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Breve histórico do enigmático céu

Prof. Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br 

O século dezessete é freqüentemente chamado o século dos gênios. Além do nascimento da Óptica, presenciou a transformação do enigma dos movimentos planetários em um esquema maravilhosamente simples. Mas seria errado supor que qualquer século em particular teve o monopólio de homens bem dotados. As leis da probabilidade encarregam-se de impedir que haja qualquer mudança abrupta na capacidade de nossos líderes intelectuais. Os extraordinários feitos científicos do século dezessete somente podem ser atribuídos ao ambiente, e não a simples acidente. Através dos séculos, cada sociedade obteve o grau de realizações científicas que mereceu.

A Imprensa
Não existe um único fator que tenha levado ao despertar científico do século dezessete. É provável que nunca conheçamos a história completa. Não obstante, é claro que a imprensa desempenhou um papel destacado. Nos tempos de Alexandria, existiam muitos milhares de livros nas grandes livrarias, mas eles somente podiam ser lidos pelos que tinham o tempo e o dinheiro indispensáveis para viajar até onde se encontravam. A propriedade privada de livros era dispendiosa e rara, em razão do esforço colossal envolvido na cópia manual de um livro em pergaminho ou papiro, de alto preço. Mas tudo isso se modificou no século quinze, com o advento efetivo da imprensa na Europa.

A imprensa é basicamente uma arte antiga. Por exemplo, foram usadas estampas nos tempos medievais para fazer impressões a tinta de letras maiúsculas, no começo dos manuscritos. Já em 1300, o homem tinha aprendido a fazer gravações de figuras e inscrições curtas em madeira. Mas a máquina que contribuiu para a grande revolução intelectual do século dezessete usava tipos removíveis, feitos de metal fundido. Entretanto, as máquinas de imprimir somente puderam ser usadas em larga escala quando se tornou possível substituir o pergaminho pelo papel. Muito embora este fosse conhecido na China desde os primeiros séculos da era cristã, não se tornou comum na Europa até o século quinze.

A origem e a data da invenção da imprensa moderna é discutida, mas sua aplicação na Europa começou em 1447 em Mains, com a imprensa de Johann Gutenberg (cerca de 1400-1466). A imprensa se disseminou rapidamente, daquela data em diante. Durante o século que se seguiu, muitos clássicos científicos gregos e árabes foram traduzidos, impressos e estudados.

A Medida da Longitude
Nesse mesmo período, a navegação atingiu um nível muito superior aos feitos da Antigüidade. Os navios daquele período podiam enfrentar as grandes tempestades do Atlântico e navegar a grandes distâncias, movidos apenas pelo vento. Não obstante, a medida da longitude permanecia sendo uma tarefa difícil. Os relógios portáteis precisos ainda não existiam, e os movimentos da Lua, do Sol e dos planetas eram os únicos meios pelos quais o navegador podia determinar a hora de Greenwich em uma viagem longa. Foram preparadas tabelas astronômicas que davam as horas no futuro, quando os planetas estivessem em conjunção com a Lua, isto é, quando tivessem a mesma 'longitude celestial' que a Lua. Esses dados eram então utilizados pelos grandes navegadores para determinar sua longitude nas viagens longas.

Américo Vespúcio mediu sua longitude na latitude de 10o N observando uma conjunção de Marte com a Lua. Deduziu, de várias observações, que a conjunção ocorreu às 6:30 h. da tarde, hora local, isto é, exatamente seis horas e meia após o meio-dia local. Um almanaque preparado pelo astrônomo Regiomontanus predizia que a conjunção teria lugar à meia-noite de Nuremberg. Quando eram 24 h. em Nuremberg, eram 18 h no navio. A hora local de Vespúcio era exatamente 5,5 h (5 h e 30 min) menos que em Nuremberg. Sua longitude, portanto, era de 5,5 x 15o, ou seja, 82,5o a oeste de Nuremberg. Colombo usou métodos semelhantes para medir a longitude em suas viagens ao Novo Mundo. 

