu interesse pela física começou exatamente ao verificar esta transdisciplinaridade necessária. Jamais pensei em destronar a física moderna mas em conhecer a intimidade da fosforilação oxidativa e da cadeia de transporte de elétrons, tão importantes para que possamos entender o que está por trás dos sistemas respiração celular e fotossíntese, que nada mais são senão sistemas acoplados a máquinas manipuladoras de energia (mitocôndria e cloroplasto). Quando um elétron de uma molécula de clorofila recebe um quantum de energia vindo do Sol, e citando Szent Györgi, prêmio Nobel em fisiologia, "o que há de notável no caso é que o elétron sabe exatamente o que tem de fazer. Assim, esse pequeno elétron conhece uma coisa que todos os sábios de Princeton ignoram, e que só pode ser uma coisa muito simples". Pois tenho procurado por essa simplicidade. Costumo dizer que os elétrons, em tais condições, ou em seus "saltos quânticos", estão em trajetórias "permitidas" (ou em regiões de confinamento adiabático, equivalentes às órbitas permitidas de Bohr), as mesmas que existem na intimidade de um supercondutor, quando ele também é acelerado (se não no sentido absoluto, pelo menos no sentido centrípeto, pois o circuito é circular) sem depreciar, num sentido termodinâmico, energia alguma, ainda que passem-se anos. Ou seja, o elétron quando em uma trajetória "permitida", permite o aproveitamento integral de suas variações energéticas (cinética + potencial). Quanto à reformulação de meu Web site, já estou fazendo a página relativa a links e seu site é merecidamente citado em primeiro lugar (quanto aos demais, estão distribuídos aleatoriamente). [
]'s ================ -----Mensagem Original----- De:
João Carlos Holland de Barcellos <jocax@usp.br> Leo,
gostei do seu artigo. |
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