Astrologia e Ciência
O uso dos movimentos planetários na determinação da longitude preencheu uma importante necessidade social e ajudou a fazer da Astronomia a rainha das ciências. 
De igual importância, talvez, foi a crença universal na Astrologia, que ensinava: (1) que Deus governava a Terra através dos movimentos dos corpos celestiais; (2) que as estrelas influenciavam a vida na Terra; (3) e que os planetas causavam variações nessa influência, variações essas que dependiam da mudança de suas posições relativas.
Segundo esse ensinamento, o homem dispunha de uma saída. Seu dom do livre arbítrio provinha diretamente do Ser Supremo. Somente quando deixava de oferecer resistência ao poder das estrelas e dos planetas é que era varrido pelos caprichos da natureza. Portanto, os horóscopos eram 'inestimáveis' como avisos de períodos perigosos, durante os quais deviam ser tomadas todas as precauções para evitar as ciladas do destino. A Astrologia conciliou-se assim com a Teologia, tornando-se uma parte dominante do pensamento cristão. 
Grande parte deste contra-senso persiste até os dias de hoje. A Astrologia tornou-se uma pseudo-ciência, mística e poderosa a grassar nos terrenos onde não subexiste a metodologia científica. É um subproduto emocional da Astronomia.

As mudanças que se vinham desenvolvendo gradualmente na Europa irromperam em uma revolução social e espiritual no século dezesseis. O crescente poder dos homens de negócios, o surgimento das monarquias, a oposição à Igreja, tudo isso se combinou para provocar o rompimento com o passado. Além do mais, os navegadores tinham aberto o mundo inteiro, ajudando, por este modo, a libertar as mentes humanas das velhas idéias estreitas. No cenário religioso, novos sistemas substituíram a todo-poderosa Igreja de Roma: Luteranismo, Calvinismo e a Igreja Católica reformada. De permeio com estas mudanças teológicas, deu-se uma erupção de guerras políticas e religiosas. A Igreja estava incapaz de garantir a vida mansa e predisível do passado, e sua autoridade indisputada começou a se desvanecer. 
Com as condições tão caóticas na Terra, o homem virou-se para as estrelas como refúgio. Através da Astrologia ele podia calcular o movimento dos extraordinariamente importantes corpos celestiais, e achar desta maneira um 'aceitável' grau de previsibilidade em um mundo incerto.

Por tais razões, o século dezesseis encontrou a Astronomia no centro da vida prática. Nela ele encontrou o espírito de incansável mudança que estava começando a desenvolver-se nas mentes dos homens. Não é surpreendente que as pessoas já não se contentassem em aceitar cegamente as idéias da Antiguidade. Tudo favorecia um período de desenvolvimento científico, e esse período surgiu — um punhado de idéias novas no século dezesseis, e uma torrente avassaladora no século dezessete.

Copérnico e a Terra em Movimento
A idéia de que o Sol é o centro do universo não se originou com Copérnico. Aristarco de Samos (cerca de 310-230 a.C.) ensinava em Alexandria que a Terra e os planetas revolvem em círculos em torno de um sol estacionário. 

Acredita-se também que Filolau, o pitagoriano, sustentava o mesmo ponto de vista. Durante os tempos medievais, uma série de teólogos atacou a doutrina de Aristóteles de que a Terra é fixa. Um deles foi Oresme, Bispo de Lisieux (1323-1382), que era conselheiro de Carlos V da França. Outro foi Nicolau de Cusa (1401-1464), um filho de pescador que se elevou ao cardinalato da Igreja. Outro ainda, foi Domenico Novarra, com quem Nicolau Copérnico (1473-1543) estudou Astronomia e Matemática, em Bolonha, Itália. Os escritos dos pitagorianos ensinavam que a verdade suprema sobre o universo deve consistir de relações geométricas simples e elegantes, e Novarra sentiu que a astronomia de Ptolomeu — com seus círculos e epiciclos — era demasiado complicada para ser verdadeira. Suas dúvidas e criticas provavelmente influenciaram os pensamentos de seu jovem aluno, Copérnico, que as conservou na mente muito depois de regressar à sua terra natal para assumir um canonicato na Catedral de Frauenburg, Polônia.

Colocando a Terra em seu Lugar
Lá pelo ano 1512, Copérnico escreveu um sumário de suas idéias no Commentariolus (pequenos comentários) que enviou a alguns amigos e astrônomos. Nele, estabeleceu sete princípios que constituem a base de sua teoria sobre o universo:

1. Não há um único centro para todos os corpos celestiais.
2. O centro da Terra é somente o centro de gravidade e da órbita da Lua.
3. Todos os planetas circulam em torno do Sol.
4. A distância da Terra ao Sol é desprezível, comparada com a distância para as estrelas.
5. As estrelas são fixas e parecem deslocar-se no céu porque a Terra gira diariamente em torno  do seu eixo.
6. O Sol é estacionário, e seu deslocamento aparente é causado por uma rotação da Terra.
7. Os deslocamentos para frente e para trás dos planetas são causados pelo deslocamento da Terra em sua órbita em torno do Sol.

Copérnico havia rejeitado o sistema ptolemaico devido à sua complexidade. Ele colocava a Terra no centro do universo, com o Sol deslocando-se em torno dela, em uma órbita circular. Para além do Sol, havia três órbitas adicionais, nas quais nada se movia além de planetas fictícios. Os planetas verdadeiros — Marte, Júpiter e Saturno — deslocavam-se em torno desses planetas fictícios em pequenos círculos e “epiciclos”. Isto já era bastante artificial, mas o sistema de Ptolomeu teve de ser emendado várias vezes nos séculos que se sucederam, à medida que os movimentos planetários vinham a ser conhecidos com mais precisão. Na época de Copérnico, o sistema mundial de Ptolomeu requeria cerca de oitenta círculos para explicar os movimentos planetários observados. Não obstante, o sistema funcionava perfeitamente bem, e Copérnico compreendeu que ninguém aceitaria sua nova teoria até que pudesse ser usada para predizer os movimentos planetários com igual precisão. Esta fase de sua tarefa consumiu anos de trabalho, a maior parte do qual foi desperdiçada.

Sabemos agora que a Terra e os planetas se deslocam em torno do Sol em curvas ligeiramente ovais ou, para sermos precisos, em elipses. Essas elipses são quase circulares, mas não precisamente.

Observando da Estrela do Norte, veríamos a Terra e os outros planetas deslocarem-se, na direção contrária à dos ponteiros do relógio, em torno do Sol. Mercúrio, o planeta que fica mais perto do Sol, se deslocaria muito rapidamente, levando menos de três meses terrestres para fazer uma revolução completa. Os outros planetas, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno Urano e Netuno, teriam velocidades progressivamente mais lentas, de acordo com a distância de cada planeta ao Sol. Plutão, o planeta mais afastado, seria visto deslocando-se mais lentamente que todos, levando cerca de 250 anos terrestres para completar sua órbita. Todas as órbitas planetárias ficariam aproximadamente no mesmo plano, e uma observação cuidadosa as apresentaria como ligeiramente elípticas. Mas Copérnico estava tão convencido de que os círculos de Aristóteles eram “naturais” e “inevitáveis”, que achou impossível conceber um movimento não circular para os planetas. Acrescentou epiciclos ao seu sistema, juntamente com outras complicações tomadas de empréstimo ao antigo sistema ptolemáico. Tentou, em resumo, chegar a um melhor acordo com as medidas, utilizando as mesmas velhas técnicas que tinha condenado no sistema anterior. Quando seu novo sistema mundial foi publicado em De revolutionibus orbium coelestium (“Da Revolução das órbitas Celestiais”) em 1543, continha trinta e quatro círculos — um pouco menos da metade do número necessário ao sistema ptolemáico. A complexidade tinha sido reduzida, mas não eliminada.

A Insignificante Terra
Copérnico prosseguiu respondendo às objeções que tinham sido levantadas contra o conceito da Terra móvel durante dois mil anos. Uma delas era o terrível vento que estaria sempre soprando de oeste para leste. Copérnico meramente explicou que o ar se movia juntamente com a Terra. Outra objeção era que uma rotação tão rápida faria todas as coisas voarem pelos ares. Copérnico replicou que a Terra em movimento era o menor de dois males. Se a “esfera de estrelas fixas” tivesse que girar 360o em um dia, teria que deslocar-se muito mais rapidamente que a Terra, devido ao seu diâmetro muitíssimo maior. Assim sendo, seria ainda mais provável que voasse em pedaços. Finalmente, os pitagorianos argüiram que qualquer movimento da Terra em uma órbita resultaria em um movimento aparente das estrelas — de modo muito semelhante àquele em que uma criança em um carrossel vê os objetos próximos deslocando-se da esquerda para a direita contra o fundo dos objetos distantes. Mas em deslocamento de tal natureza não fora observado. As estrelas permaneciam fixas no céu, e as constelações não mudavam sua forma. A esta objeção, Copérnico respondeu que as estrelas estão tão distantes que o diminuto movimento da Terra em sua órbita não faz nenhuma diferença real. “A Terra e sua órbita estão na mesma proporção para o tamanho do universo que um ponto está para um torrão de terra...“ Em resumo, vivemos em uma pequena mancha de poeira.

O homem, que sempre se tinha considerado como rei da criação, viu-se subitamente vivendo em um planeta secundário, que revolvia em torno de um sol muitíssimo maior. Uma idéia tão revolucionária devia ter provocado uma grande agitação nas mentes dos homens de pensamento. Bastante estranhamente, não causou quase nenhuma. O sistema mundial de Copérnico foi considerado essencialmente como um método inteligente de reduzir oitenta círculos a trinta e quatro. Não obstante, a pouca atenção que se deu a ele durante a geração seguinte foi, de modo geral, amistosa. Embora os luteranos, a partir de Lutero, tivessem detestado o livro desde o princípio, a maior parte da cristandade tinha-se conservado em atitude reservada, pelo menos. É até mesmo possível que a cristandade tivesse absorvido eventualmente o conceito da Terra em movimento de Copérnico, exatamente como tinha aceito anteriormente a Terra esférica de Aristóteles. Mas não devia ser assim tão simples. Um monge renegado de nome Giordano Bruno (1574-1600) abriu os olhos da Igreja para as perigosas implicações da teoria de Copérnico, e um Galileu desprovido de tato fechou a questão completamente.

Tycho Brahe
O dinamarquês Tycho Brahe (1545-1601) nasceu exatamente três anos após a morte de Copérnico. Enquanto Copérnico foi um teórico competente, Tycho Brahe foi um observador astronômico extremamente competente e preciso, talvez o maior de todos os tempos. Ele ganhou de Frederico II da Dinamarca um observatório localizado em uma ilha, Uraniborg, e equipou-o com instrumentos aperfeiçoados pelas melhores técnicas do tempo. Durante 10 anos em Uraniborg, e mais tarde em Praga —onde ganhou a companhia de Kepler, reuniu as medidas astronômicas mais extensas e precisas que jamais tinham sido conseguidas. Suas observações sobre os planetas foram as mais importantes de todas, devido ao papel que desempenharam mais tarde nas mãos de Kepler. Mas antes que Kepler tivesse tempo para completar seu trabalho, Bruno conseguiu lançar a opinião religiosa contra o Sistema Mundial de Copérnico.

O Universo Infinito
Giordano Bruno nasceu perto de Nápoles, Itália, em 1547, tornando-se religioso dominicano na idade de 15 anos. Era agressivo, independente e intolerante, e causa de muitos aborrecimentos para seus superiores. Sob suspeita de heresia, deixou a Itália e passou a ensinar em diversas Universidades da França, Alemanha, Suíça, e finalmente, em Londres, em 1583. Ali publicou três livretos, um dos quais — Dell'infinito Universo e Mondí (“Do Universo Infinito e dos Mundos”) causou todo o problema. Segundo sua crença, que Deus é infinito em todos os sentidos, Bruno sentiu que não devia haver nada que fosse finito em seu universo. Escreveu ele que “há uma interminável quantidade de mundos particulares, semelhantes a esta terra; como os pitagorianos, considero-a como uma estrela, e semelhantes a ela são a Lua, os planetas e as outras estrelas, cujo número é infinito, e todos esses corpos são mundos”. Explicou também que cada mundo tem seu próprio sol, em torno do qual gira. Expandindo as idéias de Copérnico, Bruno não somente tirou a Terra do centro do universo, como também o Sol, porque como o universo é infinito, nenhum corpo pode ser considerado apropriadamente como localizado em seu centro ou em sua periferia”. Todos os planetas que circulavam em torno de todos os sóis eram igualmente importantes aos olhos de Deus, e algumas vezes ele pensava que eles eram o próprio Deus.

A Igreja não tinha demonstrado nenhuma desaprovação efetiva às idéias de Copérnico, mas as teorias de Bruno eram demasiado revolucionárias para não serem levadas em consideração. O paraíso tinha sido colocado além da esfera que mantinha as estrelas fixas. O novo universo de Bruno era de dimensões infinitas, e não deixava lugar para o paraíso. Mais ainda, Bruno pregava que Deus tinha um número infinito de mundos para cuidar, ressaltando assim a insignificância da Terra. Tudo isto estava em antagonismo demasiado frontal às doutrinas estabelecidas da Igreja, para que se pudesse deixar passar em silêncio.

Em 1593 Bruno cometeu o erro fantástico de regressar à Itália. Sua presença foi logo descoberta pela Inquisição — um tribunal religioso que tinha jurisdição sobre assuntos eclesiásticos — e ele foi preso. Após sete anos de prisão, foi julgado por uma série de acusações e considerado culpado. A sentença foi a punição “com toda clemência possível, e sem derramamento de sangue”. Estas palavras suaves significaram, na prática, que Bruno foi queimado vivo em uma fogueira.

E importante lembrar que as opiniões de Bruno não se baseavam na observação. Sua contribuição foi de natureza filosófica, e não um sistema científico. Não obstante, algumas de suas idéias persistiram após sua morte e eventualmente encontraram compreensão em tempos mais racionais.

As três Leis de Kepler simplificam a Astronomia
Johann Kepler foi o primeiro cientista a utilizar métodos matemáticos para descobrir as leis do movimento planetário. Acreditava firmemente em Copérnico e passou grande parte de sua vida procurando uma lei simples que explicasse os movimentos do sistema solar. Por volta de 1618, utilizando as observações astronômicas precisas de Tycho Brahe, tinha publicado as três leis que se tornaram os princípios orientadores da moderna astronomia:

1. Os planetas revolvem em torno do Sol em elipses, sendo o Sol um dos focos da elipse.
2. Cada planeta desloca-se com uma velocidade variável de tal maneira que uma linha que ligasse o planeta ao Sol varreria áreas iguais em iguais períodos de tempo.
3. O quadrado do período de revolução de cada planeta em torno do Sol é proporcional ao cubo de sua distância do Sol.

A primeira lei pode ser 'explicada' com o auxílio da ilustração:

Para traçar uma elipse, começamos enfiando dois pregos em um pedaço de papel nos pontos A e B. Uma volta de cordão é então colocada envolvendo os pregos, conforme mostrado. Se passarmos um lápis em torno dos pregos, mantendo o cordão esticado, a linha traçada será uma elipse perfeita. Os pontos A e B são chamados de focos da elipse. A propósito, um circulo é meramente uma elipse especial, na qual A e B estão no mesmo ponto. Conquanto as órbitas planetárias sejam realmente elipses,  seus focos estão extremamente próximos, o que ajuda a explicar porque as órbitas foram consideradas circulares durante tanto tempo.

A segunda lei de Kepler explica certas modificações periódicas percebidas nas velocidades dos planetas. Uma órbita elíptica é mostrada na ilustração acima, com sua 'elipticidade' grandemente exagerada, para maior clareza. Quando o planeta está no ponto de sua órbita distante do Sol, ele varre uma área ABS em um dado período de tempo. Quando está perto do Sol, entretanto, deve deslocar-se mais rapidamente pelo mesmo período de tempo, de maneira que a área CDS seja igual à área ABS. Como a distância de C para D é maior, o planeta deve aumentar sua velocidade ao aproximar-se do Sol.

A terceira lei revela-nos os tempos relativos requeridos pelos planetas para completar uma revolução em torno do Sol. Se um planeta X estiver quatro vezes mais distante do Sol do que um planeta Y, então o ano de X será oito vezes mais longo que o ano de Y. Tomemos um exemplo real: Júpiter está 5,2 vezes mais distante do Sol do que a Terra. A relação de suas distância solares é  5,2/1, ou 5,2. O cubo desta relação é 5,2 x 5,2 x 5,2 ou 140,6. Mas este produto é igual ao quadrado da relação do período de revolução de Júpiter (seu ano) e do período de revolução da Terra. A raiz quadrada de 140,6 é 11,9, que nos diz que o ano de Júpiter é cerca de 12 vezes mais longo que o ano da Terra.

As três leis de Kepler foram confirmadas por incontáveis observações. Sabemos agora que não são absolutamente exatas, mas são quase tão perfeitas que nem o mínimo erro foi encontrado nelas por mais de duzentos anos. Os oitenta círculos de Ptolomeu, que Copérnico havia reduzido para trinta e quatro, tinham sido agora substituídos por sete elipses. A exigência pitagoriana de simplicidade e elegância matemáticas tinha finalmente sido satisfeita.

Galileu e a Inquisição
A despeito da precisão e da simplicidade das leis de Kepler, a noção de uma Terra em movimento ainda devia receber outro golpe. Logo que Galileu fabricou seu primeiro telescópio em 1609, apontou-o para o céu e começou a fazer descoberta após descoberta, com incrível rapidez. Virando-o para a Lua, encontrou montanhas e outras irregularidades, mostrando que era um mundo semelhante à Terra. Em seguida, dirigiu seu telescópio para as constelações e descobriu “uma multidão de outras estrelas, tão numerosas que era quase inacreditável”. Bruno tivera razão, afinal de contas. “A galáxia é... u’a massa de inumeráveis estrelas, plantadas juntas em enormes aglomerados.” Também Copérnico estivera provavelmente certo, porque Júpiter e suas luas formavam um sistema solar em miniatura, traçado de acordo com suas idéias. Observando Vênus, Galileu viu que ele passa por fases exatamente como as da Lua, o que era uma confirmação direta da teoria de Copérnico. 

O sistema ptolemaico requeria que Vênus nunca mostrasse mais do que um semicírculo de superfície iluminada voltado na direção da Terra. O sistema de Copérnico previa exatamente a seqüência de fases que Galileu havia visto. Esta única descoberta provou que Copérnico tivera razão, para todos que acreditavam na evidência de seus olhos. Aproximadamente ao mesmo tempo, Galileu descobriu os anéis de Saturno, mas interpretou-os incorretamente como “três esferas que quase se tocam”. Descobriu também pontos negros que se moviam na superfície do Sol, embora outros igualmente os percebessem mais ou menos ao mesmo tempo. Essas manchas do Sol provam que ele gira em torno de seu eixo, e seu período de rotação pode ser determinado pelo deslocamento das manchas.

Infelizmente, Galileu veio a envolver-se em uma controvérsia com um jesuíta rival, chamado Christopher Scheiner, que proclamou ser o primeiro descobridor das manchas do Sol. A controvérsia logo se ampliou para muito além de seu tópico original, incluindo a questão da habitabilidade da Lua e dos planetas. Galileu não fez segredo do fato de que acreditava firmemente na opinião de Copérnico. Isto, segundo salientaram seus críticos, mostrava que ele acreditava na existência de outros mundos habitáveis. Tal doutrina, que havia sido pregada pelo herético Bruno, era contrária aos ensinamentos aristotélicos e cristãos.

Galileu viu-se agora enfrentado por uma variedade de poderosos interesses. Os aristotelianos havia muito irritavam-se contra ele, e estavam agora acompanhados pelos poderosos jesuítas. Além deles, a maioria dos homens pios da igreja sentiam-se indignados pelo pensamento de que outros mundos poderiam compartilhar os favores do Criador. 

Par trás de toda essa oposição estava o grande medo não expresso do universo infinito de Bruno, sem deixar lugar para um paraíso cristão. Em 1616, a Inquisição entrou na disputa, e Galileu foi advertido “para abandonar essas opiniões e abster-se igualmente de ensinar, defender ou mesmo discuti-las”. Pouco depois, o trabalho de Copérnico foi colocado no Index dos livros proibidos e retirado de circulação, até que fosse “corrigido”. A Terra em movimento podia ser discutida apenas como uma “hipótese” conveniente, mas não como uma verdade absoluta. 
Em contra-partida, diziam outros: "Inquisitores não usam telescópios".

Ciência e Medida
Depois de um período de trégua com a Inquisição, Galileu publicou Il Saggiatore (“O Ensaiador”) em 1624 — um trabalho que contém uma idéia de grande importância para a ciência moderna. Nele, Galileu distingue duas espécies de qualidades de um objeto: as que podem ser descritas numericamente, e as que não o podem. A velocidade e a posição de um objeto, por exemplo, são qualidades primárias, porque podemos medi-las. As qualidades secundárias, como o odor ou a beleza, existem apenas na mente do observador, e não podem ser medidas. A distinção pode parecer óbvia no século vinte e um, mas Galileu estava escrevendo para pessoas que se recusavam a olhar pelo seu telescópio, em homenagem a Aristóteles. Galileu foi uma máquina motriz da crença moderna de que Ciência é medida.

O Diálogo
Enquanto Galileu trabalhava no 'O Ensaiador' e outros assuntos não controvertidos, tentou repetidamente e em vão, convencer o novo Papa, Urbano VII, a remover a proibição de discutir a teoria de Copérnico. Afinal, sua impaciência estimulou o que tinha de melhor. Pensou ter achado um meio de satisfazer as objeções do Papa, expondo suas idéias na forma de uma discussão entre três homens. O primeiro representaria os velhos argumentos de Aristóteles e da Igreja; o segundo seria um copernicano, e o outro seria uma terceira parte imparcial. Sua grande habilidade como escritor transformou imediatamente o livro em best seller, e sua lógica demoliu completamente as idéias de movimento e a astronomia de Aristóteles. O livro apareceu em 1632 com o título Dialogo sopra i due massimi systemi dei mondo (“Diálogo sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo”). Logo a seguir, o raio se abateu sobre ele.

Embora o livro alegasse submeter-se à autoridade teológica, a intenção de desafio mostrava-se demasiado evidente. O personagem que representava o anti-Copérnico foi apresentado como irremediavelmente estúpido e ignorante, incapaz de compreender os argumentos mais lógicos. Pior ainda, Galileu tinha prometido incluir certos argumentos aristotelianos que seriam fornecidos pelo Papa, mas colocou-os na boca do ridículo personagem anti-Copérnico. O jesuíta Scheiner, observador das manchas do Sol, que se tinha tornado o arquiinimigo de Galileu, usou o livro para fazer o mal. Afirmou que o semi-imbecil estúpido do livro era realmente uma tentativa de retrato a bico de pena de Sua Santidade, o Papa.

Naturalmente, Galileu logo se viu de novo em dificuldades com a Inquisição. Seu livro foi proibido, e ele foi julgado em 1633, considerado culpado e compelido a renegar todas as doutrinas de Copérnico. Galileu passou preso o resto de sua vida, em Arcetri, perto de Florença. Um homem de menor envergadura poderia ter passado o resto de seus dias na quietude e no conforto — recordando as glórias passadas e o cruel tratamento recebido da Igreja, mas não Galileu. 

Como sabemos, o último e o maior de seus livros, Discursos sobre Duas Novas Ciências, foi publicado na Holanda em 1638. Naquela época, ele já tinha setenta e cinco anos e estava totalmente cego. A 8 de janeiro de 1642, ele morreu em Arcetri.

Após a morte de Galileu, apareceram muitos escritos pró e contra o banido sistema de Copérnico, mas a oposição entre os cientistas se enfraqueceu visivelmente. A proibição eclesiástica podia dificultar o progresso da Ciência, mas não podia detê-lo inteiramente. Apenas tornou difícil para os cientistas católicos intercambiar ou publicar novas idéias. Entretanto, eles conseguiram lograr a vontade do Santo Ofício, tratando os novos conhecimentos científicos como meras “hipóteses”. Por volta do século dezoito, cessou toda oposição importante, e as novas idéias tornaram-se geralmente conhecidas de todas as pessoas inteligentes. Entretanto, não foi senão em 1835 que os trabalhos de Copérnico, Kepler e Galileu foram retirados do Index dos livros proibidos. Tinham sido necessários dois séculos para que a verdade vencesse a obstinação e a ignorância. A tentativa de certos homens da Igreja para usar sua grande autoridade com o fim de impedir o progresso da Ciência tinha sido inteiramente derrotada. O esquema principal do universo era agora um livro aberto, e a vitória final ficava postumamente com Copérnico, Bruno, Galileu e Kepler.

 


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